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	<title>Amálgama &#187; Cinema</title>
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	<description>Revista digital de atualidade e cultura</description>
	<lastBuildDate>Fri, 10 Feb 2012 17:14:36 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Precisamos Falar Sobre o Kevin</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/02/2012/precisamos-falar-sobre-o-kevin/</link>
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		<pubDate>Fri, 10 Feb 2012 16:38:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Al Izdihar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Lynne Ramsay]]></category>
		<category><![CDATA[psicopatia]]></category>

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		<description><![CDATA[Lynne Ramsay, diretora e roteirista, seguiu a perspectiva do livro, mas o foco recai em outro personagem]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8450" title="Precisamos falar sobre Kevin" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/kevin.jpg" alt="" width="480" height="320" /></p>
<p>Vejam se sentem a diferença entre as duas frases seguintes:</p>
<p><em>A estória de um psicopata e o sofrimento que seus atos causam em sua mãe.</em></p>
<p><em>A estória de uma mãe que sofre as consequências dos atos de um filho psicopata.</em></p>
<p>Quando se fala em estórias de psicopatas no cinema, sabemos que o tema está batido, a argumentação é previsível, se bem que sempre interessante. Quando você considera a primeira frase como uma sinopse do enredo, a narrativa inclusive soa muito simples. Mas já a segunda&#8230; Concorda que você para e pensa um pouco mais? De qualquer modo, é possível prever alguns lances.</p>
<p>Hitchcock já dizia que um filme de suspense não precisa de uma boa estória e sim de um excelente narrador. Se você pegar os enredos do mestre do suspense vai ver que eles são extremamente simples, mas a maneira como ele os contava – com todos os pingos de genialidade de que foi capaz – era fascinante.</p>
<p>Em sua incursão no mundo dos longa-metragens a escocesa <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Lynne_Ramsay" target="_blank">Lynne Ramsay</a> consegue, com <em><a title="trailer" href="http://www.youtube.com/watch?v=gmMZUqQqWqQ" target="_blank">Precisamos falar sobre o Kevin</a></em>, congelar os corações, com uma narração não-linear, nenhuma carga piegas, tensa e com pitadas irônicas embaladas por música country quase cômica.</p>
<p>Adaptado do <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8598078263" target="_blank">livro de mesmo nome</a> de Lionel Shriver, este filme é mais um exemplo da liberdade inerente ao cineasta na hora de fazer uma obra baseada em literatura. Aliás, eu prefiro usar o termo traduzido do inglês, quando discutimos crítica de cinema “versão cinematográfica” (<em>filmic version</em>), por ser mais adequado e fugir da maldição da <em>fidelidade</em> imposta por alguns críticos e muitos espectadores. Sim, pois mesmo com toda intenção em ser <em>fiel</em> ao livro, é impossível para o cineasta tal façanha por vários motivos, mas podemos resumir em dois: 1) os veículos livro e filme são diferentes, havendo coisas num livro incapazes de serem transformadas em imagens, e 2) a leitura do livro feita pelo roteirista é uma, e a do diretor é outra &#8212; a partir daí as duas leituras se aproximam e se chocam, sofrendo adaptações para que se transformem em filme e seja lançado no mercado de forma adequada.</p>
<p>E ao que parece Lynne Ramsay, diretora e também roteirista deste filme, seguiu a perspectiva do livro, mas o foco para ela recai em outro personagem. No livro o foco é Kevin, no filme é Eva, sua mãe. E aí entram os recursos para se ganhar leitor e espectador.</p>
<p>No livro a autora usa o recurso das cartas de Eva escritas ao marido falando sobre o filho numa retrospectiva histórica, na tentativa de achar um porquê ou culpado para a psicopatia de Kevin. Este recurso é a ferramenta do suspense. No filme Ramsay usa o conhecido <em>flashback</em> sem avisos de corte misturado com o presente, em que o espectador vai descobrindo os segredos ponto a ponto. E, para isso, a diretora abusa das técnicas que domina bem, já que foi operadora de câmera: <em>closes</em> fechados, pontos de vista dramáticos, cortes rápidos aliados a <em>takes</em> agonicamente lentos em outros momentos.</p>
<p>Em ambas narrativas a história de Kevin é contada através da perspectiva da mãe. Porém, no livro o foco é Kevin e sua psicopatia, enquanto Eva questiona em alguns poucos momentos se algumas de suas próprias atitudes contribuíram para o caráter e/ou comportamento do filho. Ali não é dada a Kevin uma voz direta, portanto dependendo da leitura há uma abertura para se questionar ou não Eva. Eva é escritora e maneja muito bem as palavras, deixando margem inclusive para se questionar sua própria sanidade e uma dose de frieza para contar os fatos.</p>
