Buceta

17–04–2009

por Luiz Biajoni * – A viagem tinha sido programada há cerca de dois meses. A idéia dele era passar dez dias em companhia da mulher e da filha e então, depois, na volta, comunicar Cristina sobre sua decisão de separação. Marcinha iria sentir muito, Cristina ia fazer-lhe mil perguntas, o céu desabaria. Mas a decisão estava tomada. Um apartamento para sua nova vida já havia sido alugado e mobiliado. Esses dez dias seriam uma espécie de despedida. Seriam as lembranças que Marcinha guardaria, na memória, da infância feliz compartilhada com os pais. Mais

per augusto & machina

10–01–2009

por Romério Rômulo

1.
de quantas nuvens se faz uma loucura?
é construída a mão que bate o prego?
as estações do corpo só revelam
o hábito eloqüente do delírio.
que nos corroa a pedra, o visgo louco
da agonia!
desmonte do tamanho, o extirpado dente,
gengiva em sangue são a mesma face
do hábito terrível de ser homem. 
quanta eloqüência travada no meu olho! 
(uma bravura regenera a noite)

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O Malabarista

24–12–2008

por Denny Yang * – Eu sou órfão, desde sempre, mas antes de mais nada, e sobretudo, me considero o Malabarista.

Quando criança, fui adotado por um casal que, de tempos em tempos, e itinerantemente, apresentava-se num circo. De todas as figuras do circo, a que eu mais me identificava era a do Malabarista. E, depois de tantos anos, dou graças de ter sido abençoado com essa dádiva de ter me tornado um Malabarista de verdade. Mais

Sinos e trombetas*

12–12–2008

por Eustáquio Gomes – Para a idade que tinha, 75 anos, Tancredo Neves movia-se com surpreendente agilidade no solar colonial onde nasceu, em São João Del Rei. Mesmo agora que estava prestes a ser eleito presidente da República, ainda passava alguns fins de semana lá. Não podia nem de longe imaginar que em menos de quatro meses estaria morto.

Ele veio nos receber à porta da rua, guiando-nos com segurança por entre os móveis antigos e as imagens sacras que atulhavam a sala e os outros cômodos do sobrado. Ele era um homem consistente e de zigomas rijos, apesar do nariz deformado pelo septo e do crânio achatado e quase inteiramente calvo, que nos últimos anos ganhara aquela conformação amolecida da velhice que tanto se assemelha à da infância. Mas, como se sabe, ele não morreria da ossatura nem do colapso das artérias, mas do divertículo de Meckel. Mais

Maurício*

17–09–2008

[foto: Carlos Fajardo]por Marco Lacerda – No final dos anos 70 a sociedade brasileira começava a se articular pelo fim do regime militar. Um dos primeiros sinais do avanço foi o surgimento do Partido dos Trabalhadores, cujas atividades se concentravam no ABC paulista. O PT entrava em cena a partir da necessidade sentida por milhões de brasileiros de intervir na vida social e política do país, para transformá-la. Aproximava-se o fim da ditadura.

Durante uma curta temporada no Brasil, vindo de San Francisco, onde morava, participei de uma manifestação do PT em São Bernardo do Campo, onde conheci Maurício, um militante da ala jovem do partido, a Libelu (Liberdade e Luta), uma ruidosa facção ligada ao movimento estudantil. Mais