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	<title>Amálgama</title>
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	<description>Revista digital de atualidade e cultura</description>
	<lastBuildDate>Thu, 09 Feb 2012 16:42:22 +0000</lastBuildDate>
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		<title>O violão e o Brasil</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 16:35:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Egg</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[história da música brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Marcia Taborda]]></category>
		<category><![CDATA[violão]]></category>
		<category><![CDATA[violão no Brasil]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha de "Violão e Identidade Nacional", de Marcia Taborda]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8360" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8520010296"><img class="size-full wp-image-8360" title="Violão e identidade nacional" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/violaoidentidade.jpg" alt="" width="200" height="307" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Violão e identidade nacional&quot;, de Marcia Taborda</p></div>
<p>Este livro foi publicado a partir da tese de doutorado da autora, defendida na UFRJ, sob orientação de José Murilo de Carvalho. É um trabalho contraditório, sobrevivente no balanço entre virtudes e defeitos, especialmente pelo fato de ser a primeira, e até agora única, pesquisa sistemática sobre a presença do violão no Brasil e o significado do instrumento na música e na cultura brasileiras.</p>
<p>Estranhamente, o capítulo que tem a discussão bibliográfica e a reflexão teórica sobre cultura brasileira ficou como o último do livro. Seria de se esperar que fosse o primeiro, pois ali estão as leituras e discussões dos autores fundamentais para pensar a questão. Desde comentários de passagens de Aluízio de Azevedo, Machado de Assis e Lima Barreto, indo às discussões de Mário de Andrade e Gilberto Freyre, e chegando à bibliografia atual: Peter Burke e as discussões sobre cultura popular, Nicolau Sevcenko, e o próprio Murilo de Carvalho e o panorama das lutas culturais na Primeira República. Suspeito que a posição dos capítulos mudou entre a tese e a publicação em livro, porque o volume ora publicado simplesmente não tem final. Quero crer que também a autora fez uma revisão, solicitada pela editora, para retirar notas de rodapé e remissões bibliográficas, pois há muita informação no livro que a gente não sabe de onde vem.</p>
<p>Os principais defeitos do livro decorrem da tentativa de discutir temas muito amplos (cultura brasileira, popular <em>versus</em> erudito, América colonial e europeização, papel do rádio e da indústria do disco no surgimento da música popular, etc. etc.), o que acaba resultando em análises superficiais e lacunas bibliográficas. A que melhor lembro é a afirmação da autora de que Machado de Assis dedicou-se aos ambiantes burgueses e nada fala de música popular (&#8220;dos pobres urbanos&#8221; &#8211; p. 170). O que é no mínimo uma imprecisão imperdoável. A autora parece não conhecer contos como &#8220;<a href="http://pt.scribd.com/doc/7037777/Machado-de-Assis-Um-Homem-Celebre" target="_blank">Um homem célebre</a>&#8221; ou &#8220;<a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2009/07/machado_de_assis_e_a_musica_o_machete.php" target="_blank">O machete</a>&#8220;, e menos ainda o <a href="http://www.gazetadopovo.com.br/blog/historiacultural?id=1200380&amp;tit=jose-miguel-wisnik--machado-maxixe:-o-caso-pestana" target="_blank">estudo de José Miguel Wisnik sobre o assunto</a>. Suas considerações sobre a polca e o papel dela na cultura musical do Rio de Janeiro oitocentista, ou mesmo sobre o choro e o maxixe (outros nomes para a mesma polca), teriam sido menos impróprias se ela tivesse consultado o trabalho clássico (e obrigatório) de Carlos Sandroni &#8211; <em>Feitiço decente</em>, um livro sobre as transformações do samba entre 1917 e 33, mas que tem partes muito importantes sobre modinha e sobre o surgimento do maxixe pelo processo de abrasileiramento da polca.</p>
<p>Outro problema é que, além de abordar superficialmente assuntos por demais complexos, a autora também fica num tratamento muito superficial do que deveria ser o objeto principal do trabalho: a produção musical para violão entre meados do século XIX e a década de 1930 no Brasil. Neste aspecto ela não faz mais do que procurar listar os violonistas ativos, faltando um estudo, ainda que superficial, da obra musical destes pioneiros. Suspeito que o medo de empreender tal tarefa tenha decorrido do fato de o doutorado ser em um departamento de história. Tentar não transformar o trabalho em algo cheio da indevassável discussão técnica a partir de partituras acabou resultando no problema oposto: a quase ausência de música. Certamente contribui para isso o fato de que José Murilo de Carvalho, o orientador da pesquisa, apesar de ser um dos mais importantes historiadores brasileiros, não tem nenhum trabalho dedicado a assuntos de música, não podendo dar melhor direcionamento ao trabalho neste sentido.</p>
<p>Tirante estes defeitos teórico-metodológicos, resta um trabalho pioneiro. É o primeiro livro a tratar sistematicamente do violão no Brasil, e avança muito sobre tudo que já havia sido escrito sobre o assunto.</p>
<p>A autora teve o cuidado de fazer investigações na literatura sobre vihuela, alaúde e guitarra na Europa dos séculos XVI a XVIII, para evitar as confusões sobre as variantes dos instrumentos de cordas dedilhadas e a maneira como toda esta literatura musical desembocou na viola e no violão brasileiros. De especial importância é a revisão que a autora faz em traduções da literatura de viajantes, revelando erros fáceis de se incorrer pelo fato de o termo &#8220;violão&#8221; só existir em português &#8211; os correspondentes são <em>guitar</em>, <em>guitarra</em>, <em>guitarre</em>, etimologia que no Brasil ficou restrita à guitarra elétrica que ganhou fama na década de 1950.</p>
<p>Outra coisa que está abordada de maneira sistemática no livro é a relação de violonistas e violeiros ativos no Rio de Janeiro. A partir de consulta ao Almannack Laemmert, a autora elaborou lista dos professores de viola ou violão que anunciaram suas atividades na cidade. Também as lojas/oficinas do instrumento ativas na capital, além dos métodos publicados. Resulta um tanto curiosa a divisão que Marcia Taborda escolheu, pois o livro tem um capítulo para o violão de concerto (uma coisa que praticamente inexistiu no Brasil antes da década de 1960, como ela própria demonstra) e outra para o violão popular &#8211; modinheiro ou chorão. Nesta parte está a pior sensação daquele gostinho de &#8220;quero mais&#8221; para um leitor como eu: a autora elaborou um anexo com a lista de todas as gravações de violão no Brasil em 78 rotações. Ao longo do livro ela demonstra ter tido contato com este material, ou seja, ela não só viu uma lista, mas ouviu os discos, efetivamente. Isso seria a fonte privilegiada para o que deveria ter sido a principal contribuição de seu trabalho. Segundo informa, ela está trabalhando com transcrições em partitura para este material, o que espero ver publicado. Mas, já na tese/livro, teria sido muito interessante um comentário mais detalhado deste obra musical significativa. Isso é o que o livro fica devendo.</p>