<p>Já no filme Eva é bastante clara a respeito da sua recusa à maternidade e mesmo que o filme não afirme categoricamente que ela seria a culpada pelo distúrbio de Kevin, suas atitudes jamais passam despercebidas, sequer são inquestionáveis. A Eva do filme se isenta claramente de Kevin e mesmo com remorso ou se sentindo culpada, não consegue interagir com ele. Kevin tem voz e ação claras no filme, mesmo que dentro das memórias de Eva, mas que para nós são mostradas como os fatos em si, montando o quebra cabeças. E muito embora o espectador possa comprar facilmente que a culpa é de Eva, há vários elementos que não permitem o veredicto, incluindo uma cena rápida, mas muito pertinente: na noite de concepção de Kevin, células aparecem se juntando de um modo estranho sugerido pela trilha sonora, já indicando que há algo errado e inato em Kevin.</p>
<p>A narrativa cinematográfica deste argumento faz referência indireta e cuidadosa nas causas da psicopatia dita por profissionais: mais provavelmente uma soma de aspectos genéticos, neurológicos e sociais. No mais, <em>Precisamos falar sobre o Kevin</em> pode também levantar muitos debates interessantes sobre família, maternidade, males da sociedade moderna, entre outros.</p>
<p>Lynne Ramsay conseguiu sim fazer de um argumento simples e batido um bom suspense, ainda se dando ao luxo para o sarcasmo. E confie que tudo o que eu disse não estragou as surpresas e você pode ver para crer. Bom filme, bom entretenimento, mas&#8230; por enquanto, Hitchcock só existiu um mesmo.</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/precisamos-falar-sobre-o-kevin/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Melancolia libertadora</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/02/2012/melancolia-libertadora/</link>
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		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 16:30:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Juliana Dacoregio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoalidade]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Lars von Trier]]></category>
		<category><![CDATA[melancolia]]></category>

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		<description><![CDATA[Às vezes é preciso se deixar levar quando não se sabe para onde ir, como a protagonista de Von Trier]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8323" title="Melancolia" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/melancholia.jpg" alt="" width="500" height="281" /></p>
<p>Ao terminar de assistir o último filme de Lars Von Trier eu estava embevecida. Ainda estou, na verdade. Impossível não ficar hipnotizada e refletindo sobre toda aquela história, repassando as cenas mentalmente e buscando compreender as metáforas. Não me atrevo a chegar a simples conclusões. Desfechos explicativos não se aplicam a <em><a title="Os afetos em “Melancolia”, de Lars von Trier" href="http://www.amalgama.blog.br/10/2011/afetos-melancolia-lars-von-trier/">Melancolia</a></em>, assim como não é possível definir ao certo o que é esse sentimento que dá nome ao filme.</p>
<p>Quem não está acostumado com filmes de arte, mais lentos e introspectivos (ou seja, a maioria de nós, e me incluo nessa), pode ficar a fim de desistir de <em>Melancolia</em> logo nos minutos iniciais. São cenas dos personagens em situações como que de sonhos, em que a realidade não manda. Cenas em câmera lenta, mas tão lentas que quase parecem retratos que se movem diante de uma ilusão de ótica. Imagens lindas que não vão fazer sentido para quem ainda não sabe do que se trata o filme e nem ao menos leu a sinopse (meu caso). Mas ao longo do filme, tão vagarosamente quanto as cenas em <em>slow motion</em>, vamos compreendendo do que se tratam. E dessa forma, como num filme de suspense ao contrário, elas vão revelando o que virá a seguir.</p>
<p>O estado psicológico de Justine, personagem vivida por Kirsten Dunst, é intrigante: uma falta de chão levada ao extremo. No início do filme ela parece feliz, como se supõe que qualquer mulher recém-casada deva estar. Mas sua falta de ansiedade diante do atraso em chegar à festa de casamento e suas primeiras atitudes já no local da recepção denunciam certa indiferença. Recepção esta organizada minunciosamente por sua irmã Claire &#8211; interpretada por Charlote Gainsbourg, é bom frisar. No início, uma indiferença divertida, mas pouco a pouco vamos percebendo que seus sorrisos se tornam mais e mais mecânicos, ao ponto de em certa parte da história, ao ser confrontada sobre o fato de não estar feliz, ela afirma, “eu sorrio e sorrio e sorrio”, mostrando que está tentando arduamente cumprir seu papel. As reações de Justine vão saindo de controle, até que a confusão interna toma conta e se torna visível. Ela está claramente deprimida e infeliz. Finge até onde pode, mas em certo momento já não sabemos se ela quer parar de fingir ou se, simplesmente, não consegue mais. Provavelmente uma mistura das duas coisas. Quem já sofreu de depressão compreende a apatia e os comportamentos desconexos da personagem. Quem já experimentou uma melancolia avassaladora sabe o quanto é difícil manter-se constante e até mesmo decidida a respeito do que realmente se quer.</p>
