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	<title>Amálgama &#187; Cultura</title>
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	<description>Revista digital de atualidade e cultura</description>
	<lastBuildDate>Fri, 10 Feb 2012 17:14:36 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
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		<title>Precisamos Falar Sobre o Kevin</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/02/2012/precisamos-falar-sobre-o-kevin/</link>
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		<pubDate>Fri, 10 Feb 2012 16:38:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Al Izdihar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Lynne Ramsay]]></category>
		<category><![CDATA[psicopatia]]></category>

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		<description><![CDATA[Lynne Ramsay, diretora e roteirista, seguiu a perspectiva do livro, mas o foco recai em outro personagem]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8450" title="Precisamos falar sobre Kevin" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/kevin.jpg" alt="" width="480" height="320" /></p>
<p>Vejam se sentem a diferença entre as duas frases seguintes:</p>
<p><em>A estória de um psicopata e o sofrimento que seus atos causam em sua mãe.</em></p>
<p><em>A estória de uma mãe que sofre as consequências dos atos de um filho psicopata.</em></p>
<p>Quando se fala em estórias de psicopatas no cinema, sabemos que o tema está batido, a argumentação é previsível, se bem que sempre interessante. Quando você considera a primeira frase como uma sinopse do enredo, a narrativa inclusive soa muito simples. Mas já a segunda&#8230; Concorda que você para e pensa um pouco mais? De qualquer modo, é possível prever alguns lances.</p>
<p>Hitchcock já dizia que um filme de suspense não precisa de uma boa estória e sim de um excelente narrador. Se você pegar os enredos do mestre do suspense vai ver que eles são extremamente simples, mas a maneira como ele os contava – com todos os pingos de genialidade de que foi capaz – era fascinante.</p>
<p>Em sua incursão no mundo dos longa-metragens a escocesa <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Lynne_Ramsay" target="_blank">Lynne Ramsay</a> consegue, com <em><a title="trailer" href="http://www.youtube.com/watch?v=gmMZUqQqWqQ" target="_blank">Precisamos falar sobre o Kevin</a></em>, congelar os corações, com uma narração não-linear, nenhuma carga piegas, tensa e com pitadas irônicas embaladas por música country quase cômica.</p>
<p>Adaptado do <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8598078263" target="_blank">livro de mesmo nome</a> de Lionel Shriver, este filme é mais um exemplo da liberdade inerente ao cineasta na hora de fazer uma obra baseada em literatura. Aliás, eu prefiro usar o termo traduzido do inglês, quando discutimos crítica de cinema “versão cinematográfica” (<em>filmic version</em>), por ser mais adequado e fugir da maldição da <em>fidelidade</em> imposta por alguns críticos e muitos espectadores. Sim, pois mesmo com toda intenção em ser <em>fiel</em> ao livro, é impossível para o cineasta tal façanha por vários motivos, mas podemos resumir em dois: 1) os veículos livro e filme são diferentes, havendo coisas num livro incapazes de serem transformadas em imagens, e 2) a leitura do livro feita pelo roteirista é uma, e a do diretor é outra &#8212; a partir daí as duas leituras se aproximam e se chocam, sofrendo adaptações para que se transformem em filme e seja lançado no mercado de forma adequada.</p>
<p>E ao que parece Lynne Ramsay, diretora e também roteirista deste filme, seguiu a perspectiva do livro, mas o foco para ela recai em outro personagem. No livro o foco é Kevin, no filme é Eva, sua mãe. E aí entram os recursos para se ganhar leitor e espectador.</p>
<p>No livro a autora usa o recurso das cartas de Eva escritas ao marido falando sobre o filho numa retrospectiva histórica, na tentativa de achar um porquê ou culpado para a psicopatia de Kevin. Este recurso é a ferramenta do suspense. No filme Ramsay usa o conhecido <em>flashback</em> sem avisos de corte misturado com o presente, em que o espectador vai descobrindo os segredos ponto a ponto. E, para isso, a diretora abusa das técnicas que domina bem, já que foi operadora de câmera: <em>closes</em> fechados, pontos de vista dramáticos, cortes rápidos aliados a <em>takes</em> agonicamente lentos em outros momentos.</p>
<p>Em ambas narrativas a história de Kevin é contada através da perspectiva da mãe. Porém, no livro o foco é Kevin e sua psicopatia, enquanto Eva questiona em alguns poucos momentos se algumas de suas próprias atitudes contribuíram para o caráter e/ou comportamento do filho. Ali não é dada a Kevin uma voz direta, portanto dependendo da leitura há uma abertura para se questionar ou não Eva. Eva é escritora e maneja muito bem as palavras, deixando margem inclusive para se questionar sua própria sanidade e uma dose de frieza para contar os fatos.</p>
<p>Já no filme Eva é bastante clara a respeito da sua recusa à maternidade e mesmo que o filme não afirme categoricamente que ela seria a culpada pelo distúrbio de Kevin, suas atitudes jamais passam despercebidas, sequer são inquestionáveis. A Eva do filme se isenta claramente de Kevin e mesmo com remorso ou se sentindo culpada, não consegue interagir com ele. Kevin tem voz e ação claras no filme, mesmo que dentro das memórias de Eva, mas que para nós são mostradas como os fatos em si, montando o quebra cabeças. E muito embora o espectador possa comprar facilmente que a culpa é de Eva, há vários elementos que não permitem o veredicto, incluindo uma cena rápida, mas muito pertinente: na noite de concepção de Kevin, células aparecem se juntando de um modo estranho sugerido pela trilha sonora, já indicando que há algo errado e inato em Kevin.</p>
<p>A narrativa cinematográfica deste argumento faz referência indireta e cuidadosa nas causas da psicopatia dita por profissionais: mais provavelmente uma soma de aspectos genéticos, neurológicos e sociais. No mais, <em>Precisamos falar sobre o Kevin</em> pode também levantar muitos debates interessantes sobre família, maternidade, males da sociedade moderna, entre outros.</p>
<p>Lynne Ramsay conseguiu sim fazer de um argumento simples e batido um bom suspense, ainda se dando ao luxo para o sarcasmo. E confie que tudo o que eu disse não estragou as surpresas e você pode ver para crer. Bom filme, bom entretenimento, mas&#8230; por enquanto, Hitchcock só existiu um mesmo.</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/precisamos-falar-sobre-o-kevin/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Entrevista com Edney Silvestre</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/02/2012/entrevista-edney-silvestre/</link>
		<comments>http://www.amalgama.blog.br/02/2012/entrevista-edney-silvestre/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 10 Feb 2012 16:37:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Renato Tardivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Edney Silvestre]]></category>
		<category><![CDATA[entrevistas com autores brasileiros]]></category>

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		<description><![CDATA["Temos uma realidade tão rica, diversa, complexa, que a mim inspira e impulsiona"]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8397" title="Edney Silvestre" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/edney.jpg" alt="" width="400" height="250" /></p>
<p>Edney Silvestre era, até 2009, um jornalista conhecido do grande público pela carreira bem sucedida em que acumulara, entre outras, a função de repórter, correspondente internacional e, mais recentemente, entrevistador do programa <a href="http://g1.globo.com/videos/globo-news/espaco-aberto-literatura/" target="_blank">Espaço Aberto Literatura</a>, da Globonews – atividade na qual se mostrou um leitor atento e sensível. Não é de estranhar, portanto, que este olhar – atento e sensível – se fizesse presente quando de sua estreia na ficção, em 2009, com o romance <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501088102" target="_blank">Se eu fechar os olhos agora</a></em>. Embora se tratasse de um livro de estreia, ficou claro que algo novo e significativo acontecia no cenário literário brasileiro. Silvestre, além de jornalista, passa a ser escritor.</p>
