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	<description>Atualidade e cultura</description>
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		<title>Controle da mídia: do que estamos falando?</title>
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		<pubDate>Wed, 16 May 2012 17:20:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Orsi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[censura]]></category>
		<category><![CDATA[controle social da mídia]]></category>
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		<category><![CDATA[liberdade de imprensa]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A discussão está tomada por uma confusão generalizante</p><p>--<i> leia mais de <a rel="author" href="http://www.amalgama.blog.br/por/carlos-orsi/">Carlos Orsi</a> </i>--
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-9366" title="Jornais brasileiros" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/05/jornais_brasileiros.jpg" alt="" width="500" height="287" /></p>
<p>Dia desses me toquei de que já tenho 22 anos de carreira (!) como jornalista, tendo começado a trabalhar no segundo ano de faculdade. Entre outras coisas, isso significa que a geração que vai sair das escolas de Jornalismo neste ano estava nascendo ao mesmo tempo em que comecei a ganhar (pouco) dinheiro neste negócio. Isso também reflete algo a respeito dos anos de formação da minha vocação jornalística, aquele período em que fiquei sem saber se queria ser economista, engenheiro ou advogado e acabei caindo nisto aqui. Foi o período imediatamente seguinte ao fim da ditadura, entre 1985 e 1989, onde liberdade de imprensa, de sátira e de crítica eram temas quentíssimos. Jornalistas, humoristas e cartunistas eram os heróis da resistência, e o povo entrava na faculdade de Jornalismo sonhando em derrubar governos, não casamentos de celebridades ou técnicos de futebol.</p>
<p>Por essas e outras, &#8220;controle da mídia&#8221; é uma tecla emocionalmente delicada para mim, e finalmente resolvi escrever algo mais longo sobre o assunto. Já havia me manifestado de modo meio tangencial a respeito, por exemplo, <a href="http://carlosorsi.blogspot.com.br/2011/02/todo-mundo-e-contra-liberdade-de.html" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>A discussão sobre o tema, ao menos na medida em que chega ao grande público, me parece tomada por uma confusão generalizante que serve aos extremistas dos dois lados &#8212; tanto aos stalinistas (não muito) enrustidos quanto aos oligopolistas irresponsáveis. Essa confusão trata de pôr num mesmo balaio coisas como TV/rádio aberta, jornal/revista impressa, TV/rádio digital ou por assinatura, regulamentação da profissão de jornalista. Mas são todos temas muito diferentes, que requerem tratamento diversificado. Quando se fala em &#8220;marco regulatório da mídia&#8221; sem distinguir uma coisa da outra, a reação de gente como eu é de algo entre mera desconfiança e puro pânico.</p>
<p>Então, por partes: a &#8220;regulamentação ideal&#8221; é regulamentação nenhuma. É o paradigma que hoje reina, por exemplo, entre os blogs da internet: você não precisa de licença do governo para manter um blog, você não precisa de diploma universitário para manter um blog, você não precisa de carteirinha do sindicato para manter um blog. Claro, você ainda é imputável por coisas como calúnia, injúria, difamação, pedofilia, etc., mas essas são coisas <em>que recaem sobre você</em>, um indivíduo responsável por seus atos. Não têm nada a ver com uma &#8220;lei geral dos blogs&#8221; ou coisa do gênero.</p>
<h2>Impressos</h2>
<p>É um paradigma herdado da mídia impressa. Qualquer pessoa pode ir a uma gráfica e encomendar quantos panfletos quiser sobre qualquer coisa, contra ou a favor do aborto, do governo, dos alienígenas, das máquinas inteligentes ou do que quer que seja. Você também pode botar a mão no bolso, pôr o patrimônio da família no prego e fundar um novo jornal ou uma revista. O processo é igual ao de se abrir uma empresa qualquer. Não há um &#8220;marco regulatório&#8221; de jornais e revistas, e é bom que seja assim.</p>
<p>Por que, alguém poderia perguntar, é bom que seja assim? Por que a regulamentação ideal é regulamentação nenhuma? Simples: porque essa é a melhor forma de garantir um livre mercado de circulação de ideias e informações. Porque, para a democracia funcionar, as pessoas têm de ser capazes de dizer o que sabem e o que pensam com o mínimo de embaraço possível.</p>
<p>Aqui, alguém poderia cutucar lembrando que o mundo real está longe do ideal e que existem assimetrias, por exemplo, na disponibilidade de capital para a criação de veículos de amplo alcance, no acesso aos canais de distribuição, e será que é <em>justo</em> que os Civita e os Mesquita e os Frias e os Marinho tenham meios de se fazer ler (<em>ver</em> e <em>ouvir</em> é outro assunto, que fica para mais adiante) pelo Brasil inteiro, enquanto que as ideias de gente legal como eu e você ficam escondidas por aí?</p>
<p>Bom, a primeira coisa a lembrar é que essas famílias, em algum momento, apostaram parte (ou a totalidade) de seu patrimônio na construção das estruturas que, hoje, lhes permitem chegar, com seus jornais e revistas, às multidões, algo que gente como eu e você provavelmente não tem coragem ou vocação para também fazer. Outros, como os responsáveis pelo <em>Jornal do Brasil</em>, pela <em>Gazeta Mercantil</em>, pelas revistas <em>Cruzeiro </em>e <em>Manchete</em>, tiveram a coragem e a vocação e até se saíram bem por algum tempo, antes de ir a pique. E outros ainda têm a coragem, a vocação e vão se firmando, como no caso de <em>Carta Capital</em>.</p>
<p>A segunda coisa a se pensar é, qual a alternativa? O governo ou um comitê qualquer dizer qual revista ou jornal as pessoas podem ou devem ler, ou qual deve ser o conteúdo desses jornais e revistas?</p>
<p>Uma questão subsidiária aqui é a da <em>propriedade</em>: já que a pluralidade de vozes e de ideias é um valor, por que o Estado não deveria agir, por exemplo, impedindo que uma mesma empresa controle uma fração excessivamente alta da circulação, ou um mesmo empresário mantenha jornais e revistas em diversas praças simultaneamente?</p>
<p>O argumento, que embute o temor de que um grande magnata da mídia venha a operar uma espécie de &#8220;lavagem cerebral&#8221; monolítica na população, me parece ignorar a lição histórica de que monopólios privados de meios impressos são sempre mais instáveis do que parecem (lembre-se de <em>O Cruzeiro</em>). O melhor controle social desse tipo de mídia ainda é o exercido pela audiência &#8212; que pode não ser perfeito, mas que ainda é a coisa mais parecida com democracia direta que temos: quem não gosta do jornal X ou da revista Y não os compra, não os lê. Votar com o cartão de crédito pode não ser a solução perfeita mas, ao menos nesse caso, é mais segura para a sobrevivência do ideal democrático da livre circulação de ideias, argumentos e informações do que delegar responsabilidades a agentes políticos ou burocratas.</p>
<p><em>Mutatis mutandis</em>, a mesma linha de argumentação se aplica aos meios audiovisuais digitais e por assinatura. A razão é que, assim como acontece com os meios impressos e os blogs, <em>não há um limite físico relevante à ocupação desse espaço</em>. Papel e tinta são abundantes, e espaço para transmissão digital de conteúdo, mais abundante ainda. O único recurso limitado, no caso, são a atenção e o interesse do público, e cada membro do público <em>deve ser livre para dispor de seu tempo como melhor lhe aprouver</em>.</p>