<p>De todo modo, mesmo que constrangedoramente, o comportamento de Justine durante seu próprio casamento representa uma libertação. Fez-me lembrar de meu próprio casamento, quando, muito jovem, rumei em direção ao altar com uma leve sensação de perda. Durante a ida de carro até à igreja (tudo como manda a tradição, junto com meu pai e um motorista), o que eu queria era dar meia volta. Fui segurando a mão de meu pai como quem caminha rumo ao apocalipse, porém com uma falsa calma, tentando me convencer de que tudo aquilo era apenas um nervosismo natural. Não agi como Justine, mas poderia tê-lo feito. No fundo eu representava um papel. Claro que não sabia disso, não conscientemente. Meus temores foram eclipsados pelas normas da situação. Fiz o que era esperado de mim. Mas Justine, não. Tudo nela é inesperado, como um cavalo que de domesticado passa à selvagem, como os pássaros quando prenunciam uma tempestade. Não é à toa que em certos momentos do filme a garota não consegue mais domar seu próprio cavalo e se frustra por não conseguir fazer com que ele atravesse uma pequena ponte. O animal se recusa mesmo às chicotadas. Recusa-se a ponto de tombar sobre as quatro patas. Uma clara metáfora: Justine igualmente não consegue atravessar suas próprias pontes, nem seguir em frente. E é esse modo selvagem de Justine durante seu casamento, agindo por impulsos indecisos, que se apresentou como libertador a meu ver. Ela não seguiu o protocolo. Sim, ela decepcionou a todos e nem mesmo deu mostras de estar feliz com sua &#8220;rebeldia&#8221;, mas fez o que quis. Ou deixou de fazer o que não queria.</p>
<p>E assim também se comportou o planeta Melancolia. Quando a dor começa a fazer com que você deslize em direção ao fundo, é impossível pará-la. Exatamente o que aconteceu ao planeta. Então, diante da tragédia iminente, o comportamento de Justine vai se alterando. No início da segunda parte, nada mais faz sentido para ela. O banho que ela tanto gostava se torna um sacrifício grande demais, a comida perde o gosto e o ciclo que começou no casamento se completa.</p>
<p>Porém, quanto mais próxima se torna a possibilidade de um apocalipse, mais ela vai se reerguendo. Ainda apática, porém resignada, séria e sábia. Pessimista, talvez. O que apavora sua irmã Claire, que teme a passagem deste estranho planeta pela órbita da Terra. Apesar de o marido de Claire tentar tranquilizá-la, afirmando que não há perigo de uma colisão, Claire passa os dias com aquele pavor entalado na garganta. Logo ela, o único membro bem ajustado da família (já que a mãe é amarga e o pai, inconstante), começa a dar sinais de que não tem tudo tão sob controle, como aparentara no início da projeção. Talvez sua organização externa apenas esconde o caos que havia em seu interior. Claire aparenta ser alguém que esconde suas angústias tentando manter sua vida &#8211; e as daqueles que a cercam &#8211; numa órbita previsível e constante. A imprevisibilidade do planeta que se aproxima tira-a do eixo, enquanto desmancha a agitação depressiva de Justine.</p>
<p>Nesse ponto elas se assemelham, apesar de em momentos diferentes. O que estava em Justine &#8211; a dúvida, o medo, a hesitação &#8211; se mostra presentes em Claire. A prova viva de que sob toda fachada de equilíbrio sempre há mais do que se possa imaginar.</p>
<p><em>Melancolia</em> é um filme denso. Recomendaram-me dizendo que era angustiante. E é. Mas não foi a angústia o sentimento que se apoderou de mim ao assisti-lo. Na verdade, me enxerguei em cada personagem, todos repletos de complexidade, como todo ser humano. Esse é mais do que um filme para ser assistido. É para ser experimentado, vivenciado. Dentre todas as evocações que provocou, as principais foram libertação e calmaria. Às vezes é preciso se deixar levar quando não se sabe para onde ir. Como fez Justine em seu casamento. Não se deixar levar pelas expectativas dos outros, mas pelos impulsos, por mais descabidos que eles possam parecer. Afinal, tudo acaba em Melancolia. E mesmo que não se acabe, a vida não é para sempre, só que esquecemos isso o tempo todo e vamos seguindo as convenções. O problema é que Melancolia chega e pode fazer tudo explodir. Por dentro ou por fora. E aí? De que adiantou seguir o roteiro?</p>
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		<title>O Garoto da Bicicleta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/11/2011/o-garoto-da-bicicleta-filme/</link>
		<comments>http://www.amalgama.blog.br/11/2011/o-garoto-da-bicicleta-filme/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 28 Nov 2011 15:50:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuela Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Cécile de France]]></category>
		<category><![CDATA[cinema francês]]></category>
		<category><![CDATA[Jean-Pierre Dardenne]]></category>
		<category><![CDATA[Luc Dardenne]]></category>
