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	<title>Amálgama &#187; Mundo</title>
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	<description>Revista digital de atualidade e cultura</description>
	<lastBuildDate>Fri, 10 Feb 2012 17:14:36 +0000</lastBuildDate>
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		<title>A batalha pelo Partido Republicano</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Feb 2012 16:35:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Santoro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[destaque]]></category>
		<category><![CDATA[eleição presidencial estadunidense 2012]]></category>
		<category><![CDATA[Mitt Romney]]></category>
		<category><![CDATA[Partido Republicano]]></category>

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		<description><![CDATA[Mitt Romney é o favorito, mas não deve ter o mesmo sucesso de W. Bush na unificação da base]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8369" title="Newt e Mitt" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/newt_mitt.jpg" alt="" width="600" height="325" /></p>
<p>Com a vitória nas primárias de Nevada e, antes, no importante colégio eleitoral da Flórida, com cerca de 46% dos votos, Mitt Romney ficou mais perto de conseguir a indicação dos Republicanos. Os eleitores conservadores são maioria, mas estão divididos entre três candidatos: Newt Gingrich, Rick Santorum e Ron Paul. Eles também eram a principal base de apoio de outros políticos, que desistiram da corrida, como Rick Perry, Sarah Palin e Michelle Bachmann. Romney é o mais competitivo nacionalmente contra Obama por sua capacidade de atrair eleitores centristas, mas terá problemas com um Partido Republicano no qual o termo “moderado” passou a ser pejorativo. Este é um <a href="http://www.nytimes.com/2012/02/02/opinion/kristof-where-are-the-romney-republicans.html?_r=1&amp;src=tp" target="_blank">desdobramento recente e importante</a>, que contraria uma tradição centenária da sigla.</p>
<p>O <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Republican_Party_(United_States)" target="_blank">Partido Republicano</a> nasceu das tensões da década de 1850, em torno da persistência da escravidão no Sul, de sua expansão para os novos territórios do Oeste e dos debates sobre como incorporar as levas crescentes de imigrantes. Os dois grandes temas da sigla eram a manutenção da União e de tarifas industriais altas. Foi bem sucedido em ambas, comandando a vitória na Guerra Civil e administrando o <em>boom</em> econômico que se seguiu. Os republicanos governaram os EUA quase sem interrupção por 50 anos, até a década de 1910. Os democratas haviam se reduzido a um pequeno partido regional do Sul.</p>
<p>Isso começou a mudar com as grandes transformações sócio-econômicas da primeira metade do século XX: crescimento das cidades, mais migração de minorias religiosas (católicos, judeus) e a primeira leva de mudança dos negros para os centros industriais do Norte, a partir da I Guerra Mundial. Os democratas se reestruturaram como uma aliança entre esses segmentos emergentes, mais progressistas, e os setores tradicionais do Sul. Era uma formidável combinação eleitoral, como demonstraram as quatro vitórias de Franklin Roosevelt e as de John Kennedy e Lyndon Johnson.</p>
<p>O ponto fraco da aliança era a pressão para expandir as reformas sociais para o Sul, o que ocorreu entre 1954-1965, destruindo o sistema de segregação racial &#8212; e o secular domínio dos democratas na região; a classe média e a elite locais migraram em massa para os republicanos. Como mostra o mapa abaixo. Os estados vermelhos são aqueles nos quais o partido obteve a maioria no colégio eleitoral nas disputas à presidência. É quase todo o Sul, à exceção significativa da Flórida. Os democratas se concentram nas principais zonas industriais: costa Leste e Oeste, e Grandes Lagos.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-8370" title="mapa eleitoral" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/MapWedB.jpg" alt="" width="206" height="320" /></p>
<p>Essas últimas regiões também elegeram políticos republicanos para governos estaduais ou senados, mas que em geral ficaram conhecidos por sua moderação e liberalismo, como Nelson Rockefeller em Nova York ou o pai de Mitt Romney no Michigan. Isso começou a mudar na década de 1950, com a ascensão de um tipo de político conservador mais radicalizado ideologicamente, primeiro nos temas da Guerra Fria, como o senador Joseph McCarthy, e mais tarde na oposição à expansão do governo federal (exceto em Defesa e segurança nacional). Sobretudo no Sul, onde o assunto era inseparável das tensões raciais – o senador Jess Helms é um bom exemplo. É um forte contraste aos republicanos de outra era, como o presidente Dwight Einsenhower, que aceitara as reformas do New Deal, ampliara o investimento público em infraestrutura, construindo uma excelente rede rodoviária, e alertara os Estados Unidos contra o <a href="http://mcadams.posc.mu.edu/ike.htm" target="_blank">risco do crescimento desmensurado do complexo industrial-militar</a>.</p>
<p>Em boa medida essa nova guinada ideológica se deveu à mobilização política de movimentos religiosos, assustados com as rápidas mudanças da década de 1960 e com o que parecia ser o declínio americano no Vietnã e no Terceiro Mundo de modo geral. Esses grupos foram importantes no apoio a presidentes como Ronald Reagan e George W. Bush, ele mesmo um evangélico convertido.</p>
<p>Reagan e Bush foram habilidosos em criar coalizões que envolviam as várias facções dos republicanos: o meio empresarial, religiosos, libertários, neoconservadores, liberais. Não há hoje ninguém no Partido que consiga isso, em meio à <a href="http://todososfogos.blogspot.com/2010/11/fervendo-o-cha.html" target="_blank">rebelião das bases partidárias do Tea Party</a>. Romney tem contra ele não só suas posições político-econômicas, mas até sua religião – os mórmons são menos de 2% da população americana e em geral são vistos com desconfiança pelos eleitores conservadores, que tendem a considerar o grupo uma seita fechada. Um terço da população dos Estados Unidos <a href="http://oglobo.globo.com/mundo/no-clima-das-primarias-eua-vivem-momento-mormon-3731761" target="_blank">sequer sabe que os mórmons são cristãos</a>!</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/a-batalha-pelo-partido-republicano/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Tea Party e Occupy Wall Street: demandas iguais, métodos diferentes</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/02/2012/tea-party-occupy-wall-street/</link>