<h2>Rádio e TV</h2>
<p>Esse doce <em>laissez-faire</em>, no entanto, torna-se indefensável quando se fala em TV e rádio de sinal aberto, tradicional, e por um simples motivo: a fatia do espectro eletromagnético disponível para esses meios é limitada. Se a emissora W ocupa o canal Z, então nenhuma outra emissora poderá fazê-lo, <em>e o conjunto de canais é finito</em>. Assim, torna-se necessário que uma estratégia de distribuição e alocação seja traçada por uma autoridade reconhecida por todas as partes interessadas. Entra o Estado.</p>
<p>Há diversos regimes concebíveis para que essa distribuição ocorra (os canais poderiam ser doados, vendidos, alugados, etc.), mas o Brasil optou pelo regime de concessão pública, no qual o Estado continua dono do canal, mas permite que ele seja explorado por uma empresa privada. Essas concessões estão sujeitas a contratos, como as concessões de estradas, por exemplo.</p>
<p>Num regime assim, fica difícil justificar o arrendamento de fatias inteiras da programação a terceiros não-concessionários, como igrejas, redes de televenda ou, mesmo, grandes redes nacionais de programação (se tudo que o concessionário de um canal na cidade de Qualqueruma-MA faz é retransmitir a Globo, fica difícil justificar o fato de a concessão ter sido dada a seu detentor atual e não a qualquer outra pessoa, ou à própria Globo, para começo de conversa). O &#8220;arrendamento&#8221; informal de concessões de rádio para não-concessionários (principalmente igrejas) também é comum e representa uma clara distorção do sistema.</p>
<p>Claro, o sistema de concessão também pode ser usado, de modo perverso, para prejudicar o exercício legítimo da liberdade de expressão. Um canal que faça uma série de reportagens expondo corrupção no Ministério da Comunicações poderia se ver, de repente, alvo de escrutínio especial das autoridades. Dado o caráter patrimonialista do Estado brasileiro &#8212; ficando no caso das estradas, não é incomum políticos intimidarem concessionárias para que sejam convidados a &#8220;inaugurar&#8221; obras viárias nas quais não tiveram participação alguma &#8212; a preocupação é mais do que legítima.</p>
<p>Portanto, se a discussão do tal &#8220;controle social da mídia&#8221; for uma discussão sobre o regime de concessões, sobre o cumprimento dos contratos pelas concessionárias e sobre a forma ideal de fiscalizar esses contratos, evitando tanto a permissividade total quanto o uso do perverso do regime para fins de extorsão política, trata-se de um debate mais do que bem-vindo, e que o Brasil deveria ter feito ainda nos tempos de Marconi.</p>
<p>Agora, se a discussão for para tratar da criação de conselhos e carteirinhas para jornalistas, ou da imposição de limites burocráticos à criação, estabelecimento, manutenção, alcance e conteúdo de mídias baseadas em papel e tinta, ou de mídias eletrônicas onde os canais são ilimitados, atenção: está em curso uma traição do espírito da democracia que os brasileiros lutaram para instalar lá quando comecei a pensar em ser jornalista, nos idos de 1985.</p>
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		<title>A tecnologia nem sempre está do lado da liberdade</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/05/2012/tecnologia-liberdade/</link>
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		<pubDate>Tue, 15 May 2012 17:00:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nick Cohen</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Fórum da Liberdade de Oslo]]></category>
		<category><![CDATA[novas tecnologias]]></category>
		<category><![CDATA[Primavera Árabe]]></category>
		<category><![CDATA[rússia]]></category>
		<category><![CDATA[Vladimir Putin]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Governos aprenderam que o melhor jeito de matar uma revolução é explorar as novas tecnologias</p><p>--<i> leia mais de <a rel="author" href="http://www.amalgama.blog.br/por/nick-cohen/">Nick Cohen</a> </i>--
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-9379" title="Posse de Vladimir Putin" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/05/posse-putin.jpg" alt="" width="500" height="262" /></p>
<p>Por um momento no <a href="https://www.oslofreedomforum.com/" target="_blank">Fórum da Liberdade</a>, em Oslo, foi possível acreditar que Pyotr Verzilov era o cara mais bacana do planeta. Arfando e com a barba por fazer, o jovem artista performático chegou na Noruega diretamente dos protestos de rua de Moscou. Com o entusiasmo de um exultante radical, ele expôs os motivos pessoais e políticos para combater a cleptocracia de Putin.</p>
<p>Ele já fora sortudo o bastante para convencer um membro do <a href="http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-17753013" target="_blank">Pussy Riot</a> a ser sua esposa. O célebre coletivo feminista se revoltou quando o Patriarca Kirill continuou a subserviência da Igreja Ortodoxa Russa ao autocrata de plantão no Kremlin ao anunciar que a liderança de Putin era um “<a href="http://af.reuters.com/article/worldNews/idAFTRE81722Y20120208" target="_blank">milagre de Deus</a>”, e adicionando, para não deixar dúvidas, que os opositores do regime eram uma minoria degenerada, apaixonada pela cultura ocidental.</p>
<p>Pussy Riot respondeu com uma “reza punk” na Catedral do Cristo Redentor, em Moscou. O protesto não era a ofensa a delicadas sensibilidades religiosas como pareceu ao ser visto na internet, Verzilov explicou. As moças dançaram por cerca de um minuto em seus gorros e meias-calças, até que seguranças ordenaram que se retirassem. Elas tocaram então a gritante faixa “Santa Mãe, Santíssima Virgem, Persegue Putin”. Devido a essa artimanha improvisada, o Serviço Federal de Segurança prendeu sua esposa e a ameaçou com uma sentença de sete anos, embora ela estivesse grávida.</p>
<p>Eles não venceriam, disse Verzilov com indomável confiança. Assim que a conferência acabasse, ele retornaria à Rússia para participar de uma revolução que libertaria sua esposa e filho ainda não nascido. Todos os russos na audiência concordaram que mudança de regime estava a caminho – até mesmo Garry Kasparov, que não é bem um adolescente esquentado.</p>
<p>Era fácil ter aquele sentimento na Noruega. O Fórum da Liberdade de Oslo é um Davos dos revolucionários. Ativistas que derrubaram ditaduras encontram ativistas que querem derrubar ditaduras. Ainda que seja preciso tradutores, todos falam na mesma língua. Eles concordam sobre o potencial radical das novas tecnologias. A magnífica feminista egípcia Mona Eltahawy disse que, quando a polícia do ministério do interior de Mubarak lhe espancou e abusou sexualmente, ela soube imediatamente que a primeira coisa a fazer era ter acesso a um celular e tuitar um pedido de ajuda a seus 133 mil seguidores. A ajuda veio.</p>
<p>A audiência não se surpreendeu. Ela tinha como certa a capacidade da internet em mobilizar apoio – um poder que teria parecido incrível apenas cinco anos atrás. Eles concordaram sobre as táticas – desobediência civil não violenta. Tinham um programa comum – democracia secular, estado de direito e direitos humanos. E concordaram que precisariam se dirigir ao ocidente em busca de ajuda. Não necessariamente a governos ocidentais. Mas ao ocidente dos direitos humanos, George Soros, organizações de auxílio a ativistas, jornalistas e acadêmicos engajados – a rede de altruístas da Europa e América do Norte. A camaradagem gerou o sentimento exultante de que um novo mundo era não apenas possível, mas inevitável.</p>