		<category><![CDATA[Thomas Doret]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais que um filme de abandono, este é um filme de acolhimento puro e simples, o que o torna tão belo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-7670" title="O Garoto da Bicicleta" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2011/11/garotobicicleta.jpg" alt="" width="460" height="307" /></p>
<p>Acompanhar a trajetória de um menino de 12 anos, Cyril (incrivelmente interpretado por Thomas Doret), abandonado em um orfanato sem nem ser avisado pelo próprio pai &#8212; que, além de tudo, vende a bicicleta do filho antes de fugir &#8211;, não é nada fácil. Principalmente porque o garoto, como faria qualquer criança, continua na busca pelo amor do pai, que o espectador mais astuto já sabe que não será encontrado.</p>
<p>É bem compreensível a resistência do menino em aceitar a renúncia do pai, mas ainda assim assistir aos efeitos colaterais que recaem sobre Cyril dói demais. Além da decepção, a agressividade é o primeiro deles, seguido de um desdém ambíguo em relação àqueles que tentam ajudá-lo. Ambíguo porque quem pede à desconhecida que resgata sua bicicleta para que o receba nos finais de semana é ele mesmo e, depois que ela inexplicavelmente aceita o pedido e se torna devota ao menino (prefere-o ao namorado), ele demonstra toda sua rebeldia e ameaça a trocar de tutor, optando por um rapaz que vive de delitos mas que tem uma origem semelhante à sua e tenta seduzi-lo para o mau caminho.</p>
<p>É um filme cheio de “quases”: o menino quase fica sem a bicicleta diversas vezes, quase se rende ao mundo dos crimes e quase desistimos de acreditar que ele ainda tem solução. Eu confesso que suspirei aliviada todas as vezes em que esses “quases” não se concretizaram. A esperança vem da força que a já não desconhecida Samantha (Cécile de France – a mesma, mas amadurecida, de <em>Um lugar na platéia</em>) tem para lidar com as durezas na vida do menino; é como se ela tivesse uma cartilha indicando as melhores atitudes em cada momento e conseguisse seguir tudo à risca sem deixar as emoções atrapalharem o processo. Uma mãe não conseguiria tal feito. Para ela, não deve haver ilusões: é impressionante o momento em que faz o pai dizer na cara no menino que não o procurará, desfazendo a enganação prévia de que ligaria para o filho no próximo final de semana. Duro, com certeza, mas necessário.</p>
<p>Penso ser inútil nos indagarmos o que a leva a se dedicar tanto a Cyril, o que o filme também não explica. Prefiro sair do cinema crendo que assim como há pessoas tão pobres de amor (como o pai do menino), existem outras que simplesmente estão disponíveis para quem clama. Por isso a impressão que fica é que, mais do que um filme de abandono, este é um filme de acolhimento puro e simples, sem explicações lógicas, e é isso que o torna tão belo, já que os acontecimentos são colocados de maneira rasgada e crua, sem a mínima poesia.</p>
<p>Gostei muito do fato dos traços psicológicos das personagens não serem explorados (até saímos com a sensação de que elas nem têm nada de especial) e do filme explorar as situações adversas e inesperadas da vida e o modo como as pessoas as encaram, independentemente de quem elas sejam. A mesma Samantha agredida pelo menino depois o leva para passear de bicicleta e comer um sanduíche na sombra de uma árvore. O mesmo rapaz que vive do tráfico tem um cuidado incrível com a avó.</p>
<p><em>O Garoto da bicicleta</em> é agridoce, e a mensagem que fica é: a vida vai colocando à nossa frente as mais diversas situações, boas ou ruins; o que você vai fazer delas é que definirá quem você é.</p>
<p>[<strong>trailer</strong>]<br />
<object width="500" height="284" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/TbSKYcXUMhQ?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="500" height="284" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/TbSKYcXUMhQ?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
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		</item>
		<item>
		<title>A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/11/2011/a-pele-que-habito-pedro-almodovar/</link>
		<comments>http://www.amalgama.blog.br/11/2011/a-pele-que-habito-pedro-almodovar/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 11 Nov 2011 16:45:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Al Izdihar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Banderas]]></category>
		<category><![CDATA[cinema espanhol]]></category>
		<category><![CDATA[cinema espanhol contemporâneo]]></category>
		<category><![CDATA[hermafroditismo]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Almodóvar]]></category>

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		<description><![CDATA[Mesmo sendo um bom filme, senti-me aprisionada na minha pele de fã do Almodóvar tradicional]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-7470" title="A Pele Que Habito" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2011/11/apele.jpg" alt="" width="400" height="300" /></p>
<p>O maior órgão dos sentidos parece representar muito mais do que a percepção do tato. <em>A pele que habito</em> fala muito mais sobre mim e interage com o mundo de forma estranha e às vezes aterrorizante.</p>