<p>De qualquer forma, como sabemos, não há possibilidade de estudo definitivo sobre nenhum assunto neste mundo. O trabalho de Marcia Taborda se posiciona então como uma obra pioneira que abre um vasto campo de estudo para as ciências humanas e a música: o violão no Brasil é um tema que vai demandar ainda muitos estudos específicos sobre violonistas, compositores ou obras (muitos já estão sendo feitos, mas a autora não pretendeu consultar todos). Para todo mundo que for trabalhar com este tema, ou for mero curioso do assunto, o livro é desde já material de consulta obrigatória.</p>
<p>::: <strong><em>Violão e identidade nacional</em></strong> ::: <strong>Marcia Taborda</strong> :::<br />
::: <strong>Civilização Brasileira</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>304 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/23843129/violao+e+identidade+nacional/?franq=265122" target="_blank">compre no Submarino</a> ou <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8520010296" target="_blank">na Livraria Cultura</a> :::</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/violao-e-identidade-nacional-marcia-taborda/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Arrancando o véu que cobre a figura de Paul McCartney</title>
		<link>http://www.amalgama.blog.br/02/2012/a-intimidade-de-paul-mccartney-howard-sounes/</link>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 16:30:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Juliana Dacoregio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Heather Mills]]></category>
		<category><![CDATA[Howard Sounes]]></category>
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		<category><![CDATA[música pop]]></category>
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		<category><![CDATA[The Beatles]]></category>

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		<description><![CDATA[No fim das contas, Paul é um cara que nunca desistiu. Nem musicalmente, nem na vida amorosa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8364" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8576845253" target="_blank"><img class="size-full wp-image-8364 " title="FAB" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/FAB.jpg" alt="" width="200" height="297" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;FAB: A intimidade de Paul McCartney&quot;, de Howard Sounes</p></div>
<p>Quem costuma enxergar Sir Paul McCartney como o “anjinho” dos Beatles, vai se surpreender com <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8576845253" target="_blank">A intimidade de Paul McCartney</a></em>, de autoria de Howard Sounes. O autor não poupou esforços em sua pesquisa e também não mascarou os defeitos de Paul. Uma biografia que se preze não mostra apenas aquilo que já estamos acostumados a ver. E o que conhecemos <em>en passant</em> sobre Paul é que ele era o beatle simpático, sempre sorridente e nunca disposto a causar problemas. Calma lá! Paul não era um garoto tão doce assim, como sua eterna carinha de &#8220;cachorro que caiu da mudança&#8221; faz parecer. O livro de Sounes retrata isso com esmero.</p>
<p>Como beatlemaníaca que sou e interessada no estudo de personalidades, já havia percebido que o bom mocismo de Paul esconde um grande e diplomático <em>businessman</em>. O tipo de astro que calcula muito bem seus passos e não comete a gafe de ser antipático com fãs ou com a imprensa, pois conhece os riscos envolvidos. É exatamente o que confirma a biografia de Sounes. Lá encontramos não apenas um retrato do artista ou do que ele sempre pretendeu vender como sua personalidade, mas fatos e relatos que trazem à tona o homem James Paul McCartney, nascido em uma família humilde, porém bastante artística. Esse é um dos inúmeros fatos surpreendentes de <em>FAB</em>; Paul não era de uma classe mais alta que John Lennon, como poderia parecer pela educação esmerada do primeiro. Apesar de John ter se engajado nas lutas sociais e gostar de ser reconhecido como um cara da classe trabalhadora, quando criança Paul era muito menos abastado que Lennon. A diferença é que Paul nunca fez questão de ressaltar isso e era bastante ambicioso. Uma característica bem explicada no livro. Até mesmo em suas relações de amizade &#8212; e em certo período até nas amorosas (como exemplo, o longo relacionamento com Jane Asher, uma atriz de família londrina, culta e de posses) &#8212; Paul se envolvia com pessoas que pudessem enriquecê-lo culturalmente, já que financeiramente ele o fez por seus próprios méritos.</p>
<p>Não que os modos agradáveis e a amabilidade de Paul sejam pura fachada. Ele realmente era um rapaz bem educado, mas nem de longe o “beatle gente boa” que aqueles que conhecem superficialmente a banda podem imaginar. A biografia mostra as características que provam isso, mas sem julgamentos de valor. Afinal, o biografado é apenas humano, e é ótimo ler algo que nos deixe perceber as nuances de alguém que parece sempre tão perfeito.</p>
<p>A genialidade de Paul, sua carreira como compositor e seu interesse por música clássica, erudição e cultura também não são deixados de lado, mostrando o desenvolvimento de sua habilidade para criar belas melodias. Quem deseja conhecer mais do lado profissional do eterno Beatle não vai se decepcionar. Porém, não há observações muito extensas a respeito da relação dele com George e Ringo (o autor foca mais na relação de companheirismo e rixas entre Lennon e McCartney).</p>
<p>As mulheres são um capítulo à parte na vida de Paul. Claro que eu não imaginava que ele fosse um santo, afinal um ídolo do rock é cercado de mulheres. Mas admirei-me ao ficar por dentro dos detalhes de sua vida bastante libertina, digamos assim. Fidelidade, realmente, não era um de seus fortes, ao menos durante a fase de ouro da banda, antes de conhecer Linda Eastman, que seria sua mulher por muitos anos. Mas algo que muitos dos fãs desconhecem é que ele sempre teve namoros longos e que viveu por cinco anos com uma garota antes de enfim se casar com Linda. Falando nela, há fatos curiosos sobre essa mulher que fez parte tão fortemente da vida do beatle e influenciou-o a ponte de transformá-lo em um pai de família devotado, fiel e vegetariano (apesar de um assíduo consumidor de maconha, inclusive nas turnês do Wings em que os filhos estavam quase sempre presentes). Aliás, a biografia de Paul não deixa de ser também uma biografia de Linda, revelando muito de sua personalidade.</p>
<div id="attachment_8366" class="wp-caption alignnone" style="width: 460px"><img class="size-full wp-image-8366" title="Paul e Linda McCartney" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/paul-linda-mccartney.jpg" alt="" width="450" height="300" /><p class="wp-caption-text">- Paul e Linda McCartney -</p></div>
