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	<title>Amálgama &#187; Literatura</title>
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	<description>Revista digital de atualidade e cultura</description>
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		<title>Yu Hua, o Graciliano deles (por aí)</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 16:25:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Lopes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura chinesa contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[Yu Hua]]></category>

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		<description><![CDATA[Apesar da tragédia social, continua havendo humor nas páginas do autor chinês]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8346" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920005" target="_blank"><img class="size-full wp-image-8346 " title="Crônica de um vendedor de sangue" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/cronicadeumvendedor.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Crônica de um vendedor de sangue&quot;, de Yu Hua</p></div>
<p>Ler este romance é estar sempre consciente da máxima tolstoiana sobre famílias felizes e famílias infelizes. E mais. É imaginar que, se o encontro literário entre famílias felizes é quase sempre causa de ataques de sono, o encontro entre famílias infelizes é o exato oposto. Não menos porque, isso mesmo, cada encontro entre duas famílias infelizes é trágico à sua maneira.</p>
<p>A ambientação ajuda bastante: estamos na China maoista. Os efeitos de algumas das mais insanas políticas econômicas e culturais da história da espécie vão em breve entrar nos lares de <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920005" target="_blank">Crônica de um vendedor de sangue</a></em>. Mas, como se isso não fosse desgraça suficiente, os personagens de Yu Hua ainda vão se impor misérias. Nós temos três personagens centrais. O operário e patriarca Xu Sanguan é o doador do título. Xu Yulan é sua esposa, que, quando não está tendo um ataque de nervos, está à beira de ter um. Juntos, eles tiveram três filhos homens – por ordem de nascença: Yile, Erle, Sanle.</p>
<p>Mas&#8230; não. Não é tão simples assim. Antes de casar com Sanguan, Yulan literalmente levou uns amassos de He Xiaoyong, com quem ia se casar, não tivesse Sanguan se engraçado dela e abordado o futuro sogro com uma proposta melhor que a de Xiaoyong. Sanguan era um sujeito de mais posses. Sobrou para Xiaoyong uma mulher franzina, com a qual teve duas filhas. Entretanto, ao nascer o primogênito de Sanguan, este acha o moleque nada parecido consigo mesmo. A cena em que ele alinha os três meninos para examinar-lhes as feições e comparar com a sua própria refletida num espelho é inesquecível. Não sem um bocado de má vontade para com a mulher, Sanguan conclui que Yile é filho de Xiaoyong com Yulan. O que Xiaoyong não aceita. O menino será então empurrado de uma casa para outra, até que de alguma forma se acomoda na casa de Sanguan, mas nem sempre tratado em pé de igualdade com os outros dois irmãos, ou meio irmãos, se a teoria de Sanguan estiver correta.</p>
<p>Então temos aí os três personagens principais: Sanguan, Yulan e o desprezado Yile. E temos as duas famílias cheias de intriga e que chegam a interagir na base dos tabefes. Sanguan diz aos meninos como quer que imprimam sofrimento ao patriarca rival: “Vocês sabem quem são as filhas de He Xiaoyong, não sabem? Sabem. Sabem o nome delas? Não? Não importa, desde que as reconheçam. Lembrem-se: quando vocês forem grandes, quero que violentem as filhas de He Xiaoyong por mim.” Isso não ocorre, mas talvez apenas porque a narrativa não se estende o suficiente.</p>
<p>Xu Sanguan negocia seu sangue pela primeira vez no embalo da venda de dois amigos a quem fazia companhia. Não havia necessidade extrema para tanto. Nem em uma vez seguinte, para falar a verdade – com o dinheiro arrecadado na oportunidade, ele compra alguns quilos de alimento para uma amiga de trabalho (casada), a qual por sua vez amassará. Em breve ele terá que vender sangue ao diretor do hospital local, um membro do PCC, por um motivo menos divertido que presentear uma amante em potencial: ter o suficiente para que a família não morra de fome. Como isso ocorrerá em pleno período da Grande Fome, é muito difícil o leitor apostar que ele terá sucesso na batalha, por mais sangue que venda.</p>
<div id="attachment_8347" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-8347" title="Yu Hua" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/yu-hua.jpg" alt="" width="300" height="297" /><p class="wp-caption-text">- O autor -</p></div>
<p>A Fome irrompe nas páginas do realista Yu Hua como irromperia uma nevasca ou um terremoto. Começa o capítulo 18: “Xu Sanguan disse a Xu Yulan: &#8216;Estamos em 1958. (…) Daqui em diante, parece, ninguém mais vai ser dono de sua própria terra. Todas as terras pertencem ao Estado. Quem quiser plantar vai ter de alugar a terra deles, e quando chegar a colheita também será obrigado a dar parte do cereal ao Estado.&#8217;” O capítulo 19 é dedicado à festa de aniversário de Sanguan, que diz aos filhos: “O que eu pergunto é: o que vocês querem comer de verdade? Como é meu aniversário, vou preparar com a minha boca uma refeição para cada um, e vocês vão comer com os ouvidos. Não vão poder comer com a boca porque não existe nada para comer, mas apurem os ouvidos, porque a qualquer momento vou começar a cozinha. Cada um pode pedir qualquer coisa.” No capítulo 20, Sanguan está exaurido demais até para jogos de imaginação: “Dizem que quem passa fome deve completar a alimentação com sono. Eu vou dormir.” O livro tem 29 capítulos. No capítulo 25, irrompe a Revolução Cultural.</p>
<p>Enquanto houver comida para render-lhes energia para brigar e enquanto nenhuma tragédia familiar lhes roubar a atenção, Sanguan, Xiaoyong e as respectivas esposas continuarão lavando suas roupas sujas fora de casa. No meio da rua, para toda a cidadezinha tomar conhecimento – “se Xu Yulan passa três dias sem se sentar na soleira da porta e armar um escândalo”, diz o narrador, “ela começa a se sentir desconfortável, como se estivesse com prisão de ventre há uma semana.”</p>
<p>Apesar da tragédia social que se aproxima, e mesmo quando ela já está em cena, continua havendo humor em Yu Hua. Uma lembrança forte é Graciliano Ramos. O menino Yile pode ser apenas miséria ambulante, em sua condição de possível bastardo e futuro membro de um campo de reeducação, mas os adultos à sua volta, principalmente Sanguan, possuem tanta rabugice que chega a ser engraçado. O Paulo Honório de <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501066656" target="_blank">S. Bernardo</a></em>, também envolto em tragédias, também hilário em seu comportamento, se me apresentou em vários momentos para fazer companhia a Xu Sanguan. E se isso não bastar para que você leia Yu Hua, paciência.</p>
<p>::: <strong><em>Crônica de um vendedor de sangue</em></strong> ::: <strong>Yu Hua</strong> (trad. Donaldson M. Garschagen) :::<br />
::: <strong>Companhia das Letras</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>272 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920005" target="_blank">compre na Livraria Cultura</a> :::</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/cronica-de-um-vendedor-de-sangue-yu-hua/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Que venha o próximo livro de Cristovão Tezza</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/02/2012/beatriz-cristovao-tezza/</link>
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		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 16:15:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Lopes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Cristovão Tezza]]></category>
		<category><![CDATA[literatura brasileira contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[literatura paranaense]]></category>

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		<description><![CDATA[Os contos de "Beatriz" não possuem a mesma qualidade do livro anterior de Tezza]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_7912" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501094226" target="_blank"><img class="size-full wp-image-7912 " title="Beatriz" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2011/12/beatriz.jpg" alt="" width="200" height="307" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Beatriz&quot;, de Cristovão Tezza</p></div>