<p>A sensação de sermos invadidos nos chega clara e bem antes de sermos agredidos com palavras, gestos ou atos físicos, pois ela só acontece quando abaixamos a guarda. E no fundo sabemos disso e o admitimos lá no futuro, quando tudo passa, olhamos para o passado e vemos que fomos descuidados conosco e com os outros.</p>
<p>Contudo, não me isentei de perguntar ao assistir o novo filme de Pedro Almodóvar: como se dá esta relação tão importante da pele com o mundo para homens e mulheres? A primeira resposta que me veio à cabeça (e talvez à sua, leitor) foi: a relação da pele com o mundo é diferente para homens e mulheres porque afinal estamos sujeitos aos padrões sociais e culturais de nossos gêneros. Porém, não no mundo de Almodóvar.</p>
<p>Já foi dito brilhantemente por James Wyly em seu artigo “Gay sensibility, the hermaphrodite, and Pedro Almodóvar’s films”, compilado no livro <em>Jung &amp; Film: post-Jungian Takes on the Moving Image</em> (Christopher Hauke &amp; Ian Alister), que Almodóvar demonstra através de seus filmes estar tão à vontade com a condição gay que seus personagens passeiam livremente pelos sentimentos, percepções e atitudes dos dois sexos (gêneros) a ponto da anatomia daqueles seres não ter nenhuma importância. É o maravilhoso mundo de Pedro!</p>
<p>Se pegarmos este gancho da teoria do hermafroditismo nos filmes de Almodóvar, veremos que neste novo ele o leva às últimas consequências, num trajeto cinematográfico que passa pelo <em>thriller</em>, o <em>noir</em> e recai todo momento em <em>pulp fiction</em>. Se para Jung o hermafroditismo do indivíduo remetia à inocência infantil, para Wyly, Almodóvar vê o ser hermafrodita como adulto e consciente da sua condição complacente. Em <em>A pele que habito</em> este é um hermafroditismo forçado, criado por alguém que necessita impor este conceito elástico sobre sexo, gênero e suas encarnações. Contudo, em <em>A pele que habito</em> a impressão que tive foi que o delicioso diretor fez troça de si mesmo, nem sequer ligando para o fato de que alguns fãs (eu, inclusa) um dia o denominaram como sinônimo de cinema espanhol.</p>
<p>Não é um filme que decepciona. Longe disso! É bom, cheio de almodovarismos, cômico, apavorante, apelativo e não chega ao mau gosto. Por exemplo, a presença da figura materna tão típica de Almodóvar continua presente com sua contribuição para o toque de tragédia grega, quase explicando tudo. Há um machismo tão exagerado e generalizado – homens totalmente dominantes e mulheres submissas e machistas também –, que pode até dar raiva, mas se você se beliscar o tempo todo vai lembrar que, apesar de ser um <em>thriller</em>, ele é sim um filme cômico, nunca se esquecendo daquele gostoso toque patético que Almodóvar tem.</p>
<p>Gostei também do aspecto Frankenstein dado a Robert, o cirurgião, cuja casa é cheia de referência à estética feminina que tanto precisa dominar dentro de si. Antonio Banderas sem a pele do amante latino americanizado me deu um certo alívio. Sua composição de Robert é clara e objetiva, quase autoexplicativa quando coloca o sexo físico como a única forma de tentar acordar sua insensibilidade de psicopata.</p>
<p>Mesmo com tudo isso cumprido e mostrado com uma boa fotografia e trilha sonora dramática, senti-me aprisionada na minha pele de fã do Almodóvar tradicional, como se me recusasse a deixar um passado em que me sentia segura para os passeios “transgêneros” fantasiosos. E ele não fez nenhuma questão de me tirar do porão em que me prendeu. Abaixei a guarda e fiquei refém de mim mesma, esperando pelo Almodóvar que não veio.</p>
<p>[<strong>trailer</strong>]<br />
<object width="500" height="284" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/HCdt4M0hkQQ?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="500" height="284" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/HCdt4M0hkQQ?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
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		</item>
		<item>
		<title>O Palhaço, de Selton Mello</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/11/2011/o-palhaco-de-selton-mello/</link>
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		<pubDate>Fri, 11 Nov 2011 16:40:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuela Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[cinema brasileiro contemporâneo]]></category>
		<category><![CDATA[Jackson Antunes]]></category>
		<category><![CDATA[selton mello]]></category>

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		<description><![CDATA[O cineasta acabou não se aprofundando tanto na questão da identidade e até a empobreceu]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-7467" title="O Palhaço" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2011/11/opalhaco.jpg" alt="" width="500" height="281" /></p>
<p>Falar sobre busca de identidade é quase que um atrevimento: além de já ser por si só uma tarefa complexa, Guimarães Rosa e Machado de Assis já a realizaram de maneira tão espetacular que mesmo a melhor das tentativas pode facilmente cair na pequenez. Infelizmente, isso ocorre com <em>O Palhaço</em>, novo filme dirigido por Selton Mello, que também atua na película, ao lado de Paulo José.</p>