<p>O livro de Sounes não é &#8220;chapa-branca&#8221;, como ele mesmo define, ou seja, não foi feito com a colaboração de Paul, apesar de o autor ter usado várias de suas declarações dadas em entrevistas, livros, revistas, documentários e uma infinidade de outros meios através dos quais McCartney se expressou. Mas o número de contribuições de pessoas ligadas ao músico é imenso. Foram mais de 200 entrevistados, incluindo familiares, colegas, funcionários, groupies, enfim, agregados em geral. Uma pesquisa extensa &#8211; que vai desde outras biografias até documentos jurídicos, passando por programas de TV importantes e fanzines &#8211; foi realizada para que <em>A intimidade de Paul McCartney</em> trouxesse tantos detalhes até então desconhecidos do grande público. Drogas, mulheres, filhos ilegítimos, períodos de depressão, agressividade, amor pela família, generosidade, carisma, mudanças de rumo ao longo da vida: tudo lá, registrado pelas mãos do biógrafo.</p>
<p>A origem de várias canções compostas por Paul também é esmiuçada, portanto é possível conhecer o processo criativo do músico. Além de sua incansável pró-atividade e seu quinhão de responsabilidade nos sucessos dos Beatles. Creio que o livro é o relato mais sincero que já li a respeito de sua vida, apresentando o crescimento do homem e da figura pública, desmistificando o ídolo de gerações que ainda hoje tem a fama de bonzinho e simpático. Tal leitura me fez enxergar vários lados de Paul, desde sua inocência e insegurança, até sua esporádica crueldade e espírito dominador. Temos um retrato dele desde seu nascimento até o ano de 2009; portanto, seu casamento fracassado com a interesseira Heather Mills, que lhe fez perder parte da fortuna num processo de divórcio, também se fazem presentes.</p>
<p>Para a gente amar de verdade uma pessoa, precisamos conhecê-la de verdade: defeitos, qualidades, manias; e aceitar que ninguém nunca vai ser exatamente aquilo que esperamos ou imaginamos que seja. Pois bem, com essa biografia pude conhecer bem mais de Paul McCartney. Confesso que quando recebi o livro para resenhar não sabia que havia tanto mais para saber a respeito dele. Eu já tinha certa imagem, que julgava não estar muito longe da verdade. Mas fui bastante surpreendida! Meu coraçãozinho ingênuo de beatlemaníaca não acreditava que Paul fosse Sua Santidade, mas, sinceramente, minhas percepções sobre ele foram alteradas ao longo do livro. Apesar de Howard Sounes ter me feito descobrir o quanto Paul poderia ser “safadinho”, controlador e metido a intelectual, também conheci seu lado generoso, familiar e bem intencionado. Agora conheço mais desse que não é meu beatle favorito (após a leitura, concluí que sou mais John), mas sou grata pelas descobertas proporcionadas por Sounes. No fim das contas, Paul é um cara que nunca desistiu. Nem musicalmente (mesmo com os fracassos do início da carreira solo e com os Wings), nem na vida amorosa.</p>
<p>Leia <em>A intimidade de Paul McCartney</em> e corra o risco de passar a odiá-lo, amá-lo ainda mais ou, como eu, percebê-lo como alguém brilhante, mas cheio de erros, embora sempre se recusando a largar o osso de “ser um astro”, como profetizou desde criança.</p>
<p>::: <strong><em>FAB: A intimidade de Paul McCartney</em></strong> ::: <strong>Howard Sounes</strong> (trad. Patricia Azeredo) :::<br />
::: <strong>Best Seller</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>700 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8576845253" target="_blank">compre na Livraria Cultura</a> :::</p>
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		<title>O estilo Dilma</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Feb 2012 16:00:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Villaverde</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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		<category><![CDATA[privatização de aeroportos]]></category>
		<category><![CDATA[reforma da Previdência]]></category>

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		<description><![CDATA[Seja lidando com aeroportos ou com a previdência, a presidente mostra mais pragmatismo  que Lula]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8418" title="Dilma e Mantega" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/dilma_mantega.jpg" alt="" width="500" height="414" /></p>
<p>Fernando Collor era autocrático, Itamar Franco adorava um confronto com integrantes de seu governo, Fernando Henrique Cardoso era cordial e afável com todos, mas definia os caminhos do governo por detrás dos holofotes. Luiz Inácio Lula da Silva era populista, elogiando todos em igual medida, e definindo o rumo por meio da disputa interna em seu governo (entre Banco Central e Fazenda, entre correntes do PT, entre centrais sindicais, entre partidos da base, etc.).</p>
<p>Dilma Rousseff é pragmática e irredutível.</p>
<p>Tal como Collor, Dilma é centralizadora, uma vez que concentra em si todas as principais decisões de governo. Cobra que os ministros e principais secretários perguntem a ela se podem conceder entrevistas &#8212; negadas, via de regra. É por isso que nomes fortes do governo Lula estão mais discretos sob Dilma (caso de José Sérgio Gabrielli, na Petrobras, Luciano Coutinho, no BNDES, e dos ministros Edison Lobão, Paulo Bernardo e outros). Dilma, no entanto, não é autocrática. Exige muito dos ministros e ouve atentamente ao que cada um tem a dizer. Mas perde a paciência com facilidade &#8212; no primeiro sinal de enrolação ou de desconhecimento, a presidente logo começa a desviar o olhar e perder a calma. Detalhista e <em>workaholic</em>, Dilma lê muito e cobra muito de si &#8212; e, por extensão, de seu grupo de ministros.</p>
<p>A presidente não entra em conflito público com ninguém, como fazia Itamar, e também não permite que os ministros e secretários tenham a falsa ideia de que a convenceram &#8212; o que a distancia do estilo FHC. Ela também não permite distúrbios na comunicação, como gostava de ver Lula, que agia como maestro de Brasília. Dilma gosta de sintonia, de governo unido, com discurso único. O pulso de Dilma mantém o mesmo ritmo.</p>
<p>É uma mulher pragmática, e detesta política partidária. Ainda na Casa Civil de Lula, em 2007, Dilma percebeu que os aeroportos brasileiros eram uma zona: a CPI do Caos Aéreo, naquele ano, elencara uma série de problemas estruturais. A demanda aumentara muito e continuaria aumentando, e a péssima gestão da Infraero não seria capaz de reverter o quadro de aeroportos de quarto mundo. Pragmática, Dilma entendeu, naquele momento, que era preciso passar a gestão dos aeroportos à gestão privada: não a privatização, mas a concessão de longo prazo dos aeroportos. Lula barrou os planos. Não queria nada que associasse privatização ao PT ou a seu governo. Quem me relatou isso foi um confidente privilegiado de Lula e Dilma, que já estava no Palácio do Planalto em 2007 e que continua em 2012.</p>