<p>Dos sete contos desse volume, cinco focam em Beatriz, dois focam em Paulo Donetti. No livro anterior de Tezza, o romance <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501088447" target="_blank">Um erro emocional</a> </em>(2010), nós <a title="resenha de &quot;Um Erro Emocional&quot; no Amálgama" href="http://www.amalgama.blog.br/11/2010/solidao-a-dois/" target="_blank">flagramos</a> estes dois personagens em uma noite no apartamento de Beatriz, em Curitiba. Ele é um escritor que mora em São Paulo. Ela é uma revisora de textos. Antes de Tezza escrever <em>Um erro emocional</em>, ele escrevera seis dos contos agora reunidos em <em>Beatriz</em>, nos quais esta personagem aparecia com o nome de Alice. O sétimo conto, maior, “O homem tatuado”, veio depois do <em>Erro</em>. Ele e “Amor e conveniência” são os únicos inéditos. Os outros já haviam sido publicados em veículos como as revistas <em>Bravo!</em> e <em>Arte e Letra</em>. Nenhum dos sete contos deixará (ou deixou) boas lembranças no leitor de Tezza.</p>
<p>Claro, há momentos engraçadinhos nos contos. E ao longo deles, quem, como eu, gostou <em>Um erro emocional</em>, encontrará e organizará outras peças do interessante quebra-cabeça que é Beatriz. Em “Aula de reforço”, onde a personagem de “28 anos incompletos” vai ao apartamento de uma senhora que precisa contratar seus serviços em prol do sobrinho, lemos de passagem que a tímida moça terá que, na volta, passar na farmácia, pois está deprimida. Sabíamos, de <em>Um erro emocional</em>, da timidez, mas não tínhamos a referência fármaca. (E nem imagino que algum leitor do Tezza tenha iniciado o romance de 2010 com aquela Alice dos contos em mente.) Ainda no mesmo conto, lemos casualmente do “aborto que [Beatriz] fez, sete meses depois de casada”.</p>
<p>Seu casamento foi com Augusto, um colega de faculdade, mas “não durou muito”, lemos em outro conto. Após esse “desastre conjugal”, conta uma estória anterior, ela hoje mora sozinha. No último conto, “O homem tatuado”, reencontramos a Beatriz fã de literatura de <em>Um erro emocional</em>. O tatuado em questão é o funcionário de um sebo curitibano – filho do dono, mais precisamente –, em que Beatriz entra atrás, entre outros volumes, das memórias de Joaquim Nabuco. Esse conto se desenrola dois anos após o fim de noite com Paulo Donetti do livro anterior.</p>
<p>Então, não é verdade que não existe nada de aproveitável nesses contos. Mas, ao contrário do que escreve Tezza em sua introdução, sem <em>Um erro emocional</em> em mente, eles não valem muita coisa – como eu suspeito ter sido a opinião de vários leitores ao toparem pela primeira vez com esses contos à medida que eles saíam em revistas e coletâneas. A exceção, penso, é “Um dia ruim”, com seu quê de terror conduzido por um texto firme. (Esse foi o único que eu havia lido antes, numa <em>Arte e Letra</em> de 2008.) E, talvez, o primeiro, “Beatriz e o escritor”. Neste, Paulo Donetti, que é o narrador, está em Curitiba para participar de mesa-redonda com um romancista local. Foi à capital paranaense a convite do amigo e também escritor Cássio. Como a mesa estava um porre, Paulo simula mal-estar, foge e vai encontrar Cássio num restaurante, onde ele, recém separado, está em companhia de uma nova mulher, que vem a ser a bela Beatriz. Paulo se encanta com a moça. Foi a primeira vez que Beatriz apareceu na obra de Tezza, e até agora não o largou.</p>
<p>Fora isso, os contos não possuem muito valor intrínseco. O que de interessante discute-se neles? Pouca coisa. Notavelmente, os labirintos de um “escritor itinerante”, aborrecido com leitores que não mantêm a distância devida. Também deve-se observar a batalha de Tezza contra o lugar comum, que redunda não apenas na pouca presença dos clichês em seu texto como também na consciência e divertimento de seus personagens ao se depararem com um.</p>
<p>Por outro lado, os textos de <em>Beatriz</em> são ruins de outra forma. Pelo próprio registro de Tezza, “Beatriz e o escritor” marca uma guinada em sua escrita para “aquela sintaxe tateante que vinha tentando aprimorar desde <em>O fotógrafo</em> [2004]”. Bem, tateamento por tateamento, eu fico com <em>Um erro emocional</em> e dispenso <em>Beatriz</em>. Se esses contos tivessem sido reescritos, o livro teria saído melhor. O jorro de diálogos, pensamentos e ações em grandes parágrafos funciona no <em>Erro emocional</em>, mas deixa a desejar mesmo nos menores parágrafos de <em>Beatriz</em>. Num momento, pensamentos estão em itálico e falas, sem qualquer marcação; no momento seguinte, são as falas que estão em itálico, com apenas a descrição de ações sem marcação; e, quando você menos percebe, voltam os pensamentos para itálico – para, na frase seguinte, o perderem de novo. Veja como exemplo a página 81. Isso chama-se desorganização, não organização, de texto.</p>
<p>Em outra frente, quando você topa com o termo “iniludivelmente” na página 66 (“iniludivelmente feliz”), apenas oito páginas após ter lido, no mesmo conto, “iniludivelmente autoritário”, é iniludivelmente instintivo riscar um dos dois com a caneta.</p>
<p>De modo que eu sugeriria que você segure seu dinheiro para o próximo romance do Tezza.</p>
<p>::: <strong><em>Beatriz</em></strong> ::: <strong>Cristovão Tezza</strong> :::<br />
::: <strong>Record</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>144 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501094226" target="_blank">compre na Livraria Cultura</a> :::</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/beatriz-cristovao-tezza/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>20 mil léguas de aventura</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/01/2012/20-mil-leguas-de-aventura/</link>
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		<pubDate>Thu, 19 Jan 2012 15:35:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Orsi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[ficção científica]]></category>
		<category><![CDATA[H. G. Wells]]></category>
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		<description><![CDATA[A edição "definitiva" do livro de Verne não é para jovens, mas para velhos amantes da literatura]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_7943" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8537807303" target="_blank"><img class="size-full wp-image-7943 " title="20 Mil Léguas Submarinas" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/vintemilleguas.jpg" alt="" width="200" height="291" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;20 mil léguas submarinas&quot; (comentada e ilustrada), de Jules Verne</p></div>
<p>Antes de a ciência médica aparecer com os exames de DNA e os procedimentos de barriga de aluguel, alguns piadistas misóginos costumavam dizer que a identidade da mãe é sempre uma certeza; já a do pai jamais passa de mera conjectura. A ficção científica, como forma literária, se encaixa bem nesse antigo aforismo da cafajestagem: a mãe é obviamente Mary Shelley, autora do assombroso <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=0486470539" target="_blank">Frankenstein</a></em>, mas e o pai? Seria o francês Jules Verne ou o britânico H.G. Wells?</p>
<p>Verne certamente começou antes, tendo publicado em 1863 o romance <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8506055008" target="_blank">Cinco Semanas em Balão</a></em>, narrativa em que um grupo de exploradores sobrevoa a África num balão que, para os padrões da época, era quase uma nave espacial. Esse livro veio a público três anos antes de Wells <em>nascer</em>. Os defensores da primazia do britânico (culpado, meritíssimo) geralmente argumentam com base numa certa concepção de ficção científica: enquanto, em Wells, a ciência é um meio para entender e modificar o mundo, em Verne ela é apenas o pretexto da aventura.</p>