<p><em>Se eu fechar os olhos agora</em> faturou diversos prêmios, recebeu leituras elogiosas e vem sendo traduzido em diversos países. Recentemente, o autor publicou seu segundo romance – <em><a title="resenha no Amálgama" href="http://www.amalgama.blog.br/12/2011/a-felicidade-e-facil-para-outros/" target="_blank">A felicidade é fácil</a></em> – um belo e atraente livro, cuja receptividade também tem sido positiva.</p>
<p>Por e-mail, Edney Silvestre concedeu a entrevista que se segue, na qual fala, sem papas na língua, sobre os seus escritos. O escritor rechaça a expressão “entretenimento” para qualificá-los: “Acho ‘entretenimento’ diminuidor”, confessa. E, embora tenha estreado apenas em 2009, Silvestre diz: “Sempre escrevi ficção”. A respeito das funções de jornalista e escritor, dispara: “Depois de um longo período em que nossos escritores pareciam só ver os próprios umbigos, voltamos a usar nosso povo e os acontecimentos reais na ficção brasileira”. O autor nos conta, ainda, que já está trabalhando em um novo livro “de contos e novelas curtas”, cujo título, como ocorre em seus dois primeiros livros, “igualmente deverá ser a frase de uma das personagens: ‘Boa noite a todos’”. E mais não conto, para que o leitor tome contato por si mesmo com as respostas desse escritor que tanto tem a dizer.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p><em>Amálgama</em>: <strong>O senhor estreou na ficção em 2009 com o romance <em>Se eu fechar os olhos agora</em>. O livro recebeu excelente acolhida de público e da crítica – amealhou prêmios importantes como o São Paulo de Literatura e o Jabuti de melhor romance. Aliás, para muitos, deveria ter recebido também o Jabuti de Melhor Livro do Ano (categoria ficção), discussão que agitou os veículos sobre literatura e cultura na época. Além disso, o livro vem sendo traduzido em outros países. Quais expectativas o senhor alimentava quando de sua estreia na ficção? E quando escrever ficção se transforma em um projeto?</strong><br />
<em>Edney Silvestre</em>: Sempre escrevi ficção. Sempre gostei. Cheguei a publicar aqui e ali. Mas não julgava minhas tentativas de construir romances com qualidade e originalidade suficientes para publicação. E eu não queria publicar apenas por publicar. Eu sabia que tinha o que contar, mas não encontrava o caminho. Tentei muitos. Finalmente, em 2003, me pareceu que o havia encontrado. E fui por ele. Mas levei mais de quatro anos, escrevendo, parando, reescrevendo, editando. Só quando terminei o texto de <em>Se eu fechar os olhos agora</em>, em maio de 2009, é que me pareceu ter, finalmente, encontrado a &#8220;minha voz&#8221;. A aceitação entusiasmada da Luciana Vilas Boas foi o aval que precisava. E, logo que o livro saiu, recebi uma crítica do Manoel da Costa Pinto, na <em>Folha de S. Paulo</em>, que me empurrou enormemente. Depois vieram os prêmios. Em seguida a acolhida dos editores na França, Alemanha, Sérvia, Portugal, Itália e Holanda. Mas, quando isso aconteceu, eu já estava escrevendo <em>A felicidade é fácil</em>. Nunca imaginei tanto. Achava que, se vendesse uns mil exemplares em uns três anos, seria ótimo. Não finjo modéstia, confio na qualidade do que escrevo, mas acho que tive muita, muita sorte.</p>
<p><strong>Tanto em <em>Se eu fechar os olhos agora</em> quanto no mais recente <em>A felicidade é fácil</em> o contexto histórico, englobando aspectos políticos, econômicos e culturais, é elemento importante da ambiência ficcional. O senhor diria que o ofício de jornalista é o principal responsável por isso? Como o senhor avalia a interface entre a literatura e o jornalismo? Em que medida eles se aproximam e se afastam? Como manejar os limites entre realidade e ficção em um mesmo texto?</strong><br />
Depois de um longo período em que nossos escritores pareciam só ver os próprios umbigos, voltamos a usar nosso povo e os acontecimentos reais na ficção brasileira. Não sou o único, evidentemente. Há outros romancistas usando nossa história como pano de fundo, como é o caso do Luiz Ruffato, do Alberto Mussa, do Ronaldo Wrobel, para ficar em apenas três exemplos. Meu contato com a realidade brasileira talvez seja mais intenso porque diário, no ofício de jornalista. Esse contato é de grande ajuda para situar meus personagens e os acontecimentos à volta deles e pode ser percebido com clareza, por exemplo, na composição minuciosa do personagem do motorista/segurança em <em>A felicidade é fácil</em>. A proximidade com a realidade nossa não é o único caminho, claro, possível à literatura brasileira contemporânea. Mas temos uma realidade tão rica, diversa, complexa, exposta jornalisticamente ou não, que a mim inspira e impulsiona. Em nosso passado temos grandes autores ancorados no jornalismo, como Graciliano Ramos e Nelson Rodrigues.</p>
<p><strong>Os títulos de seus dois romances são frases – aliás, uma única oração. É interessante que as orações aparecem no texto mesmo do livro – recurso mais comum em crônicas, ensaios etc. Qual a importância do título para um livro? O senhor elege o título em que momento do processo criativo?</strong><br />
Nunca tive nenhum outro título para <em>Se eu fechar os olhos agora</em> que não fosse esse. Surgiu com a fala do personagem, enquanto se recorda do momento em que ele e o amigo encontraram o corpo mutilado de Anita, à beira do lago. O mesmo aconteceu logo no primeiro capítulo de <em>A felicidade é fácil</em>, quando o personagem olha pelo retrovisor, em um momento particularmente problemático de sua vida, vê o menino surdo-mudo completamente abstraído do mundo à sua volta, a desenhar, e pensa que ali, naquele ato tão simples, estaria o que ele nunca teve: a felicidade. O que deve ser o título do meu próximo livro, de contos e novelas curtas, igualmente deverá ser a frase de uma das personagens: “Boa noite a todos”. Penso que é bom quando um título dá ao leitor uma ponte para chegar ao que o autor pretende lhe contar. Cito exemplos de títulos que me parecem atingir esse objetivo, em romances que não são meus: <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501075124" target="_blank">Domingos sem Deus</a></em> (Luiz Ruffato), <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535912665" target="_blank">Relato de um certo oriente</a></em> (Milton Hatoun), <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535908617" target="_blank">Nove noites</a></em> (Bernardo Carvalho) e <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501079278" target="_blank">A chave de casa</a></em> (Tatiana Salem Levy).</p>
<p><strong><em>A felicidade é fácil</em> é composto por uma escrita ágil, de leitura fluida, que fisga o leitor – o que não reduz em nada sua qualidade literária. Como o senhor pensa a questão do entretenimento na fruição estética proporcionada pelos seus livros?</strong><br />
Acho “entretenimento” diminuidor para qualificar o texto de um romance composto pelas vozes de personagens tão diversificados quanto Mara, Olavo, Barbara, Major, Irene, Emiliano, entrecruzando-se e sendo afetados pela História do Brasil naquele agosto de 1990. A leitura fluida, como você menciona, das mais de duzentas páginas de <em>A felicidade é fácil</em> me tomaram quase dois anos. Sim, claro, penso no leitor. É para quem lê que escrevo meus livros.</p>
<p><strong>Em seus dois romances, há uma aura de mistério envolvendo crimes. Provavelmente, esses elementos participam na captura que as histórias provocam nos leitores – ávidos por descobertas. O senhor, no entanto, além dos elementos históricos já mencionados, mergulha na subjetividade das personagens, tão diversas entre si, com sensibilidade e maestria. Como surgiu a idéia de conciliar esses elementos em sua prosa de ficção?</strong><br />
Estamos sempre nos perguntando o que nos leva a cometer os atos que cometemos. A História e a política de nosso país interferem em nossas vidas pessoais. A retenção da poupança logo no início do governo de Fernando Collor, um dos atos mais absurdos e inaceitáveis daquele governo repleto de absurdos e atos inaceitáveis, destruiu pessoas, famílias, esperanças. A violência contra o cidadão, refletida em nossos altíssimos índices de criminalidade, reflete o descaso que ainda existe no Brasil pela vida. Crianças assassinadas, crianças abandonadas para morrer- não para viver &#8211; à própria sorte, mulheres violentadas, são fatos infelizmente corriqueiros em nossa sociedade. Escrever sem atentar para isso só me parece possível para quem vive em Marte. Ou, talvez, na Dinamarca.</p>
