O capitalismo tem conserto?

Antes mesmo de começar a discutir a questão, creio que é preciso fazer uma espécie de limpeza retórica, porque a primeira coisa que me chama a atenção é que uma crise financeira dos países capitalistas parece ser suficiente para condenar a ideia mesma de capitalismo, ao passo que os genocídios da China, da URSS, do Camboja, do Vietnã e até do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães não parecem suficientes para questionar a viabilidade, para nem falar da moralidade, do que seria o sistema rival, o socialismo. Hoje em dia você pode dizer que o socialismo deu errado na URSS por causa de Stálin, mas, francamente, isso me parece um tanto similar a dizer que foi Hitler que estragou o nazismo, que o nazismo merece credibilidade apesar de Hitler. E o mais engraçado é que defender Lênin, que também não era nenhum anjinho, é de certo modo defender a liberalização econômica, porque era isso que ele estava fazendo quando teve de abandonar o poder por causa da saúde.
A segunda observação importante é que o termo “capitalismo” foi criado por Karl Marx. É um termo pejorativo, que indica a dominação do capital. Isso não é muito diferente do que acontece com a palavra “neoliberal”. Eu nunca vi, e já trabalhei em duas organizações explicitamente dedicadas à defesa do liberalismo econômico, alguém que dissesse: “eu sou neoliberal”. Também não é muito diferente do que eu vejo as mulheres fazerem com o termo “periguete”. Nenhuma mulher se diz vulgar, nenhuma mulher se diz periguete. Vulgares e periguetes são as outras. Ninguém se autodenomina neoliberal nem periguete. Mas é verdade que existem pessoas que se dizem “capitalistas”. A diferença é que quando uma pessoa se diz “capitalista”, ela não está se dizendo a favor da dominação do capital, mas a favor de um sistema de trocas livres. Quer dizer, o termo “capitalista” muda de sentido dependendo de quem está falando. Eu mesmo não defenderia a dominação do capital, que sob muitos aspectos efetivamente existe, ainda que não na forma parcial imaginada pelos manifestantes lá de Wall Street, mas um capitalismo mais livre, que seria melhor denominado simplesmente de liberalismo. Esse liberalismo, sobretudo como posição ética, é que provavelmente ajudaria a consertar o capitalismo e a conter suas crises.
O “capitalismo” no sentido positivo, ou o liberalismo, seria basicamente um sistema de trocas baseado na especialização de cada participante. Eu traduzo, você faz pontes, nós vendemos nossos serviços uns aos outros. Esse sistema é tão natural que nem mesmo o socialismo conseguiu destruí-lo. O sistema coletivista da URSS apenas criou um mercado negro paralelo cujos preços eram artificialmente elevados. Por isso também eu mesmo defendo menos interferência dos governos, e acho que eles devem proteger mais os consumidores do que as empresas. Proteger os consumidores e não as empresas seria, por exemplo, não aumentar o IPI de carros importados não sei de onde para que você possa pagar mais caro por um carro só porque ele foi gloriosamente produzido no Brasil. O nacionalismo está sempre ligado à ideia de que enriquecer os empresários locais é de algum modo moralmente superior a enriquecer um empresário estrangeiro, mesmo que o estrangeiro tenha um produto melhor e mais barato.
Os manifestas de Wall Street até me despertam alguma simpatia. Mas existe um grave equívoco, que é a parcialidade do movimento. Não faz sentido ocupar Wall Street sem ocupar também Washington e sobretudo o Fed, o Banco Central americano. A crise americana não foi produto exclusivo de gananciosos especuladores, mas a obra conjunta de investidores e de burocratas. De um lado, o Fed combateu crises aumentando a liquidez da economia; ainda desse mesmo lado, o governo federal americano estimulou o crédito imobiliário para pessoas que não poderiam pagar. Do outro lado, os financistas aproveitaram os incentivos que tinham. É o efeito do multiplicador bancário: o banco empresta o seu dinheiro a partir da crença de que você não vai sacá-lo. Ter um banco é gerenciar esses riscos e de fato os bancos americanos chegaram a emprestar, em alguns casos, 200 vezes aquilo que efetivamente possuíam. Aqui no Brasil isso não aconteceria, é verdade, por causa da regulamentação, que não permite uma alavancagem tão elevada. Além disso, ao contrário do que ocorre nos EUA, aqui os sócios dos bancos têm de responder pelas perdas com seus patrimônios pessoais. Mas, voltando ao caso americano e à participação do governo, metade das dívidas podres estava nas mãos de dois bancos imobiliários do governo, e já havia a ideia de que qualquer perda seria compensada com as famosas injeções de liquidez: o governo ia botar mais dinheiro na economia.