<p>Em <em><a title="Resenha no Amálgama" href="http://www.amalgama.blog.br/02/2011/uma-breve-historia-do-mundo-wells/" target="_blank">Guerra dos Mundos</a></em> ou na <em><a title="Resenha no Amálgama" href="http://www.amalgama.blog.br/05/2010/maquinas-do-tempo/" target="_blank">Máquina do Tempo</a></em>, por exemplo, vemos a civilização ocidental soçobrar sob um ataque alienígena, num caso, ou debaixo de pressões econômicas, sociais e biológicas, no outro. Em <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8500816090" target="_blank">Viagem ao Centro da Terra</a></em> ou <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8537807303" target="_blank">20 Mil Léguas Submarinas</a></em>, em comparação, o que temos é a aventura científica servindo como uma espécie de parêntese em meio ao fluxo do status quo, que prossegue inabalado. Nesse aspecto, os livros de Verne lembram muito as histórias de super-heróis dos anos 50 e 60, nas quais nenhuma revelação, fosse a da existência de vida extraterrestre ou do ressurgimento da Atlântida, era capaz de abalar a rotina das donas-de-casa de vestido rodado e de seus maridos de terno marrom, chapéu e gomalina.</p>
<p>Se o título de Verne a pai da ficção científica é contestado, é difícil, no entanto, negar a ele a paternidade de outro gênero popular, o <em>technothriller</em>, onde tramas rocambolescas são desencadeadas por, e giram em torno de, avanços tecnológicos únicos, muitas vezes descritos com um nível obsessivo de detalhe. É difícil imaginar Tom Clancy ou mesmo Michael Crichton sem Verne. E <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=0425240339" target="_blank">Caçada ao Outubro Vermelho</a></em>, o livro mais famoso de Clancy, provavelmente não existiria sem o antecedente de <em>20 Mil Léguas Submarinas</em>.</p>
<p>É deste romance, talvez o mais famoso de Verne, que chega uma “edição definitiva” publicada pela Zahar. Suponho que a maioria dos leitores desta resenha já esteja familiarizada com o enredo geral da obra, mas aqui vai um breve resumo: nos anos finais da década de 1860, o biólogo francês Pierre Aronnax, acompanhado por seu fiel valete Conselho e por Ned Land, um intrépido arpoador de baleias canadense, se vê aprisionado a bordo de um magnífico submarino, o Náutilus, e à mercê de seu comandante, o anti-heroi quase-byroniano Capitão Nemo. Na condição de hóspedes involuntários de Nemo, os três percorrem 20.000 léguas sob as águas do mar, visitando as ruínas da Atlântida, os campos de cultivo de pérolas do Pacífico e a Antártida.</p>
<p>Quem conhece outras “edições definitivas” lançadas pela mesma casa editorial, como <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8537802808" target="_blank">as de Sherlock Holmes</a>, anotadas pelo estudioso Leslie S. Klinger, ou a <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8537801720" target="_blank"><em>Alice</em> de Lewis Carroll</a>, anotada por Martin Gardner, corre o risco de se desapontar: as notas do tradutor André Telles são úteis, interessantes e corretas, mas estão longe de oferecer a exuberância de estilo e erudição desses outros títulos, onde muitas das anotações se desdobram em verdadeiros ensaios históricos e literários.</p>
<p>O papel ensaístico fica por conta da mais que interessante introdução de Rodrigo Lacerda, que contextualiza, para o leitor desavisado, a gênese das <em>Viagens Extraordinárias</em> – série que inclui, além das <em>20 Mil Léguas</em>, outros títulos famosos, como <em>Viagem ao Centro da Terra</em>, por exemplo. Lacerda lembra que as <em>Viagens</em> foram concebidas como folhetins paradidáticos, publicados como uma espécie de suplemento literário de um periódico infanto-juvenil chamado <em>Revista de Educação e Recreação</em>.</p>
<p>Essa concepção, da obra ficcional como uma espécie de “colherada de açúcar” que ajuda o xarope amargo da ciência a descer pela goela dos jovens, é uma que ainda persegue a ficção científica em várias partes do mundo, e segue tendo muita força na mentalidade editorial brasileira. Ela ajuda, também, a entender as principais limitações dos livros de Verne, a saber: o caráter episódico da ação; a natureza caricatural de boa parte dos personagens; e os fantásticos <em>infodumps</em>.</p>
<p>Parte do jargão dos escritores de ficção científica, “<em>infodump</em>” – literalmente, “despejo de informação “ – é o momento em que a ação da narrativa para, a fim de que algum tipo de informação seja transmitida ao leitor. Histórias passadas no futuro têm <em>infodumps</em> sobre os costumes, a moral e a sociedade em que a trama se passa; histórias sobre armas nucleares têm <em>infodumps</em> sobre física atômica; e assim por diante.</p>
<p>Momentos de <em>infodump</em> tendem a ser especialmente desajeitados, e iseri-los no fluxo narrativo sem perder o leitor é um dos grandes desafios técnicos da escrita de ficção científica. No caso das <em>Viagens Extraordinárias</em> de Verne, no entanto, o <em>infodump</em> é a razão de ser do livro: na lógica da <em>Revista de Educação e Recreação</em>, as aventuras do Professor Aronnax e do Capitão Nemo são apenas um pretexto para que os petizes franceses de 1870 aprendam que os peixes podem ser cartilaginosos ou ósseos, que polvos, lulas e calamares são cefalópodes, quais são as principais variedades de vida comestível dos mares do mundo e como preparar uma refeição decente à base de fruta-pão.Entre outras coisas.</p>
<p>Em sua introdução, Lacerda diz que é virtualmente impossível encontrar uma edição brasileira de <em>20 Mil Léguas</em>, anterior à “defintiva” da Zahar, da qual os <em>infodumps</em>, principalmente os extensos parágrafos de descrição taxonômica da vida marinha, não tenham sido extirpados. Ele elogia a arte de Verne na construção dessas passagens (como: “no ramo dos zoófitos e na classe dos alcionários, observa-se a ordem das gorgonáceas&#8230;”), notando que o autor consegue encadear as descrições forma quase poética, e muitas vezes obter belos efeitos literários (“focas de barriga branca e pelagem preta, conhecidas como “monges”, por terem efetivamente o aspecto de dominicanos com três metros de comprimento”.)</p>
<p>Mesmo reconhecendo a importância de uma edição integral do romance em português, no entanto, vejo-me forçado a confessar que os trechos mais explicitamente didáticos quase me fizeram desanimar da leitura.</p>
<p>O verdadeiro gênio de Verne, a meu ver, está na capacidade de criar imagens de pura imaginação, como quando o Náutilus é avistado, pela primeira vez, por Aronnax, que se espanta com a forma como o submarino ilumina a água do mar:</p>
<blockquote><p>O halo de luz descrevia sob o mar um arco amplo e retesado, do qual o centro condensava-se num foco ardente, cujo insustentável brilho apagava-se por gradações sucessivas.</p></blockquote>
<p>Quantas vezes essa mesma cena já não foi vista, em filmes e episódios de TV que tratam misteriosos objetos submarinos? E, no entanto, muito provavelmente surgiu, inédita, da pena do escritor francês. Essa é a verdadeira capacidade de antecipação de Jules Verne. Não “prever” o submarino, mas prever, literariamente, qual o efeito poético que a aparição súbita de um submarino teria sobre o espírito humano.</p>
<p>O poder evocativo do autor ressurge, bem adiante, na descrição de um naufrágio visitado pelo Náutilus, onde Aronnax vê, iluminado pela luz fria do submarino, o cadáver de uma mulher ainda preso ao caso submerso, que “erguera o filho acima da cabeça, pobre criaturinha, cujos braços abraçavam o pescoço da mãe”.</p>
<p>Quanto a personagens, de fato <em>20 Mil Léguas Submarinas</em> só tem dois dignos do nome: o próprio submarino Náutilus e seu capitão, o enigmático Nemo.</p>
<p>Ficamos sabendo, na introdução de Lacerda, que Nemo deveria ser um revolucionário polonês, que perdera a família numa repressão provocada pelo governo russo. Induzido pelo editor a abandonar essa biografia de seu personagem – por questões comerciais e políticas – Verne simplesmente desiste de dar uma vida pregressa a seu enigmático capitão (uma biografia diversa da do rebelde polonês aparece em uma obra posterior, <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8532520146" target="_blank">A Ilha Misteriosa</a></em>).</p>
<p>Mesmo sem uma vida pregressa ou uma motivação clara, no entanto, Nemo – feroz, inteligente, irônico, assombrado, melancólico – é o ser humano mais bem acabado do livro e sua obra, o submarino Náutilus, é uma extensão de sua personalidade.</p>
<p>Dos demais, Aronnax é às vezes um professor arquetípico de Ciências, o mesmo tipo de que Monteiro Lobato viria a troçar, ainda que com afeto e simpatia, na figura do Visconde de Sabugosa; seu criado, Conselho, faz as vezes de aluno, a quem Aronnax faz perguntas cuja resposta já conhece, para edificação do leitor; e o arpoador Ned Land está ali apenas para dar a Conselho um parceiro para cenas cômicas.</p>