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		<pubDate>Sun, 05 Feb 2012 16:30:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Vilarnovo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[crise econômica 2008]]></category>
		<category><![CDATA[crise econômica estadunidense]]></category>
		<category><![CDATA[Occupy Wall Street]]></category>
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		<category><![CDATA[Tea Party]]></category>

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		<description><![CDATA[A nós, resta apenas imaginar como seria se esses dois movimentos estivessem juntos]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8373" title="Tea Party e Occupy Wall Street" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/tp-ows.jpg" alt="" width="500" height="271" /></p>
<p>Este ano haverá eleições presidenciais na nação mais poderosa do mundo, em meio a uma crise econômica que mudou o cenário político americano como poucas vezes se viu. Os vetores dessa mudança foram dois movimentos populares que, apesar de tudo, possuem muitas características semelhantes.</p>
<p>O primeiro a nascer foi o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Tea_Party_movement" target="_blank">Tea Party</a>, surgido da classe média logo após o anúncio do resgate do governo americano às instituições financeiras que se afundaram na crise. Uma característica do Tea Party é que, pelo menos no início, ele foi um movimento apartidário, ou seja, seus integrantes culpavam tanto republicanos quanto democratas pela crise. Em Utah, por exemplo, o senador com vários mandatos Robert Bennett perdeu a campanha por votar favoravelmente ao programa <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/TARP" target="_blank">TARP</a> (como ficou conhecido o resgate), em grande parte por conta da desaprovação do Tea Party.</p>
<p>Como forma administrativa, o Tea Party ainda é bastante descentralizado, organizado em comunidades com poucos líderes centrais. De início não havia sequer um comando federalizado, e sim grupos espalhados por diversos estados.</p>
<p>Já o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Occupy_Wall_Street" target="_blank">Occupy Wall Street</a> teve como inspiração a Primavera Árabe e nasceu principalmente em grandes centros urbanos como Nova Iorque, Oakland e Portland. Sua base é mais heterogênea que a do Tea Party, aglutinando muitos jovens, pessoas que perderam suas casas na crise, mas também desempregados, estudantes com dívidas educacionais e sindicatos (o que de fato é um pouco antagônico). Diferentemente do Tea Party, o OWS teve uma grande cobertura da mídia desde o início.</p>
<p>E o que esses movimentos demandam? Exatamente as mesmas coisas: são ambos contra o resgate das instituições financeiras, contra o roubo, contra regulações feitas sob medida para grupos financeiros, uso de informações privilegiadas entre outras. Contudo, as diferenças ideológicas de ambos ficam evidenciadas em seus métodos de atuação. Enquanto o Tea Party foi inicialmente ligado a grupos libertários e mais tarde a grupos conservadores (e até de extrema direita), o OWS está ligado, mesmo que indiretamente, à esquerda e extrema esquerda norte americana.</p>
<p>Seus métodos de atuação também são completamente diferentes. O Tea Party trabalha o sistema por dentro, ou seja, apoiando políticos que carregam suas mensagens, e com isso conseguiu importante voz dentro do debate político-fiscal para as próximas eleições. Tem como ídolos pessoas como a ex-governadora do Alasca Sarah Palin e o estridente ex-apresentador da Fox Glenn Beck. Já o Ocuppy Wall Street decidiu fazer uma oposição ao sistema, e, através da tática de ocupação de espaços públicos e privados, realizou seus protestos. Em Nova Iorque recebeu a visita de ícones da esquerda, como o não menos estridente Michael Moore, e da extrema esquerda, como Noam Chomsky. A exemplo de Palin e Beck no campo oposto, Moore e Chomsky tentaram angariar mais fama através do movimento.</p>
<p>Apesar das diferenças, fica claro que os dois movimentos não são antagônicos em suas demandas. Mas, em um país tão dividido e extremado como os Estados Unidos de hoje, a conversa entre esses grupos é quase impossível. Isso mostra como movimentos mais de centro são importantes; e como estadistas como Ronald Reagan, que aumentou impostos quando precisava, e Bill Clinton, que atualmente pede por um corte de impostos do setor corporativo, fazem falta.</p>
<p>A nós, resta apenas imaginar como seria se TP e OWS estivessem juntos.</p>
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		<title>Human Rights Watch, você é repugnante!</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Jan 2012 16:15:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maryam Namazie</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[democracia no mundo árabe]]></category>
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		<category><![CDATA[islamismo]]></category>
		<category><![CDATA[Primavera Árabe]]></category>
		<category><![CDATA[salafismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Não há como comparar os partidos islâmicos aos partidos cristãos europeus]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8316" class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-8316" title="Salafistas" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/salafistas.jpg" alt="" width="500" height="323" /><p class="wp-caption-text">- Cartazes de candidatos do partido radical salafista, que ficou em segundo nas eleições egípcias, atrás da Irmandade Muçulmana -</p></div>
<p>Kenneth Roth, diretor da Human Rights Watch, diz no <a href="http://www.reuters.com/article/2012/01/22/us-arab-spring-group-idUSTRE80L07920120122" target="_blank">relatório anual do grupo</a> que as revoltas da Primavera Árabe no ano passado mostraram que é vital para o Ocidente encerrar sua política de apoio a “um leque de autocratas árabes”, que em troca ajudam nos interesses ocidentais. Até aí tudo bem.</p>