<p>Tão logo tomou posse, em janeiro de 2011, Dilma mandou que os técnicos de seu governo estudassem a concessão dos aeroportos. Numa decisão corajosa (goste ou não da medida, não há dúvida quanto à coragem da presidente em enfrentar <a href="http://www.portogente.com.br/texto.php?cod=62341" target="_blank">o PT</a>, <a href="http://www.sidneyrezende.com/noticia/161398+cut+critica+leilao+de+aeroportos+isso+e+privatizacao+e+nao+concessao" target="_blank">a CUT</a> e outros movimentos da esquerda anti-privatização), a presidente <a href="http://www.dci.com.br/Dilma-diz-que-o-proximo-passo-e-garantir-eficiencia-em-aeroportos-5-409452.html" target="_blank">levou a cabo</a> a concessão de três aeroportos, na última segunda-feira.</p>
<p>Três grupos arrebataram os aeroportos de Guarulhos (SP), Viracopos (Campinas-SP) e JK (Brasília), ao preço total de R$ 24,5 bilhões. Eles tem a obrigação de melhorar a gestão e ampliar a capacidade dos aeroportos, e as primeiras metas devem ser cumpridas em até 18 meses. Os grupos terão polpuda ajuda do BNDES, algo que turva o capitalismo brasileiro, e que a presidente ainda não conseguiu solucionar. Mas ela quer, e provavelmente vai, reduzir a participação do BNDES no total de crédito na economia. Já cobrou isso do presidente do banco, Luciano Coutinho, na reunião com oito ministros da área econômica que realizou no sábado 20 de janeiro no Palácio do Planalto. O BNDES recebeu do Tesouro Nacional o equivalente a R$ 100 bilhões em títulos públicos em 2009, R$ 80 bilhões em 2010, e R$ 55 bilhões em 2011. Deve ser menor neste ano, e menor ainda em 2013, por determinação de Dilma.</p>
<p>O BNDES é importante, mas mesmo antes de se tornar presidente, durante a campanha no segundo semestre de 2010, Dilma já sugeria à equipe econômica que encontrasse formas de estimular o mercado de crédito privado a ocupar o espaço do BNDES. Uma vez eleita, passou a exigir. Ainda em dezembro de 2010 o Ministério da Fazenda esquematizou o projeto que viabilizaria as debêntures para projetos de infraestrutura e também o crédito privado de longo prazo. Isso está saindo do papel agora, no primeiro trimestre de 2012, já que a regulamentação só veio no Diário Oficial da União (DOU) um ano depois do projeto, em dezembro do ano passado.</p>
<p>Outra briga que a pragmática ocupante do terceiro andar do Palácio do Planalto comprou é a reforma da previdência do setor público federal. Dilma deu prioridade, em 2011, ao <a href="http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=366851" target="_blank">Projeto de Lei (PL) 1.992/07</a>, que altera o regime de previdência pública. O projeto foi todo modelado sob Lula, que, tal qual com os aeroportos, recuou na hora da negociação no Congresso. Lula não quis se indispor com a CUT e o sindicalismo de servidores, categoria que o presidente ampliou muito, e também muito aumentou os salários.</p>
<p>Hoje, o equivalente a 953 mil servidores federais aposentados e pensionistas consomem um déficit de R$ 56 bilhões &#8212; já os 28,1 milhões de aposentados pelo setor privado (INSS), consomem déficit de R$ 36,5 bilhões. Esta bisonha diferença começará a mudar quando o PL 1.992 for aprovado no Congresso. O projeto prevê a criação de um fundo de previdência complementar para os servidores. A aposentadoria daqueles que ingressarem no serviço público estará limitada pelo teto do INSS, hoje em R$ 3.691,00 por mês, como ocorre com todos os demais trabalhadores brasileiros. Se quiserem ganhar mais na aposentadoria, os servidores deverão contribuir para o fundo de pensão que será criado &#8212; e ainda terão o aporte do Tesouro Nacional, que vai entrar com até 8,5% do que o servidor contribuir com seu salário que superar o teto do INSS. O projeto tem regime de emergência constitucional e trava a pauta de votações na Câmara dos Deputados, onde o governo já costurou acordo pela aprovação. Dali vai ao Senado, onde terá 45 dias para ser votado. Dilma segurou as contratações de servidores públicos em 2011 e neste começo de 2012 justamente para evitar um rombo maior das contas públicas na Previdência &#8212; os concursos só serão retomados quando entrar em vigor o novo regime previdenciário.</p>
<p>Dilma é pragmática, e exige um crescimento mínimo de 3% para o Produto Interno Bruto (PIB). Sabe que a economia não deve ter crescido isso em 2011 e sabe que será muito difícil bater em 4,5% ou 5% em 2012, como gostaria. Mas não aceita que 2012 seja mais fraco que 2011, e por isso cobra da equipe econômica medidas de estímulos. Ao mesmo tempo, não aceita negociar sobre o aperto nas despesas, e quer fazer um superávit primário forte em 2012 &#8212; como fez em 2011. Promete poupar R$ 139,8 bilhões neste ano para pagar os juros devidos por sua dívida &#8212; ela provavelmente vai entregar.</p>
<p>O que a equipe econômica ainda não sabe como fazer é compatibilizar mais estímulos à economia, para fazer o PIB crescer forte em 2012, com a exigência de poupar quase R$ 140 bilhões em gastos. Mas isso é problema dos economistas, pensa Dilma, que diz a pessoas próximas a ela que sim, é possível. Hoje, a Junta Orçamentária (criada pela presidente e formada pelos ministros da Fazenda, do Planejamento e da Casa Civil) discute duas possibilidades para amarrar as contas: um corte de R$ 61 bilhões em despesas do orçamento deste ano, de forma a guardar recursos para o superávit primário; ou um corte próximo a R$ 40 bilhões, inferior aos R$ 50,6 bilhões retidos do orçamento de 2011 em fevereiro do ano passado, que abririam caminho para mais investimentos públicos. A decisão sai na semana que vem, e será toda de Dilma.</p>
<p>Os juros vão cair. Dilma vê os juros brasileiros como uma anomalia, e sente que a sintonia recente do Ministério da Fazenda com o Banco Central é crucial para abrir espaço para novas reduções nos juros. Hoje, a taxa básica de juros é de 10,5% ao ano, mas o BC deve cortar os juros em mais 0,5 ponto percentual nas duas próximas reuniões, de março e abril, deixando o juro em 9,5% ao ano em maio. Deve chegar a 9% ou até menos, no final do ano. A mínima histórica foi 8,75% ao ano, entre o fim de 2009 e abril de 2010, quando a economia brasileira se recuperou fortemente da crise econômica mundial desencadeada pela falência do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008.</p>
<p>Aí está, pensa Dilma, um dos principais caminhos para estimular a economia. Com juros menores, os recursos disponíveis para aplicações mais arriscadas, como ações, são maiores, o que vai estimular o caixa das empresas. Ao mesmo tempo, os bancos estarão mais dispostos a emprestar e as empresas, por verem juros menores, a investir.</p>
<p>Se os juros chegarem em 8,5% ao ano, algo que Dilma deseja, a caderneta de poupança terá de mudar. Ela sabe disso, e já cobrou o Ministério da Fazenda por uma reforma que torne a poupança menos rígida (desde 1940, quando foi criada, a caderneta de poupança, a mais popular modalidade de aplicação financeira dos brasileiros, paga 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial). A Fazenda estuda uma medida que extinguiria o rendimento de 0,5% ao mês (6,2% ao ano), substituindo pela Selic com um redutor de 20%.</p>
<p>Quando foi colocado diante dessa encruzilhada &#8212; da Selic em 8,75%, próximo ao limite &#8212; o então presidente Lula estudou introduzir o Imposto de Renda (IR) sobre as aplicações mais altas, mas não foi à frente porque não queria comprar uma briga impopular &#8212; mexer na caderneta de poupança, onde estão 106 milhões de brasileiros, é sempre sensível. Dilma já descartou o IR, mas vai reformar a poupança. Sabe que é o único jeito de abrir espaço para novas reduções da Selic.</p>