<p>Mencionei, também, o caráter episódico da obra. Se alguns desses episódios têm um vibrante poder literário – como o funeral submarino ou a visita à Atlântida – ou são aventuras que nada ficam a dever aos melhores textos do gênero – o combate com a lula gigante logo vem à mente – o fato é que a falta de um desenvolvimento mais notável dos personagens, ou do propósito da viagem do Náutilus, somada às aulas de taxonomia marinha, tornam a leitura, por vezes, penosa.</p>
<p>A edição definitiva de <em>20 Mil Léguas Submarinas</em> não é, hoje, um livro para jovens (a menos que se trate de um jovem candidato a oceanógrafo); também é um livro que poderá desapontar os que têm, das antigas versões condensadas, uma forte memória afetiva vinda da infância. Como peça histórica, o livro chama atenção para os alertas que Verne põe na boca de Nemo e de Aronnax quanto ao risco de extinção de baleias e morsas por meio da caça predatória: isso na década de 60 do século retrasado, o que mostra que o problema mão é novo.</p>
<p>Mais do que uma peça de nostalgia ou curiosidade histórica, no entanto, trata-se de um livro para os amantes de literatura: o desafio de exploração da linguagem de Verne, a tentativa de extrair poesia do jargão da ciência, merece ser enfrentado. Nem que seja para que o leitor chegue, ofegante e sedento como os tripulantes do Náutilus, à fantástica luta com a lula gigante dos capítulos finais.</p>
<p>::: <strong><em>20 mil léguas submarinas</em></strong> ::: <strong>Jules Verne</strong> (trad. André Telles) :::<br />
::: <strong>Zahar</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>456 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8537807303" target="_blank">compre na Livraria Cultura</a> :::</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/01/2012/20-mil-leguas-de-aventura/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Ma Jian e o humor vermelho</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Jan 2012 16:50:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Lopes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura chinesa]]></category>
		<category><![CDATA[humor vermelho]]></category>
		<category><![CDATA[literatura chinesa contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[Ma Jian]]></category>
		<category><![CDATA[maoismo]]></category>
		<category><![CDATA[Partido Comunista chinês]]></category>
		<category><![CDATA[Política de Portas Abertas]]></category>
		<category><![CDATA[Yu Hua]]></category>

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		<description><![CDATA[Em seu novo romance saído no Brasil, o escritor chinês está de olho nas pompas e absurdos do regime comunista]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_7939" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501082821" target="_blank"><img class="size-full wp-image-7939" title="A cozinha da revolução" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2011/12/acozinhadarevolucao.jpg" alt="" width="200" height="311" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;A cozinha da revolução&quot;, de Ma Jian</p></div>
<p>Nascido em 1953 na cidade de Qingdao, Ma Jian trabalhou com pintura e fotojornalismo para o Estado chinês, antes de se iniciar na carreira literária. Após ter alguns trabalhos menores censurados, Jian foi para Hong Kong, onde escreveu um volume de contos traduzido em 2006 para o inglês como <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=0312426909" target="_blank">Stick out your tongue</a></em>. O livro lidava com o Tibete de maneira nada romântica, e foi proibido de circular na China sob a alegação de que “difama a imagem de nossos compatriotas tibetanos”. Como uma instituição que <a href="http://www.amazon.com/Tears-Blood-Tibet-Mary-Craig/dp/158243025X/ref=tmm_hrd_title_0?ie=UTF8&amp;qid=1325265241&amp;sr=8-1" target="_blank">já presidiu</a> a destruição de milhares de templos no Tibete e a chacina de centenas de milhares de habitantes da região, o PCC sem dúvida tem experiência em sentir o pulso de tibetanos.</p>
<p>Em 1997, quando o Reino Unido devolveu Hong Kong à China, Ma Jian mudou-se para a Alemanha, depois definitivamente assentando-se na Inglaterra, onde mora com sua esposa e dois filhos. Em 2001, publicou seus relatos de viagens pela China profunda em <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=0385720238" target="_blank">Poeira vermelha</a></em>. Em 2004, foi a vez do romance <em>A cozinha da revolução</em>, e em 2008, <em>Pequim em coma</em>, sua obra-prima, tida por muitos como <em>o</em> romance do massacre da Praça da Paz Celestial – e quantos há mesmo?</p>
<p><em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501083372" target="_blank">Pequim em coma</a></em> saiu no Brasil em 2009. No final do ano passado, saiu <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501082821" target="_blank">A cozinha da revolução</a></em>. Ambos pela Record. As obras foram escritas em chinês, mas aqui estamos diante de um caso em que as traduções brasileiras, a partir do inglês, podem ser ditas traduções praticamente diretas. Isso porque quem passa os textos para o inglês é Flora Drew, a companheira londrina de Jian. Podemos imaginar que sobra algum espaço nas conversas entre os dois para esclarecer dúvidas de tradução, e o próprio escritor é bastante familiarizado com o inglês.</p>
<p>Para o leitor que não conhece Ma Jian, é necessário saber de início que ele é um mestre do chamado humor vermelho. Embora alguns autores chineses contemporâneos sejam bastante comedidos, é notável como, mesmo nestes, o sarcasmo aparece no texto como que por conta própria. Talvez isso seja inevitável em enredos que se desenvolvem em um ambiente em que o poder auto-eleito faz questão de se intrometer além da conta na vida dos sujeitos. É regra de ouro da literatura: não importa o período ou o local, qualquer crença, corrente ideológica, regime, instituição, comunidade ou indivíduo que se cerque de pompa e trate a si mesmo com mais imodéstia do que seria recomendado pelo saldo de suas realizações e impacto na vida daqueles em volta, <em>automaticamente</em> está convidando pessoas de talento a colocá-lo no palco do escárnio, onde, aí sim, ele age sempre com naturalidade e sucesso.</p>
<p>Se quiser, você pode classificar <em>A cozinha da revolução</em> (título “original”: <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=0312424795" target="_blank">The noodle maker</a></em>) como um representante do realismo fantástico – e contrapor seu autor a, por exemplo, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Yu_Hua_(author)" target="_blank">Yu Hua</a>, traduzido no Brasil pela Companhia das Letras e que será em breve objeto de uma resenha aqui no Amálgama). Em determinada página, um rapaz conversa com o espectro de uma velha que o surpreende no meio da noite. Noutra, entra em cena um cachorro de três pernas que não apenas fala, como lê livros de filosofia. Mas, se você manter em mente que tudo isso é apenas a imaginação de um dos dois personagens principais, com a velha e o cachorro aparecendo na vida de pessoas que ele conhece, e que, além disso, todas essas pessoas (personagem imaginão incluído) são mais ou menos paranoicos, tudo passa a fazer sentido, e estamos de novo diante do velho e bom realismo.</p>
<p>O personagem imaginão é identificado na abertura de <em>A cozinha da revolução</em> simplesmente como Escritor Profissional. Logo saberemos tratar-se do Camarada Sheng. Empregado do governo, ele foi comissionado a escrever um conto a partir do mote “Aprendendo com o Camarada Lei Feng” – mais um dos heróis do imaginário comunista, cuja dedicação à causa nos anos 1960 supostamente se tornou exemplo a ser seguido por todos os chineses. Sheng recebe nas primeiras páginas a visita do amigo Doador de Sangue, apelidado Vlazerim em tributo ao personagem de um antigo filme de propaganda albanês. Os dois se conheceram nas décadas de Revolução Cultural. Ambos frequentaram campos de reeducação para a juventude, e eram mais ou menos nivelados em seus estilos de vida e em suas ambições. Hoje, porém, Vlazerim é muito mais bem sucedido do que o amigo. Enquanto Sheng ganha miséria com seus textos edificantes, Vlazerim entrou para o ramo da doação de sangue. Não apenas ele produz e doa bastante – no passado cobrando um bom dinheiro para dar sangue a empresas com alguns funcionários fracos demais para produzirem a cota de sangue exigida pelo governo –, como abriu uma “empresa” de facilitação da papelada para doadores potenciais.</p>