<p>Thor Halvorssen, fundador do Fórum da Liberdade de Oslo, é um exemplo do melhor que o ocidente pode oferecer, mas ele é um realista sem tempo para otimismo insensato. Me mostrou estatísticas do grupo de monitoramento de direitos humanos <a href="http://www.freedomhouse.org/report-types/freedom-world" target="_blank">Freedom House</a>. Apesar da globalização, “<em>Twitter revolutions</em>” e Primavera Árabe, o número de pessoas vivendo sob regimes opressores não mudou quase nada em uma década. A Freedom House classificava 86 dos 192 países no ano 2000 como “livres”; 58 como parcialmente livres – estados autoritários com algumas liberdades, mas com restrições à plena participação democrática; e 48 como simples ditaduras “sem liberdade”. Em 2010, 87 dos então 194 países eram livres, 60 parcialmente livres e 47 sem liberdade.</p>
<p>Mudanças tecnológicas e econômicas estão fortalecendo a capacidade de domínio de autocratas. Homens autoritários aprenderam bem as lições da Primavera Árabe. Eles estão explorando o potencial sinistro das novas tecnologias para garantir que ativistas versados em internet nunca mais os surpreendam. Companhias ocidentais estão dispostas a agradá-los. Um recente documentário da televisão sueca <a href="http://svt.se/ug/video-the-black-boxes-3" target="_blank">expôs a dupla face do gigante nórdico das telecomunicações TeliaSonera</a>. Seus executivos em Estocolmo têm um belo bla-bla-blá progressista. Eles falam de seu comprometimento para com a democracia e respeito pelos direito de privacidade de seus clientes, ao mesmo tempo em que dão aos serviços de segurança de Azerbaijão, Bielorrússia e Uzbequistão um acesso irrestrito ao sistema de telefonia com o qual gerações passadas de policiais secretos podiam apenas sonhar.</p>
<p>Um jovem membro da oposição bielorrussa, Franak Viacorka, me contou como os novos poderes estatais desorientam e desmoralizam. Após se esconder com amigos nos subterrâneos de Minsk durante 10 dias, ele cometeu o erro de alertar a KGB para seu paradeiro ao ligar o celular. Quando eles rastrearam o sinal e o recolheram, o interrogador lhe mostrou cópias de todas suas mensagens de texto para os pais, amigos e aliados políticos. As mensagens interceptadas enchiam 20 folhas. “Nesses momentos você quer chorar”, ele disse. “Você se sente sem defesa. Muito frágil. É como se a Suécia ajudasse o regime a reprimir, isolar e controlar a oposição. A Europa não honra seus princípios. Interesses de negócio vêm em primeiro lugar.”</p>
<p>A resposta tradicional de ativistas de direitos humanos tem sido forçar o ocidente a se comportar pelo menos com um mínimo de moralidade. Temo que eles não vencerão essa batalha em tempos de recessão. Vivemos uma crise nas economias ocidentais tão abrangente quanto qualquer outra desde os anos 1930 – e os historiadores entre vocês saberão que liberdade, igualdade e busca da felicidade não floresceram naquela “pobre década desonesta”. Os sistemas bancários britânico e americano entraram em colapso. Os Estados Unidos têm uma fraca recuperação, mas os líderes britânicos não fazem ideia de como reparar o mal. Enquanto isso, a eurozona se transformou numa máquina de destruição de riqueza que os políticos europeus não conseguem desligar. Aqueles que querem que governos coloquem direitos humanos na frente de empregos, ou gastem sangue e dinheiro em intervenções humanitárias terão um tempo ainda mais difícil adiante.</p>
<p>A crise econômica é também uma crise de legitimidade política. Pode parecer vulgar dizer, mas no final do século 20 muitos queriam ser livres porque queriam ser ricos. Na semana passada, uma <a href="http://www.bbc.co.uk/news/business-13547505" target="_blank">pesquisa global da BBC</a> mostrou como a falência no ocidente mudou as atitudes. O respeito por países europeus democráticos diminuiu, e a admiração pela China autoritária cresceu. A lição do pós-2008 parece ser de que a repressão funciona. Ela gera riqueza. É boa para os negócios. Quem os liberais de países decadentes pensam que são para dar sermão aos outros?</p>
<p>Não digo que deveríamos parar de dar sermões. Muito pelo contrário. Digo simplesmente que não devemos nos enganar. Sempre foi difícil conseguir uma mudança que valesse a pena, e em breve será ainda mais difícil.</p>
<p style="text-align: right;">* <em><a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2012/may/13/nick-cohen-democracy-russia" target="_blank">original no Observer</a>.</em><br />
<em> tradução autorizada.</em></p>
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		<title>Venezuela: narcotráfico e geopolítica</title>
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		<pubDate>Mon, 14 May 2012 16:15:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alejandro Tarre</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Chávez e o narcotráfico]]></category>
		<category><![CDATA[destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[Luis Velásquez Alvaray]]></category>
		<category><![CDATA[narcotráfico na Venezuela]]></category>
		<category><![CDATA[Venezuela]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Segundo Alvaray , parte das armas recebidas da China vai para as FARC</p><p>--<i> leia mais de <a rel="author" href="http://www.amalgama.blog.br/por/alejandro-tarre/">Alejandro Tarre</a> </i>--
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_9371" class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-9371" title="Luis Velásquez Alvaray" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/05/velasquez.jpg" alt="" width="500" height="290" /><p class="wp-caption-text">-- Luis Velásquez Alvaray --</p></div>
<p>Quero comentar várias coisas da entrevista que a SoiTV fez com o ex-magistrado do Supremo Tribunal Luis Velásquez Alvaray [vídeo abaixo], mas não pude por falta de tempo.</p>
<p>Digo agora o seguinte.</p>
<p>É interessante como são difusos os limites entre os objetivos políticos e geopolíticos do governo da Venezuela e os interesses comerciais dos cartéis que operam no país. Às vezes ambos parecem existir placidamente, comprovando que não existe necessariamente uma contradição entre eles. Mais ainda: no sentido perverso do termo, funcionam como num círculo virtuoso. O narcotráfico facilita certos objetivos políticos do governo e as políticas governamentais facilitam o tráfico ilícito de drogas que, por sua vez, potenciam os esforços para se atingir objetivos políticos.</p>
<p>Vejam o caso de <a title="Hugo Carvajal" href="http://caracaschronicles.com/tag/hugo-carvajal/" target="_blank">Hugo Carvajal</a>, classificado como narcotraficante pelo Departamento do Tesouro norte-americano.</p>
<p>Velásquez Alvaray conta que parte do petróleo que a Venezuela envia à China é pago com armas e outros equipamentos militares, uma porcentagem dos quais vai para as FARC. E quem tem a tarefa de coordenar tudo isso? Hugo Carvajal. Quer dizer, um narcotraficante dirige uma operação importante, que é parte da agenda geopolítica do governo: prestar assistência à luta das FARC. E as FARC, claro, também participam do narcotráfico. E, graças ao controle que membros das FARC têm de certas culturas, redes, rotas e territórios, narcotraficantes como Hugo Carvajal provavelmente se beneficiam pessoalmente de seus contatos entre esses membros. No caso específico da assistência às FARC, parece haver uma espécie de simbiose entre os interesses comerciais do narcotráfico e a agenda geopolítica.</p>