<p>O segundo semestre será melhor que o primeiro, fala-se muito aqui em Brasília. E 2013 será melhor que 2012, por sua vez superior a 2011. A única política a que se dá direito é esta: o Brasil precisa entregar uma boa Copa do Mundo em 2014 e, assim, abrir espaço para uma reeleição. Dilma é pragmática e sabe que quatro anos é muito pouco.</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/o-estilo-dilma/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Yu Hua, o Graciliano deles (por aí)</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2012 16:25:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel Lopes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura chinesa contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[Yu Hua]]></category>

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		<description><![CDATA[Apesar da tragédia social, continua havendo humor nas páginas do autor chinês]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8346" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920005" target="_blank"><img class="size-full wp-image-8346 " title="Crônica de um vendedor de sangue" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/cronicadeumvendedor.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Crônica de um vendedor de sangue&quot;, de Yu Hua</p></div>
<p>Ler este romance é estar sempre consciente da máxima tolstoiana sobre famílias felizes e famílias infelizes. E mais. É imaginar que, se o encontro literário entre famílias felizes é quase sempre causa de ataques de sono, o encontro entre famílias infelizes é o exato oposto. Não menos porque, isso mesmo, cada encontro entre duas famílias infelizes é trágico à sua maneira.</p>
<p>A ambientação ajuda bastante: estamos na China maoista. Os efeitos de algumas das mais insanas políticas econômicas e culturais da história da espécie vão em breve entrar nos lares de <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920005" target="_blank">Crônica de um vendedor de sangue</a></em>. Mas, como se isso não fosse desgraça suficiente, os personagens de Yu Hua ainda vão se impor misérias. Nós temos três personagens centrais. O operário e patriarca Xu Sanguan é o doador do título. Xu Yulan é sua esposa, que, quando não está tendo um ataque de nervos, está à beira de ter um. Juntos, eles tiveram três filhos homens – por ordem de nascença: Yile, Erle, Sanle.</p>
<p>Mas&#8230; não. Não é tão simples assim. Antes de casar com Sanguan, Yulan literalmente levou uns amassos de He Xiaoyong, com quem ia se casar, não tivesse Sanguan se engraçado dela e abordado o futuro sogro com uma proposta melhor que a de Xiaoyong. Sanguan era um sujeito de mais posses. Sobrou para Xiaoyong uma mulher franzina, com a qual teve duas filhas. Entretanto, ao nascer o primogênito de Sanguan, este acha o moleque nada parecido consigo mesmo. A cena em que ele alinha os três meninos para examinar-lhes as feições e comparar com a sua própria refletida num espelho é inesquecível. Não sem um bocado de má vontade para com a mulher, Sanguan conclui que Yile é filho de Xiaoyong com Yulan. O que Xiaoyong não aceita. O menino será então empurrado de uma casa para outra, até que de alguma forma se acomoda na casa de Sanguan, mas nem sempre tratado em pé de igualdade com os outros dois irmãos, ou meio irmãos, se a teoria de Sanguan estiver correta.</p>
<p>Então temos aí os três personagens principais: Sanguan, Yulan e o desprezado Yile. E temos as duas famílias cheias de intriga e que chegam a interagir na base dos tabefes. Sanguan diz aos meninos como quer que imprimam sofrimento ao patriarca rival: “Vocês sabem quem são as filhas de He Xiaoyong, não sabem? Sabem. Sabem o nome delas? Não? Não importa, desde que as reconheçam. Lembrem-se: quando vocês forem grandes, quero que violentem as filhas de He Xiaoyong por mim.” Isso não ocorre, mas talvez apenas porque a narrativa não se estende o suficiente.</p>
<p>Xu Sanguan negocia seu sangue pela primeira vez no embalo da venda de dois amigos a quem fazia companhia. Não havia necessidade extrema para tanto. Nem em uma vez seguinte, para falar a verdade – com o dinheiro arrecadado na oportunidade, ele compra alguns quilos de alimento para uma amiga de trabalho (casada), a qual por sua vez amassará. Em breve ele terá que vender sangue ao diretor do hospital local, um membro do PCC, por um motivo menos divertido que presentear uma amante em potencial: ter o suficiente para que a família não morra de fome. Como isso ocorrerá em pleno período da Grande Fome, é muito difícil o leitor apostar que ele terá sucesso na batalha, por mais sangue que venda.</p>
<div id="attachment_8347" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-8347" title="Yu Hua" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/yu-hua.jpg" alt="" width="300" height="297" /><p class="wp-caption-text">- O autor -</p></div>
<p>A Fome irrompe nas páginas do realista Yu Hua como irromperia uma nevasca ou um terremoto. Começa o capítulo 18: “Xu Sanguan disse a Xu Yulan: &#8216;Estamos em 1958. (…) Daqui em diante, parece, ninguém mais vai ser dono de sua própria terra. Todas as terras pertencem ao Estado. Quem quiser plantar vai ter de alugar a terra deles, e quando chegar a colheita também será obrigado a dar parte do cereal ao Estado.&#8217;” O capítulo 19 é dedicado à festa de aniversário de Sanguan, que diz aos filhos: “O que eu pergunto é: o que vocês querem comer de verdade? Como é meu aniversário, vou preparar com a minha boca uma refeição para cada um, e vocês vão comer com os ouvidos. Não vão poder comer com a boca porque não existe nada para comer, mas apurem os ouvidos, porque a qualquer momento vou começar a cozinha. Cada um pode pedir qualquer coisa.” No capítulo 20, Sanguan está exaurido demais até para jogos de imaginação: “Dizem que quem passa fome deve completar a alimentação com sono. Eu vou dormir.” O livro tem 29 capítulos. No capítulo 25, irrompe a Revolução Cultural.</p>
<p>Enquanto houver comida para render-lhes energia para brigar e enquanto nenhuma tragédia familiar lhes roubar a atenção, Sanguan, Xiaoyong e as respectivas esposas continuarão lavando suas roupas sujas fora de casa. No meio da rua, para toda a cidadezinha tomar conhecimento – “se Xu Yulan passa três dias sem se sentar na soleira da porta e armar um escândalo”, diz o narrador, “ela começa a se sentir desconfortável, como se estivesse com prisão de ventre há uma semana.”</p>
<p>Apesar da tragédia social que se aproxima, e mesmo quando ela já está em cena, continua havendo humor em Yu Hua. Uma lembrança forte é Graciliano Ramos. O menino Yile pode ser apenas miséria ambulante, em sua condição de possível bastardo e futuro membro de um campo de reeducação, mas os adultos à sua volta, principalmente Sanguan, possuem tanta rabugice que chega a ser engraçado. O Paulo Honório de <em><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8501066656" target="_blank">S. Bernardo</a></em>, também envolto em tragédias, também hilário em seu comportamento, se me apresentou em vários momentos para fazer companhia a Xu Sanguan. E se isso não bastar para que você leia Yu Hua, paciência.</p>