Nesse ponto, devo observar que ao menos um manifestante de Wall Street foi direto ao ponto, até de maneira um pouco filosófica, exibindo um cartaz que pedia o fim da moeda fiduciária. É verdade que essa crise só poderia acontecer num sistema de moeda fiduciária sem lastro. E por quê? É só olhar o nome da moeda: ela é fiduciária, baseada em fé, em credibilidade, em crédito. Contudo, devo me interromper a mim mesmo para dizer que não vou defender aqui o padrão-ouro. Essa digressão é relevante porque sempre que um liberal começa a falar da moeda fiduciária alguém espera que ele venha defender o padrão-ouro. Primeiro, até onde sei, o sistema do padrão-ouro também tem seus problemas. Tudo tem suas vantagens e desvantagens próprias. Segundo, porque eu não acredito que o ouro tenha um valor intrínseco. Nada tem valor por si; todo valor é atribuído. Mas esse valor também não é aleatoriamente atribuído; daí é que vem a credibilidade. Você dá credibilidade ao emissor da moeda e à sua capacidade de honrar suas dívidas.
Isso não é tão distinto da experiência comum de um profissional do setor privado. Eu mesmo sou tradutor. O valor que cobro dos meus clientes depende da minha credibilidade, isso é, de eles estarem convencidos de que eu vou entregar um bom trabalho num prazo razoável e sem apresentar dificuldades. Não vou enviar um texto cortado, dizendo que não consegui traduzir uma parte – isso é, não vou ficar dando desculpas. Do mesmo modo, qual moeda tem mais valor? A moeda emitida pelo governo que tem mais credibilidade. Essa credibilidade, no caso de um governo, não vem só das agências de rating, que aliás reduziram a credibilidade do governo americano enquanto pagador de dívidas de super ultra deluxe premium plus para apenas super ultra deluxe premium. A credibilidade vem de diversos fatores. Da segurança jurídica americana. Da facilidade de fazer negócios. Não vou dizer que os EUA sejam perfeitos, até por causa das crises. Mas o fato de que, há quinze dias, uma Europa em crise por causa da Grécia fazia o dólar subir de preço mostra quanta credibilidade os EUA têm. A politização da moeda começa aí mesmo, ela é emitida por um governo e as pessoas vão ver como esse governo se comporta.
É importante observar que não apenas os EUA recebem os maiores fluxos de dinheiro, como também recebem os maiores fluxos de imigrantes. Quando a coisa aperta, você confia em ir para os EUA. Os EUA em crise, com duas guerras, com Wall Street ocupada, parecem melhores do que todos os demais países do mundo, na opinião da maioria dos imigrantes, porque lá é fácil trabalhar, empreender, ter um negócio, ser muçulmano, ser ateu, e até comprar um busto barato de Stálin para colocar na sala de jantar se você quiser. É muito engraçado que o país que representa o capitalismo no mau sentido de Marx, inclusive num mau sentido justo, devido às estripulias financeiras, seja o país para o qual as massas oprimidas do mundo fogem assim que têm chance. Credibilidade é isso. Você não vai me contratar porque eu prometo uma tradução boa, vinda do mundo melhor futuro a ser construído. Você vai me contratar porque, veja, aqui está a tradução, ela pode ter erros (todas têm), mas ela é bem melhor do que as alternativas realmente existentes. Com toda a sua perversidade financeira, o capitalismo realmente existente é melhor do que todas as outras alternativas que existem no mundo concreto, isso na opinião de investidores e de imigrantes.
Num certo sentido, perguntar se o sistema financeiro internacional realmente existente tem conserto é pedir por duas respostas. A primeira, filosófica demais, é: claro que não, porque nada que é humano tem conserto, estamos fadados à nobre arte de empurrar com a barriga e minimizar as perdas em todos os casos materialmente possíveis. Nesse ponto, aliás, o sistema econômico descentralizado se mostrou tão mais eficaz em poupar vítimas que compará-lo com o sistema de economia planejada, ou socialismo, me parece até patológico num sentido dostoievskiano. Há cem anos um marido alcoólatra espanca a mulher e você quer lhe dar mais uma chance só porque ele toca “Imagine” do John Lennon no piano e você se derrete. A segunda resposta de certo modo decorre da primeira: algum ajuste será feito, mas não necessariamente será positivo. Os políticos sempre aproveitam as crises para botar a culpa no setor privado e aumentar seu poder. Não esqueço da sinistra frase de Rahm Emanuel, que hoje é prefeito de Chicago e foi o primeiro Chefe de Gabinete (Chief of Staff) de Barack Obama: “nunca devemos deixar de aproveitar uma crise grave” (“you should never let a serious crisis go to waste”).
Claro que poderia ser feito algum ajuste positivo. Mas acho que se eu soubesse elaborar um ajuste convincente, específico, que fosse além do feijão com arroz que os liberais sempre repetem, meu nome estaria na lista de indicados ao Nobel. De todo modo, imagino que diminuir a alavancagem dos bancos seja importante, ainda que isso talvez viesse a custar em termos de prosperidade e nenhum político quer enfrentar a dureza de um ajuste deflacionário. Nenhum presidente ou candidato a presidente vai querer bater no peito e dizer que no governo dele vamos tomar o remédio amargo e cortar despesas. Além disso, considero fundamental que bancos e banqueiros respondam com seu capital privado. Assumir um risco não é em si um mérito que pede recompensa; é preciso arcar com os prejuízos. Até porque sempre somos mais prudentes com o nosso próprio dinheiro.