<blockquote><p>Há alguns anos, ele e certos amigos criaram uma Agência de Recrutamento de Doadores de Sangue num banheiro público no centro da cidade. Eles posicionaram sua mesa no pátio junto a uma poça de urina e colocaram uma tábua entre a mesa e a tábua para bloquear os respingos. (…) Quando os novos recrutas terminam as formalidades, eles se dirigem ao hospital do outro lado da rua para doar sangue; depois, voltam ao banheiro público, entregam à agência metade do dinheiro ganho e levam o resto para casa. O doador de sangue [amigo do Escritor Profissional] reparte o lucro com seus colegas, mas sempre fica com a maior parte para si.</p></blockquote>
<p>A relação de Vlazerim com Sheng é inamistosa. Um aponta os defeitos do outro com mais frequência do que ocorre entre bons amigos. A relação, permeada pela arrogância do Doador e a inveja do Escritor, claramente já não é a mesma dos bons tempos de Revolução Cultural. “Se eu pudesse escrever”, atira Vlazerim, “tenho certeza de que seria melhor escritor que você”. Sheng aceita o amigo da onça em seu apartamento, no entanto, porque, junto com suas frases cortantes, o Doador sempre traz uma boa comida e eventualmente uma boa bebida. E o aspecto do Escritor, com “seus rosto amarelado e prostrado”, é claramente o de quem precisa ingerir mais vitaminas.</p>
<p>Se tiver sucesso em seu conto sobre um Lei Feng contemporâneo, o Camarada Sheng, de acordo com promessa do secretário do Partido na associação de escritores local, conseguirá incluir seu nome no “Grande dicionário de escritores chineses”. Isso é importante. A façanha provavelmente lhe renderia uma promoção e um soldo maior. Acontece que ele sequer consegue iniciar a escrita. Os contos que desenvolve mentalmente, enquanto come e conversa com Vlazerim, não são nada edificantes. Alguns são claramente realistas, mas nenhum é da escola do realismo socialista. Esses contos formam a maior parte de <em>A cozinha da revolução</em>. Entre um e outro, e no meio de um ou outro, acompanhamos as interações geradoras de faísca entre Sheng e Vlazerim.</p>
<p>É a estória, por exemplo, de um escritor de rua que compõe cartas a pedido de terceiros – e lembra a nós a Fernanda Montenegro de <em>Central do Brasil</em>. Ou da atriz de teatro certa vez disputada pelo Doador e pelo Escritor, mas que apenas usava ambos para causar ciúmes no homem que realmente amava, até o dia em que decidiu chamar a atenção deste e mostrar seu amor se deixando matar por um tigre em um espetáculo de audiência concorrida, com o amado na plateia. Ou ainda do pai que tem duas filhas. A mais velha, doente mental nascida pouco antes da adoção da política de um filho por casal, forçou o pai a entrar com um recurso junto às autoridades pedindo autorização para gerar outro bebê na esposa. Autorização concedida, nasce em breve outra menina, quando o desejo do pai é ter um menino para levar o nome da família adiante. Para realizar este desejo, ele passa a conduzir a filha “retardada” para locais distantes de casa, a fim de perdê-la e poder restituir um segundo filho ao lar (da terceira vez, com sorte, seria um filho), sem medo de ser punido pelo governo. Isso é cruel. Mas dê uma olhada no que ocorre:</p>
<blockquote><p>Certa manhã, o pai deixou a filha sozinha num campo aberto nos limites da cidade. Ele se escondeu atrás de um arbusto à distância e observou por todo um dia. Quando o sol se punha a oeste, ele perdeu a esperança de ver alguém surgindo para resgatá-la e, assim, fraco de fome, correu para a menina, pegou-a nos braços e levou-a para casa.<br />
(…)<br />
Contudo, a cada vez que tentava se livrar da menina, ele sentia que seu apego por ela ficava cada vez mais profundo.<br />
(…)<br />
Com o passar do tempo, a menina se tornou a amiga mais próxima do pai.<br />
(…)<br />
Quando chegava a seu destino, ele colocava a criança na beira da estrada e depois agachava-se atrás de uma árvore a mais ou menos 10 metros de distância. Os transeuntes notavam que as rugas de seu rosto pareciam sumir quando ele estava agachado ali. Mas, assim que alguém se aproximava e colocava as mãos em sua “propriedade perdida”, ele dava um salto, corria para perto e apanhava a filha nos braços. Nesta cidade, ele se tornou o único protetor da menina retardada.</p></blockquote>
<p>Isso é para mostrar que muitas vezes os conhecidos/personagens de Sheng são boa gente, ainda que em sua forma demasiada humana. O chinês comum sai bem na página, mas não o governo chinês. Se Sheng fosse colocar essas estórias no papel, é assim que seria. E assim ele provavelmente iria parar, não em um grande dicionário, mas em uma pequena cela.</p>
<div id="attachment_7940" class="wp-caption alignnone" style="width: 241px"><img class="size-full wp-image-7940" title="Ma Jian" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2011/12/majian.jpg" alt="" width="231" height="312" /><p class="wp-caption-text">-- O autor --</p></div>
<p>De forma que Sheng apenas imagina. E através desses devaneios Ma Jian destila seu humor vermelho. <em>A cozinha da revolução</em> é muito bom nesse quesito. Aliás, o livro é muito bom em tudo. No final das contas, só embirrei com uma mísera frase – “&#8230;semelhante à pena que um gato sente antes de atacar sua presa”.</p>
<p>Primeiro, há o ridículo das proibições do período maoista, e dos efeitos de sua suspensão, com as mais prosaicas atitudes gerando quedas de queixo. No livro de Ma Jian, entre os efeitos da Política de Portas Abertas de Deng Xiaoping, temos: paredes pintadas de rosa; perda da proeminência de heróis e heroínas revolucionárias em papeis de teatro; liberação do uso de sutiã com enchimento e pintura dos cabelos; suspensão da pena de prisão pelo uso de palavras e expressões burguesas como “amor”, “lábios macios”, “o sol em torno do qual giro”e “melancolia”; etc.</p>
<p>Eu devo ter perdido um bocado de referência antes de enfim começar a rabiscar as margens com tremidos “kkk”. Completando os slogans revolucionários em exibição na lateral do carro de uma pequena empresa de cremação, lemos: “ELEVAR A PRODUÇÃO! REDUZIR A POPULAÇÃO!”. O jovem proprietário dessa empresa promete aos parentes dos defuntos reduzir seus corpos a pó ao som das músicas prediletas dos enquanto-vivos. Algumas fitas cassetes, como aquelas com música erótica francesa ou música <em>country</em> estadunidense, saem mais caras; a “Quinta Sinfonia” de Beethoven sai por 5 yuans, o “Noturno” de Chopin custa 7 yuans, enquanto a “A Internacional” fica por 1,5 yuan. “Ele é imortal agora”, comenta o jovem com sua mãe a respeito de um ex-dirigente do Partido recém saído do forno. “Não importa se vai para o céu ou o inferno, ele não voltará para cá, principalmente porque conseguiu passar a vida sem cometer qualquer erro grave.”</p>
<p>Em outro relato, um homem dá a palma da mão para um velho sábio ler e adivinhar o futuro. O velho diz que, quando o homem tiver 50 anos, um cavalheiro virá do sudoeste para lhe trazer sorte. O homem puxa na memória e descobre que realmente tem um conhecido no sudoeste, um tio ex-general do Kuomintang que atualmente é membro de uma guerrilha que tenta derrubar o governo de Myanmar&#8230;</p>
<p>A jovem atriz com tendência suicida, Su Yun, antiga engabeladora do Escritor e do Doador, tenta convencer um gerente de teatro da utilidade de sua autoimolação, e o gerente põe as condições: “Contanto que você deixe um testamento e que seu ato promova a mensagem de que a civilização socialista está em marcha para o avanço, então&#8230;”. A moça concorda. Mas como o ato tão burguês-decadentista de ser devorada por um tigre em nome de um amor não correspondido poderá passar mensagem tão pretensiosa? Sem problema. Na hora do show,</p>