<p>Mas então Roth e a organização resvalam numa antiga doença da esquerda pós-modernista, a saber, “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Portanto, de acordo com essa lamentável lógica (ou falta de), se alguns islamistas tomarem o lugar de autocratas malvados, então eles devem ser bons. Mesmo? Diz ele: “A comunidade internacional deve … chegar a um acordo com o islã político quando ele representar a preferência de uma maioria. Partidos islamistas são genuinamente populares em muito do mundo árabe, em parte porque muito árabes passaram a ver o islã político como a antítese do poder autocrático.”</p>
<p>Sou obrigada a discordar. Ainda que a maioria prefira algo, isso não o torna necessariamente algo bom e correto, e nem significa que a nova opção é a “antítese do poder autocrático”. O islamismo também é autocrático, e em muitos locais apoiado pelo Ocidente.</p>
<p>E a realidade é bem diferente. Uma maioria não apoia o islamismo, a menos que você acredite que as pessoas querem ter seus direitos e liberdades limitadas, e são seres humanos diferentes daqueles sentandos na pelúcia dos escritórios da Human Rights Watch.</p>
<p>Não é preciso ser um especialista para entender que, após poder autocrático, supressão de qualquer oposição e banimento de partidos políticos, é impossível para forças seculares e aqueles que representam o verdadeiro espírito da “Primavera Árabe” se organizarem e vencer “eleições”. Da mesma forma, para que eleições tenham algum sentido – mesmo o limitado sentido parlamentar –, você precisa ter liberdade de associação, imprensa, expressão, etc. Se você tem “eleições” logo após uma ditadura, e a despeito das pessoas (como no Egito) pedirem por mais tempo, cria-se uma situação onde islamistas chegarão ao poder, dado seu nível de organização, seu acesso ao poder e o apoio que gozam entre forças e estados reacionário da região e alhures.</p>
<p>Diz Roth: “Onde quer que surjam governos inspirados pelo islã, a comunidade internacional deve focar no encorajamento, e onde necessário pressão, para que haja respeito a direitos básicos – da mesma forma que espera-se que partidos e governos de rótulo cristão na Europa os respeitem”. Soa legal, mas os partidos e governos de rótulo cristão na Europa não estão clamando por uma inquisição e a instituição do direito canônico. Já disse isso muitas vezes antes, mas você não tem como comparar os dois. Não porque o cristianismo seja melhor, mas porque ele foi barrado como um resultado do iluminismo, o que tornou possível termos partidos cristãos em sociedades seculares. O mesmo não pode ser dito a respeito do islã. Partidos islâmicos querem trazer teocracia, lei da sharia e barbárie; eles querem uma inquisição islâmica.</p>
<p>Nada disso me surpreende, claro. A Human Rights Watch sempre foi um puxa-saco do islamismo. Ela fez de tudo a seu alcance para defender os “reformistas” no Irã enquanto eles continuavam matando e apedrejando pessoas até a morte.</p>
<p>Mas não é um pouco embaraçoso para uma organização de direitos humanos defender o islamismo e reduzir sua demanda ao “encorajamento, e onde necessário pressão, para que haja respeito a direitos básicos”? Ah, o racismo das baixas expectativas!</p>
<p>Tá, os subumanos no Oriente Médio e no norte da África não merecem nossos mesmos direitos e liberdades, né Human Rights Watch?</p>
<p>É uma pena (para eles, pelo menos) que a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/PRESS_TV" target="_blank">Press TV</a> tenha perdido sua licença de funcionamento, porque Roth se encaixaria bem ao lado de Galloway e Booth na defesa do islamismo a qualquer custo – particularmente, qualquer custo humano&#8230;</p>
<p>Que vergonha.</p>
<p style="text-align: right;">* <em>tradução: Daniel Lopes</em><br />
<em><a title="reprodução autorizada" href="http://freethoughtblogs.com/maryamnamazie/2012/01/22/human-rights-watch-you-are-disgusting/" target="_blank"> original</a> no blog da autora.</em></p>
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		<title>Carta para a Dilma sobre Cuba</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 17:12:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Celso Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil e Cuba]]></category>
		<category><![CDATA[destaque]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura cubana]]></category>
		<category><![CDATA[raul castro]]></category>

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		<description><![CDATA[Você pode ajudar os presos cubanos em péssima situação só porque são contra o governo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8327" title="Posse da presidente Dilma Rousseff" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/dilma-posse.jpg" alt="" width="450" height="317" /></p>
<p>Companheira Dilma,</p>
<p>Pode perguntar ao companheiro Luis Inácio: um dos problemas de ser presidente petista do Brasil é ter que me aguentar de vez em quando enchendo sua paciência para você defender os presos políticos cubanos. Está longe de ser um dos seus maiores problemas, e está, sem dúvida, entre os mais facilmente ignoráveis. Mas, como você verá abaixo, o problema não vai embora.</p>
<p>Você está prestes a visitar Cuba. Visto que o PT é considerado um caso de sucesso na história da esquerda democrática latino-americana, é natural que haja a expectativa de que você se pronuncie em defesa dos presos políticos cubanos. Afinal, a esquerda autoritária da América Latina não vê nada de errado em um governo de esquerda que mantém presos políticos; a direita demagógica norte-americana também não, porque isso rende votos na Flórida. Mas da esquerda democrática se espera mais.</p>
<p>Além disso, as vitórias da esquerda democrática no continente, e nossos sucessos na (ainda mal começada) luta contra a desigualdade social que tanto nos envergonha, colocam cada vez mais em evidência a necessidade de parar de usar Cuba como recurso retórico em nossos debates políticos: não precisamos mais chamar atenção para os méritos da saúde ou da educação na Cuba comunista para lutar pela melhoria de nossos próprios sistemas de saúde, ou de nossas escolas. Estamos no governo: se alguém fracassar em tornar nosso sistema educacional mais inclusivo e eficiente, ou nossos hospitais públicos melhores, teremos sido nós. A direita americana também ganharia muito se parasse de falar besteira sobre Cuba, mas isso, convenhamos, é problema deles.</p>
<p>Por isso é preciso passar a discutir Cuba do ponto de vista de Cuba, e 90% de discutir Cuba sob o ponto de vista de Cuba é deixar os cubanos discutirem livremente.</p>