<p><strong><em>A felicidade é fácil</em>, do meu ponto de vista, avizinha-se da linguagem do audiovisual. O que o senhor pensa das adaptações de obras literárias para a televisão ou o cinema? O senhor gostaria que seus livros fossem adaptados? Já recebeu propostas nesse sentido?</strong><br />
Tive e tenho recebido várias propostas. Não descarto a possibilidade de que meus romances venham a ser transformados em filmes, mas acho as sutilezas e angústias dos meus personagens dificílimos de traduzir em imagens. Claro que as tramas básicas – assassinato, sequestro, incesto – são fáceis de transformar em imagem. Mas e o que se passa internamente com os dois meninos de <em>Se eu fechar os olhos agora</em>, por exemplo? As recordações de Ubiratan, o velho ex-prisioneiro da ditadura de Vargas, viram um <em>flashback</em> convencional? E quando ele faz um panorama da transformação de nossa sociedade agrícola para a industrial na época de JK, como ficará? Você sabia que há um longa-metragem baseado no ótimo livro de João Gilberto Noll, <em>Hotel Atlântico</em>? Pois então.</p>
<p><strong>Em <em>A felicidade é fácil</em>, que se passa em 1990, o tema da formação de compromisso, tão caro ao nosso país, é explorado. Lembra, em certo sentido, a novela “Vale Tudo” (1988), de Gilberto Braga, reprisada com sucesso em 2010-2011 em um canal de tevê por assinatura. Aliás, os próprios títulos do seu livro e o da novela conversam entre si. Qual o papel que a crítica e a denúncia assumem em sua poética?</strong><br />
Eu não estava vivendo no Brasil quando a novela foi ao ar e não a vejo agora, portanto, não tenho a menor ideia da trama e nem como opinar sobre sua qualidade ou os efeitos que tenha causado ou ainda possa causar. Um autor em um país como o nosso é, antes de tudo, um cidadão. Que pode ou não ter empatia com as dificuldades que a maioria da população atravessa. Para mim é doloroso perceber o imenso enriquecimento de alguns, enquanto há tantos brasileiros vivendo em condições miseráveis. A maioria de nossa elite econômica é indiferente aos brasileiros que a tornam tão rica. Gente como o publicitário Olavo Bettencourt e seus associados, personagens centrais de <em>A felicidade é fácil</em>. Isso é lamentável. E é importantíssimo, para mim, criticar e denunciar essa situação.</p>
<p><strong>A temática da infância – mais ainda, do olhar da infância – comparece nos dois romances. Esses olhos veem desgraça, mas também trazem esperança – redenção. O senhor poderia falar sobre isso?</strong><br />
O pessimismo é um luxo a que não me permito. Eu esperava ver um país melhor e mais justo ainda na minha juventude, mas o que minha geração passou foi um período de obscurantismo e repressão. Entretanto, a cada momento a vida nos oferece a possibilidade de reconstruir, até aos mais perversos, ou que assim nos parecem, como é o caso de Emiliano, o sequestrador uruguaio de <em>A felicidade é fácil</em>, até mesmo a estes é oferecida a possibilidade de redenção. Ubiratan, em <em>Se eu fechar os olhos agora</em>, foi torturado e teve a mulher assassinada pela polícia de Vargas e, mesmo assim, manteve a fé na transformação da humanidade. Eu acredito que isso é possível. Mas há, houve e haverá muita dor, até um dia, no futuro, chegarmos lá.</p>
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		<title>O mistério da crônica: entrevista com Felipe Peixoto</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/02/2012/entrevista-felipe-peixoto/</link>
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		<pubDate>Fri, 10 Feb 2012 16:35:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Viviane C. Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[escrever]]></category>
		<category><![CDATA[escrita]]></category>
		<category><![CDATA[Felipe Peixoto]]></category>

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		<description><![CDATA["Acho que foi Borges quem disse que a gente lê o que gosta, e escreve apenas o que consegue"]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8393" title="Felipe Peixoto" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/FelipePeixoto.jpg" alt="" width="250" height="375" /></p>
<p>É possível haver mistério em um gênero literário comum, como a crônica? E qual seria o seu mistério? O cotidiano que se descortina “sempre igual” diante dos nossos olhos? O desejo de brincar com os ruídos do cotidiano e deles extrair o silêncio? A surpresa? A beleza?</p>
<p>Na entrevista a seguir, Felipe Peixoto Braga Netto fala sobre a “falta de mistério” da crônica. Fala também por que escolheu escrever crônicas e quando começou a escrevê-las. Comenta sobre os reflexos da leitura na escrita: das influências do leitor no autor.</p>
<p>Felipe é alagoano, autor de “As coisas simpáticas da vida” e apaixonado pelas paisagens mineiras. É autor de várias obras de Direito e <a href="http://domtotal.com.br/colunas/coluna.php?artColId=9" target="_blank">colunista do site domtotal.com</a>.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p><em>Amálgama</em>: <strong>Na orelha do seu livro de crônicas “As coisas simpáticas da vida”, há uma foto sua curiosa: sua imagem refletida em um espelho e, sob a foto, a frase: “O autor, aos cinco anos, começando a não entender o mundo.” Como a fantasia e a imaginação entraram na sua vida?</strong><br />
<em>Felipe Peixoto</em>: Gosto muito dessa foto. Acho que ela reflete bem o livro. Foi uma surpresa encontrá-la quando o livro estava quase pronto. Também gosto da ideia de que a criança entende o mundo, entende tudo num nível intuitivo e por isso mais profundo, e nós, adultos, perdemos um pouco isso. Pelo menos a maioria de nós. Não lembro quem disse que as crianças precisam ter muita paciência com os adultos, que não compreendem quase nada sozinhos.</p>
<p>Não sei dizer como a fantasia e a imaginação entraram na minha vida. Na verdade, não tenho muitas lembranças de infância, pelo menos acho que não tenho. Quando estou escrevendo, surgem fatos, episódios, personagens que não sei honestamente se vivi, ou se são inventados. Aliás, uma das magias da escrita é esta: episódios que são inventados, relatos ficcionais podem, com o tempo, se tornar lembranças pessoais, íntimas, quase vividas, de outras tantas pessoas. Acho isso muito bonito.</p>
<p><strong>Na crônica &#8220;<a href="http://videcampos.wordpress.com/2009/12/29/o-sabor-da-cronica/" target="_blank">Um poema bem perto da gente</a>&#8220;, você diz ter tomado gosto pela crônica e confessa ter reencontrado nela o prazer da leitura. Como foi essa redescoberta?</strong><br />
Acho a crônica um gênero literário generoso. Dá imensa liberdade ao escritor. A redescoberta foi através de Rubem Braga – seguramente o nosso maior cronista, o único que ocupou um espaço na literatura escrevendo só crônicas. Sei, ou acho que sei, cada uma de suas crônicas. Pena que ele não escreveu mais.</p>
<p>Há uma entrevista do Veríssimo publicada, acho que no mês passado, em que ele – que sempre cita Rubem Braga como referência fundamental – diz que não há ninguém escrevendo no Brasil de hoje esse tipo de crônica – lírica, concisa, dizendo coisas sem dizer tudo. Eu li e pensei que talvez o que eu escrevo se encaixe um pouco aí. Não de modo intencional, seria ridículo. Mas porque não sei escrever de outra forma.</p>
<p><strong>Quais são as marcas do Felipe leitor &#8211; que tomou gosto pela crônica &#8211; no Felipe autor?</strong><br />
O leitor está no escritor, sempre. No meu caso ainda mais, porque minhas crônicas e meus livros, sobretudo os que ainda estão inéditos, a todo tempo se referem a livros, a escritores. A vida dos escritores me interessa muito, sempre me interessa. Acho que foi Borges quem disse que a gente lê o que gosta, e escreve apenas o que consegue. Borges, a propósito, é um exemplo magistral de um leitor genial que ilumina um escritor primoroso. É uma junção potencialmente muito rica, ainda mais no caso dele.</p>
<p><strong>Percebe-se, nas suas crônicas, o prazer em conversar. O que faz uma crônica se tornar uma boa conversa?</strong><br />