<blockquote><p>Su Yun respirou fundo e começou o espetáculo que escolhera após a conversa com o gerente do clube. Depois do início da canção “O Exército Popular de Libertação e o povo avançam juntos como peixe a água”, ela começou uma mímica de que estava lavando as roupas dos amados soldados do EPL. Metade de sua mente estava concentrada na mímica, a outra metade no tigre. Ela sabia que, depois que pendurasse a roupa para secar, teria que dançar de volta ao alojamento do Exército, e o tigre – aquele “inimigo da classe”, com a expressão de um homem e o coração de uma fera – saltaria dos arbustos e enterraria suas presas em seu corpo. Depois que ela estivesse morta, o tigre seria capturado e preso. Mas, em seu caminho para o quartel-general da polícia local, um heroico soldado do EPL correria para vingar sua morte, enterrando uma baioneta nas costas do tigre. Marcando o local onde Su Yun seria devorada, os soldados ergueriam uma placa à heroína e depois cantariam “A Internacional”.</p></blockquote>
<p>Su Yun é revoltada com os homens (“se eu não esconder minha verdadeira natureza, como poderei satisfazer o desejo masculino por comedimento e refinamento feminino?”), e não por menos, haja visto os trapos com quem topou no curso dos anos. “Aquela puta” é como a ela de refere atualmente o Doador, que depois ainda filosofa, mostrando ao Escritor seu isqueiro importado: “Se você conhece uma mulher que fuma, só precisa acender o cigarro dela com isso e ela é sua”.</p>
<p>Aqui lidamos com o outro dos temas recorrentes em <em>A cozinha da revolução</em>, a saber, o estúpido tratamento dispensado a mulheres por membros de um meio intensamente machista. Lembrando de conversa que teve com um inusitado amigo, um pintor observa casualmente, como quem narra uma mosca que passou em frente de seu rosto antes que dirigisse a palavra ao amigo, que “alguns dias antes de testemunharmos o estupro coletivo que aconteceu na rua abaixo&#8230;”. Há também a secretária que desde os 14 anos tem os seios grandes e os carrega como um estigma, tendo que ouvir a superstição de que os seis crescem além da conta quando a proprietária deixa os rapazes os espremerem. “Ela se casou com um camponês alguns anos depois, mas, quando soube de sua reputação, ele se tornou violento e passou a espancá-la com frequência, quase até a morte.” A secretária toma remédios para desprender os pensamentos dos seios e conseguir dormir. E aqui vai um conselho de mãe: “Você deve afastar os homens até onde for possível, pois, assim que tiverem apalpado e provado cada parte de sua carne, você se tornará imprestável para eles, nada melhor que um bife numa tábua de cortar.”</p>
<p>Das estórias que se constroem na mente do Camarada Sheng, a que melhor combina as absurdas exigências e pompas oficiais com a conturbada relação de gênero é a de uma romancista com quem Sheng transou certa vez. Hoje ela é casada com o Velho Hep, editor da revista literária estatal de uma cidadezinha ao norte de Hong Kong. No começo do casamento o editor se sentia superior à esposa, mas logo o sucesso literário dela o eclipsa. O destrambelhamento começou com a Política de Portas Abertas, quando a mulher começou a aparecer em casa de cabelo remodelado e esmalte nas unhas, a sair sozinha para reuniões, a receber aspirantes a escritor de sucesso para dar dicas, a passar na redação da revista para impor políticas editoriais ao marido. O relacionamento toma ares de pastelão:</p>
<blockquote><p>Sempre que o Velho Hep fazia algo para irritá-la, a mulher dobrava o braço dele atrás das costas, brandia a mão no ar como uma atriz de kung fu e o chutava nas canelas.<br />
(…)<br />
À medida que seu status em casa afundava, ele percebeu que só na cozinha podia se sentir livre e agir como queria.</p></blockquote>
<p>Hep, que ganhou esse apelido na época em que contraiu hepatite, não poderia se conformar com tanto sofrimento, e tinha que também também para o ataque. Mas, sendo uma mediocridade ambulante e um duplo covarde, ele não vai descontar na esposa, e sim nas “poetisas melancólicas” que tentam emplacar colaborações em sua revista. Passa a transar com as mulheres que publicará. Antes de sua queda em desgraça, consegue traçar vinte e uma. Ele se dará mal, não pelas mãos de alguma literata, mas pelas mãos de uma tecelã, que previamente tratara com sadismo.</p>
<p>Quanto à sua esposa, acabará ela própria perdendo espaço para uma nova geração de meninas intelectuais. Antes, “quando o Velho Hep conseguiu finalmente escrever a palavra &#8216;amor&#8217; num pedaço de papel, ela já estava usando expressões como &#8216;sexualmente excitado&#8217;”. Depois, quando ela trazia Hemingway à tona, “as jovens se afastavam para o canto da sala para debater Heidegger e Robbe-Grillet.”</p>
<p>::: <strong><em>A cozinha da revolução</em></strong> ::: <strong>Ma Jian</strong> (trad. Heloísa Mourão) :::<br />
::: <strong>Record</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>272 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/23850722/cozinha+da+revolucao,+a/?franq=265122" target="_blank">compre no Submarino</a> ou <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501082821" target="_blank">na Livraria Cultura</a> :::</p>
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		<title>Um velho novo Saramago</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 20:55:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Renato Tardivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[josé saramago]]></category>
		<category><![CDATA[literatura portuguesa]]></category>
		<category><![CDATA[LPH]]></category>

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		<description><![CDATA["Claraboia" tem frases curtas e prosa ágil, mas há lampejos da obra futura do autor português]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_7987" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=853591983x" target="_blank"><img class="size-full wp-image-7987 " title="Claraboia" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/claraboia.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Claraboia&quot;, de José Saramago</p></div>
<p>Foi publicado recentemente o que talvez sejam os últimos originais deixados pelo escritor português – vencedor do prêmio Nobel em 1998 – José Saramago, falecido em junho de 2010, aos 87 anos. Curiosamente o livro em questão, <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=853591983x" target="_blank">Claraboia</a></em>, foi o segundo romance escrito por ele, no início dos anos 1950, quando utilizava o pseudônimo “Honorato”.</p>
<p>Saramago já havia publicado um romance em 1947 – <em>Terra do pecado</em>. O livro de estreia não tivera boa acolhida, nem do público nem da crítica. Também como “Honorato”, o ex-serralheiro e jovem funcionário da previdência social (contava por volta de 30 anos) possuía alguns contos publicados em jornais e revistas. Nessa época, incentivado por um amigo artista plástico, o escritor submeteu <em>Claraboia</em> a uma editora de Lisboa, mas não obteve retorno e os originais sequer foram devolvidos. Veio o silêncio: José Saramago só publicaria outro livro, <em>Manual de pintura e caligrafia</em>, cerca de 24 anos mais tarde.</p>
<p>Na década de 1980, quando o escritor português já era mundialmente consagrado, a editora que o ignorara 30 anos antes propôs a publicação de <em>Claraboia</em>. Não se sabe ao certo se magoado ou ocupado com a produção de outros livros – o autor escreveu inúmeras obras entre a década de 1980 e o seu falecimento, em 2010 –, ou provavelmente devido aos dois motivos, Saramago decidiu não publicá-lo em vida, deixando a decisão para os seus herdeiros.</p>
<p>Bem, se já não bastasse a novela de 60 anos em torno do livro, vale dizer que sua leitura é válida. No entanto, isso não se deve, ao menos não primordialmente, à qualidade do romance. A propósito, aliás, o comumente lúcido José Saramago disse que o livro era &#8220;ingênuo&#8221;, mas que não se tratava de um romance “mal construído&#8221; e que possuía “coisas que já têm que ver com o meu modo de ser&#8221;. Tendo a concordar.</p>
<p><em>Claraboia</em> tem mais de 350 páginas distribuídas em exatos 35 capítulos. Os longos períodos e parágrafos, a pontuação própria, a prosa que por vezes demanda algumas páginas até que o leitor se acostume, enfim, a marca própria que Saramago consolidou a partir de livros como <em>Memorial do convento</em> e <em>Levantado do chão</em> e com a qual se notabilizou em <em>O Evangelho segundo Jesus Cristo</em> e <em>Ensaio sobre a cegueira</em>, não figura ainda em <em>Claraboia</em>. Neste velho novo Saramago, as frases são curtas, a prosa é ágil e a leitura flui – da primeira à última página.</p>