<p>O próprio regime de Raul Castro reconhece a necessidade de reformar o sistema econômico cubano, uma tarefa delicada na qual o apoio internacional, inclusive brasileiro, pode ser importante. Mas é preciso convencer o novo governo cubano de que as reformas não podem parar por aí. Parte do problema econômico cubano (como já foi do soviético, do chinês, etc.) é que, mesmo quando seus engenheiros conseguem produzir as máquinas, as ferramentas e os produtos químicos, a economia planificada não consegue fazer deles o melhor uso. Raul Castro está certo em introduzir reformas de mercado (independentemente do que se pense sobre o tipo específico de reforma que foi escolhido), pois mesmo boas fábricas e bons engenheiros são inúteis se não forem bem coordenados. Da mesma forma, ter uma população com o grau de instrução da população cubana (o que muita inveja nos causa, sem dúvida) e não deixá-la discutir livremente é como esfregar um iPad no outro para fazer uma fogueira. Talvez até se consiga algum foguinho, mas é difícil negar que os recursos poderiam ter sido melhor utilizados.</p>
<p>Seria realmente uma pena se a tentativa de modernizar a economia cubana implicasse o descarte das vitórias sociais importantes conseguidas nas últimas décadas. Mas não é claro que essas conquistas serão melhor defendidas se as bandeiras da esquerda simbolizarem, para os cubanos, a recusa da democracia. Não há dúvida de que na Rússia, por exemplo, as coisas seriam melhores se houvesse uma opção de esquerda democrática (e não o partido comunista zumbi) durante os anos noventa. E, se o regime cubano não acredita que os cubanos, após décadas de educação socialista, são capazes de discutir as grandes questões que afetam seu país, é porque, no fundo, quem não acredita nessas conquistas é o próprio regime cubano.</p>
<p>É compreensível que a esquerda brasileira tenha algum vínculo emocional com o regime cubano, que a apoiou na luta contra a ditadura. Na minha carta para o companheiro Luis Inácio, que, enfim, ninguém leu, lembrei do caso do Mandela e do Kadhafi. O Mandela sempre teve uma boa relação com o Kadhafi, que apoiou a luta contra o apartheid na África do Sul. Mas, eventualmente, o Mandela convenceu o Kadhafi a entregar o autor dos atentandos Lockerbie às autoridades britânicas. Depois foi inclusive visitar o preso na Escócia, e reclamou das condições de encarceramento (sem se arrepender de ter pedido por sua entrega). O vínculo histórico não impediu que o Mandela tentasse influenciar positivamente seu aliado, e por episódios políticos como esse medimos sua estatura política.</p>
<p>O chanceler Patriota (bom nome para chanceler) andou declarando que a situação dos direitos humanos em Cuba não é tão urgente quanto em vários outros lugares do mundo. De fato, se compararmos a situação em Cuba com a do Zimbábue, da Coreia do Norte, ou da parte do mundo árabe ainda no inverno, o número de presos políticos pode não parece tão ruim. É verdade também que na base de Guantánamo o exército americano violou direitos humanos sem maiores embaraços.</p>
<p>Entretanto, há uma diferença fundamental: em Cuba, uma palavra do governo do PT terá alguma repercussão, o que dificilmente ocorreria na Arábia Saudita, na Coréia do Norte ou, aliás, nos Estados Unidos. Lembrando que, no caso da ditadura brasileira, a esquerda internacional criticou as violações de direitos humanos aqui desde o início do regime. Mas quando os Estados Unidos começaram a criticá-las, isso bateu bem mais fundo nas autoridades da época. Nesse sentido, melhor ainda do que uma defesa brasileira dos prisioneiros cubanos seria um apelo do governo da Venezuela, que tem vínculos extremamente fortes com o regime dos Castro. Enquanto Chávez não fala, falemos nós.</p>
<p>Você pode ajudar os presos cubanos. Vai ter um monte de gente na esquerda que vai deixar de gostar de você. Algumas pessoas do centro para a direita vão passar a gostar mais de você, mas é razoável supor que boa parte delas não vai gostar de você a ponto de votar em você. E a turma muito à direita vai considerar qualquer coisa que você faça como insuficiente, vai dizer coisas como “se era para fazer tão pouco era melhor não ter feito nada”. Portanto, se você quiser saber se vai ganhar votos defendendo os presos cubanos, eu seria desonesto se dissesse que sim.</p>
<p>E, sendo honesto, o Itamaraty deve ter objeções sólidas a uma intervenção brasileira no debate cubano. Pode ser ruim para nossos interesses econômicos, pode abrir o flanco para um fortalecimento de Chávez entre os novos governos de esquerda no continente, se a esquerda continental achar, em uma avaliação tragicamente errada, que é necessário cerrar fileiras. Mas não creio que nenhum desses efeitos seja imenso. Se o governo cubano começar a expulsar investidores, a estratégia de reforma de Raul Castro morre ainda jovem, e a sobrevivência do regime se torna cada vez mais difícil. Se os governos de esquerda sul-americanos resolverem defender o regime cubano com entusiasmo demais, arriscam alienar os eleitores de centro que os apoiam. Há sempre risco, mas não me parece que os cenários sejam particularmente horrendos.</p>
<p>Por outro lado, você vai aumentar, por pouco que seja, a possibilidade de uns caras que moram em um porão imundo só por serem contra o governo voltarem a ver suas famílias. Você sabe, muito mais que eu, e, aliás, mais mesmo do que o companheiro Luis Inácio, o que é um porão imundo.</p>
<p>Nós dois sabemos que a diplomacia é um jogo complicado, que na política nem sempre a coisa moral a fazer é parecer bonzinho, e que, enfim, todos, por ação ou omissão, somos, e continuaremos a ser, cúmplices das piores ocorrências. Mas minha avaliação sincera é que uma palavra em defesa dos presos cubanos não a ameaçará politicamente de forma irremediável. E ajudaria um pouco alguns sujeitos que estão em péssima situação só porque são contra o governo.</p>
<p>Companheira Dilma, diga uma palavra em defesa dos presos políticos cubanos. O Itamaraty deve saber como fazê-lo de maneira diplomaticamente aceitável.</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/01/2012/carta-para-dilma-sobre-cuba/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Salman Rushdie encontrou paz, mas o “affair” dos Versos Satânicos não acabou</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Jan 2012 21:38:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nick Cohen</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[affair Rushdie]]></category>