Não sei se sou assim tão bom em conversar. Geralmente quem escreve não é bom conversando. Rubem Braga, por exemplo, era uma lástima nisso. Paulo Mendes Campos brincava que já foi intérprete de Rubem em várias mesas de bar. Isso até o quinto uísque, quando – diz Paulo – Rubem passava a só ser compreendido por Deus. Tem até uma crônica em que brinco com isso. Escritor escreve para poder ficar em silêncio, escreve porque não é tão bom assim com outras formas de expressão.</p>
<p>Mas a crônica precisa ter algo da cumplicidade da boa conversa. Na verdade, é melhor ainda que a boa conversa, porque diz coisas que talvez não pudessem ser ditas na conversa &#8211; só se fosse alguém muito íntimo. Talvez nem mesmo com alguém íntimo você se confessasse tanto. Mas precisa ser quase como quem não quer, do contrário vira ensaio.</p>
<p>Precisa ter certa fluidez, certo ritmo, sobretudo certa economia de palavras. Hemingway dizia que em um texto curto noventa por cento da história deveria ficar submersa. Acho que não precisa ser tanto, mas também nem sempre tudo deve ser dito, senão perde o encanto da crônica, perde talvez a elegância.</p>
<p>Ninguém aguenta certas pessoas que falam como se fossem livros. O bom é o contrário: livros que falam como se fossem pessoas. Aliás, o bom livro não é aquele que a gente lê: é aquele que parece que está lendo a gente. Um leitor escreveu isso a respeito das “coisas simpáticas da vida”. Foi um elogio muito bonito.</p>
<p><strong>Também se percebe um olhar poético no observador atento à fala e ao jeito de ser mineiros e que vê a cidade de Belo Horizonte com poesia. Na crônica &#8220;<a href="http://domtotal.com.br/colunas/detalhes.php?artId=300" target="_blank">Ipês</a>&#8221; a poesia desvela-se na florada dos ipês. Como é essa história de observar a poesia do cotidiano?</strong><br />
Tudo que escrevo é sobre Minas. Acho que é. De certa forma, sim, é. E foi em Minas que comecei a escrever, não sei se escreveria se não estivesse em Belo Horizonte. No meu próximo livro de crônicas, isso vai estar ainda mais forte do que no primeiro.</p>
<p>A literatura não precisa de grandiloquência. Literatura é só um modo de dizer. O que é dito nem sempre importa. Quer dizer, o que é dito importa sim – a ironia, o inusitado, o humor autodepreciativo, tudo isso importa muito. Mas o assunto não precisa ser pomposo, grandioso, espetacular. Quase sempre é o contrário. As crônicas mais geniais de Rubem Braga falam de bobagens do cotidiano: uma aula de inglês, uma mulher que se sentou ao lado dele no avião, uma pelada entre amigos na praia&#8230; Um dos livros que mais gosto, desde criança, é <em>Memórias Póstumas de Brás Cubas</em>. Se você olhar bem, não é o enredo que importa. Essas reduções do livro que se fazem por aí para vestibulares, essas coisas, são risíveis, porque o bom do livro não é o enredo ou o assunto, mas a elegância da frase, a ironia do autor.</p>
<p>Sempre me perguntam se determinado episódio das minhas crônicas é real ou não. A partir de certo ponto, nem eu sei mais. Juro. <a href="http://videcampos.wordpress.com/2012/02/01/uma-festa-uma-fantasia-uma-blitz/" target="_blank">Na do Zorro</a>, por exemplo, houve uma festa de fantasia que fui de Zorro. Na hora de sair de casa, já atrasado, comecei a rir sozinho, porque não tinha onde guardar o dinheiro que eu ia levar na minha fantasia de Zorro. Também não dava para usar meus óculos com aquela máscara. Eu ainda precisaria dirigir por aí, parar nos sinais e tudo, vestido de Zorro. Aí fui achando graça sozinho, anotei umas ideias, antes de sair de casa, e escrevi uns dias depois. Mas a frase final, do Zorro apanhado pela blitz, é falsa. Inventei e acho engraçadíssima essa parte. Toda vez que releio me pego rindo.</p>
<p><strong>E o tempo da observação, como se dá na correria do dia a dia?</strong><br />
Escritor escreve mesmo quando não está escrevendo. Observa mesmo quando não está observando, mesmo quando os outros acham que ele não está observando, ou mesmo quando nem ele mesmo se dá conta de que está observando.</p>
<p>Às vezes, algo que nem ele achava que sabia surge na escrita. Algo que ele nem (conscientemente) lembrava aparece na escrita. Isso é misterioso e é bonito. Virou lugar comum quase todo escritor dizer que escreve para saber como acaba a história – alguns não acreditam nisso. Eu acredito. Você começa a escrever e muitas vezes não sabe para onde vai ser levado. Eu brinco que as crônicas – as minhas, pelo menos – são o contrário da equação. Uma equação começa e, se for bem feita, leva sempre ao mesmo final. As minhas crônicas nunca levam ao mesmo final, nem mesmo a um final previsível. Ouço muito de certos leitores: “o que eu mais gosto é que suas crônicas parecem que vão por aí, dão uma volta e acabam em outro lugar completamente distinto”. Eu leio e sorrio porque é isso aí mesmo.</p>
<p><strong>Além da observação, o que mais não pode faltar em quem escreve crônica?</strong><br />
Acontece algo engraçado com a crônica. Ela exige algo especial que não sei definir bem. Antonio Candido tem um belíssimo ensaio sobre isso. Há romancistas e poetas geniais que, no entanto, não são bons cronistas. Da mesma forma que Rubem Braga dizia que não tinha absolutamente nenhum talento para escrever romance.</p>
<p>Bem, respondendo objetivamente. Acho que não pode faltar humor. Mas um humor de quem não está fazendo pose, um humor de quem está disposto a sair mal na foto, se preciso. Um olhar diferenciado, um olhar que olha para algo que está ali, mas olha diferente. Sem forçar para olhar diferente, porque senão fica forçado e o leitor percebe, não fica bom.</p>
<p>Minhas crônicas são quase sempre escritas a jato, em poucos minutos. As que demoraram, que exigiram tempo e reflexão, eu geralmente não gosto. Claro que você escreve num jato intuitivo e depois submete aquilo a muita crítica, à reflexão, ao espírito crítico. Eu me divirto muito escrevendo. O melhor de escrever é o momento da escrita, o momento em que o outro lado – seja lá o que isso queira dizer – nos dita coisas, nos permite uma comunicação bela e estranha.</p>
<p><strong>Quais leituras são “obrigatórias” para quem escreve crônica?</strong><br />
Não existem leituras obrigatórias. Não deveriam existir. Em determinado período, Quixote era leitura obrigatória na Espanha. E como era obrigatória, ninguém lia. Só se deve ler por prazer.</p>
<p>E minhas leituras mais prazerosas? Machado de Assis, Rubem Braga e Cecília Meireles.</p>
<p><strong>Hoje, com a produção de textos na rede – blogs, por exemplo – a crônica está em alta? Ou nem tudo o que chamam de crônica é crônica?</strong><br />
Acho que nem tudo o que chamam de crônica é crônica. E mesmo entre aquilo que talvez possa ser crônica, há imensa variação de qualidade. Mas, independentemente desta observação, sim, acho que o gênero está em alta. Aliás, você sabia que a crônica é um gênero literário tipicamente brasileiro? É uma espécie de chorinho, só que escrito.</p>
<p><strong>Você é professor de Direito e também autor de livros de Direito, entre eles, um Manual de Direito do Consumidor. É Procurador da República em Minas, atualmente, Procurador Regional Eleitoral. Conhece bem a nossa realidade, as nossas questões sociais e as nossas dificuldades em relação ao exercício da cidadania. O que nos falta como cidadãos para vivermos melhor, com qualidade de vida, nas grandes cidades, para quem sabe conseguirmos alcançar a poesia da paisagem urbana?</strong><br />
Sempre brinco – e não sei se estou brincando tanto assim – que o que sou mesmo é escritor. É o que me justifica perante mim e perante Deus. Agradeço imensamente a Deus as oportunidades profissionais, sempre tão ricas e abençoadas. Gosto do que faço e gosto, sobretudo, de ser professor.</p>
<p>Acho que nós melhoramos com o tempo – com os anos, com as décadas, com os séculos. Acho, tenho certeza, que estamos entrando numa era nova em 2012. Mas isso não vem ao caso. Acho de todo modo – e penso que isso transparece no que escrevo – que Belo Horizonte é um lugar privilegiado dentro do Brasil e dentro do mundo. Enxergo aqui certa gentileza, certa bondade, certa humildade bonita, sobretudo nas pessoas mais simples.</p>
<p><strong>Como foi fazer a biografia de Dom Helder Câmara, e por que você o escolheu?</strong><br />
Não escolhi, fui escolhido. Escrevi a pedido. Aliás, já ouvi que escritor não gosta de escrever. Gosta de ter escrito. É verdade, mas só às vezes. Gostei imensamente de ter escrito, e só aumentou a imensa admiração que sempre tive por ele. Foi um ser humano admirável. É bacana como existem pessoas boas e más em qualquer religião. Não é, claro, a religião que salva ninguém, e sim o modo como cada um de nós pensa e age.</p>