<p>A epígrafe, de Raul Brandão, diz o seguinte: “Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior escondido”. É este “interior” que o romance procura habitar. No primeiro capítulo, a partir da casa de Silvestre, um velho sapateiro, e sua esposa Mariana, tomamos contato com os habitantes dos demais apartamentos de um prédio. Nos demais capítulos, salvo raras exceções, as histórias dos vizinhos praticamente não se cruzam – cada capítulo é dedicado a um “interior escondido”.</p>
<p>Um casal infeliz, cuja filha morrera ainda nova, quatro mulheres solteiras – duas velhas, duas irmãs mais jovens (filhas de uma, sobrinhas da outra); um casal que (aparentemente) não se gosta mas cuja relação se transforma pelos olhos do filho; uma jovem e bela senhorita que sustenta a mãe com os ganhos do corpo; uma família que vislumbra o potencial da filha subir de vida; o velho sapateiro e sua esposa que, para equilibrar os gastos, alugam um dos quartos do apartamento para o jovem aventureiro Abel. Um verdadeiro microcosmo que, nessa medida, lembra o clássico <em>O cortiço</em>, de Aluísio Azevedo.</p>
<p>É interessante vislumbrar passagens (já) dignas de nota: “Duas mulheres velhas e duas que já voltavam costas à mocidade. O passado para recordar, o presente para viver, o futuro para recear”; “Vivia dentro de si mesma, como se estivesse sonhando um sonho sem princípio nem fim, um sonho sem assunto de que não queria acordar, um sonho todo feito de nuvens que passavam silenciosas encobrindo um céu de que já se esquecera”; “Ninguém sabe se esquece antes de esquecer”; “Não gosto de ser agarrado e a vida é um polvo de muitos tentáculos. Um só basta para prender um homem”; “Ter não é possuir. Pode ter-se até aquilo que não se deseja. A posse é o ter e o desfrutar o que se tem”; “Mas entre o ser e o parecer há sempre um ponto de entendimento, como se ser e parecer fossem dois planos inclinados que convergem e se unem”; e ainda haveria outras.</p>
<p>Em outros momentos, fica nítida a busca de Saramago pela própria linguagem – com a qual, felizmente, viria a se encontrar anos mais tarde. Shakespeare, Eça de Queirós, Dostoiévski, algumas vezes utiliza-se o recurso da intertextualidade. Seja como for, lampejos do Saramago maduro comparecem neste livro, e não apenas enquanto potencialidade senão enquanto realidade: “Abel pensou, tornou a pensar e, no fim, tinha diante de si apenas a pergunta”. Não seriam estas – as perguntas – o motor da prosa de José Saramago? É provável, vale dizer, que se escrevesse o romance em sua fase madura o autor mergulharia de forma ainda mais radical em apenas um daqueles interiores escondidos. Silvestre, Mariana e Abel? Possivelmente.</p>
<p>O <em>jovem</em> Abel, o estranho/familiar, disparador do início e do desfecho do romance, trava com o <em>velho</em> Silvestre belos diálogos – os diálogos envolvendo também as demais personagens são bem construídos. Temas como liberdade, desejo, união e desunião entre os homens – impossível não localizar os germes de <em>Ensaio sobre a cegueira</em>, <em>A caverna</em>, <em>O Evangelho segundo Jesus Cristo</em> – dão a tônica do embate entre o novo e o velho e – por que não dizer? – do próprio romance <em>Claraboia</em> – ele mesmo emblema do embate entre o novo e o velho José Saramago.</p>
<p>No entanto, se por um lado os múltiplos enredos são emblema da procura de Saramago por uma terra mais segura, por outro, vale destacar a sutileza com que o escritor maneja a luz que atravessa as diferentes janelas mas passa pela mesma claraboia: “O sol entrava pelos vidros da <em>marquise</em> e projetava no chão a sombra da armação de ferro como se fossem grades”. Mas, sobretudo, fazendo um exercício metonímico, <em>Claraboia</em> sobe de escala quando colocado em perspectiva com os livros que o <em>velho</em> Saramago ainda escreveria. Porque, em si mesmo, não é mais que um bom romance. E de (apenas) bons romances, para o bem ou para o mal, o mundo está cheio.</p>
<p>::: <em><strong>Claraboia</strong></em> ::: <strong>José Saramago</strong> :::<br />
::: <strong>Companhia das Letras</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>384 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/24028015/claraboia/?franq=265122" target="_blank">compre no Submarino</a> ou <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=853591983x" target="_blank">na Livraria Cultura</a> :::</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/01/2012/um-velho-novo-saramago/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Literatura imatura</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/12/2011/literatura-imatura/</link>
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		<pubDate>Sun, 18 Dec 2011 17:05:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Biajoni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura brasileira contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Scott]]></category>

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		<description><![CDATA[Em "Habitante Irreal", de Paulo Scott, existe um esforço visível em fazer a narrativa soar mais interessante que a história]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_7864" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8579621070" target="_blank"><img class="size-full wp-image-7864" title="Habitante Irreal" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2011/12/habitanteirreal.jpg" alt="" width="200" height="307" /></a><p class="wp-caption-text">- &quot;Habitante irreal&quot;, de Paulo Scott -</p></div>
<p><em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8579621070" target="_blank">Habitante irreal</a></em> deveria ser o “romance maduro” de Paulo Scott. Depois de sua bem-sucedida estreia nos contos e de uma arriscada aventura pelo romance experimental, em <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8573027150" target="_blank">Voláteis</a></em>, o gaúcho Scott procura o meio-tom, procura colocar sua escrita fluída e coloquial a serviço de uma boa história.</p>
<p>Importante dizer, porém, que a narrativa, ainda aqui, se destaca acima da história. Nem sempre para o bem do leitor.</p>
<p>Existe um esforço visível em fazer a narrativa soar mais interessante que a história. E para um livro que tem na linguagem e na narrativa seu aparente foco, a edição da Objetiva/Alfaguara deixa a desejar. Em princípio podemos supor que a supressão de alguns pronomes ou vírgulas possa ser só descuido da revisão ou bossa do autor. Mas problemas maiores como a troca de “desde” por “deste” (página 92) ou “quando” por “quanto” (página 134), por exemplo, ou ainda a indecisão do uso ou não de aspas para as falas dos personagens, mostram que o texto não teve tanto cuidado assim.</p>
<p>A indecisão do uso das aspas para as falas pode, é claro, ser intencional, parte do projeto narrativo de Scott. Apesar de até ser interessante em alguns momentos, na maioria não se justifica, é só um recurso que atrapalha. Claro que criar alguma confusão no leitor é intenção de Scott, confundir alguns personagens, mas não é disso que falo: é do uso do recurso em trechos nos quais não seria necessário qualquer, digamos, “confusão”.</p>
<p>Outro recurso utilizado por Scott à exaustão é o uso de parêntesis, muitos deles igualmente desnecessários. O recurso muitas vezes atrapalha a fluidez ou a beleza da cena.</p>
<p>Sim, a história é boa e tem períodos lindos. Uma pena que o conjunto aponte para uma certa pretensão chata. Sete capítulos são escritos, desnecessariamente também, como notas de rodapé (Scott deve ter uma ótima explicação para isso); os títulos dos capítulos esbanjam aliteração, poesia e mais pretensão (alguns: “toda coloração do que é sempre menos importante”, “atômico e subatômico”, “metais de sacrifício”. títulos que dão um verniz intelectual para a coisa e o leitor comum – eu – fica com aquela impressão de não estar à altura das intenções do autor); algumas digressões parecem completamente fora do campo de interesse do leitor, soam como se Scott tivesse contando algo apenas para forrar a trama ou para tentar dar verossimilhança à mesma.</p>
<p>A história é bem inusitada, mas está longe de ser inverossímil. O enredo, enfim, abrange uma boa linha do tempo na vida de Paulo, ex-militante petista, que se envolve com uma garotinha índia de 14 anos. Lá pelas tantas ele foge para Londres, onde vai se envolver com a francesa Rener, uma <em>squatter</em> (especializada em arrombar e invadir propriedades privadas desocupadas). No Brasil acompanhamos a relação de Luísa e Henrique, um casal de professores-pesquisadores, e seu filho adotado, Donato, o índio menos índio que se tem notícia. Donato vai vestir uma fantasia de madeira e fazer <em>performances</em>. Contar mais que isso seria revelar detalhes que fazem a leitura do romance ter seus pontos altos de impacto.</p>