		<category><![CDATA[destaque]]></category>
		<category><![CDATA[islamismo]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade de expressão]]></category>
		<category><![CDATA[Salman Rushdie]]></category>
		<category><![CDATA[Versos Satânicos]]></category>

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		<description><![CDATA[Impedido de ir a um festival literário, o escritor reagiu contra os fundamentalistas e aproveitadores]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8305" title="Salman Rushdie" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/rushdie.jpg" alt="" width="500" height="375" /></p>
<p>Para Salman Rushdie, o “affair” é caso encerrado. Quando ele adentra um restaurante em Notting Hill, seus olhos não perscrutam o recinto em busca de sinais de perigo. Os outros comensais não desistem da refeição e procuram a saída, para o caso desta ser a vez em que a bomba explodirá. Eles tratam a entrada de um escritor, que antes não se movia sem estar cercado de suspeitosos seguranças pessoais, como um evento comum.</p>
<p>Rushdie está bem. Mais do que bem, na verdade: ele está florescente. Deepa Mehta <a href="http://www.guardian.co.uk/film/2008/nov/07/midnights-children-film" target="_blank">filmou</a> <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535909419" target="_blank">Os filhos da meia-noite</a></em>. Rushdie escreveu o roteiro, de forma que, se telespectadores quiserem protestar que o filme diminui, trivializa ou de alguma forma não consegue chegar ao nível excepcional de sua obra-prima, é a ele que devem ser dirigidas as reclamações. Uma rede de tevê dos EUA o contratou para escrever uma série de ficção científica e, como tantos outros, Rushdie saboreia o espaço e liberdade que a televisão americana dá a dramaturgos.</p>
<p>O terror, que antes dominava sua vida e as vidas de todo mundo associado à sua obra, é agora história. Quando o aiatolá Khomeini <a href="http://www.guardian.co.uk/books/2009/jan/11/salman-rushdie-satanic-verses" target="_blank">mandou que muçulmanos o assassinassem</a> por conta de suas blasfêmias, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Julian_Barnes" target="_blank">Julian Barnes</a> deu-lhe um sábio conselho. Por mais que se atentasse contra sua vida e as vidas de seus tradutores e editores, por mais que o Special Branch da polícia britânica o mudasse de um esconderijo para outro, ele não devia permitir que o “affair Rushdie” o transformasse em um obcecado.</p>
<p>Totalitários são como espreitadores, ou trolls internéticos. Eles querem que seus alvos pensem neles constantemente. Rushdie não se tornou parecido com seus inimigos. Ele nunca replicou o fanatismo que lhe era dirigido. Ele tem sido um bom amigo de outras vítimas do terror religioso, mas em seus romances e estórias para crianças ele lidou com novos temas. Apesar das súplicas de seu agente literário, ele adiou a escrita de sua autobiografia até que fosse capaz de ver o “affair” com distanciamento. Ela deve ser lançada em setembro, e eu ficarei surpreso se não for lida no mundo inteiro.</p>
<p>Há décadas Rushdie tem um apartamento em Londres, mas ele me informa que passa cada vez mais tempo em Nova York. A exemplo de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Martin_Amis" target="_blank">Martin Amis</a>, ele acha difícil entender a viciosidade da mídia britânica em relação a escritores. Jornalistas que dependem de seu exercício da liberdade de expressão para colocarem comida na mesa de suas famílias e roupas nos corpos de seus filhos, odeiam um homem que teve que arriscar a vida para defender as liberdades que eles de forma tão impensada veem como garantidas. Não entrarei na questão de por que o primeiro grande romancista asiático de língua inglesa é objeto de tal veneno, e fiquei feliz em saber que Rushdie também não deseja especular. Ciente do risco de soar como um chorão, ele adiciona que os americanos podem não dedicar a seus escritores a mesma paixão que os britânicos porque se importam tão pouco com o que romancistas têm a dizer que faltam-lhes energia até mesmo para detestá-los.</p>
<p>Ele ri, e dá a impressão de um artista de bem consigo mesmo. Khomeini está morto, e ele ainda está vivo. <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535912878" target="_blank">Os versos satânicos</a></em> ainda está em catálogo. Produtores de cinema, executivos de tevê, editores e leitores, todos o querem por perto. Por que ele não deveria relaxar?</p>
<p>Quando comecei a escrever um <a href="http://www.amazon.com/You-Cant-Read-This-Book/dp/0007308906/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1327872352&amp;sr=8-1" target="_blank">livro sobre a censura moderna</a>, me pareceu óbvio que não dava para evitar <em>Os versos satânicos</em>. Antes dos aiatolás irem atrás de Rushdie, escritores em ditaduras religiosas ou seculares podiam encontrar no ocidente um porto seguro. A <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Salman_Rushdie#The_Satanic_Verses_and_the_fatw.C4.81" target="_blank">fatwa</a> acabou com isso. Ela redesenhou as fronteiras do mundo livre, encurtando seus limites e apagando as zonas em disputa dos mapas da mente liberal. O terror que as bombas e as tentativas de assassinato espalharam, significava que Londres, Nova York, Paris, Copenhague e Amsterdã não eram mais lugares seguros para escritores abordando temas religiosos. De 1989 em diante, ocidentais e fugitivos do terror religioso sabiam que o terror podia acontecer aqui, porque ele já tinha acontecido aqui. As hipocrisias e evasivas que tanto desfiguram nossa cultura começaram desde então.</p>
<p>À medida que eu digitava, temi que estivesse escrevendo para leitores no início da casa dos vinte anos, que nem mesmo eram nascidos quando <em>Os versos satânicos</em> foi publicado. Eu não devia ter me preocupado. Rushdie encontrou paz, mas o “<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Satanic_Verses_controversy" target="_blank">affair Rushdie</a>” não acabou. E nem poderia, porque ele é a representação mais clara em nossos tempos do conflito entre a consciência individual e a mente autoritária, conflito que nunca é definitivamente vencido mas deve sempre ser lutado.</p>