<p><strong>Você reserva horários para escrever?</strong><br />
Deveria. Acho que isso é o certo. Mas nos últimos anos não fiz isso. 2011 foi, para mim, um ano péssimo, em termos de produtividade na escrita. Sofri muito por isso. Com frequência, confundimos o urgente com o importante. Aí a gente se afunda em um mar de coisas urgentes, mas sem muita importância. E quando o ano acaba você olha pra trás e pensa: meu Deus, o que eu fiz?</p>
<p>Voltando à pergunta: disciplina é fundamental para um escritor. Fundamental. Quem está escrevendo um romance, por exemplo, precisa estar sempre com ele, diariamente, com ou sem a chamada inspiração. Se deixá-lo de lado por muito tempo, quando voltar provavelmente terá perdido o livro e precisará começar de novo.</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/entrevista-felipe-peixoto/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>O violão e o Brasil</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 16:35:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Egg</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[história da música brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Marcia Taborda]]></category>
		<category><![CDATA[violão]]></category>
		<category><![CDATA[violão no Brasil]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha de "Violão e Identidade Nacional", de Marcia Taborda]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8360" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8520010296"><img class="size-full wp-image-8360" title="Violão e identidade nacional" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/violaoidentidade.jpg" alt="" width="200" height="307" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Violão e identidade nacional&quot;, de Marcia Taborda</p></div>
<p>Este livro foi publicado a partir da tese de doutorado da autora, defendida na UFRJ, sob orientação de José Murilo de Carvalho. É um trabalho contraditório, sobrevivente no balanço entre virtudes e defeitos, especialmente pelo fato de ser a primeira, e até agora única, pesquisa sistemática sobre a presença do violão no Brasil e o significado do instrumento na música e na cultura brasileiras.</p>
<p>Estranhamente, o capítulo que tem a discussão bibliográfica e a reflexão teórica sobre cultura brasileira ficou como o último do livro. Seria de se esperar que fosse o primeiro, pois ali estão as leituras e discussões dos autores fundamentais para pensar a questão. Desde comentários de passagens de Aluízio de Azevedo, Machado de Assis e Lima Barreto, indo às discussões de Mário de Andrade e Gilberto Freyre, e chegando à bibliografia atual: Peter Burke e as discussões sobre cultura popular, Nicolau Sevcenko, e o próprio Murilo de Carvalho e o panorama das lutas culturais na Primeira República. Suspeito que a posição dos capítulos mudou entre a tese e a publicação em livro, porque o volume ora publicado simplesmente não tem final. Quero crer que também a autora fez uma revisão, solicitada pela editora, para retirar notas de rodapé e remissões bibliográficas, pois há muita informação no livro que a gente não sabe de onde vem.</p>
<p>Os principais defeitos do livro decorrem da tentativa de discutir temas muito amplos (cultura brasileira, popular <em>versus</em> erudito, América colonial e europeização, papel do rádio e da indústria do disco no surgimento da música popular, etc. etc.), o que acaba resultando em análises superficiais e lacunas bibliográficas. A que melhor lembro é a afirmação da autora de que Machado de Assis dedicou-se aos ambiantes burgueses e nada fala de música popular (&#8220;dos pobres urbanos&#8221; &#8211; p. 170). O que é no mínimo uma imprecisão imperdoável. A autora parece não conhecer contos como &#8220;<a href="http://pt.scribd.com/doc/7037777/Machado-de-Assis-Um-Homem-Celebre" target="_blank">Um homem célebre</a>&#8221; ou &#8220;<a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2009/07/machado_de_assis_e_a_musica_o_machete.php" target="_blank">O machete</a>&#8220;, e menos ainda o <a href="http://www.gazetadopovo.com.br/blog/historiacultural?id=1200380&amp;tit=jose-miguel-wisnik--machado-maxixe:-o-caso-pestana" target="_blank">estudo de José Miguel Wisnik sobre o assunto</a>. Suas considerações sobre a polca e o papel dela na cultura musical do Rio de Janeiro oitocentista, ou mesmo sobre o choro e o maxixe (outros nomes para a mesma polca), teriam sido menos impróprias se ela tivesse consultado o trabalho clássico (e obrigatório) de Carlos Sandroni &#8211; <em>Feitiço decente</em>, um livro sobre as transformações do samba entre 1917 e 33, mas que tem partes muito importantes sobre modinha e sobre o surgimento do maxixe pelo processo de abrasileiramento da polca.</p>
<p>Outro problema é que, além de abordar superficialmente assuntos por demais complexos, a autora também fica num tratamento muito superficial do que deveria ser o objeto principal do trabalho: a produção musical para violão entre meados do século XIX e a década de 1930 no Brasil. Neste aspecto ela não faz mais do que procurar listar os violonistas ativos, faltando um estudo, ainda que superficial, da obra musical destes pioneiros. Suspeito que o medo de empreender tal tarefa tenha decorrido do fato de o doutorado ser em um departamento de história. Tentar não transformar o trabalho em algo cheio da indevassável discussão técnica a partir de partituras acabou resultando no problema oposto: a quase ausência de música. Certamente contribui para isso o fato de que José Murilo de Carvalho, o orientador da pesquisa, apesar de ser um dos mais importantes historiadores brasileiros, não tem nenhum trabalho dedicado a assuntos de música, não podendo dar melhor direcionamento ao trabalho neste sentido.</p>
<p>Tirante estes defeitos teórico-metodológicos, resta um trabalho pioneiro. É o primeiro livro a tratar sistematicamente do violão no Brasil, e avança muito sobre tudo que já havia sido escrito sobre o assunto.</p>
<p>A autora teve o cuidado de fazer investigações na literatura sobre vihuela, alaúde e guitarra na Europa dos séculos XVI a XVIII, para evitar as confusões sobre as variantes dos instrumentos de cordas dedilhadas e a maneira como toda esta literatura musical desembocou na viola e no violão brasileiros. De especial importância é a revisão que a autora faz em traduções da literatura de viajantes, revelando erros fáceis de se incorrer pelo fato de o termo &#8220;violão&#8221; só existir em português &#8211; os correspondentes são <em>guitar</em>, <em>guitarra</em>, <em>guitarre</em>, etimologia que no Brasil ficou restrita à guitarra elétrica que ganhou fama na década de 1950.</p>
<p>Outra coisa que está abordada de maneira sistemática no livro é a relação de violonistas e violeiros ativos no Rio de Janeiro. A partir de consulta ao Almannack Laemmert, a autora elaborou lista dos professores de viola ou violão que anunciaram suas atividades na cidade. Também as lojas/oficinas do instrumento ativas na capital, além dos métodos publicados. Resulta um tanto curiosa a divisão que Marcia Taborda escolheu, pois o livro tem um capítulo para o violão de concerto (uma coisa que praticamente inexistiu no Brasil antes da década de 1960, como ela própria demonstra) e outra para o violão popular &#8211; modinheiro ou chorão. Nesta parte está a pior sensação daquele gostinho de &#8220;quero mais&#8221; para um leitor como eu: a autora elaborou um anexo com a lista de todas as gravações de violão no Brasil em 78 rotações. Ao longo do livro ela demonstra ter tido contato com este material, ou seja, ela não só viu uma lista, mas ouviu os discos, efetivamente. Isso seria a fonte privilegiada para o que deveria ter sido a principal contribuição de seu trabalho. Segundo informa, ela está trabalhando com transcrições em partitura para este material, o que espero ver publicado. Mas, já na tese/livro, teria sido muito interessante um comentário mais detalhado deste obra musical significativa. Isso é o que o livro fica devendo.</p>