<p>Infelizmente, podia ser um grande romance se Scott não quisesse – essa foi a sensação final – mais fazer Alta Literatura do que escrever uma boa história. Metáforas e hermetismos, frases estranhas e deslocadas, intenções e referências escondias não bastam para compor um bom livro.</p>
<p>::: <strong><em>Habitante irreal</em></strong> ::: <strong>Paulo Scott</strong> :::<br />
::: <strong>Alfaguara</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>264 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/24033139/habitante+irreal/?franq=265122" target="_blank">compre no Submarino</a> ou <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8579621070" target="_blank">na Livraria Cultura</a> :::</p>
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		<title>Monsieur Pain</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/12/2011/monsieur-pain/</link>
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		<pubDate>Wed, 14 Dec 2011 18:07:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiano Camilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura chilena]]></category>
		<category><![CDATA[literatura latino americana]]></category>
		<category><![CDATA[Roberto Bolaño]]></category>

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		<description><![CDATA[Em quem leu outras obras do autor, esse livro de Roberto Bolaño provavelmente provocará estranhamento]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_7822" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535919090" target="_blank"><img class="size-full wp-image-7822" title="Monsieur Pain" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2011/12/monsieus.jpg" alt="" width="200" height="296" /></a><p class="wp-caption-text">-- &quot;Monsieur Pain&quot;, de Roberto Bolaño --</p></div>
<p>Os dois romances de Roberto Bolaño publicados no Brasil em 2011, <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535917853" target="_blank">O Terceiro Reich</a></em> e <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535919090" target="_blank">Monsieur Pain</a></em>, possuem trajetórias editoriais aproximadas. Menos conhecidos, ambos os livros não pertencem ao ciclo de romances que consagraram o chileno como um dos importantes escritores da atualidade. Escrito em 1981 ou 1982, originalmente intitulado <em>A trilha dos elefantes</em>, vencedor do prêmio Félix Urabayen de romance curto, concedido pela prefeitura de Toledo, <em>Monsieur Pain</em> é o primeiro romance de Bolaño. <em>O Terceiro Reich</em> foi escrito em 1989, antes, portanto, de <em>A pista de gelo</em> (1993) e <em>A literatura nazista na América</em> (1996), mas publicado apenas postumamente, em 2010. Após ter publicado aqueles que talvez sejam os principais textos de Bolaño, exceto <em>A literatura nazista na América</em>, a Companhia das Letras dá seguimento a seu excelente projeto editorial lançando seus livros menos conhecidos, que podem reservar gratas surpresas.</p>
<p>Em quem leu obras como <em>Estrela distante</em> (1996), <em>Os detetives selvagens</em> (1998), <em>Amuleto</em> (1999) e <em>Noturno do Chile</em> (2000) – que, em conjunto, constituem um painel ficcional do passado recente da América Latina, do Chile e do México particularmente, ou seja, do mundo que conheceu e vivenciou a geração de jovens latino-americanos à qual Bolanõ pertenceu – <em>Monsieur Pain</em> provavelmente provocará estranhamento, sobretudo se o leitor for movido pela vontade de reconhecer a (suposta) voz do autor no texto e de identificar a (idealizada) unidade da obra. Não obstante, há similitudes entre este e outros romances do escritor chileno: a literatura como tema da ficção, a intriga detetivesca, o inter-relacionamento entre personagens e acontecimentos fictícios e personagens e acontecimentos verídicos, a representação do passado.</p>
<p>A história de <em>Monsieur Pain</em> transcorre no ano de 1938, na cidade de Paris. É narrada pelo protagonista, Pierre Pain, um mesmerista veterano da Primeira Grande Guerra que, a pedido de uma amiga por quem é apaixonado, madame Reynaud, aceita tratar um homem gravemente doente, um sul-americano de sobrenome Vallejo, que agoniza em um hospital da cidade, sem que os médicos consigam descobrir a causa da doença. Bolaño se inspirou em acontecimentos verídicos para escrever o romance. Em 15 de abril de 1938, o escritor peruano César Vallejo, um dos principais nomes da vanguarda literária latino-americano, faleceu em Paris, aos 46 anos, em decorrência da reativação da malária que o acometera na infância. Como os médicos não conseguiam descobrir a causa da enfermidade e o estado de saúde de Vallejo se deteriorava, sua esposa, desesperada, recorreu aos conhecimentos de Pierre Pain.</p>
<p>Ao aceitar tratar Vallejo, Pain se vê envolvido em uma sequência de estranhos e intrigantes acontecimentos: perseguições, um suborno incompreensível, um desaparecimento, personagens bizarros, fantasmas do passado, labirintos que não levam a lugar nenhum. Ele se esforça por entender tudo o que está acontecendo, mas quanto mais avança mais perdido se descobre. Em certo momento, o próprio leitor pode experimentar um sentimento de desorientação, mas que não corresponde necessariamente àquele proporcionado por um texto que fascina. Esse sentimento de desorientação como uma das formas de prazer na leitura pode ser experimentado, por exemplo, em <em>Os detetives selvagens</em>, sobretudo na segunda parte do romance, em que se sucedem e se interpenetram, no curso de vinte anos, dezenas de depoimentos que nem sempre mantêm entre si relações evidentes. Contudo, o leitor, como um detetive – ou um historiador –, consegue reunir com base naquela algaravia indícios que lhe permitem imaginar, precariamente, as trajetórias de vida dos poetas Ulisses Lima e Arturo Belano (alterego do próprio Bolaño).</p>
<p>Pain é um personagem interessante, sem dúvida, tanto pelo fato de ser um mesmerista vivendo aventuras em Paris às vésperas da Segunda Guerra Mundial, como também pelo fato de sabermos que ele existiu. O interesse Pain conserva durante toda a narrativa, particularmente pela sensação de anacronismo que provoca. Em um século 20 próximo do término da quarta década, Pain por vezes parece um homem do século 19, decerto, em parte, porque em um mundo revolucionado pela modernização, pelos novos conhecimentos científicos e pelas novas técnicas, ele sobrevive como um detentor de conhecimentos desacreditados, um praticante de artes que se recusam a desaparecer. Em contraposição a sua pessoa, a história que Pain conta se torna, insensivelmente, desinteressante. Ele não consegue encontrar uma conexão entre os inusitados acontecimentos que experiencia ou testemunha, tampouco o leitor, para quem os breves relatos da segunda parte não oferecem nenhuma resposta para os mistérios da primeira. Entretanto, o problema não está na ausência de respostas ou certezas. Muitas da melhores ficções contemporâneas se caracterizam pela impossibilidade que instauram de se obter certezas a respeito dos personagens ou dos acontecimentos. O problema, antes de tudo, é a aparente falta de sentido da história, cujos acontecimentos se sucedem sem que seja possível discernir uma conexão entre eles, exceto o próprio Pain. No começo da narrativa, que coincide com o início da história, se estabelece um clima de mistério – detetivesco, a princípio, e, posteriormente, ocultista também –, mas, à medida que se aproxima o final, resta evidente que não havia mistério nenhum.</p>
<p>::: <strong><em>Monsieur Pain</em></strong> ::: <strong>Roberto Bolaño</strong> (trad. Eduardo Brandão) :::<br />
::: <strong>Companhia das Letras</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>144 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/23846429/monsieur+pain/?franq=265122" target="_blank">compre no Submarino</a> ou <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535919090" target="_blank">na Livraria Cultura</a> :::</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/12/2011/monsieur-pain/">acesse o Amálgama</a></em> --

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