<p>Me encontrei com Rushdie poucos dias após a Índia tê-lo forçado a <a href="http://oglobo.globo.com/cultura/palestra-de-salman-rushdie-cancelada-apos-ameaca-de-morte-3749189" target="_blank">cancelar participação</a> no Festival de Literatura de Jaipur. As autoridades alegaram que sua presença física, ou mesmo um discurso via vídeo, poderia levar a tentativas de assassinato, tumultos, ferimentos e mortes. A Índia, uma suposta democracia secular, proibia agora seu maior escritor de falar a seus conterrâneos indianos.</p>
<p>Como Rushdie descobriu, religiosos sectários e políticos fabulosamente cínicos estavam mais uma vez usando <em>Os versos satânicos</em>, que é banido na Índia, para chicotear os crentes até que entrassem na linha. Apesar do autor ter visitado a Índia muitas vezes desde 1989 sem qualquer incidente, líderes muçulmanos viram a chance de criar uma controvérsia onde não existia nenhuma. Eles disseram aos organizadores do festival que não deviam dar voz a “um inimigo do islã”. Rushdie é ateu. Se sua inteligência já não o tivesse transformado em um, sua experiência com a violência fascista teria feito o trabalho igualmente bem.</p>
<p>Mas, como ele perguntou à audiência de uma tevê indiana, quem é o verdadeiro inimigo do islã aqui? Rushdie, que usou do direito de dizer o que pensa para criticar seus mitos fundadores, ou os “vários líderes extremistas e seus seguidores, que … fortalecem a imagem fortemente negativa do islã como uma cultura intolerante, repressiva e violenta, [que] toda vez que é tocada … reage com ameaças e violência?”</p>
<p>O Congresso Nacional Indiano, antes o partido secular de Jawaharlal Nehru, está hoje completamente aviltado, tão dedicado a fomentar pânico comunalista quanto seus oponentes hindus. O partido almejou o comparecimento do voto muçulmano nas eleições de Uttar Pradesh, o mais importante estado indiano. Os muçulmanos indianos estão entre os grupos mais desfavorecidos do país. No entanto, ao invés de oferecer-lhes saúde pública, empregos ou algo tão radical quanto educação para mulheres, os políticos do Congresso planejaram impedir que Rushdie visitasse sua terra natal. Como concluiu o <em><a href="http://indiatoday.intoday.in/story/how-gehlot-scuttled-rushdie-jaipur-visit/1/170596.html" target="_blank">India Today</a></em>, eles fabricaram “uma massiva percepção de ameaça”, até que Rushdie não pudesse comparecer e o Congresso pudesse mostrar-se como o “avalista dos interesses muçulmanos”.</p>
<p>Em <em><a href="http://www.amazon.com/You-Cant-Read-This-Book/dp/0007308906/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1327872352&amp;sr=8-1" target="_blank">You can&#8217;t read this book</a></em>, eu argumento contra a reconfortante ideia de que o progresso é algo inevitável e que devemos necessariamente ser mais livres que nossos supostamente reprimidos ancestrais. O caso de Rushdie foi a melhor evidência que eu pude encontrar. Ele e seus contemporâneos nos anos 1980 pensavam que podiam desafiar religiões que alegam ter posse de mentes e corpos. Desde então, nosso mundo mudou, e não para melhor. “A mudança cabe em uma sentença”, eu digo. “Nenhum artista com a audiência e os dons de Rushdie se atreveria a escrever uma versão moderna dos <em>Versos satânicos</em> hoje em dia, e, se ele ou ela escrevesse, nenhum editor se atreveria a publicá-la.”</p>
<p>Rushdie concorda em parte, mas acha que a covardia reside quase exclusivamente nos escritórios de casas editoriais, executivos de tevê e editores de jornais. Os escritores deveriam ser mais corajosos. Longe de se intimidar com a aliança clerical-política que o teve como alvo, Rushdie foi à televisão indiana e <a href="http://www.ndtv.com/article/india/full-transcript-im-returning-to-india-deal-with-it-salman-rushdie-to-ndtv-170122" target="_blank">esculhambou os cínicos</a> que punham em risco “a liberdade do cidadão comum indiano de ouvir pontos de vista diferentes”.</p>
<p>A imprensa indiana tomou a responsabilidade e acusou o Congresso de fazer seu país parecer um lugar sinistro e absurdo aos olhos do mundo. A tentativa do Congresso de inflamar o ódio sectário explodiu em sua própria cara. Os inimigos indianos de Rushdie estão agora batendo em retirada.</p>
<p>À medida que ele saía de encontro ao sol do inverno londrino, eu refletia que, depois de passados tantos anos, Rushdie permanecia como um exemplo digno de ser seguido. O declínio não é mais inevitável que o progresso. Você nunca tem que aceitá-lo.</p>
<p style="text-align: right;">* <em>tradução: Daniel Lopes</em><br />
<em><a title="reprodução autorizada" href="http://www.guardian.co.uk/books/2012/jan/29/salman-rushdie-satanic-verses-censorship" target="_blank"> original</a> no The Observer</em>.</p>
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		<title>Brasil, Cuba e a longa marcha dos direitos humanos na América Latina</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Jan 2012 18:49:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Santoro</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Brasil e Cuba]]></category>
		<category><![CDATA[Cláudio Galvão da Silva]]></category>
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		<category><![CDATA[Damas de Branco]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura cubana]]></category>
		<category><![CDATA[revolução cubana]]></category>
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		<description><![CDATA[Na região, hoje, o único país no qual os governantes não são eleitos pelo voto é Cuba]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8292" title="Damas de Branco, Cuba" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/cuba-damas.jpg" alt="" width="500" height="375" /></p>
<p>Brasil e Cuba têm comércio bilateral significativo e diversos projetos de cooperação em áreas como saúde pública e energia. A presidente Dilma estará na ilha na próxima semana e a visita será dominadas pelos debates sobre direitos humanos. É inescapável, pelo enorme simbolismo da Revolução Cubana para a política na América Latina como uma referência em autonomia diante dos Estados Unidos e em reforma social. Mas a região é muito diferente hoje e o imaginário ocupado por Cuba é por vezes bastante incômodo. O país nunca será avaliado pelos mesmos critérios pelos quais se julgam ditaduras na China, Rússia ou Irã, e sim pelo descompasso com os padrões de seus vizinhos latino-americanos.</p>