<p>O filme é quase que um <em>road-movie</em>, pois a crise de identidade acomete o palhaço Benjamin (Selton), que está em turnê com o circo de seu pai (Paulo José), também palhaço, passando pelas mais pitorescas cidades e estradas do interior do Brasil. No meio do caminho percebemos as frustrações de Benjamin em relação à sua carreira, sua quase submissão à herança do ofício paterno e o fundo de melancolia e solidão que movem este homem fadado a fazer os outros rirem.</p>
<p>A temática do filme é universal. Todos nós, em algum momento (ou vários deles) de nossas vidas temos nossas dúvidas e queremos encontrar nossa vocação. Talvez seja por isso que o filme consiga gerar certa comoção no espectador. No entanto, em meio a tantas alegorias circenses, o cineasta acabou não se aprofundando tanto na questão e até a empobreceu: para se fazer notar o vazio identitário em que Benjamin se encontrava ele poderia ter se mantido num belo plano metafórico mas, em vez disso, colocou a personagem no mundo sem a carteira de identidade. Não era preciso recorrer a este recurso tão literal para que entendêssemos a agonia do rapaz, até porque todos sabemos que a resolução desta crise vai muito além da obtenção de um documento em papel e, para piorar, assim que Benjamin sai do cartório com seu registro em punho ele encontra seu lugar no mundo e seu sofrimento cessa.</p>
<p>Quem dera se eu pudesse resolver meus problemas de identidade com um documento; fiquei com pena do Benjamin, pensando que um dia ele vai olhar aquele papel e não encontrar resposta alguma.</p>
<p>Confesso que fiquei até um pouco confusa em entender, ao final, o que ele realmente queria: um amor, uma identidade própria ou um ventilador (aliás, algum leitor mais perspicaz poderia me ajudar a entender o mistério do ventilador? Seria o desejo de um sopro de vida? De liberdade? Não entendi&#8230;). Fato é que, depois de tudo isso conquistado do lado de fora do picadeiro, ele se sentiu pronto e renovado para voltar à carga, trazendo consigo estes novos elementos acima citados (namorada, documento e o bendito do ventilador).</p>
<p>Não vou dizer que o filme não vale a pena, pois fiquei contente de ver na tela imagens bonitas de um Brasil interiorano e fui especialmente tocada pelas participações de Jackson Antunes e de um contador de piadas que foi o único capaz de me arrancar uma risada durante o filme. Talvez o problema maior da obra tenha sido o descasamento entre a vontade de resgatar e representar a difícil e peculiar, porém bela, vida de circo e a de discutir um tema tão complexo como a identidade pessoal.</p>
<p>Preciso, no entanto, concluir minhas impressões fazendo uma <em>mea culpa</em> aqui: toda vez que é lançado um filme brasileiro com um tema que a princípio me atrai e com atores que já me agradaram anteriormente, fico muito animada e vou assistir esperando muita coisa. A chance de sair do cinema decepcionada é enorme e foi o que aconteceu com <em>O Palhaço</em>. Prometo que vou trabalhar melhor o calibre das minhas expectativas para a próxima vez.</p>
<p>[<strong>trailer</strong>]<br />
<object width="500" height="284" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/H5qReKA8sD0?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="500" height="284" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/H5qReKA8sD0?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
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		<title>Os afetos em “Melancolia”, de Lars von Trier</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/10/2011/afetos-melancolia-lars-von-trier/</link>
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		<pubDate>Thu, 20 Oct 2011 17:23:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maria Ivonilda</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Lars von Trier]]></category>

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		<description><![CDATA[O jogo que o diretor nos propõe é justamente o jogo do sentir]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>por Maria Ivonilda</strong></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-7303" title="Melancolia" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2011/10/melancolia.jpg" alt="" width="500" height="284" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Melancolia</em>, de Lars von Trier. Uma pequena obra-prima. Esqueça a ideia de uma ameaça do fim do mundo com o final feliz. Esqueça o recurso didático de apresentar o fim do mundo com uma lição de moral acompanhada. Se o seu julgamento depende do final feliz ou de alguma espécie de lição, não veja o filme.</p>