<p>De qualquer forma, como sabemos, não há possibilidade de estudo definitivo sobre nenhum assunto neste mundo. O trabalho de Marcia Taborda se posiciona então como uma obra pioneira que abre um vasto campo de estudo para as ciências humanas e a música: o violão no Brasil é um tema que vai demandar ainda muitos estudos específicos sobre violonistas, compositores ou obras (muitos já estão sendo feitos, mas a autora não pretendeu consultar todos). Para todo mundo que for trabalhar com este tema, ou for mero curioso do assunto, o livro é desde já material de consulta obrigatória.</p>
<p>::: <strong><em>Violão e identidade nacional</em></strong> ::: <strong>Marcia Taborda</strong> :::<br />
::: <strong>Civilização Brasileira</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>304 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/23843129/violao+e+identidade+nacional/?franq=265122" target="_blank">compre no Submarino</a> ou <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8520010296" target="_blank">na Livraria Cultura</a> :::</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/violao-e-identidade-nacional-marcia-taborda/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Arrancando o véu que cobre a figura de Paul McCartney</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/02/2012/a-intimidade-de-paul-mccartney-howard-sounes/</link>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 16:30:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Juliana Dacoregio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Heather Mills]]></category>
		<category><![CDATA[Howard Sounes]]></category>
		<category><![CDATA[Jane Asher]]></category>
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		<category><![CDATA[The Beatles]]></category>

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		<description><![CDATA[No fim das contas, Paul é um cara que nunca desistiu. Nem musicalmente, nem na vida amorosa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8364" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8576845253" target="_blank"><img class="size-full wp-image-8364 " title="FAB" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/FAB.jpg" alt="" width="200" height="297" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;FAB: A intimidade de Paul McCartney&quot;, de Howard Sounes</p></div>
<p>Quem costuma enxergar Sir Paul McCartney como o “anjinho” dos Beatles, vai se surpreender com <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8576845253" target="_blank">A intimidade de Paul McCartney</a></em>, de autoria de Howard Sounes. O autor não poupou esforços em sua pesquisa e também não mascarou os defeitos de Paul. Uma biografia que se preze não mostra apenas aquilo que já estamos acostumados a ver. E o que conhecemos <em>en passant</em> sobre Paul é que ele era o beatle simpático, sempre sorridente e nunca disposto a causar problemas. Calma lá! Paul não era um garoto tão doce assim, como sua eterna carinha de &#8220;cachorro que caiu da mudança&#8221; faz parecer. O livro de Sounes retrata isso com esmero.</p>
<p>Como beatlemaníaca que sou e interessada no estudo de personalidades, já havia percebido que o bom mocismo de Paul esconde um grande e diplomático <em>businessman</em>. O tipo de astro que calcula muito bem seus passos e não comete a gafe de ser antipático com fãs ou com a imprensa, pois conhece os riscos envolvidos. É exatamente o que confirma a biografia de Sounes. Lá encontramos não apenas um retrato do artista ou do que ele sempre pretendeu vender como sua personalidade, mas fatos e relatos que trazem à tona o homem James Paul McCartney, nascido em uma família humilde, porém bastante artística. Esse é um dos inúmeros fatos surpreendentes de <em>FAB</em>; Paul não era de uma classe mais alta que John Lennon, como poderia parecer pela educação esmerada do primeiro. Apesar de John ter se engajado nas lutas sociais e gostar de ser reconhecido como um cara da classe trabalhadora, quando criança Paul era muito menos abastado que Lennon. A diferença é que Paul nunca fez questão de ressaltar isso e era bastante ambicioso. Uma característica bem explicada no livro. Até mesmo em suas relações de amizade &#8212; e em certo período até nas amorosas (como exemplo, o longo relacionamento com Jane Asher, uma atriz de família londrina, culta e de posses) &#8212; Paul se envolvia com pessoas que pudessem enriquecê-lo culturalmente, já que financeiramente ele o fez por seus próprios méritos.</p>
<p>Não que os modos agradáveis e a amabilidade de Paul sejam pura fachada. Ele realmente era um rapaz bem educado, mas nem de longe o “beatle gente boa” que aqueles que conhecem superficialmente a banda podem imaginar. A biografia mostra as características que provam isso, mas sem julgamentos de valor. Afinal, o biografado é apenas humano, e é ótimo ler algo que nos deixe perceber as nuances de alguém que parece sempre tão perfeito.</p>
<p>A genialidade de Paul, sua carreira como compositor e seu interesse por música clássica, erudição e cultura também não são deixados de lado, mostrando o desenvolvimento de sua habilidade para criar belas melodias. Quem deseja conhecer mais do lado profissional do eterno Beatle não vai se decepcionar. Porém, não há observações muito extensas a respeito da relação dele com George e Ringo (o autor foca mais na relação de companheirismo e rixas entre Lennon e McCartney).</p>
<p>As mulheres são um capítulo à parte na vida de Paul. Claro que eu não imaginava que ele fosse um santo, afinal um ídolo do rock é cercado de mulheres. Mas admirei-me ao ficar por dentro dos detalhes de sua vida bastante libertina, digamos assim. Fidelidade, realmente, não era um de seus fortes, ao menos durante a fase de ouro da banda, antes de conhecer Linda Eastman, que seria sua mulher por muitos anos. Mas algo que muitos dos fãs desconhecem é que ele sempre teve namoros longos e que viveu por cinco anos com uma garota antes de enfim se casar com Linda. Falando nela, há fatos curiosos sobre essa mulher que fez parte tão fortemente da vida do beatle e influenciou-o a ponte de transformá-lo em um pai de família devotado, fiel e vegetariano (apesar de um assíduo consumidor de maconha, inclusive nas turnês do Wings em que os filhos estavam quase sempre presentes). Aliás, a biografia de Paul não deixa de ser também uma biografia de Linda, revelando muito de sua personalidade.</p>
<div id="attachment_8366" class="wp-caption alignnone" style="width: 460px"><img class="size-full wp-image-8366" title="Paul e Linda McCartney" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/paul-linda-mccartney.jpg" alt="" width="450" height="300" /><p class="wp-caption-text">- Paul e Linda McCartney -</p></div>
<p>O livro de Sounes não é &#8220;chapa-branca&#8221;, como ele mesmo define, ou seja, não foi feito com a colaboração de Paul, apesar de o autor ter usado várias de suas declarações dadas em entrevistas, livros, revistas, documentários e uma infinidade de outros meios através dos quais McCartney se expressou. Mas o número de contribuições de pessoas ligadas ao músico é imenso. Foram mais de 200 entrevistados, incluindo familiares, colegas, funcionários, groupies, enfim, agregados em geral. Uma pesquisa extensa &#8211; que vai desde outras biografias até documentos jurídicos, passando por programas de TV importantes e fanzines &#8211; foi realizada para que <em>A intimidade de Paul McCartney</em> trouxesse tantos detalhes até então desconhecidos do grande público. Drogas, mulheres, filhos ilegítimos, períodos de depressão, agressividade, amor pela família, generosidade, carisma, mudanças de rumo ao longo da vida: tudo lá, registrado pelas mãos do biógrafo.</p>
<p>A origem de várias canções compostas por Paul também é esmiuçada, portanto é possível conhecer o processo criativo do músico. Além de sua incansável pró-atividade e seu quinhão de responsabilidade nos sucessos dos Beatles. Creio que o livro é o relato mais sincero que já li a respeito de sua vida, apresentando o crescimento do homem e da figura pública, desmistificando o ídolo de gerações que ainda hoje tem a fama de bonzinho e simpático. Tal leitura me fez enxergar vários lados de Paul, desde sua inocência e insegurança, até sua esporádica crueldade e espírito dominador. Temos um retrato dele desde seu nascimento até o ano de 2009; portanto, seu casamento fracassado com a interesseira Heather Mills, que lhe fez perder parte da fortuna num processo de divórcio, também se fazem presentes.</p>