<p>No auge da Guerra Fria, em meados da década de 1970, havia apenas duas democracias plenas na América Latina: Venezuela e Costa Rica &#8211; o México do PRI como um caso híbrido e ambíguo. A maioria dos habitantes da região era pobre. Naquele contexto, Cuba não se destacava pelo autoritarismo – era a regra, à direita e à esquerda – e seus indicadores sociais eram muito expressivos.</p>
<p>Na América Latina de hoje, o único país no qual os governantes não são eleitos pelo voto é Cuba. É certo que as democracias da região continuam frágeis e repletas de práticas autoritárias: fraudes em larga escala no México, censuras e perseguições à imprensa na Venezuela, Argentina e Equador, grandes pedaços de território controlados pelo crime organizado na América Central, Colômbia, Brasil e México. Mas os avanços são notáveis e destacam-se na comparação com os outros continentes formados por nações em desenvolvimento, Ásia e África. Prisoneiros políticos praticamente desapareceram da América Latina, a não ser em Cuba e ocasionalmente na Venezuela – além, claro, daqueles que os Estados Unidos encarceraram na base naval de Guantanamo. A pobreza caiu para um terço da população e houve ampla melhora dos padrões de vida e do consumo.</p>
<p>A Revolução Cubana perdeu seu apelo prático para a política da região. No Peru, México e Venezuela, os candidatos fazem campanha prometendo ser o próximo Lula – e não o futuro Fidel. As novas classes médias da região já têm dinheiro para passar férias no exterior, mas optam por conhecer os Estados Unidos ou nações vizinhas, e não a experiência socialista cubana.</p>
<p>Contudo, os países da região não criticam Cuba, fora uma ou outra exceção como a Argentina de Carlos Menem e o México de Vicente Fox &#8211; em ambos os casos, atitudes explicáveis mais pelo desejo dos dois presidentes em manter uma relação especial com os Estados Unidos. O regime cubano é tratado pelos governos latino-americanos como uma espécie de tio excêntrico e querido, de quem não se comenta os defeitos em respeito ao período em que foi importante na família, principalmente porque enfrentou o vizinho grandalhão e rico do qual todos tinham medo.</p>
<p>O mundo mudou e o velho parente irá falecer em breve. Igreja Católica, governos e organizações européias e canadenses estabeleceram bons diálogos com a oposição democrática na ilha, que em algum momento irá governar Cuba. Talvez ainda nesta década. Não é praxe das autoridades brasileiras buscar esse tipo de entendimento, em lugar nenhum do planeta, mas partidos políticos e movimentos sociais poderiam desenvolver uma agenda assim. Lançando, por exemplo, uma campanha “América Latina sem presos políticos.”</p>
<p>Algumas pessoas já se mobilizaram, como o <a href="http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5580115-EI294,00-Yoani+Sanchez+mantem+cautela+sobre+possivel+viagem+ao+Brasil.html" target="_blank">cineasta Cláudio Galvão da Silva em sua parceria com a escritora cubana Yoani Sánchez</a>. Ele a convidou a vir ao Brasil para o lançamento de um <a href="http://www.dadogalvao.org/" target="_blank">documentário sobre censura em Cuba e em Honduras</a>. O governo brasileiro concedeu o visto, mas as autoridades cubanas desde 2004 proibem Sánchez de sair do país. Ela já foi presa e espancada por suas opiniões. A presidente do Brasil também o foi. Isso não mudará a diplomacia brasileira, digamos, com respeito às <a href="http://www.damasdeblanco.com/" target="_blank">Damas de Branco</a>. Havana não é Teerã. Mas Dilma não fará como Lula, que comparou os presos políticos cubanos a criminosos comuns.</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/01/2012/brasil-cuba-direitos-humanos-america-latina/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Dilma em Cuba: Mais do mesmo</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jan 2012 16:20:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Lopes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil e Cuba]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura cubana]]></category>
		<category><![CDATA[política externa brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[política externa de Dilma]]></category>

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		<description><![CDATA[Os cubanos merecem ser mais que os prisioneiros de um zoológico da esquerda latino-americana]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8239" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-8239" title="Dilma e a ditadura brasileira" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/dilma-ditadura.jpg" alt="" width="300" height="411" /><p class="wp-caption-text">- Dilma diante de uma ditadura. Neste caso, coragem -</p></div>
<p>Vêm sendo duros, para aqueles de nós que votamos em Dilma e abominamos a ditadura cubana, esses dias que antecedem o passeio da presidente pelo Caribe. Temos que, mais uma vez, ouvir os amigos simpatizantes tucanos perguntarem se agora estamos satisfeitos, ou se já nos desenganamos. E, mais uma vez, temos que dizer que não votamos em Dilma (e, no meu caso, em Lula) pela política externa petista, mas pela política interna – como qualquer eleitor de qualquer país, salvo em situações extremas. Levando-se em conta os acertos e derrapadas, o saldo ainda é positivo.</p>
<p>Mas é preciso dizer que os dias são duros também porque os amigos simpatizantes tucanos possuem certa razão.</p>
<p>Eu posso receber a agitação a favor do regime cubano que vem das facções de extrema esquerda sem grandes sobressaltos emocionais. Já sabemos o palanfrório: a situação social da ilha é muito boa, inclusive se proporcionalmente comparada à do Grande Satã. Desprezando a quarta e qüinquagésima primeira posições de, respectivamente, GS e Cuba no <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_pa%C3%ADses_por_%C3%8Dndice_de_Desenvolvimento_Humano" target="_blank">ranking de IDH</a>, as facções, mais importante, fingem não saber que a sociedade estadunidense &#8212; com 300 milhões de almas, imigrantes de todo o mundo e uma federação de verdade &#8212; é infinitamente mais complexa que a da ilha.</p>