Por isso é que o capitalismo, tomado como a associação perversa entre bancos centrais e financistas para manipular riscos e moedas, pode ser amplamente melhorado pelo liberalismo, por um governo mais estável, que tenha regras mais claras, que dê segurança jurídica, que não impeça a iniciativa individual (eu mesmo preciso de um alvará da prefeitura para traduzir em casa, isso é, eu preciso de uma autorização do governo para escrever no meu computador), que não queira planejar nem dirigir a economia, que não favoreça os grandes empresários. É claro que existe algo de utópico nisso no sentido de que nunca haverá um país perfeitamente liberal, mas esse é um ideal mais realizável, ou ao menos é um ideal ao qual se pode tender. Tanto é que os países que mais tendem a ele são os mais prósperos, em que, novamente, os imigrantes do mundo escolhem morar. Aqui mesmo no Brasil poderíamos ajustar nossa estrutura tributária, melhorar a facilidade de fazer negócios, de empreender, cortar subsídios diretos e indiretos a grandes empresas, derrubar as alianças entre o setor privado que vive de dinheiro fácil do Estado e o Estado que vicia o setor privado por meio de grandes projetos, e criar um capitalismo mais liberal, que seria melhor para todos, e não só para meia dúzia de políticos, de banqueiros e de empresários.
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Este é o texto de uma palestra apresentada pelo autor, a convite do OrdemLivre.org, na UFPE em Recife, no dia 3 de novembro de 2011.

A mesma crítica do início do texto (não adianta buscar um “socialismo” “puro” por assim dizer, não “estragado” por Stalin, mas sim seria muito melhor se perguntar sobre como é que o socialismo se efetivou associando-se a figuras como Stalin, mesmo sob o discurso “marxista”) se aplica ao resto dele (não adianta buscar um “liberalismo” “puro” por assim dizer, não “estragado” pela exploração selvagem do capital, mas sim seria muito melhor se perguntar sobre como é que o “capitalismo” se efetivou com tudo o que vemos diante de nossos próprios olhos há 250 anos, mesmo sob o discurso “liberal”).
Catatau, tirando o lado ditatorial invariável do socialismo (ou ditadura do proletáriado nas bases bem definidas por Bakunin), o lado econômico do mesmo é inviável. Desconsiderando todos os erros filosóficos e sociais socialistas o regime econômico iria derrubar o regime por sí só. A URSS acabou não por seus problemas sociais estritamente dito mas sim porque seu sistema econômico – que de certa forma reflete as escolhas filosóficas socialistas – ruiu. O sistema era simplesmente improdutivo para se sustentar. E mesmo assim ainda vemos marxistas bantendo na tecla da teoria de valor e na mais valia de Marx.
Por outro lado, se você pegar os dez primeiros países do ranking de liberdade econômica feito da Heritage Foundation (http://www.heritage.org/index/ranking) e comparar com os dez primeiros países do ranking de IDH (http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/reportagens/index.php?id01=3600&lay=pde) você pode encontrar alí uma grande confluência entre os dois rankings. Será que isso é apenas coincidência?
Será coincidência que o país sulamericano mais bem colocado no ranking do PNUD seja o país sulamericano mais bem colocado no ranking da Heritage?
A grande diferença, ao meu ver é que muitos que se dizem liberais não praticam o liberalismo. O mesmo não se pode dizer às experiências socialistas. A não ser que entremos naquela seara de que “o socialismo não é o MEU socialismo”, mas foi o socialismo não só de Stalin, mas de Pol Pot, Mao, Tito, Ceaucesco, Fidel, Hoxha, etc, etc, etc…
“A grande diferença, ao meu ver é que muitos que se dizem liberais não praticam o liberalismo” — mas esse é o ponto que a extrema-esquerda usa para tirar o ônus de regimes autoritários “seus”; “ah, fulano não é um socialista de verdade, Stalin era de direita!”. Nesse sentido, a crítica do Catatau nem foi arranhada. Não existe, fora do mundo das ideias, esse liberalismo – como não existe esse socialismo puro também. Historicamente, estamos falando de uma quimera. O movimento liberal nunca deu conta, dos problemas do capitalismo (sim, capitalismo), hoje menos do que nunca. Defendê-lo agora é mais risível ainda.
Olá,
Seu texto começa criando uma falsa dicotomia ao afirmar que a única alternativa ao capitalismo ora posto são ditaduras socialistas. E a maior perfídia deste primeiro parágrafo é misturar o nazismo (partido de extrema direita e anticomunista ferrenho) aos partidos comunistas e dizer que tudo isso é o mesmo que socialismo.
O segundo parágrafo se resume à tautologia de que o sentido das palavras muda de acordo com que as usa.
O terceiro parágrafo confunde capitalismo (modo de produção) com liberalismo ([falta de] regulação de práticas mercantis). E força a barra para tentar provar que a taxação seria maléfica pois desprotegeria o consumidor, “esquecendo” que a taxação dos bens importados visa evitar o desemprego nacional.