<p>Impossível não relembrar <a href="http://www.tnr.com/article/politics/ballad-dead-man" target="_blank">este artigo de Bernard-Henri Levy</a>, recordando sua conversa com o comandante das FARC, Ivan Ríos:</p>
<blockquote><p>Lembro dele conversando comigo enquanto nos dirigíamos ao pequeno aeroporto onde Camilo Gomez, o comissário para a paz do presidente colombiano, estava prestes a chegar. Ríos usou de toda sua habilidade dialética para me convencer de que a cultura da coca, a militarização dos laboratórios clandestinos onde ela seria refinada, o tráfico de cocaína e sua massiva comercialização a serviço das metrópoles do Império Americano, tudo isso era uma forma de resistência à opressão, um tipo de autodefesa de pobres camponeses falidos pelos capitalistas, uma reação politicamente correta à deterioração dos termos de troca entre Norte e Sul estabelecida por corporações americanas.</p></blockquote>
<p>E logo adiciona: “Raramente em minha vida eu me deparei com uma racionalidade tão louca”.</p>
<p>Para mim, esta reflexão de Bernard-Henri Levy não se aplica a gente como Carvajal ou Cliver Alcalá, a quem enriquecimento pessoal deve ser uma motivação maior que política e ideologia. Mas poderia sim explicar a relação de Chávez com o narcotráfico, relação que inclusive deixa perplexos <em>insiders</em> como Velásquez Alvaray e <a href="http://oglobo.globo.com/mundo/na-venezuela-um-juiz-que-se-transformou-em-delator-4827490" target="_blank">Aponte Aponte</a>.</p>
<p>&#8212;&#8212;<br />
<strong><span style="text-decoration: underline;">a entrevista</span></strong>:<br />
<iframe src="http://www.youtube.com/embed/jYL_774sNdY?rel=0" frameborder="0" width="500" height="284"></iframe></p>
<p>&#8212;&#8212;<br />
<strong><span style="text-decoration: underline;">atualização</span></strong>: <em>Um leitor que diz ter trabalhado no ministério do Interior me informa que escutou no ministério essa mesma explicação de Ivan Ríos para justificar os vínculos do governos e as FARC com o narcotráfico. Não há como verificar a informação, mas não me surpreenderia se fosse verdade.</em></p>
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		<item>
		<title>Sobre patos, cisnes e mosquinhas observadoras</title>
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		<comments>http://www.amalgama.blog.br/05/2012/patos-cisnes-e-mosquinhas-observadoras/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 11 May 2012 16:30:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Camila Pavanelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pessoalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Televisão]]></category>
		<category><![CDATA[reality shows]]></category>
		<category><![CDATA[reality shows de calouros]]></category>
		<category><![CDATA[Susan Boyle]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Então, o moço declara: "Chegamos aqui como uma dupla e continuaremos como uma dupla."</p><p>--<i> leia mais de <a rel="author" href="http://www.amalgama.blog.br/por/camila-pavanelli/">Camila Pavanelli</a> </i>--
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Aparentemente, há um novo fenômeno de audiência nos <em>reality shows</em> de calouros (aliás, alguma vez não houve?): uma dupla de adolescentes que canta ópera (regojizemo-nos, pois os gringos ainda não descobriram a música romântico-sertaneja brasileira). Assista ao vídeo. Serão apenas oito minutos na sua vida e, quem estamos tentando enganar, ambos sabemos que tanto eu quanto você já passamos oito minutos fazendo coisas piores do que assistir a um clipe de <em>reality show</em> de calouro.</p>
<p><iframe src="http://www.youtube.com/embed/ZsNlcr4frs4?rel=0" frameborder="0" width="500" height="284"></iframe></p>
<p><a href="http://partialobjects.com/2012/04/susan-boyle-redux/" target="_blank">Este post</a> faz uma análise que me pareceu bastante equivocada das causas do sucesso do vídeo. Mas faz também um pedido importante aos leitores, que repito aqui: assista a ele e fique atento à sua reação.</p>
<p>O argumento do post, resumido no título, é que temos aí apenas uma reedição do sucesso de Susan Boyle, a patinha feia que virou cisne assim que abriu a boca para cantar. Mas a análise vai um pouco além: o programa jogaria com nossa expectativa de que o participante feioso vai a-ha-zar. O post nos pergunta mais ou menos o seguinte: amg, você acha mesmo que Simon Cowell não sabia que o gordinho efetivamente <em>canta</em>? Ele é produtor executivo daquela desgraça. Se ele está colocando no ar &#8211; de novo &#8211; um feioso talentoso, é porque deve haver uma boa (isto é, lucrativa) razão para isso. O argumento, em suma, é de que o feioso talentoso está lá justamente para que nossa expectativa seja confirmada e nos sintamos sumamente satisfeitos e inteligentes com isso &#8211; viu, viu, eu sabia que o feioso cantava bem desde o princípio!</p>
<p>Bem, isso até é verdade. Mas, se você viu o vídeo, não deve ter ignorado que o feioso em questão não estava sozinho &#8211; fato que a análise do <a href="http://www.partialobjects.com/" target="_blank">Partial Objects</a> desconsidera por completo.</p>
<p>Porque o elefante no meio da sala &#8211; a diferença e a novidade em relação ao vídeo de Susan Boyle &#8211; é que o feioso, desta vez, está acompanhado. E não por outro feioso, mas por uma moça bonita. Que, quando os dois sobem no palco, é praticamente a única a se pronunciar, com simpatia e desenvoltura. Em seguida, os telespectadores são confrontados com uma breve entrevista com os dois, anterior à sua subida ao palco. Nesta parte do vídeo, a moça põe a mão carinhosa e condescendentemente sobre o ombro do feioso. A narrativa é a seguinte: moça bonita concede caridosamente a graça de seu charme e se sujeita a fazer dupla com (e ainda animar feito <em>cheerleader</em> e servir de terapeuta reconfortadora do) gordo esquisitão com auto-declarados problemas de confiança e auto-estima. Uma bela e edificante história de amizade entre o patinho feio e o cisne, portanto. Se Susan Boyle era o pato que vira cisne, pato e cisne, aqui, estão lado a lado*.</p>
<p>Esta parte do vídeo termina com o menino dizendo emocionado, &#8220;Eu não subiria no palco esta noite se não tivesse Charlotte ao meu lado&#8221;. Corta para o palco novamente e eles, enfim, cantam.</p>
<p>Não comentarei a cantoria aqui. Direi apenas o mínimo necessário para avançar meu argumento, que é o seguinte: o moço canta direitinho. E a moça escorrega em não poucos momentos.</p>
<p>A plateia vai à loucura, todos-aplaude, o clichê de sempre. Os jurados se pronunciam. Mais clichês. Chega a hora da verdade &#8211; a hora de Simon Cowell.</p>
<p>Simon, diferentemente do que argumenta o post do Partial Objects, não está ali (apenas) representando um papel para nos fazer parecer inteligentes. Ele está ali, como sempre esteve, para mostrar que o rei está nu &#8211; isto é, para falar o que todo mundo pensa mas ou não teve coragem de admitir ou, com muito maior probabilidade, não teve capacidade de articular.</p>
<p>Acontece que, aqui, apenas metade do rei está nu. Ele diz com todas as letras aquilo que já sabíamos: que o menino é ótimo, e a menina apenas OK. E, uma vez estabelecido isso, resta a dúvida que Simon verbaliza sem mais delongas: a moça poderia prejudicar o moço na competição?</p>
<p>Então, o moço, que estivera quietinho de início mas depois da cantoria foi o primeiro a se pronunciar, agradecendo efusivamente os aplausos recebidos, declara: &#8221;Chegamos aqui como uma dupla e continuaremos como uma dupla.&#8221;</p>