<p>A excelência social cubana, segue o raciocínio extremista, justifica (ou pelo menos compensa) o regime de partido único e a ausência de liberdades que alguns ainda não têm vergonha de chamar de “burguesas”. Isso é nojento. A ideia de que liberdade de assembleia, de organização política e de imprensa não tem nada a ver com o “social” é nojenta – como devia saber uma esquerda que sofreu em ditadura repleta de “milagres”. Bom IDH não torna uma ditadura menos ditadura. E, por todos os santos, vamos deixar as coisas claras: se a palavra <em>ditadura</em> ainda tem algum significado, Cuba é uma ditadura. É chato ficar repetindo esse fato, mas o que mais fazer diante da contagiosa propaganda em contrário? No <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Democracy_Index" target="_blank">ranking de democracia</a>, o país está em centésimo vigésimo primeiro, entre a Líbia ainda sem eleições e o regime islâmico das ilhas Comores. Qualquer apologista do regime que, em outros momentos, posa de amigo dos oprimidos deve lidar com esse dado fundamental.</p>
<p>A livre expressão e circulação de ideias não é um bem negociável. Quem pensa o contrário, imagine viver por décadas sob um regime autoritário chefiado por Aldo Rebelo. E depois mais um tempo sob o irmão de Aldo Rebelo, promovido de chefe das forças armadas a chefe de governo. Nenhuma revolução, até hoje, gerou um ditador menos ruim do que seria o Aldo em nossa realidade imaginária. Jamais deve-se abrir mão do direito de ridicularizar Aldo na praça pública e tentar derrubá-lo nas urnas, ainda que ele entregue energia elétrica de primeira qualidade, ininterruptamente, por anos e anos.</p>
<p>Os críticos à direita do PT nos incomodam justamente porque no fundo sabemos, como eles, que algumas das ilusões em relação a Cuba não estão restritas à extrema esquerda. E porque sabemos, como sabem os não sectários entre eles, que Dilma poderia fazer a diferença, se quisesse. A admiração de Lula pela ditadura cubana era sincera, e essa é uma nódoa de seu governo e de sua biografia. Mas, devido à postura de Dilma em relação a regimes autoritários de outros continentes e ao seu próprio amadurecimento político, não conseguirei ver eventuais palavras suas de elogio a Cuba como algo além de uma grande farsa. O apoio que os reacionários (isto é, os líderes antidemocráticos) cubanos têm entre a militância petista é tão grande, que é uma prova de fogo para Dilma ir a Cuba e cumprir seu <em>script</em>.</p>
<p>Talvez não haja mesmo nada como uma geração após a outra. Talvez seja preciso uma futura geração de petistas para que um presidente da República filiado ao partido tenha coragem de denunciar uma ditadura de esquerda como denuncia uma de direita. Daqui até lá a ditadura cubana já terá caído; o país será em grande parte parecido com o atual – com pobreza, corrupção, violência, prostituição, bela música e literatura –, mas também dotado das liberdades democráticas básicas de um país normal. Por então, talvez só reste à nova geração de petistas fazer uma crônica da vergonha passada, e entender como essa história pode ajudar a não se repetir os mesmos erros.</p>
<p>O argumento de que o Brasil não deve criticar abertamente os reacionários e declarar apoio aos democratas, porque um Estado não se mete nos assuntos internos de outro, teria validade se, além do credo a-cada-Reino-os-seus-súditos não ser a atitude de um imbecil moral, nossos líderes estivessem fazendo o seguinte: reunindo-se abertamente com os reacionários, elogiando, digamos, os índices educacionais e medalhas olímpicas da ilha e, ao mesmo tempo, meio às escondidas, pressionando os mesmos reacionários por abertura democrática e de alguma forma apoiando os democratas. Tais canais fatalmente seriam apenas <em>meio</em> escondidos, e um dado ou outro vazaria para a imprensa. A ausência de indícios de tal postura na mídia (grande, média, pequena ou micro) é, neste caso, prova da ausência de tais conversações. Infelizmente. Se eu acho que Dilma não é sincera em seu respeito pela ditadura, também sabemos que ela é bastante simpática ao dogma da não intervenção. O resultado, inevitável, é sua visita ao país ser o show de constrangimento e celebração ideomaníaca (lá e cá) que todos assistiremos.</p>
<p>E deveríamos criticar os atentados aos direitos humanos em Cuba, se não criticamos os da China, da Rússia e outros países grandes? Claro que deveríamos. Primeiro, à semelhança da China mas ao contrário de outros países, os crimes de Cuba derivam da própria base do sistema, que consagra a arbitrariedade. Segundo, nosso governo não bate de frente com a China, como aliás nem os governos das democracias nórdicas, porque meio mundo e mais a outra metade dependem da amizade chinesa para crescer. Por outro lado, qual a participação de Cuba no total das exportações brasileiras? E quais insubstituíveis produtos importamos de lá?</p>
<p>No caso de agressões aos direitos humanos pelos EUA, atentados à democracia na Rússia e ausência de democracia na China, as sociedades civis de países democráticos podem intervir, sem contudo esperar constante suporte governamental. No caso de Cuba e de outras micro-tiranias, governos democráticos estão desimpedidos para militarem mais ou menos abertamente. EUA e União Europeia já fazem isso em relação a Cuba. O Brasil poderia fazer a <em>sua</em> pressão – sem apoiar qualquer estúpido bloqueio econômico, mas deixando claro que quer para outros povos americanos pelo menos o tanto de democracia com que contamos em casa. Claramente, temos potencial para condicionar parcerias econômicas a reforma política. No entanto, o Itamaraty diz que, na viagem, a presidente acertará parcerias econômicas, mas não interferirá nos assuntos internos cubanos. Quem o Itamaraty pensa que é bobo? Apenas colaborar com os projetos econômicos da ditadura <em>já é</em> tomar lado nos assuntos internos cubanos, e não do lado correto. Se não formos fazer influência benéfica onde temos condições, onde mais faremos?</p>
<p>A esquerda brasileira verdadeiramente democrática deve deixar de lado o medo típico do indivíduo inseguro, aquele de “servir à direita”, chamar a ditadura cubana de ditadura e exigir que o governo brasileiro, o atual e futuros, eleve as expectativas em relação ao povo cubano e deixe de ver um governo ilegítimo como um bem necessário. Mesmo que essa militância não dê em nada, e Cuba democratize apesar do Brasil, no mínimo amadureceremos nosso senso de solidariedade civil e manteremos a clareza moral em dia. Os cubanos merecem ser mais que os prisioneiros de uma espécie de zoológico da esquerda medieval latino-americana.</p>
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