Sua consideração de que o Ocupy Wall Street é uma manifestação parcial é, no mínimo, pueril. É óbvio que qualquer manifestação política é parcial, defendendo seu grupo de interesse – no caso do OWS, “apenas” os 99% da população norte-americana. E sua consideração de que não faz sentido ocupar Wall Street sem ocupar o FED (em Nova York) a Casa Branca (em Washington) e outros lugares faz todo o sentido, tanto que o movimento se espalhou pelos Estados Unidos. Aliás, é bom lembrar os movimentos anteriores que ocorreram em Portugal (a “Geração à Rasca”) e na Espanha.
Mas, apesar da crítica vazia ao Ocupy, seu quarto parágrafo é bem interessante, afinal, nele você reconhece a necessidade de regulamentação do mercado, afinal, se não se dão limites à alavancagem dos bancos, seus executivos irão se preocupar mais com seus bônus do que com a solvência de seus clientes e, ao fim e ao cabo, de seu próprio banco (vide o que ocorreu em 2007/2008, não é mesmo?). Reconhecimento que segue pelo quinto parágrafo, quando você advoga um lastro para a moeda, que deixaria de ser um ente valorado apenas pelas expectativas do mercado quanto ao tanto que podem puxar a corda dos governos para emitir títulos e cobrí-los de juros, caso das moedas fiduciárias.
O interessante do quarto parágrafo é apenas seu amor pelos EUA. Lindo.
No quinto, você simplesmente retoma a falácia inicial de que a alternativa que existe ao capitalismo ora posto é a ditadura comunista. Mas até você sabe que essa oposição é falsa, não é mesmo? Até você deve ser capaz de perceber que o mundo é muito mais complexo do que a divisão binária entre liberais bondosos de um lado e comunistas sanguinários do outro.
Seu último parágrafo, afirmando que os países mais liberais são os mais prósperos, ignora o Japão, né? A China (ou você vai me dizer que a China é um país socialista?), a França (ô país com presença forte do Estado)… enfim… e sobre o Nobel para quem descobrir um “ajuste positivo”, você já ouviu falar de Keynes? (tá,tá, você agora vai dizer que eu nada sei de Keynes, que ele sempre é mal usado etc. etc. etc. … sei…).
A falta de regulação dos mercados foi o que permitiu a alavancagem imobiliária que originou a crise de 2008 e permite a especulação contra os títulos das dívidas dos países europeus agora em 2011. Ora, não é esse liberalismo que nos salvará, afinal ele é a causa da doença.
Paulo, em um mundo com bastante flexibilidade de mão-de-obra e de capital talvez não houvesse a necessidade de taxar importações. Um mundo ideal, sim. Ou talvez não, já que Hong Kong não taxa importações, muito embora (talvez erroneamente) muita gente defenda que Hong Kong é um caso sui generis. Porém, porém, voltando ao primeiro período deste parágrafo, acho que é esse o modelo com o qual a direita libertária trabalha — se é que o Pedro se identifica com isso. Se não, perdão pela caracterização ruim.
E Paulo, poxa, um dos maiores defensores dos Estados Unidos, em seu tempo, foi o próprio Marx. Se o anglicismo é permitido, foi meio que um cheap shot criticar o cara por essa.
Depois, bicho, você acusou o cara de confundir “capitalismo” com “liberalismo”. Velho, o “liberalismo” dele vai entre aspas e ajudado de mais um adjetivo: “positivo”. É muita má vontade com o texto, cara.
Perdão, o “capitalismo” vai entre aspas e ajudado do adjetivo “positivo”. Abs.
” E a maior perfídia deste primeiro parágrafo é misturar o nazismo (partido de extrema direita e anticomunista ferrenho) aos partidos comunistas e dizer que tudo isso é o mesmo que socialismo.”
Um dos maiores mitos da humanidade. Hilter desde o início sempre foi muito mais hostil ao individualismo que ao socialismo. Hitler sempre foi um socialista. As bases do nacional socialismo eram bases socialista. Inclusive a questão judia era muito descrita por Marx em seu texto “A Questão Judaica”.
Stalin e Hitler divergiam, mas nem tanto sobre os judeus. Stalin achava que a perseguição contra os judeus atrapalharia a luta de classes, apesar de ficar alegre de ter deportado milhares deles (senão milhões) para os campos de concentração nazistas enquanto a Alemanha de Hitler e a Rússia de Stalin eram felizes aliados. Para Hitler o ódio com os judeus ERA a luta de classe. Isso porque, e ele não cansava de repetir, os judeus controlavam a maior parte da riquesa alemã, então ir contra os judeus era a forma de Hitler fazer sua luta de classe.
Economicamente os dois sistemas eram bem parecidos. A maior (e única justificativa real) para que falem que o nacional socialismo era de direita era que na Alemanha do nacional socialismo os meios de produção pertenciam a agentes privados e não na mão do Estado. Isso é uma grande falácia, primeiramente porque quem estudou a história do nazismo percebe que a medida que foi implantado as empresas alemãs ou passaram a serem controladas pelo Estado de maneira direta ou indireta. Tanto é que Fritz Thyssen, grande magnata da metalurgia e membro do partido nazista, fugiu para a Suiça “acusando” a bolchevização da economia alemã. Tão logo ele fugiu todos os seus bens foram nacionalizados.