<p>Este, telespectadores, é o momento catártico-emocionante do vídeo. Poderia haver gesto mais magnânimo?</p>
<p>Nossa empatia, emoção, catarse, chame do que quiser, não está propriamente no fato de que o feioso cante bem. Afinal, ele não é o primeiro a fazê-lo. A empatia está precisamente neste pronunciamento, nesta frase. Pois, com ela, há uma inversão de papéis. O gordo feioso que parecia carregado nas costas pela menina bonita de repente vira a futura super-estrela levando a reboque sua amiguinha simpática, porém pouco talentosa. Súbita e inesperadamente, os papéis se invertem &#8211; nem tanto porque o feioso cante bem, mas porque a bonita canta mal (ou, vá lá, não tão bem assim). Então, continuamos com um cisne e um pato &#8211; só que, agora, os papéis foram trocados. Agora é o ex-pato quem está por cima da carne seca (ou dos <em>fish&#8217;n'chips</em>, por que não), com o poder de alavancar ou destruir uma carreira. E, de posse deste poder, ele opta por ajudar a amiga, retribuindo com gratidão todo o auxílio anterior que lhe fora concedido.</p>
<p>Este é o lance. Agora o feioso pode se mostrar superior à bonita em dois níveis distintos, operando uma reviravolta dramática na narrativa. Primeiro, ele se mostra superior a ela no nível musical &#8211; mas esse é o de menos. Já sabíamos de antemão que ele cantaria bem (talvez não esperássemos que cantasse melhor do que ela, mas certamente já sabíamos que cantaria bem). O nível mais importante, porém, é o segundo. Ao se recusar a desfazer a dupla, ele mostra sua superioridade moral, pois fica estabelecido que é ele quem carrega a dupla nas costas, e certamente não o faz em interesse próprio (sozinho, muito mais facilmente ele se tornaria um superstar).</p>
<p>Há também um aspecto adicional. Acompanhe minha hipótese: a impressão inicial de quem vê o vídeo, assim logo no primeiro <em>frame</em>, deve ser algo próximo a: &#8220;gordo feioso faz dupla com menina bonita&#8221;. Mas, até o final do vídeo, isso tem grandes chances de se modificar. Porque, quando reparamos bem, vemos que o gordo pode até ser feio, mas muito mais do que um gordo feio, é um adolescente estiloso de cabelos compridos que canta ópera vestindo uma camiseta do Jimi Hendrix. Quem não quer ser amigo desse cara? Em compensação, logo percebemos que sua parceira nem é tão bonita assim &#8211; ela é bem comum, na verdade, tornada bonita à primeira vista apenas devido à evidente fuga-dos-padrões de seu companheiro de palco.</p>
<p>Ou seja: somos piores, muito piores do que imaginávamos. Não é que queríamos nos sentir inteligentes ao prever o talento do feioso e nem muito menos que queríamos vê-lo dar a volta por cima, redimindo sua condição de feio. Não, isso já não basta. Já não basta ser feio &#8211; ou gordo, o que, hoje em dia, são adjetivos praticamente intercambiáveis -, mas cantar bem. É necessário, além disso, ser uma pessoa moralmente superior. Susan Boyle era &#8220;feia, mas canta muito!&#8221;. Jonathan é &#8220;feio, mas canta muito e é um cara legal!&#8221;.</p>
<p>Assim, para todos nós que somos feios e não cantamos nada, Jonathan mostra que resta pelo menos o consolo de sermos pessoas legais.</p>
<p>Será mesmo?</p>
<p>&#8212;&#8212;<br />
*Isso para não falar na tensão sexual à la Cyrano de Bergerac implícita na dupla. &#8220;Será que ele é apaixonado por ela? Se for, não tem a menor chance&#8221;, etc.</p>
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		<title>Quando é inevitável saber</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/05/2012/anatomia-de-um-desaparecimento-matar/</link>
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		<pubDate>Thu, 10 May 2012 20:30:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Renato Tardivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Hisham Matar]]></category>
		<category><![CDATA[literatura estadunidense contemporânea]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O enredo é repleto de aproximações e distanciamentos que inauguram reviravoltas importantes</p><p>--<i> leia mais de <a rel="author" href="http://www.amalgama.blog.br/por/renato-tardivo/">Renato Tardivo</a> </i>--
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_9339" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501096326" target="_blank"><img class="size-full wp-image-9339 " title="Anatomia de um desaparecimento" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/05/anatomia.jpg" alt="" width="200" height="302" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Anatomia de um desaparecimento&quot;, de Hisham Matar</p></div>
<p>“Às vezes a ausência do pai pesa tanto quanto uma criança sentada no meu peito.” Há quem diga que um bom romance sempre começa com uma frase impactante. No caso deste belo livro de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Hisham_Matar" target="_blank">Hisham Matar</a>, escritor estadunidense de ascendência líbia, podemos dizer ainda mais: a primeira frase do livro, escolhida para iniciar esta resenha, condensa com rara beleza o enredo a ser rememorado pelo narrador-personagem, Nuri.</p>
<p>Como indica o próprio título, o romance fala de desaparecimento, mas não apenas de “um” – vários são os “desaparecimentos”. Ao narrar a súbita partida de sua mãe, o narrador escreve: “Uma solidão impressionante iluminou-se quando ele acendeu a luz. A forma dela ainda estava estampada no colchão”. É o mergulho sensível nessas “anatomias” que Nuri empreende ao longo das mais de 200 páginas.</p>
<p>Nossa memória parece seguir uma estranha legalidade na qual as coisas mais próximas são justamente as mais distantes. Talvez decorra disso o potencial das lembranças para causar dor: “A saudade era uma pedra em minha boca”. Mas, paradoxalmente, sentir a dor é condição para <em>curá-la</em>. A memória pode trazer redenção.</p>
<p><em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501096326" target="_blank">Anatomia de um desaparecimento</a></em> reinaugura, pela memória, uma série de vínculos caros a Nuri: as tentativas de se aproximar do Pai (assim mesmo, grafado com maiúscula), a saudade que, ainda em vida, sentia da Mãe, a paixão incestuosa pela madrasta, Noma, e pela criada da família em Cairo, Naima, personagem sofrida que, ao fim, adquire outros (ainda mais importantes) contornos. Há também a amizade com um colega de colégio, a relação com amigos do Pai, o reencontro com os criados no Cairo – e com a própria casa – após longa temporada (mais de dez anos) no estrangeiro.</p>
<p>A história distribui-se em 37 capítulos – curtos, no geral – e flui bem. O enredo pródigo em afetos é, como vimos, repleto de aproximações e distanciamentos os quais inauguram reviravoltas importantes na trama. A maior delas é disparada pelo desaparecimento do Pai, sequestrado por um grupo político rival. Nuri se dá conta, então, da falta que sempre o habitou.</p>
<p>Nessa medida, o retorno ao Cairo e a volta “para casa para os braços de criados” não introduz um final feliz ou idílico. Pelo contrário, parece a consumação para Nuri de que, por mais que tivesse descoberto o quanto o Pai o admirava, ele sempre o decepcionaria. A profusão de línguas, culturas, classes sociais, convicções políticas, gerações, afetos, muitos são os elementos que, confundidos, são inconciliáveis.</p>
<p>“Nada é mais aceitável do que aquilo dentro do qual nascemos”, dispara Nuri. Ocorre que, analogamente – e o próprio se dará conta disto –, talvez nada seja mais repugnante. Um extremo só faz evidenciar o outro. “Às vezes é melhor não saber”, diz um personagem ao narrador-protagonista. No fim, Nuri bem que poderia responder: Mas às vezes é inevitável saber.</p>