<p><em>Melancolia</em> é um “legítimo” Lars von Trier: genuíno e visceral. Não é de hoje que o comparo a Nietzsche. Lars von Trier parece mesmo fazer um cinema a marteladas – e aqui abuso de uma analogia. Ocorre que as pessoas geralmente leem o discurso de Lars von Trier como um discurso que almeja atingir uma determinada visão última das coisas. Não é bem assim que as coisas funcionam. Em primeiro lugar, é óbvio que Lars von Trier parte de um discurso e, para fundamentá-lo, lança mão de imagens e outros diversos recursos, como metáforas, simbologias, etc. Lars von Trier parte sempre de um ponto fixo – em <em>Dogville</em>, a crítica ao “sonho” americano de uma liberdade que é mais baseada em uma sociedade do controle do que qualquer outra coisa; em <em>Ondas do Destino</em>, a crítica à tese que pretende legitimar o que moralmente aceitável e marginalizar o que não não se encaixa nesse perfil, como a loucura; e assim por diante. Mas de forma alguma Lars von Trier se prende a uma ideia de fundamentação última. Não há teleologia no cinema de Lars von Trier; embora o seu método investigativo identifique um ponto fixo, uma origem e, assim, permite com que possamos afirmar que o diretor faz uma genealogia.</p>
<p>Voltando ao filme em questão. Justine (Kirsten Dunst) é a personagem em torno da qual giram as discussões do filme: ela é uma melancólica incurável. De forma bem geral, melancolia é um sentimento que pode ser entendido a partir das palavras que Guimarães Rosa colocou na fala de um dos personagens do seu <em>Grande Sertão Veredas</em>: “Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo&#8230;”. É esse o ponto que Lars von Trier explora no filme. Justine é a representação extrema da instabilidade, da forma caótica que configura a existência, da incerteza. O que podemos perceber é que Justine ainda tenta se apoiar na possibilidade de uma certeza, a única certeza capaz de eliminar a instabilidade da existência, a única certeza capaz de conferir um sentido infalível à experiência existencial, mas falha – talvez porque essa certeza não exista, talvez porque a nossa própria ideia de existência seja forjada. Ou seja: temos um passado, estamos no presente, mas de forma alguma somos donos do futuro; no máximo, seremos sujeitos de um futuro ao mesmo tempo em que estaremos sujeitos ao que acontecerá nele. Justine sabe que ter uma carreira, formar uma família e ter estabilidade financeira não é tudo, nem é garantia de coisa alguma – e nesse ponto, se distancia de sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg), a racional, controladora de situações.</p>
<p>Mas a ideia não é nova, embora o diretor procure filmá-la acreditando em um diferencial. Que é justamente o fato de acompanhar todo esse processo e transformação que Justine sofre quando admite que a instabilidade e a incerteza irão sempre acompanhá-la. Todo o ritmo do filme, nesse sentido, é “afetado” pela percepção de Justine. Nós vemos tudo o que acontece a partir da ótica de Justine e, portanto, é natural sentir um sentimento estranho no meio do filme ou uma vontade de sair imediatamente da sala de cinema. O jogo que o diretor nos propõe é justamente o jogo do sentir. Passamos a nos conhecer a partir dos nossos afetos e da forma que somos afetados. Justine é a representação de uma situação-limite na qual o indivíduo se confronta com esse caráter transitório da existência, mas a ideia se sustenta porque os outros personagens também possuem em seu íntimo, em menor ou maior grau, o conhecimento dessa outra faceta da vida e, em algum momento de suas vidas, irão “reconhecê-lo”.</p>
<p>Qual é tese do diretor, no final das contas? Bem, acredito que a tese principal é que a nossa experiência existencial não seria tão valiosa se não envolvesse também os afetos (alegria, tristeza – representada no filme pela melancolia), os nossos desejos, o esforço que fazemos para traçar o caminho que queremos, pois no final das contas, são eles que nos humanizam. Embora muitas vezes sacrifiquemos essa outra faceta da nossa existência em prol de um ideal do qual estão excluídos certos elementos.</p>
<p>No filme, as tentativas que os demais personagens fazem de negar os instintos, os impulsos, afetos e desejos de Justine não são nada mais que tentativas de desumanizá-la. E o que se “prova”, na verdade, é que o “sentir” é inevitável, um fator ineliminável na vida de cada um. E também algo imprescindível para que nos conheçamos. Observemos, por exemplo, a diferença radical sofrida pela personagem Claire – se antes parecia se tratar de um personagem dentro de um personagem, pois a irmã de Justine age em diversos momentos como um ser autômato, depois da aproximação do planeta Melancolia, constata-se que se trata mesmo de um “indivíduo”, um ser no mundo e, de certa forma, isso se tornou possível graças ao fato de que ela aceitou que não se pode colocar a razão no centro de suas ações a todo custo.</p>
<p>A aproximação do planeta Melancolia representa a aproximação que os personagens passam a ter consigo mesmos. Obviamente, está aí incluída a ameaça de “morte”, mas apenas enquanto um artifício último para que não passemos pela existência sem saber o que de fato nos importa e sem que nós nos conheçamos – sendo esse conhecimento aqui tomado não apenas como sinônimo das faculdades do conhecimento. Enquanto metáfora, a ameaça de morte funciona como a última “chance” de descobrirmos a nossa humanidade, ela é a nossa redenção.</p>