<p>::: <strong><em>Crônica de um vendedor de sangue</em></strong> ::: <strong>Yu Hua</strong> (trad. Donaldson M. Garschagen) :::<br />
::: <strong>Companhia das Letras</strong>, <strong>2011</strong>, <strong>272 páginas</strong> :::<br />
::: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5301&amp;tipo=2&amp;isbn=8535920005" target="_blank">compre na Livraria Cultura</a> :::</p>
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		<title>Tentando entender a questão do aborto</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Feb 2012 16:50:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Orsi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[aborto]]></category>
		<category><![CDATA[destaque]]></category>
		<category><![CDATA[desth]]></category>

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		<description><![CDATA[É de se supor que, por trás de tanto furor contra o aborto, haja ideias. Quais seriam elas?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8402" title="Embrião" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/embriao.jpg" alt="" width="350" height="307" /></p>
<p>A discussão em torno dos direitos reprodutivos da mulher às vezes atinge níveis de estridência ensurdecedores (por exemplo, <a href="http://www.aciprensa.com/noticia.php?n=17192" target="_blank">neste ataque</a> aos Médicos Sem Fronteiras), com um bocado de histeria e gritaria de parte a parte, embora eu seja forçado a reconhecer que a hidrofobia mais profunda vem da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Anti-abortion_violence" target="_blank">oposição religiosa à interrupção voluntária da gravidez</a>. Que é tão, ou mais, incivilizada e irracional que a oposição feita, por essas mesmas forças, aos direitos civis dos homossexuais. Seria interessante realizar um estudo psicológico/sociológico para entender por que as mesmas pessoas que parecem dispostas a derrubar governos, reformar constituições e até criar <a href="http://www.amalgama.blog.br/01/2012/cadastro-de-gestantes-politicas-de-saude-para-mulheres/" target="_blank">um Dops para gestantes</a> por amor a um punhado de células, <em>in vitro</em> ou <em>in utero</em>, depois sentem que é seu dever divino condenar a uma vida de cidadania fraturada o homem a que essas células deram origem, só porque ele ama outro homem.</p>
<p>Enfim.</p>
<p>O fato, no entanto, é que nem toda oposição ao aborto é irracional e estridente. O arcebispo apoplético que baba e perdigoteja aos berros de &#8220;abortista!&#8221; é um mero estereótipo (embora pareça frequentar as páginas de opinião dos jornalões com certa regularidade), mas por trás de tanto furor há ideias &#8212; ou é de se supor que haja. E que ideias, afinal, são essas?</p>
<p>A principal, creio, pode ser resumida na seguinte sentença: <em>o aborto é o homicídio injustificado de um inocente</em>. &#8220;Homicídio&#8221; é, nesse caso, entendido como a morte, artificialmente provocada, de um ser humano. Para o silogismo da proibição fechar, portanto, é necessário estabelecer que o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Blastocisto" target="_blank">blastocisto</a>, o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Embri%C3%A3o" target="_blank">embrião</a> e o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Feto" target="_blank">feto</a> são seres humanos; que estão vivos; que são inocentes; e que o aborto não se justifica (por exemplo, em virtude de uma <a href="http://www.votocatolico.com.br/2012/01/medicos-sem-fronteiras-fazem-abortos-em.html" target="_blank">ameaça à vida da mãe</a>, ou de um <a href="http://blogs.estadao.com.br/carlos-orsi/2010/10/19/o-aborto-e-uma-questao-cientifica/" target="_blank">apelo a seus direitos pessoais</a>).</p>
<p>É claro que cada elo dessa cadeia é passível de análise (da questão da justificativa com base no direito da mulher, por exemplo, já tratei na segunda remissão do parágrafo acima), mas agora queria abordar a divergência em torno do que geralmente se considera o aspecto mais &#8220;cabeludo&#8221; da questão: <em>o que define um ser humano vivo</em>?</p>
<p>Como muitas outras perguntas do tipo, a resposta pode parecer óbvia 99% das vezes (digamos, &#8220;um membro da espécie humana que esteja respirando&#8221;), mas sempre há o 1% de casos extremos que parece não caber na definição &#8220;evidente&#8221;.</p>
<p>Pessoas em morte cerebral cujo organismo é mantido vivo por aparelhos, por exemplo, respiram, embora não estejam vivas; mergulhadores pescadores de pérolas não respiram durante seus mergulhos, mas não são cadáveres.</p>
<p>E blastocistos sequer têm narizes ou pulmões. De fato, a maioria das definições clássicas ou intuitivas de &#8220;ser humano vivo&#8221; excluem os primeiros estágios do desenvolvimento intrauterino &#8212; o blastocisto e o embrião: eles não são racionais e políticos; não são bípedes sem plumas; não são agentes morais; etc. De fato, <a href="http://www.nytimes.com/2005/06/19/books/chapters/0619-1st-gazza.html" target="_blank">a atividade cerebral começa a surgir entre a 5ª e a 6ª semanas de gravidez, mas nesse estágio ainda é menos coerente que a de um camarão</a>. O cérebro só é capaz de existir de modo viável a partir da 23ª semana.</p>
<p>Eu (e muita gente além de mim) dou destaque especial ao desenvolvimento do cérebro porque é desse órgão que dependem, de modo crucial, as capacidades e potencialidades que são mais reconhecidas como &#8220;humanas&#8221;. Da mesma forma que, após a morte cerebral, podemos afirmar que &#8220;não há mais ninguém lá&#8221;, também poderíamos argumentar que, antes do cérebro surgir, &#8220;ainda não há ninguém aqui&#8221;.</p>
<p>Essa formulação cai, no entanto, caso se adote uma postura idealista e se aceite que o que define a identidade essencial da pessoa humana não é o ponto de vista peculiar de cada um de nós, gerado pela interação entre meio ambiente, atividade cerebral e feitio genético, mas uma &#8220;alma&#8221; implantada diretamente na fecundação. Só que essa postura é pura mitologia, e não deveria ter lugar num debate sobre leis e políticas públicas.</p>
<p>Ela também cai caso se considere que a essência humana é fixada pela genética &#8212; se se têm os genes certos, e se as células estão funcionando, então trata-se de um ser humano vivo, automaticamente portador de certos direitos fundamentais. O problema com o argumento genético é que ele é inclusivo demais: tumores malignos, culturas celulares em laboratório e até mesmo as placentas se encaixam em seu escopo!</p>
<p>Neste momento, alguém chama a atenção para o fato de que um embrião se distingue de sua placenta (ou de um câncer) pelo fato de que pode, naturalmente, desenvolver-se num bebê. Constatação que nos traz ao fulcro da questão: o <em>argumento da continuidade</em> e o <em>argumento do potencial</em>.</p>