<p>::: <strong><em>Anatomia de um desaparecimento</em></strong> ::: <strong>Hisham Matar</strong> (trad. Julián Fuks) :::<br />
::: <strong>Record</strong>, <strong>2012</strong>, <strong>224 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501096326" target="_blank">compre na Livraria Cultura</a> :::</p>
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		<title>Dezessete segundos – o tempo de muitas vidas</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/05/2012/segundos-fora-kohan/</link>
		<comments>http://www.amalgama.blog.br/05/2012/segundos-fora-kohan/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 09 May 2012 16:00:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Melo Czekster</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[desth]]></category>
		<category><![CDATA[literatura argentina contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[Martín Kohan]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O romance se passa, inteiro, na exiguidade de dezessete segundos de uma luta de boxe</p><p>--<i> leia mais de <a rel="author" href="http://www.amalgama.blog.br/por/gustavo-melo-czekster/">Gustavo Melo Czekster</a> </i>--
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_9296" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920498" target="_blank"><img class="size-full wp-image-9296 " title="Segundos fora" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/segundosfora.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Segundos fora&quot;, de Martín Kohan</p></div>
<p>Para Julio Cortázar, a literatura poderia ser sintetizada na imagem de uma luta de boxe: enquanto o romance, por sua natureza caudalosa, vasta, com múltiplos narradores e pontos de vista, ganharia a atenção do leitor da mesma forma que um boxeador vence a luta por pontos, o conto, pela brevidade e pela concentração do efeito pretendido, conquistaria o leitor de maneira idêntica a um boxeador que vence a luta por nocaute, através de um soco certeiro que seria, ao mesmo tempo, surpreendente e inevitável. Porém, o que se pode dizer de um romance que se passa, inteiro, na exiguidade de dezessete segundos de uma luta de boxe? Dezessete longos, infindáveis segundos, onde vidas são decididas, destinos são modificados e nascem os mistérios. Este curto espaço de tempo, que muitos desconsiderariam na velocidade da vida cotidiana, concentra toda a ação dramática de “Segundos Fora”, de Martín Kohan.</p>
<p>A referência a Cortázar não é ocasional. O próprio autor menciona o conto “Torito”, presente em <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=9875780820" target="_blank">Final de Jogo</a></em>, trazendo à tona o nome de Cortázar, único escritor citado no romance. Da mesma forma, tanto pela estrutura do livro quanto pela escolha de diferentes focos narrativos, Kohan deixa entrever a sombra de <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8520002986" target="_blank">O Jogo da Amarelinha</a></em>, com os seus jogos que extrapolam a lógica narrativa e brincam com as percepções do leitor. No entanto, ao contrário de Cortázar, o autor não se limita a uma brincadeira estética; as suas inovações na estrutura objetivam transmitir a tensão da história, colocar o leitor em cima do ringue de boxe e, ao mesmo tempo, no meio da caçada a um possível assassino. Como exemplo, podemos citar o próprio nome dos capítulos: quando um boxeador cai, a contagem do juiz vai até dez, sendo que, se o caído não estiver pronto até o último número, a luta acaba. Contudo, no caso da luta entre Jack Dempsey e Luis Ángel Firpo, o juiz – por motivos explicados no livro e que, pela sua singeleza quase patética, acabam se tornando espantosos – extrapola a contagem. A partir do capítulo/segundo onze, cada número passa a ser acompanhado por sinais de exclamação (Onze!!, Doze!!, e assim por diante), como se alertassem o leitor que o livro está no final, como se avisassem que um grande erro está acontecendo. É um recurso simples, mas que transmite ainda mais urgência para a narrativa. O conteúdo destes últimos capítulos acompanha a mudança dos títulos, pois o narrador que termina o capítulo anterior reinicia o posterior desconstruindo a impressão deixada poucos instantes antes. Da mesma forma, os trechos são mais curtos, mais prementes, demonstrando que os dezessete segundos de queda estão chegando ao fim e o tempo iniciará a sua contagem normal depois daqueles momentos em que as suas engrenagens andaram em câmera lenta.</p>
<p><em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920498" target="_blank">Segundos Fora</a></em> conta, em primeiro plano, a luta de boxe entre Jack Dempsey e Luis Ángel Firpo, El Toro Salvaje de Las Pampas, ocorrida em 1923, e os fatídicos dezessete segundos em que o boxeador argentino acertou um soco tão poderoso no campeão mundial dos pesos pesados (“o campeão de todos os pesos”) que o jogou para fora do ringue, criando a possibilidade de transformar a derrota prevista em um triunfo de proporções épicas. Para tal relato, além das percepções desnorteadas do lutador atingido, o autor conta a história incidental de dois personagens em diferentes pontos de vista em relação ao ringue: o juiz, Mister John Slowest Gallagher, um ex-boxeador frustrado, imerso em uma relação de amor e ódio com sua antiga namorada, e Donald Mitchell, fotógrafo de eventos esportivos, que enxerga o mundo através de quadros na sua câmera fotográfica e, subitamente, por força das circunstâncias, acaba sendo envolvido na situação que só deveria testemunhar e registrar.</p>
<p>Em um segundo plano, Kohan conta a história de dois repórteres de Trelew, cidade do interior da Argentina, que recebem a incumbência de preparar um caderno especial do jornal contando os fatos ocorridos 50 anos atrás, em 1923. Enquanto Verani pretende contar a história da luta de boxe que parou o país naquele ano, Ledesma decide relatar a excursão feita pelo regente e compositor Richard Strauss e a apresentação (inédita) da primeira sinfonia de Gustav Mahler no Teatro Colón, em Buenos Aires. Esta sequência é integralmente narrada através de diálogos entre os dois jornalistas, cada um defendendo o seu ponto de vista: enquanto um deles é de conclusões e humor refinado, representando a cultura dita erudita, o outro desfere alegações simplistas e grosseiras, em uma síntese do que seria a cultura popular. Mais do que um recurso da narrativa, estes diálogos aproximam-se do embate travado no ringue de boxe, assemelhando-se a um duelo retórico tão implacável quanto uma luta selvagem. Lutar com palavras pode ser mais devastador do que lutar com punhos.</p>
<p>Por fim, no terceiro e último foco de tensão, é contada a investigação, feita por Verani, Ledesma e Roque (personagem que testemunha todos os eventos envolvendo os dois jornalistas), de uma morte ocorrida no City Hotel em 1923 e as dúvidas se teria sido um suicídio ou um homicídio. Como os eventos que cercaram esta morte foram abafados e reduzidos a uma simples menção no canto da página da crônica policial, os repórteres precisam reviver fatos ocorridos meio século antes, assim como as mudanças enfrentadas pela sociedade.</p>
<div id="attachment_9297" class="wp-caption alignnone" style="width: 309px"><img class="size-full wp-image-9297" title="Martín Kohan" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/kohan.jpg" alt="" width="299" height="295" /><p class="wp-caption-text">-- O autor --</p></div>