<p>Para a gente amar de verdade uma pessoa, precisamos conhecê-la de verdade: defeitos, qualidades, manias; e aceitar que ninguém nunca vai ser exatamente aquilo que esperamos ou imaginamos que seja. Pois bem, com essa biografia pude conhecer bem mais de Paul McCartney. Confesso que quando recebi o livro para resenhar não sabia que havia tanto mais para saber a respeito dele. Eu já tinha certa imagem, que julgava não estar muito longe da verdade. Mas fui bastante surpreendida! Meu coraçãozinho ingênuo de beatlemaníaca não acreditava que Paul fosse Sua Santidade, mas, sinceramente, minhas percepções sobre ele foram alteradas ao longo do livro. Apesar de Howard Sounes ter me feito descobrir o quanto Paul poderia ser “safadinho”, controlador e metido a intelectual, também conheci seu lado generoso, familiar e bem intencionado. Agora conheço mais desse que não é meu beatle favorito (após a leitura, concluí que sou mais John), mas sou grata pelas descobertas proporcionadas por Sounes. No fim das contas, Paul é um cara que nunca desistiu. Nem musicalmente (mesmo com os fracassos do início da carreira solo e com os Wings), nem na vida amorosa.</p>
<p>Leia <em>A intimidade de Paul McCartney</em> e corra o risco de passar a odiá-lo, amá-lo ainda mais ou, como eu, percebê-lo como alguém brilhante, mas cheio de erros, embora sempre se recusando a largar o osso de “ser um astro”, como profetizou desde criança.</p>
<p>::: <strong><em>FAB: A intimidade de Paul McCartney</em></strong> ::: <strong>Howard Sounes</strong> (trad. Patricia Azeredo) :::<br />
::: <strong>Best Seller</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>700 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8576845253" target="_blank">compre na Livraria Cultura</a> :::</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/a-intimidade-de-paul-mccartney-howard-sounes/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Yu Hua, o Graciliano deles (por aí)</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 16:25:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Lopes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura chinesa contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[Yu Hua]]></category>

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		<description><![CDATA[Apesar da tragédia social, continua havendo humor nas páginas do autor chinês]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8346" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920005" target="_blank"><img class="size-full wp-image-8346 " title="Crônica de um vendedor de sangue" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/cronicadeumvendedor.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Crônica de um vendedor de sangue&quot;, de Yu Hua</p></div>
<p>Ler este romance é estar sempre consciente da máxima tolstoiana sobre famílias felizes e famílias infelizes. E mais. É imaginar que, se o encontro literário entre famílias felizes é quase sempre causa de ataques de sono, o encontro entre famílias infelizes é o exato oposto. Não menos porque, isso mesmo, cada encontro entre duas famílias infelizes é trágico à sua maneira.</p>
<p>A ambientação ajuda bastante: estamos na China maoista. Os efeitos de algumas das mais insanas políticas econômicas e culturais da história da espécie vão em breve entrar nos lares de <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920005" target="_blank">Crônica de um vendedor de sangue</a></em>. Mas, como se isso não fosse desgraça suficiente, os personagens de Yu Hua ainda vão se impor misérias. Nós temos três personagens centrais. O operário e patriarca Xu Sanguan é o doador do título. Xu Yulan é sua esposa, que, quando não está tendo um ataque de nervos, está à beira de ter um. Juntos, eles tiveram três filhos homens – por ordem de nascença: Yile, Erle, Sanle.</p>
<p>Mas&#8230; não. Não é tão simples assim. Antes de casar com Sanguan, Yulan literalmente levou uns amassos de He Xiaoyong, com quem ia se casar, não tivesse Sanguan se engraçado dela e abordado o futuro sogro com uma proposta melhor que a de Xiaoyong. Sanguan era um sujeito de mais posses. Sobrou para Xiaoyong uma mulher franzina, com a qual teve duas filhas. Entretanto, ao nascer o primogênito de Sanguan, este acha o moleque nada parecido consigo mesmo. A cena em que ele alinha os três meninos para examinar-lhes as feições e comparar com a sua própria refletida num espelho é inesquecível. Não sem um bocado de má vontade para com a mulher, Sanguan conclui que Yile é filho de Xiaoyong com Yulan. O que Xiaoyong não aceita. O menino será então empurrado de uma casa para outra, até que de alguma forma se acomoda na casa de Sanguan, mas nem sempre tratado em pé de igualdade com os outros dois irmãos, ou meio irmãos, se a teoria de Sanguan estiver correta.</p>
<p>Então temos aí os três personagens principais: Sanguan, Yulan e o desprezado Yile. E temos as duas famílias cheias de intriga e que chegam a interagir na base dos tabefes. Sanguan diz aos meninos como quer que imprimam sofrimento ao patriarca rival: “Vocês sabem quem são as filhas de He Xiaoyong, não sabem? Sabem. Sabem o nome delas? Não? Não importa, desde que as reconheçam. Lembrem-se: quando vocês forem grandes, quero que violentem as filhas de He Xiaoyong por mim.” Isso não ocorre, mas talvez apenas porque a narrativa não se estende o suficiente.</p>
<p>Xu Sanguan negocia seu sangue pela primeira vez no embalo da venda de dois amigos a quem fazia companhia. Não havia necessidade extrema para tanto. Nem em uma vez seguinte, para falar a verdade – com o dinheiro arrecadado na oportunidade, ele compra alguns quilos de alimento para uma amiga de trabalho (casada), a qual por sua vez amassará. Em breve ele terá que vender sangue ao diretor do hospital local, um membro do PCC, por um motivo menos divertido que presentear uma amante em potencial: ter o suficiente para que a família não morra de fome. Como isso ocorrerá em pleno período da Grande Fome, é muito difícil o leitor apostar que ele terá sucesso na batalha, por mais sangue que venda.</p>
<div id="attachment_8347" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-8347" title="Yu Hua" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/yu-hua.jpg" alt="" width="300" height="297" /><p class="wp-caption-text">- O autor -</p></div>
<p>A Fome irrompe nas páginas do realista Yu Hua como irromperia uma nevasca ou um terremoto. Começa o capítulo 18: “Xu Sanguan disse a Xu Yulan: &#8216;Estamos em 1958. (…) Daqui em diante, parece, ninguém mais vai ser dono de sua própria terra. Todas as terras pertencem ao Estado. Quem quiser plantar vai ter de alugar a terra deles, e quando chegar a colheita também será obrigado a dar parte do cereal ao Estado.&#8217;” O capítulo 19 é dedicado à festa de aniversário de Sanguan, que diz aos filhos: “O que eu pergunto é: o que vocês querem comer de verdade? Como é meu aniversário, vou preparar com a minha boca uma refeição para cada um, e vocês vão comer com os ouvidos. Não vão poder comer com a boca porque não existe nada para comer, mas apurem os ouvidos, porque a qualquer momento vou começar a cozinha. Cada um pode pedir qualquer coisa.” No capítulo 20, Sanguan está exaurido demais até para jogos de imaginação: “Dizem que quem passa fome deve completar a alimentação com sono. Eu vou dormir.” O livro tem 29 capítulos. No capítulo 25, irrompe a Revolução Cultural.</p>
<p>Enquanto houver comida para render-lhes energia para brigar e enquanto nenhuma tragédia familiar lhes roubar a atenção, Sanguan, Xiaoyong e as respectivas esposas continuarão lavando suas roupas sujas fora de casa. No meio da rua, para toda a cidadezinha tomar conhecimento – “se Xu Yulan passa três dias sem se sentar na soleira da porta e armar um escândalo”, diz o narrador, “ela começa a se sentir desconfortável, como se estivesse com prisão de ventre há uma semana.”</p>
<p>Apesar da tragédia social que se aproxima, e mesmo quando ela já está em cena, continua havendo humor em Yu Hua. Uma lembrança forte é Graciliano Ramos. O menino Yile pode ser apenas miséria ambulante, em sua condição de possível bastardo e futuro membro de um campo de reeducação, mas os adultos à sua volta, principalmente Sanguan, possuem tanta rabugice que chega a ser engraçado. O Paulo Honório de <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501066656" target="_blank">S. Bernardo</a></em>, também envolto em tragédias, também hilário em seu comportamento, se me apresentou em vários momentos para fazer companhia a Xu Sanguan. E se isso não bastar para que você leia Yu Hua, paciência.</p>