<p>Em sua forma mais tosca, o argumento da continuidade é o que diz: &#8220;Se o aborto fosse permitido no tempo da sua mãe, você não estaria aqui&#8221;. Para além da cretinice metafísica &#8212; nunca ter nascido não é um problema ou um prejuízo para ninguém, já que vir a existir é uma precondição necessária para se ter problemas ou prejuízos (e alegrias e lucros, por evidente) &#8212; há algo de estúpido e repugnante aí, nessa identificação do instinto maternal com o medo de polícia e na subordinação da vontade da mulher à função reprodutiva. É de se considerar se quem lança mão da frase grosseira realmente imagina que pessoas como ele mesmo só existem porque suas mães foram coagidas a parir pelo Estado. Eu realmente gostaria de poder imaginar que o mundo é habitado por pessoas que surgiram das decisões livres de uma vontade espontânea.</p>
<p>Em sua forma sofisticada, o argumento da continuidade afirma que a linha de causalidade que vai do encontro entre óvulo e espermatozoide ao nascimento é contínua, e portanto não se pode impor um ponto arbitrário até onde seria moralmente aceitável interrompê-la.</p>
<p>Essa modalidade admite (pelo menos) duas respostas: a primeira é a de que ligar o início da existência humana ao início da viabilidade cerebral não é nada arbitrário; há uma racionalidade articulada por trás dessa escolha, já que tudo o que mais distingue o ser humano do restante da natureza depende, crucialmente, disso. Essa racionalidade tem encontrado resguardo até mesmo em decisões judiciais, como as que autorizam a interrupção da gestação de anencéfalos. A segunda, que deve parecer evidente para qualquer um que já tenha assistido a <em>De volta para o futuro</em>, é a de que escolher o instante da concepção para marcar o início da cadeia causal que leva ao ser humano pleno é que é, aí sim, arbitrário. Afinal, por que não o momento da ejaculação, ou da ovulação, ou o primeiro encontro do casal de futuros pais? Ou dos pais dos pais? A concepção pode ser vista como apenas mais um ponto numa sequência de causas necessárias que se prolonga indefinidamente rumo ao passado.</p>
<p>O argumento do potencial é parecido, mas tem sutilezas próprias. Uma vez que o óvulo e o espermatozoide tenham se fundido, vai o raciocínio, e mesmo considerando que, sim, a plenitude da pessoa humana depende da presença de um cérebro minimamente funcional, <em>as condições estão dadas para que uma pessoa humana se desenvolva</em>, bastando para isso que deixemos o processo seguir seu curso natural. Daí, interromper o processo significa matar essa pessoa.</p>
<p>É meio difícil saber o que fazer com essa linha de pensamento, já que o que ela diz, em resumo, é que é possível cometer homicídio preventivo &#8212; matar alguém antes que a pessoa venha a existir. <em>De volta para o futuro</em>, outra vez.</p>
<p>Uma reformulação mais caridosa poderia ser: <em>É condenável que, uma vez consumadas as condições necessárias e largamente suficientes para que uma nova pessoa venha ao mundo, tais condições sejam deliberadamente destruídas</em>. Não tenho nenhuma objeção a esse princípio, ainda que não consiga encará-lo como algo absoluto, ainda mais como algo capaz de se sobrepor à vontade soberana da mulher sobre seu corpo. Não vejo, enfim, como impô-lo a toda a sociedade por meio de lei e, pior, igualá-lo ao bom e velho <em>Não matarás</em>.</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/aborto/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>A batalha pelo Partido Republicano</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Feb 2012 16:35:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Santoro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[destaque]]></category>
		<category><![CDATA[eleição presidencial estadunidense 2012]]></category>
		<category><![CDATA[Mitt Romney]]></category>
		<category><![CDATA[Partido Republicano]]></category>

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		<description><![CDATA[Mitt Romney é o favorito, mas não deve ter o mesmo sucesso de W. Bush na unificação da base]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8369" title="Newt e Mitt" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/newt_mitt.jpg" alt="" width="600" height="325" /></p>
<p>Com a vitória nas primárias de Nevada e, antes, no importante colégio eleitoral da Flórida, com cerca de 46% dos votos, Mitt Romney ficou mais perto de conseguir a indicação dos Republicanos. Os eleitores conservadores são maioria, mas estão divididos entre três candidatos: Newt Gingrich, Rick Santorum e Ron Paul. Eles também eram a principal base de apoio de outros políticos, que desistiram da corrida, como Rick Perry, Sarah Palin e Michelle Bachmann. Romney é o mais competitivo nacionalmente contra Obama por sua capacidade de atrair eleitores centristas, mas terá problemas com um Partido Republicano no qual o termo “moderado” passou a ser pejorativo. Este é um <a href="http://www.nytimes.com/2012/02/02/opinion/kristof-where-are-the-romney-republicans.html?_r=1&amp;src=tp" target="_blank">desdobramento recente e importante</a>, que contraria uma tradição centenária da sigla.</p>
<p>O <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Republican_Party_(United_States)" target="_blank">Partido Republicano</a> nasceu das tensões da década de 1850, em torno da persistência da escravidão no Sul, de sua expansão para os novos territórios do Oeste e dos debates sobre como incorporar as levas crescentes de imigrantes. Os dois grandes temas da sigla eram a manutenção da União e de tarifas industriais altas. Foi bem sucedido em ambas, comandando a vitória na Guerra Civil e administrando o <em>boom</em> econômico que se seguiu. Os republicanos governaram os EUA quase sem interrupção por 50 anos, até a década de 1910. Os democratas haviam se reduzido a um pequeno partido regional do Sul.</p>
<p>Isso começou a mudar com as grandes transformações sócio-econômicas da primeira metade do século XX: crescimento das cidades, mais migração de minorias religiosas (católicos, judeus) e a primeira leva de mudança dos negros para os centros industriais do Norte, a partir da I Guerra Mundial. Os democratas se reestruturaram como uma aliança entre esses segmentos emergentes, mais progressistas, e os setores tradicionais do Sul. Era uma formidável combinação eleitoral, como demonstraram as quatro vitórias de Franklin Roosevelt e as de John Kennedy e Lyndon Johnson.</p>
<p>O ponto fraco da aliança era a pressão para expandir as reformas sociais para o Sul, o que ocorreu entre 1954-1965, destruindo o sistema de segregação racial &#8212; e o secular domínio dos democratas na região; a classe média e a elite locais migraram em massa para os republicanos. Como mostra o mapa abaixo. Os estados vermelhos são aqueles nos quais o partido obteve a maioria no colégio eleitoral nas disputas à presidência. É quase todo o Sul, à exceção significativa da Flórida. Os democratas se concentram nas principais zonas industriais: costa Leste e Oeste, e Grandes Lagos.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-8370" title="mapa eleitoral" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/MapWedB.jpg" alt="" width="206" height="320" /></p>