<p>Ao contrário do que se poderia imaginar, o maior atrativo do livro não são as três histórias principais contadas. As tramas secundárias são ainda mais instigantes, nem tanto pelas respostas, mas por causa das perguntas que acabam criando. No meio dos diálogos de Ledesma e Verani, são relatados trechos da vida de Gustav Mahler, deixando entrever que a sua mulher o odiava, tanto que ela acabou por estragar a amizade e a veneração que Richard Strauss nutria pelo seu já falecido marido em uma atitude que parece gratuita (apesar do personagem representativo da cultura popular sentenciar, com a dureza da sabedoria das ruas, que uma mulher pode levar uma vida inteira buscando vingança, em uma conclusão que ecoará em outras tramas secundárias do livro). Além disso, uma forte personagem feminina surge na vida de Roque, deixando nas entrelinhas um relacionamento oculto do passado, mas, ao perceber que o personagem não pretende reavivar a relação de outrora, age com ímpeto vingativo, tentando destruir o sonho e a investigação dos repórteres (até por não entender a quem poderia interessar uma investigação daquele tipo, ainda mais de uma morte ocorrida há tanto tempo).</p>
<p>Entre outros detalhes ocultos na narrativa, a mais interessante trama secundária são as pistas de um outro delito – a insinuação de um abuso infantil – que teria sido cometido diante dos olhos dos jornalistas, ao contrário da distante morte ocorrida na capital do país. O fato dos personagens estarem hipnotizados por um crime distante, deixando escapar o delito próximo, revela uma nova faceta cortazariana do autor, clara inspiração de “As babas do diabo”, conto que deu origem ao filme <em>Blow Up</em>, de Antonioni. Torna-se mais fácil e distinguível ver o que está longe do que as particularidades do perto. A própria possibilidade do crime não-investigado faz com que os personagens adquiram novos contornos aos olhos do leitor: Roque, que era uma espécie de balanço entre os dois extremos retóricos do erudito e do popular, passa a ser a testemunha cegada pela verve dos companheiros e, por conseguinte, parcial e desconfiável; da mesma forma, os diálogos ferinos e acalorados de Ledesma e Verani, assim como o tratamento polido entre dois oponentes agressivos (que se chamam de “senhor” enquanto se agridem), passam a ser vistos como a faceta visível de um confronto muito mais insidioso e oculto. Interessante que, em determinado momento do livro, onde se conta a história do fim do casamento de Ledesma, chega-se a três possibilidades: ele seria um covarde, um violento impulsivo ou um omisso. A sua reação diante do abuso é a resposta para esta dúvida, mas cabe ao leitor responder, pois os personagens sequer vislumbram tal possibilidade – ou podem estar utilizando a investigação longínqua de um crime do passado para esconder a realidade vivida.</p>
<p>Não é um livro de fácil leitura, mas possui uma trama envolvente e dinâmica, que, quando prende o leitor, o enreda na teia narrativa como uma calma aranha. O mosaico de histórias entrecortadas eleva a temperatura da história. Em muitos momentos da leitura, percebe-se uma linguagem que chega ao limite do cinematográfico, com a aceleração e o retardamento do tempo da ação, o esmaecimento de outras imagens no canto da visão, a utilização de flashbacks. É difícil imaginar um livro que tenha tratado de forma tão fidedigna os eventos de uma luta de boxe, assim como tenha sido tão respeitoso e vibrante ao abordar as minúcias da música clássica. Da mesma forma, como todo bom romance policial, um livro capaz de deixar a resolução do mistério literalmente na última folha – abrindo novas e incômodas interpretações – e sem perder a tensão narrativa é um feito notável. O leitor se vê transplantado para um ringue de boxe, em uma angustiante e infindável sensação de atordoamento, quase como se também tivesse levado um soco, assim como caminha pelas ruas da Buenos Aires do passado, vivendo uma época em que as pessoas tinham confiança no futuro e onde o destino da Argentina era fulgurante.</p>
<p>Após acompanhar a queda do boxeador em câmera lenta, passando pelo seu estupor e os pensamentos íntimos que sacodem um homem desnorteado, é com decisão que o leitor se ergue, junto com Jack Dempsey, para ganhar a luta/leitura. O leitor acompanha os dramas pequenos do juiz da luta e do fotógrafo, imaginando qual a relação que possui com o resultado final, e constata que a vida possui, no seu ritmo próprio, estranhas maneiras de resolver situações. Da mesma forma, é o leitor que, junto com a testemunha Roque, termina a investigação da morte ocorrida muitos anos atrás, em uma sucessão de descobertas que fazem cultura popular e erudita se encontrarem unidas na singularidade da morte de uma pessoa. Mas, mais do que tudo, o leitor aprende que dezessete segundos pode ser o tempo necessário, imprescindível, para que muitas vidas sejam decididas.</p>
<p>::: <strong><em>Segundos fora</em></strong> ::: <strong>Martín Kohan</strong> (trad. Heloisa Jahn) :::<br />
::: <strong>Companhia das Letras</strong>, <strong>2012</strong>, <strong>256 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920498" target="_blank">compre na Livraria Cultura</a> :::</p>
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		<title>O paraíso de McLuhan</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/05/2012/tudo-que-e-ruim-e-bom-para-voce-steven-johnson/</link>
		<comments>http://www.amalgama.blog.br/05/2012/tudo-que-e-ruim-e-bom-para-voce-steven-johnson/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 08 May 2012 16:30:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Orsi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[novas tecnologias]]></category>
		<category><![CDATA[reality shows]]></category>
		<category><![CDATA[Steven Johnson]]></category>
		<category><![CDATA[videogames]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Jogar videogame, sugere Johnson, é uma espécie de implementação lúdica do método científico</p><p>--<i> leia mais de <a rel="author" href="http://www.amalgama.blog.br/por/carlos-orsi/">Carlos Orsi</a> </i>--
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--<i> quando for comprar na <b>Cultura</b> ou <b>Submarino</b>, lembre<br>de clicar antes em um dos links ou banners no <a href="http://www.amalgama.blog.br">Amálgama</a> </i>--</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_9301" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8537806277" target="_blank"><img class="size-full wp-image-9301 " title="Tudo que é ruim é bom para você" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/tudoqueeruim.jpg" alt="" width="200" height="288" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Tudo que é ruim é bom para você: Como os games e a TV nos tornam mais inteligentes&quot;, de Steven Johnson</p></div>
<p>Os arautos do apocalipse cultural – da ideia de que novas tecnologias e formas de entretenimento estão lançando a humanidade numa espiral descendente de estupidificação – são, provavelmente, mais numerosos que os que proclamam a iminente Segunda Vinda de Cristo. Também pertencem a uma tradição muito mais antiga: não é difícil imaginar os doutos escribas de tabuinha de argila da Babilônia tremendo diante de inovações perigosas para a preservação da alta cultura, como o papiro e o pergaminho. Onde, devem se ter perguntado os ludistas midiáticos da Mesopotâmia, isso vai parar?</p>