Aliás, Hitler cunhou uma frase que exemplifica bem isso:
“Que importância tem tudo isso, se eu manter homens firmemente dentro de uma disciplina que não podem escapar? Deixe-os ter a própria terra ou fábricas tanto como eles quiserem. O fator decisivo é que o Estado, através do Partido, é supremo sobre eles, independentemente de serem proprietários ou trabalhadores. Tudo o que não é essencial, o nosso socialismo é muito mais profundo. Ele estabelece uma relação do indivíduo com o Estado, a comunidade nacional. Por que precisamos do problema de socializar os bancos e as fábricas? Nós socializamos os seres humanos.”
Mais claro que isso, impossível.
A grande diferença entre os dois regimes é que Hitler era contra o “”"”"humanismo”"”"” Marxista. Enquanto para os socialista a utopia (muito mentirosa) da “prosperidade” e da “felicidade” existia para a humanidade, para Hitler essa utopia era reservada ao povo ariano.
Pablo,
Creio que falta à sua visão de mundo o conceito de totalitarismo. Lembrando, é claro, que há totalitarismo de direita e de esquerda.
Assim, considerar que o uso da palavra ‘socialista’ por Hitler o torna um irmão ideológico de Stalin é um salto quântico hermenêutico somado a um brutal desconhecimento de História.
E o texto atribuído a Hitler, se você o ler com cuidado, verá que defende a propriedade privada. De um modo totalitarista, é claro, mas muito longe do comunismo/marxismo/socialismo/esquerda/URSS/China/Vietnã/Camboja. Daí, a perfídia da aproximação se mantém.
Paulo, não concordo. Hitler era anti-marxista e anti-bolchevista. Assim como era, e talvez principalmente, anti-liberal. Marx afirmou que iria se chegar ao comunismo através do capitalismo, ou seja, seria o sistema capitalista que criaria as bases do comunismo, logicamente através da luta de classe.
Hitler não acreditava na luta de classes, para ele não importavam as classes contanto que o povo fosse subordinado ao estado. Mas isso não quer, em absoluto, dizer que ele não era socialista. Só se vc considerar que o socialismo se iniciou com Marx e que o socialismo baseia-se apenas no bolchevismo. Mas isso está longe de ser verdade histórica.
Se você estudar direitinho quem mais se aproximou do socialismo-marxista foi Benedicto Mussolini que abandonou o Partido Socialista Italiano após a vitória dos bolchevistas sobre os menchevistas. Mussolini acreditava que chegaria ao socialismo através do capitalismo, enquanto os bolchevistas achavam que a fase capitalista era desnecessária. Só que Mussolini sabia que a Itália era um país atrasado e passou a fase capitalista.
O erro, bem como, é contrapor o socialismo ao capitalismo. O contraponto do socialismo é o liberalismo e não o capitalismo, termo esse cunhado pejorativamente por Marx para dar suporto a aquilo que chamam de socialismo científico (que de científico não tem nada).
Detalhe, o apelido de Il Duce foi dado a Mussolini por ninguém menos que Lênin. Os dois eram amigos. Tanto é que quando o Comunismo de Guerra foi por água abaixo e Trotsky queria descer o porrete nos sindicatos, que queriam continuar a escolher democraticamente seus representante, militarizando-os (como fez para criar o Exército Vermelho), Lênin foi contra. E o que ele fez? Criou o NPE, a Nova Política Econômica que dentre muitas coisas como liberava o comércio interno, liberava o salário dos trabalhadores, permitia a existência de empresas privadas e autorizava o ingresso de dinheiro oriundo do capital externo. Veja bem, Lênin, o grande comunista Lênin trouxe novamente o capitalismo. E fez isso embasado na doutrina Marxista. Fez isso para arrumar um pouco a economia russa que era essencialmente agrária antes de passa para a fase comunista.
Ou seja, o fato de um país ser capitalista na sua economia, não quer dizer que não seja socialista. Taí a China que não me deixa mentir.
Sobre vc falar que existe totalitarismo de esquerda e de direita estou de completo acordo.
Só que o nazismo e o fascismo não são o caso. Concordo que são de direita, mas são de direita dentro do espectro socialista.
Da mesma forma que o PCO chama o PSTU de direita que chama o PSOL de direita que chama o PT de direita que chama o PPS de direita que chama o PSDB de direita e assim vai. Todos são de esquerda, todos são socialistas pois o ponto fundamental do socialismo é a subordinação do indivíduo perante o Estado, é a extinção do individualismo. E isso existia no socialismo-bolchevista soviético de Lênin e Stalin, no nacional-socialismo de Hitler e no fascismo-menchevista de Mussolini. Sistemas TOTALMENTE diferentes das democracias liberais da época como Inglaterra, França, Estados Unidos e outros.
No Brasil temos a prova disso. Os partidos socialistas, desde o mais extremista ao mais centralista defendem com unhas e dentes a CLT que foi copiada quase integralmente das leis trabalhistas fascistas de Mussolini.