<p>Definitivamente, <em>Melancolia</em> não é mais um filme sobre o fim do mundo, mas é mais um filme em que o diretor tenta nos mostrar a finita – e valiosa! – experiência de ser humano em um mundo.</p>
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		<title>O Mineiro e o Queijo, de Helvécio Ratton</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/10/2011/o-mineiro-e-o-queijo-helvecio-ratton/</link>
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		<pubDate>Fri, 14 Oct 2011 20:00:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuela Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[documentário]]></category>
		<category><![CDATA[documentário político]]></category>
		<category><![CDATA[Helvécio Ratton]]></category>
		<category><![CDATA[queijo de Minas]]></category>

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		<description><![CDATA[A poesia do filme consiste na possibilidade de viajar a um tempo aparentemente perdido]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>por Manuela Santos</strong></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-7169" title="O Mineiro e o Queijo" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2011/10/o_mineiro_e_o_queijo.jpg" alt="" width="500" height="279" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Descrito pelas resenhas como “político” e “poético”, o documentário <em><a href="http://www.omineiroeoqueijo.com.br" target="_blank">O Mineiro e o Queijo</a></em>, de Helvécio Ratton, merece ainda muitos outros adjetivos: filosófico, nostálgico, verdadeiro, apaixonante&#8230;</p>
<p>Eu sou um pouco suspeita para falar pois, apesar de paulista, tenho algum tipo de ligação inexplicável com o estado de Minas Gerais e o povo mineiro. Que gente e que lugar mais simpáticos! E isso o cineasta consegue mostrar muito bem, pois saímos do cinema loucos para sentar em uma mesinha com algum daqueles produtores rurais que participam do filme (de preferência com vista para a serra onde eles habitam, cenário natural para o documentário) para bater uma prosa e comer um pedaço de queijo.</p>
<p>A realidade da qual o filme trata, no entanto, não é tão simples. Existem três regiões de Minas Gerais que são tradicionalmente produtoras de queijo desde o século XVIII, o que fornece sustento e ocupação para mais de 30 mil famílias de pequenos produtores e possibilita sua permanência no campo. Por questões regulatórias (daí o conteúdo político do filme), foi proibida a comercialização do tipo de queijo que eles fabricam &#8212; que é feito a partir do leite cru, e não pasteurizado &#8212; em outros estados do país a não ser Minas Gerais. A alegação é a de que há um perigo sanitário no manuseio e na ingestão do queijo feito a partir do leite cru.</p>
<p>A partir de entrevistas com pessoas envolvidas de diversos setores da sociedade (ONG’s, governos, empresas e famílias), o diretor mostra que a lei, além de ser um contra-senso, uma vez que o Brasil importa queijos europeus fabricados do mesmo modo como o mineiro que foi proibido, está impondo à produção restrições sanitárias questionáveis, que nem sempre conseguem ser seguidas pelas famílias produtoras por falta de capital, tempo e costume. Beneficiam-se as indústrias, que conseguem investir em mudança, e os produtores de queijo de leite pasteurizado, que invadem as gôndolas do país. Saem perdendo as famílias produtoras, o consumidor e um patrimônio histórico do país. É o mercado, mais uma vez, passando como um rolo compressor sobre as culturas tradicionais.</p>
<p>Por isso o documentário não deve ser considerado como restrito, pois o mesmo problema que acomete os produtores de queijo se repete em diversas outras culturas tradicionais espalhadas pelo país: arroz vermelho, pirarucu, pinhão, açaí&#8230;</p>
<p>Além disso, a poesia do filme consiste na possibilidade de viajar a um tempo aparentemente perdido, em que famílias se reúnem em torno do trabalho, há cumplicidade entre vizinhos, dá-se valor a uma mangueira no quintal e a simplicidade é quase que um imperativo. O mais interessante é ver que ainda há pessoas que produzem por paixão, pois o queijo nem sempre é financeiramente viável, mas o apego à cultura e à tradição não permite que o fazendeiro troque sua produção para outra coisa só porque vai lhe render mais dinheiro.</p>
<p>Talvez esta última seja uma característica bem mineira, mas mostra como ainda é possível imaginar o resgate de um tempo em que os valores que regiam nossas vidas eram outros. Por isso o filme vale a pena.</p>
<p>[<strong>no site do filme, confira as <a href="http://www.omineiroeoqueijo.com.br/programacao/" target="_blank">cidades, locais e horários de exibição</a></strong>]</p>
<p>[<strong>trailer</strong>]<br />
<object width="500" height="284" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/UoHDEsvZE2Y?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="500" height="284" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/UoHDEsvZE2Y?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
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