<p>Vozes que, vinte ou trinta anos atrás, teriam carpido lágrimas sobre a deterioração mental trazida pela televisão ou pelas histórias em quadrinhos hoje lançam alertas soturnos a respeito da internet, dos videogames, dos reality shows e da violência e infantilização crescentes dos grandes sucessos do cinema. Contra esse oceano de análises distópicas, erguem-se, aqui e ali, gotas de dissidência. Uma delas é <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8537806277" target="_blank">Tudo que é ruim é bom para você</a></em>, de Steven Johnson, lançado no Brasil pela Zahar, em boa tradução de Sérgio Góes.</p>
<p>A tese central do livro de Johnson é de que a chamada “cultura pop” – os videogames, os seriados e shows de TV e, em menor escala, os filmes do chamado “cinemão” hollywoodiano – estão se tornando cada vez mais complexos e inteligentes, e que os pais e críticos culturais em geral não devem se desesperar porque os jovens (e as pessoas em geral) passam boa parte de seu tempo livre, por exemplo, jogando Grand Theft Auto ou assistindo a Big Brother.</p>
<p>Fundamentais para essa tese são a constatação de que é preciso dissociar conteúdo explícito de qualidade – o fato de uma obra estar saturada de sexo e violência, por exemplo, não implica que ela seja ruim: a contagem de corpos da <em>Ilíada</em> é provavelmente maior que a de toda a filmografia de Sylvester Stallone – e o conceito de demanda cognitiva: o quanto o cérebro é exigido para que haja fruição de uma obra.</p>
<p>Armado dessas duas ideias, Johnson pede ao leitor que concorde em comparar “laranjas com laranjas”. Isto é, que não se caia na tentação de medir Big Brother com uma régua calibrada por Dostoiévski, mas, por exemplo, pelo velho Show de Calouros de Sílvio Santos. Em sua primeira parte, o livro dedica-se a isso: a buscar métricas e argumentos para demonstrar que mesmo o lixo cultural de hoje é mais sofisticado e interessante que o de décadas passadas. Afinal, a carga cognitiva exigida de um fã de Big Brother – que envolve decifrar as relações interpessoais na “casa” e extrapolar a estratégia e o comportamento dos participantes – é ordens de grandeza maior que a do fã do Show, que se resumia a olhar, embasbacado, enquanto o homem-avestruz engolia cacos de vidro.</p>
<p>Falando de seriados de TV, Johnson mapeia o número de relações e interações entre personagens que é preciso compreender para fazer sentido de 24 Horas ou da Família Soprano e o que era preciso para assistir a Mary Tyler Moore ou Dragnet, e chega à mesma conclusão: a demanda cognitiva é muito maior nos produtos atuais.</p>
<p>Demanda cognitiva é, compreensivelmente, o fulcro da defesa dos videogames, que ocupa a maior porção da primeira parte do livro. Aqui não se trata apenas de constatar a crescente sofisticação do meio – de Pac-Man a Myst – mas de defender sua legitimidade como manifestação cultural autônoma e relevante. Trata-se, no fim, da mesma batalha já travada pelos quadrinhos, pelo cinema, pela televisão. De modo convincente, Johnson argumenta que os jogos estimulam o cérebro de um modo diverso que as mídias narrativas tradicionais, na medida em que instigam o jogador a testar os limites do universo criado pelos programadores – a buscar respostas a questões como, se meu personagem saltar de um prédio de dez andares, ele vai se esborrachar lá embaixo ou será que a gravidade é inconsistente neste jogo? Jogar um videogame moderno, sugere o autor, é uma espécie de implementação lúdica do método científico.</p>
<div id="attachment_9303" class="wp-caption alignnone" style="width: 294px"><img class="size-full wp-image-9303" title="Steven Johnson" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/steven.jpg" alt="" width="284" height="284" /><p class="wp-caption-text">-- O autor --</p></div>
<p>Johnson concede, no entanto, que essa linha de crescente sofisticação dos produtos culturais de massa parece não ter sido muito bem seguida pelo cinema. Para ficar num exemplo do próprio autor, <em>ET</em> era certamente um filme mais instigante que <em>Transformers</em>. Ele atribui a discrepância à questão do tempo: um seriado de TV pode se prolongar por anos a fio, ganhando camadas de complexidade à medida que a trama se desenrola; já os filmes estavam limitados ao teto de duas ou três horas.</p>
<p>Essa é uma constatação que lhe permite lançar-se na segunda parte do livro, onde busca explicar quais as forças por trás desse processo de complexificação e sofisticação: afinal, não seria natural que a mídia de massa corresse atrás, sempre, do menor denominador comum? Seria, responde Johnson, se os meios tecnológicos não tivessem mudado. Quando os programas de TV tinham apenas uma oportunidade de capturar a audiência – quando qualquer piada mais sofisticada representava um risco concreto de que parte da audiência mudaria de canal, por não pegar a graça da coisa – então, sim, a corrida ao menor denominador comum era uma força de mercado irresistível. Mas aí surgiram o videocassete, o DVD, a internet, e de repente a receita perdida com o público que fugia da piada inteligente podia ser resgatada vendendo o programa para as pessoas que tinham se intrigado com ela, e queriam revê-la de novo e de novo. No caso dos reality shows, a expansão do espaço midiático para a internet, pay-per-view, etc., acaba gerando pressão no mesmo sentido.</p>
<p>Enfim, o argumento é de que quando a cultura pop deixou de ser um item de consumo imediato e virou item de coleção ou de desfrute prolongado (via listas de discussão, websites, análises em blogs, etc.), as forças de mercado passaram a atuar no sentido oposto: as pessoas só vão querer ter o box de um seriado em casa se os episódios puderem ser revistos diversas vezes, sem saturar; se as tramas suportarem horas e horas de discussão online sem se exaurir. Daí, Os Simpsons substiuem Os Waltons, e 24 Horas engole Starsky &amp; Hutch. De modo análogo, SimCity destrona Pac-Man, e o Big Brother põe o Show de Calouros de lado. Este é o paraíso de McLuhan, onde a dinâmica e a interação dos meios incentiva a mensagem a transformar-se em algo cada vez melhor.</p>
<p>Johnson afirma que, a despeito dessa análise otimista, não se considera um entusiasta do poder benevolente do mercado: da mesma forma que a configuração atual de tecnologias e mídias pede do mercado que ponha coisas cada vez mais sofisticadas na tela, há trinta anos o sinal apontava na direção oposta, e nada impede que outras inversões venham a ocorrer.</p>
<p>Ao longo de todo o livro, e principalmente na conclusão, ele chama atenção para o fato de que seu argumento não deve ser usado em detrimento das formas tradicionais, como a literatura e o teatro, e nem como uma espécie de passe livre para que as pessoas reduzam seu consumo de cultura a reality shows e videogames. O que ele defende é uma espécie de “dieta equilibrada” de produtos de mídia, sem o desprezo intelectual muitas vezes lançado sobre os formatos recém-chegados. E, mesmo reconhecendo que muita coisa – principalmente os reality shows – é lixo, ele nos desafia a encarar o fato de que o lixo atual é bem melhor que o lixo do tempo de nossos pais.</p>
<p>::: <strong><em>Tudo que é ruim é bom para você</em></strong> ::: <strong>Steven Johnson</strong> (trad. Sérgio Góes) :::<br />
::: <strong>Zahar</strong>, <strong>2012</strong>, <strong>188 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8537806277" target="_blank">compre na Livraria Cultura</a> :::</p>
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