Cara, você realmente precisa dar uma guaribada nos seus conceitos… tuas definições parecem a valsa do austríaco doido.
Sei que será inútil e que, diante de tanto nonsense, impossível tratar de tudo, mas vou tentar indicar algumas das confusões em que você se perde.
Primeiro, História: você parece acreditar que no início do século XX havia a disputa de dois sistemas político-sociais, de um lado o liberalismo e do outro mal (vulgo socialismo). Mas a situação era mais complexa do que isso. Com a crise do pós-Primeira Guerra (que parecia uma montanha russa, com subidas e descidas entre 1918 e 1929) o liberalismo foi duramente criticado. Alternativas anti-liberais chegaram ao poder à direita (Mussolini e Hitler são mais famosos, mas lembre-se de Franco, de Salazar e uma pá de ditadores também na Europa do Leste) e à esquerda (URSS, Mongólia). O fato de serem totalitários e se oporem ao liberalismo (um virtual sinônimo) não significa que fossem a mesma coisa…
Hitler era anti-Marx (até você sabe disso) mas também era anti-Proudhon, anti-Saint-Simon, anti-Fourier e anti-qualquer-socialista, afinal, o socialismo advoga o uso comum da riqueza e critica a propriedade privada – lembre-se que Hitler (e Mussolini) defendiam a propriedade privada, logo, eram o avesso do socialismo.
A Nova Política Econômica (NPE) implementada por Lenin não tem nada a ver com retorno do capitalismo, mas com a criação de incentivos para reorganizar o sistema produtivo russo e auxiliar numa expansao produtiva que levasse os camponeses a produzir nas terras desapropriadas dos latifundiários e da igreja. Note-se que a região de Moscou e as partes mais ocidentais da Rússia possuíam bom grau de industrialização no começo do século XX, tanto que sustentavam um movimento sindical operário forte – mas a 1ª Guerra e a Guerra Civil acabaram com boa parte desse parque e dos próprios operários, mesmo assim, a dita ruralização da Rússia precisar ser relativizada. Mas, vem cá, você acha mesmo que a União Soviética era um país capitalista? Que lá havia propriedade privada de meios de produção? Afinal de contas, o que difere socialismo/comunismo de capitalismo é a relação das pessoas com a propriedade dos meios de produção. Na URSS de Lênin, e depois dele, os meios de produção eram controlados pelo Estado, coisa que não havia nos países do Eixo. O corporativismo alemão e a relação promíscua dos empresários com o Partido Nazista nada têm a ver com o socialismo e a mudança do controle sobre a propriedade dos meios de produção.
Daí, pode-se contrapor liberalismo e totalitarismo, e pode-se contrapor igualmente socialismo e capitalismo (pelo viés da propriedade dos meios de produção). O que não dá é pra confundir socialismo com totalitarismo. O complexo da coisa, e que você parece não entender, é que houve regimes totalitários que socializaram os meios de produção, mas do mesmo modo, houve regimes totalitários que não os socializavam (caso da Alemanha e da Itália). O capitalismo italiano era diferente do inglês ou do americano, mas era tão capitalismo quanto, já que havia propriedade privada dos meios de produção.
Agora, na sua opinião, Mussolini era um marxista? Bicho, e você ainda acha que sou eu que tenho de “estudar direitinho”… jamais pensei que viveria para ouvir (ou ler) um absurdo desse tamanho…
Por falar em Mussolini, Duce era um título usado por líderes italianos desde a Idade Média (em variações como Dux e Doge) – naturalmente, a força de sua associação com o fascismo fez com que caísse em desuso. Ele não precisava que o “miguxo” Lênin lhe desse apelido nenhum…
Outra coisa beeeeeem importante, convém não confundir o liberalismo da expressão “Democracias Liberais” com o liberalismo da falta de regulação dos mercados. Pelos padrões do início do século XX o Brasil é uma democracia liberal, afinal, temos eleições, imprensa livre, liberdade de associação. Mas nossa economia possui ampla regulação estatal. A palavra liberal que se contrapõe ao totalitarismo refere-se à liberdade de ideias e não ao liberalismo econômico conforme entendido no início do século XXI. Você parece confundir as coisas.
A China, que tem capitalismo em sua economia, é um país capitalista. Um país com grande dirigismo estatal e controlado por um partido que tem comunista no nome, mas que na prática permite e até incentiva a propriedade privada dos meios de produção.
Isso já tá muito longo. Pra finalizar, eu sugiro que você estude mais os conceitos de direita, esquerda, propriedade privada dos meios de produção, totalitarismo, liberal… e lembre-se que entender os contextos é muito importante. Depois disso, creio que você será capaz de perceber que não faz o menor sentido colocar o Partido Nazista e o Partido Comunista Soviético como igualmente socialistas, muito menos a experiência soviética como equivalente à alemã.
“A China, que tem capitalismo em sua economia, é um país capitalista. ”
Não, segundo os seus conceitos, a China é um país nazista, ou fascista. E de direita…
Vc e enorme maioria dos socialistas, parece que tem a enorme dificuldade em entender que para ter controle não é necessário ter posse.