<p>::: <strong><em>Crônica de um vendedor de sangue</em></strong> ::: <strong>Yu Hua</strong> (trad. Donaldson M. Garschagen) :::<br />
::: <strong>Companhia das Letras</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>272 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920005" target="_blank">compre na Livraria Cultura</a> :::</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/cronica-de-um-vendedor-de-sangue-yu-hua/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Melancolia libertadora</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 16:30:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Juliana Dacoregio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoalidade]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Lars von Trier]]></category>
		<category><![CDATA[melancolia]]></category>

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		<description><![CDATA[Às vezes é preciso se deixar levar quando não se sabe para onde ir, como a protagonista de Von Trier]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8323" title="Melancolia" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/melancholia.jpg" alt="" width="500" height="281" /></p>
<p>Ao terminar de assistir o último filme de Lars Von Trier eu estava embevecida. Ainda estou, na verdade. Impossível não ficar hipnotizada e refletindo sobre toda aquela história, repassando as cenas mentalmente e buscando compreender as metáforas. Não me atrevo a chegar a simples conclusões. Desfechos explicativos não se aplicam a <em><a title="Os afetos em “Melancolia”, de Lars von Trier" href="http://www.amalgama.blog.br/10/2011/afetos-melancolia-lars-von-trier/">Melancolia</a></em>, assim como não é possível definir ao certo o que é esse sentimento que dá nome ao filme.</p>
<p>Quem não está acostumado com filmes de arte, mais lentos e introspectivos (ou seja, a maioria de nós, e me incluo nessa), pode ficar a fim de desistir de <em>Melancolia</em> logo nos minutos iniciais. São cenas dos personagens em situações como que de sonhos, em que a realidade não manda. Cenas em câmera lenta, mas tão lentas que quase parecem retratos que se movem diante de uma ilusão de ótica. Imagens lindas que não vão fazer sentido para quem ainda não sabe do que se trata o filme e nem ao menos leu a sinopse (meu caso). Mas ao longo do filme, tão vagarosamente quanto as cenas em <em>slow motion</em>, vamos compreendendo do que se tratam. E dessa forma, como num filme de suspense ao contrário, elas vão revelando o que virá a seguir.</p>
<p>O estado psicológico de Justine, personagem vivida por Kirsten Dunst, é intrigante: uma falta de chão levada ao extremo. No início do filme ela parece feliz, como se supõe que qualquer mulher recém-casada deva estar. Mas sua falta de ansiedade diante do atraso em chegar à festa de casamento e suas primeiras atitudes já no local da recepção denunciam certa indiferença. Recepção esta organizada minunciosamente por sua irmã Claire &#8211; interpretada por Charlote Gainsbourg, é bom frisar. No início, uma indiferença divertida, mas pouco a pouco vamos percebendo que seus sorrisos se tornam mais e mais mecânicos, ao ponto de em certa parte da história, ao ser confrontada sobre o fato de não estar feliz, ela afirma, “eu sorrio e sorrio e sorrio”, mostrando que está tentando arduamente cumprir seu papel. As reações de Justine vão saindo de controle, até que a confusão interna toma conta e se torna visível. Ela está claramente deprimida e infeliz. Finge até onde pode, mas em certo momento já não sabemos se ela quer parar de fingir ou se, simplesmente, não consegue mais. Provavelmente uma mistura das duas coisas. Quem já sofreu de depressão compreende a apatia e os comportamentos desconexos da personagem. Quem já experimentou uma melancolia avassaladora sabe o quanto é difícil manter-se constante e até mesmo decidida a respeito do que realmente se quer.</p>
<p>De todo modo, mesmo que constrangedoramente, o comportamento de Justine durante seu próprio casamento representa uma libertação. Fez-me lembrar de meu próprio casamento, quando, muito jovem, rumei em direção ao altar com uma leve sensação de perda. Durante a ida de carro até à igreja (tudo como manda a tradição, junto com meu pai e um motorista), o que eu queria era dar meia volta. Fui segurando a mão de meu pai como quem caminha rumo ao apocalipse, porém com uma falsa calma, tentando me convencer de que tudo aquilo era apenas um nervosismo natural. Não agi como Justine, mas poderia tê-lo feito. No fundo eu representava um papel. Claro que não sabia disso, não conscientemente. Meus temores foram eclipsados pelas normas da situação. Fiz o que era esperado de mim. Mas Justine, não. Tudo nela é inesperado, como um cavalo que de domesticado passa à selvagem, como os pássaros quando prenunciam uma tempestade. Não é à toa que em certos momentos do filme a garota não consegue mais domar seu próprio cavalo e se frustra por não conseguir fazer com que ele atravesse uma pequena ponte. O animal se recusa mesmo às chicotadas. Recusa-se a ponto de tombar sobre as quatro patas. Uma clara metáfora: Justine igualmente não consegue atravessar suas próprias pontes, nem seguir em frente. E é esse modo selvagem de Justine durante seu casamento, agindo por impulsos indecisos, que se apresentou como libertador a meu ver. Ela não seguiu o protocolo. Sim, ela decepcionou a todos e nem mesmo deu mostras de estar feliz com sua &#8220;rebeldia&#8221;, mas fez o que quis. Ou deixou de fazer o que não queria.</p>
<p>E assim também se comportou o planeta Melancolia. Quando a dor começa a fazer com que você deslize em direção ao fundo, é impossível pará-la. Exatamente o que aconteceu ao planeta. Então, diante da tragédia iminente, o comportamento de Justine vai se alterando. No início da segunda parte, nada mais faz sentido para ela. O banho que ela tanto gostava se torna um sacrifício grande demais, a comida perde o gosto e o ciclo que começou no casamento se completa.</p>
<p>Porém, quanto mais próxima se torna a possibilidade de um apocalipse, mais ela vai se reerguendo. Ainda apática, porém resignada, séria e sábia. Pessimista, talvez. O que apavora sua irmã Claire, que teme a passagem deste estranho planeta pela órbita da Terra. Apesar de o marido de Claire tentar tranquilizá-la, afirmando que não há perigo de uma colisão, Claire passa os dias com aquele pavor entalado na garganta. Logo ela, o único membro bem ajustado da família (já que a mãe é amarga e o pai, inconstante), começa a dar sinais de que não tem tudo tão sob controle, como aparentara no início da projeção. Talvez sua organização externa apenas esconde o caos que havia em seu interior. Claire aparenta ser alguém que esconde suas angústias tentando manter sua vida &#8211; e as daqueles que a cercam &#8211; numa órbita previsível e constante. A imprevisibilidade do planeta que se aproxima tira-a do eixo, enquanto desmancha a agitação depressiva de Justine.</p>
<p>Nesse ponto elas se assemelham, apesar de em momentos diferentes. O que estava em Justine &#8211; a dúvida, o medo, a hesitação &#8211; se mostra presentes em Claire. A prova viva de que sob toda fachada de equilíbrio sempre há mais do que se possa imaginar.</p>
<p><em>Melancolia</em> é um filme denso. Recomendaram-me dizendo que era angustiante. E é. Mas não foi a angústia o sentimento que se apoderou de mim ao assisti-lo. Na verdade, me enxerguei em cada personagem, todos repletos de complexidade, como todo ser humano. Esse é mais do que um filme para ser assistido. É para ser experimentado, vivenciado. Dentre todas as evocações que provocou, as principais foram libertação e calmaria. Às vezes é preciso se deixar levar quando não se sabe para onde ir. Como fez Justine em seu casamento. Não se deixar levar pelas expectativas dos outros, mas pelos impulsos, por mais descabidos que eles possam parecer. Afinal, tudo acaba em Melancolia. E mesmo que não se acabe, a vida não é para sempre, só que esquecemos isso o tempo todo e vamos seguindo as convenções. O problema é que Melancolia chega e pode fazer tudo explodir. Por dentro ou por fora. E aí? De que adiantou seguir o roteiro?</p>
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