<p>Essas últimas regiões também elegeram políticos republicanos para governos estaduais ou senados, mas que em geral ficaram conhecidos por sua moderação e liberalismo, como Nelson Rockefeller em Nova York ou o pai de Mitt Romney no Michigan. Isso começou a mudar na década de 1950, com a ascensão de um tipo de político conservador mais radicalizado ideologicamente, primeiro nos temas da Guerra Fria, como o senador Joseph McCarthy, e mais tarde na oposição à expansão do governo federal (exceto em Defesa e segurança nacional). Sobretudo no Sul, onde o assunto era inseparável das tensões raciais – o senador Jess Helms é um bom exemplo. É um forte contraste aos republicanos de outra era, como o presidente Dwight Einsenhower, que aceitara as reformas do New Deal, ampliara o investimento público em infraestrutura, construindo uma excelente rede rodoviária, e alertara os Estados Unidos contra o <a href="http://mcadams.posc.mu.edu/ike.htm" target="_blank">risco do crescimento desmensurado do complexo industrial-militar</a>.</p>
<p>Em boa medida essa nova guinada ideológica se deveu à mobilização política de movimentos religiosos, assustados com as rápidas mudanças da década de 1960 e com o que parecia ser o declínio americano no Vietnã e no Terceiro Mundo de modo geral. Esses grupos foram importantes no apoio a presidentes como Ronald Reagan e George W. Bush, ele mesmo um evangélico convertido.</p>
<p>Reagan e Bush foram habilidosos em criar coalizões que envolviam as várias facções dos republicanos: o meio empresarial, religiosos, libertários, neoconservadores, liberais. Não há hoje ninguém no Partido que consiga isso, em meio à <a href="http://todososfogos.blogspot.com/2010/11/fervendo-o-cha.html" target="_blank">rebelião das bases partidárias do Tea Party</a>. Romney tem contra ele não só suas posições político-econômicas, mas até sua religião – os mórmons são menos de 2% da população americana e em geral são vistos com desconfiança pelos eleitores conservadores, que tendem a considerar o grupo uma seita fechada. Um terço da população dos Estados Unidos <a href="http://oglobo.globo.com/mundo/no-clima-das-primarias-eua-vivem-momento-mormon-3731761" target="_blank">sequer sabe que os mórmons são cristãos</a>!</p>
<br>-- <em>Para saber mais sobre o(a) autor(a) do post, <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2012/a-batalha-pelo-partido-republicano/">acesse o Amálgama</a></em> --

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		<title>Tea Party e Occupy Wall Street: demandas iguais, métodos diferentes</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Feb 2012 16:30:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Vilarnovo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[crise econômica 2008]]></category>
		<category><![CDATA[crise econômica estadunidense]]></category>
		<category><![CDATA[Occupy Wall Street]]></category>
		<category><![CDATA[TARP]]></category>
		<category><![CDATA[Tea Party]]></category>

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		<description><![CDATA[A nós, resta apenas imaginar como seria se esses dois movimentos estivessem juntos]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-8373" title="Tea Party e Occupy Wall Street" src="http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/02/tp-ows.jpg" alt="" width="500" height="271" /></p>
<p>Este ano haverá eleições presidenciais na nação mais poderosa do mundo, em meio a uma crise econômica que mudou o cenário político americano como poucas vezes se viu. Os vetores dessa mudança foram dois movimentos populares que, apesar de tudo, possuem muitas características semelhantes.</p>
<p>O primeiro a nascer foi o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Tea_Party_movement" target="_blank">Tea Party</a>, surgido da classe média logo após o anúncio do resgate do governo americano às instituições financeiras que se afundaram na crise. Uma característica do Tea Party é que, pelo menos no início, ele foi um movimento apartidário, ou seja, seus integrantes culpavam tanto republicanos quanto democratas pela crise. Em Utah, por exemplo, o senador com vários mandatos Robert Bennett perdeu a campanha por votar favoravelmente ao programa <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/TARP" target="_blank">TARP</a> (como ficou conhecido o resgate), em grande parte por conta da desaprovação do Tea Party.</p>
<p>Como forma administrativa, o Tea Party ainda é bastante descentralizado, organizado em comunidades com poucos líderes centrais. De início não havia sequer um comando federalizado, e sim grupos espalhados por diversos estados.</p>
<p>Já o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Occupy_Wall_Street" target="_blank">Occupy Wall Street</a> teve como inspiração a Primavera Árabe e nasceu principalmente em grandes centros urbanos como Nova Iorque, Oakland e Portland. Sua base é mais heterogênea que a do Tea Party, aglutinando muitos jovens, pessoas que perderam suas casas na crise, mas também desempregados, estudantes com dívidas educacionais e sindicatos (o que de fato é um pouco antagônico). Diferentemente do Tea Party, o OWS teve uma grande cobertura da mídia desde o início.</p>
<p>E o que esses movimentos demandam? Exatamente as mesmas coisas: são ambos contra o resgate das instituições financeiras, contra o roubo, contra regulações feitas sob medida para grupos financeiros, uso de informações privilegiadas entre outras. Contudo, as diferenças ideológicas de ambos ficam evidenciadas em seus métodos de atuação. Enquanto o Tea Party foi inicialmente ligado a grupos libertários e mais tarde a grupos conservadores (e até de extrema direita), o OWS está ligado, mesmo que indiretamente, à esquerda e extrema esquerda norte americana.</p>
<p>Seus métodos de atuação também são completamente diferentes. O Tea Party trabalha o sistema por dentro, ou seja, apoiando políticos que carregam suas mensagens, e com isso conseguiu importante voz dentro do debate político-fiscal para as próximas eleições. Tem como ídolos pessoas como a ex-governadora do Alasca Sarah Palin e o estridente ex-apresentador da Fox Glenn Beck. Já o Ocuppy Wall Street decidiu fazer uma oposição ao sistema, e, através da tática de ocupação de espaços públicos e privados, realizou seus protestos. Em Nova Iorque recebeu a visita de ícones da esquerda, como o não menos estridente Michael Moore, e da extrema esquerda, como Noam Chomsky. A exemplo de Palin e Beck no campo oposto, Moore e Chomsky tentaram angariar mais fama através do movimento.</p>
<p>Apesar das diferenças, fica claro que os dois movimentos não são antagônicos em suas demandas. Mas, em um país tão dividido e extremado como os Estados Unidos de hoje, a conversa entre esses grupos é quase impossível. Isso mostra como movimentos mais de centro são importantes; e como estadistas como Ronald Reagan, que aumentou impostos quando precisava, e Bill Clinton, que atualmente pede por um corte de impostos do setor corporativo, fazem falta.</p>
<p>A nós, resta apenas imaginar como seria se TP e OWS estivessem juntos.</p>
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