O problema é que socialistas marxistas pararam no tempo
Amigo não existe conceito de direita e esquerda. Direita é quem a esquerda define como tal e só isso.
Além do que bem colocou o Catatau, o texto é bastante útil pra questionar um certo plano de análise que se tornou hegemônico e que o “liberalismo jovem” (desculpe cunhar uma expressão, mas é que liberais de outras épocas eram mais rigorosos no discurso) abraçou plenamente. Abra-se um jornal e muito estranhamente vai parecer que a política e a economia são dois universos paralelos em tese incomunicáveis; como se uma pessoa, ao acordar, virasse a chave da economia e, na hora das eleições (ou sei lá) virasse a chave da política. Curioso, não? Por acaso as decisões econômicas não têm significado no interior da politeia? Por acaso força econômica não traduz um poder fundamentalmente político, já que plenamente inserido num plano político? O texto parte da premissa dessa separação que é, perdoe a liberdade, inteiramente falaciosa.
Daí a questão etimológica, que pode ser um engano do autor ou má-fé, não vou julgar: embora “capitalismo” só apareça com Marx, “capitalista” é um termo bem mais antigo, data do renascimento e é amplamente usado por Ricardo justamente pra dar conta de um determinado grupo social (ou seja, político). O termo capitalismo nada mais é do que um traslado para o substantivo, mas com o mesmo objetivo, rigorosamente. O capitalismo, como usado por Marx e por todo mundo depois dele, sejam os favoráveis, sejam os contrários, mas todo mundo MESMO, é definido como um sistema em que o móbil da política “macro” (termo meio anacrônico, mas que seja) é o poder de alocar capitais, o poder do capitalista (termo que NÃO foi inventado por Marx, como já mencionado acima).
Ou seja, quando o autor identifica o capitalismo ao liberalismo dizendo que é um sistema em que as pessoas fazem trocas de acordo com a especialização dos agentes, ele revela desconhecimento tanto de história, quanto de política, quanto de economia. Talvez isso venha de uma leitura apressada da descrição que Adam Smith faz das fábricas de alfinetes da Escócia (sendo que Adam Smith era um defensor da livre CONCORRÊNCIA, não do livre mercado; a diferença é enorme, a tal ponto que Schumpeter gasta rios de tinta pra discutir a questão). É mais provável, pela maneira como está formulada, que seja uma transcrição do argumento justamente de David Ricardo, aquele mesmo que falava em capitalistas… Mas, ora, o argumento de Ricardo era, bem se vê, um argumento político; por sinal, não é à toa que nos tempos dele aquilo que mais se aproximava do que hoje chamamos de macroeconomia fosse a “economia política”. Como eu disse, os liberais de outros tempos eram mais rigorosos no discurso…
Ou seja, “capitalismo” e “liberalismo” são termos que se cruzam e se afastam de acordo com o desenrolar da topologia política, de tal maneira que o capitalismo de inspiração keynesiana (e fordista!!! Isso não se pode esquecer!!!) dos chamados “30 gloriosos” (45-75) não é menos capitalista do que o período thatcheriano, se em última instância as entidades mais poderosas no campo político forem aquelas cujo poder se manifesta via movimento de capitais. Não vou chegar tão longe, mas muita gente considera, não sem alguma razão (talvez até muita), que mesmo uma economia centralmente planejada é capitalista nesse sentido (daí o termo “capitalismo de Estado” para denominar a União Soviética, por exemplo). Funciona pior do que o capitalismo descentralizado, claro (até porque ele permite um namoro mais caliente entre as estruturas do mercado e as do Estado, enquanto que o planejamento central é como um ‘casamento’, digamos assim), mas colocá-lo como diametralmente oposto, ou “o sistema rival”, como está no texto, é bastante questionável. (A propósito, ‘moralidade’ de sistema político é como ‘eficácia mercadológica’ de código moral. Não tem sentido.) [Ou seja, a rigor, planejamento central e socialismo não são necessariamente sinônimos; isso dificilmente seria discutido até a queda da União Soviética, mas esse é um evento que já completou seus 20 anos, está na hora de avançar um pouco.]
Acho interessante como se criou essa fantasia absolutamente sem fundamento segundo a qual existe de um lado o mercado, de outro o Estado; e às vezes no paroxismo de colocar “indivíduo” versus “Estado”, como se uma corporação, um sindicato ou uma ONG fossem indivíduos. Nesse caso, por que os partidos políticos não seriam igualmente indivíduos? Não faz o menor sentido, porque o próprio Estado seria um indivíduo… É interessante ler frases como essa que diz que a crise americana foi “obra conjunta de investidores e de burocratas”, como se isso não fosse uma coisa óbvia, como se os burocratas não fossem um grupo cuja função é justamente operar a transição entre as forças políticas (majoritariamente as majoritárias, para usar uma tautologia e me manter no campo do óbvio) e a sua codificação legal.
Um parêntese: talvez esse esquecimento (pode nem ser um esquecimento, pode ser uma ferramenta retórica da ideologia, vai saber) esteja na raiz, também, de ideias como “olha! A Europa colocou tecnocratas no comando de alguns países”; ora, um tecnocrata é uma figura política como qualquer outra… Só não é democrática. E quem disse que a democracia é inegociável? Onde existe um poder quase absoluto, assim que necessário ele vai querer se manifestar de maneira tão absoluta quanto. Mais uma vez, nenhuma novidade aí. A história não começou na semana passada. A famosa ferramenta “mas um dia houve monstros que foram piores ainda! Muito piores” é uma válvula de escape que às vezes funciona, mas certamente não ajuda a entender a realidade.
Continuando: é até simpático sugerir um “capitalismo mais liberal”; se for no sentido de Smith, isso seria complicado, porque exigiria que todos os grandes conglomerados fossem reduzidos a empresas beeeem pequenininhas. Se for no sentido de Schumpeter, o governo teria de intervir mais para balancear os poderes, caso contrário ele mesmo terminará como uma ferramenta de última instância para os poderes efetivos, como é hoje para o mercado financeiro, por exemplo. Se for no sentido de Ricardo, será preciso a marinha inglesa para impor tratados; se for no sentido de Hayek, teremos de nos mudar para a terra de Oz. Em todos esses casos, a questão é a mesma: com que forças políticas algo assim ia acontecer? Qual é a força política que faz valer, no âmbito do embate social, o poder ‘do indivíduo’ – mas do indivíduo mesmo, não de indivíduos como Goldman Sachs, Halliburton ou General Electric? Ironicamente, quem diz poder fazer isso é a turma do Occupy Wall Street (aparentemente, há um certo número de anarquistas ali, mas se mais de 2% se declarar anticapitalista, vou ficar muito, mas muito surpreso). Pessoalmente, eu duvido, mas, em todo caso, 2011 tem sido o ano em que redescobrimos, pasmos – tolos que fomos – a existência da política. Mas ela existe e está aí, aquilo que tão reverentemente chamamos de mercado nada mais é do que um subconjunto dela. Realizar qualquer uma das utopias acima coloca exatamente essa questão: a da política. (OK, talvez não na terra de Oz, mas aí seria preciso aprender mágica.)
Uma palavra sobre a moeda: ela é sempre, em maior ou menor medida, fiduciária. Mas ainda mais importante é o fato de que criar dinheiro é um ato de poder, e hoje, curiosamente, quem mais cria dinheiro nos EUA são os bancos, não à toa, as entidades mais poderosas no campo político hoje. Mas também são formas monetárias as milhas de companhias aéreas, os bônus de locadoras, etc. etc. etc. Sobre isso, recomendo o volume “What is Money”, organizado por John Smithin, com artigos de Nigel Dodd, Geoffrey Ingham e outros economistas e sociólogos da moeda que se debruçam sobre a questão.
Voltando mais uma vez. Tudo isso ajuda a explicar por que uma frase como “o capitalismo, tomado como a associação perversa entre bancos centrais e financistas para manipular riscos e moedas, pode ser amplamente melhorado pelo liberalismo” simplesmente não tem sentido. Manifesta a ideia de que grandes mudanças no balanço de poder (e, por consequência, na definição das linhas gerais do funcionamento da economia) possam cair do céu. Não podem, simplesmente, da mesma forma como vitupérios contra “o Estado”, essa entidade nebulosa que também parece ter caído do céu (mas não caiu), não levam a lugar nenhum, porque não dizem nada, expressam uma espécie de “vazio semiótico” (ops, lá vou eu, inventar expressões de novo…).
Quando digo que os liberais de outrora eram bem mais sofisticados no pensamento e no discurso, não estou só fazendo referência a um uso mais sério de conceitos, mas também a essa estranha necessidade de ficar se referindo constantemente ao monstro do comunismo (ou socialismo, como preferir), colocando-se em contraponto a ele. É engraçado que os liberais do tempo em que o “comunismo realmente existente” estava vivo não tinham essa mesma necessidade. “Não concorda que o governo é uma Hidra de Lerna? É comunista!” “Não acha que a panacéia do universo é deixar ‘o mercado’ tomar seu ‘livre curso’ [seja lá como isso for]? Então você é um stalinista que quer mandar todo mundo para o gulag!” “A economia está em crise? Dê graças a Deus por não viver sob Pol Pot!” E assim por diante…
Para problemas novos, precisamos de análises novas. Repetir fórmulas e mantras não ajuda muito.
Diego, o seu comentário fez valer a leitura do texto comentado.
Estou encomendando a referência sugerida neste momento.
Abraço.
Verdade. Meu comentário foi apenas uma observação. Agora, o comentário do Diego, além de dar honrosa atenção ao texto escrito (honrosa atenção: uma jóia hoje em dia no mundo dos blogs), expõe diversos argumentos que mereceriam consideração e retorno.
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Diversas lições importantes condensadas em poucas linhas: http://gustibusgustibus.wordpress.com/2011/12/11/rent-seeking-e-o-bndes/
Bom, cheguei atrasado ao debate, mas quero indicar a leitura do artigo para os Demanov… digo, Villarnovo de plantão. Trata-se de ” A legitimidade democrática do fascismo” e também o capítulo “As democracias refizeram uma virgindade” parte integrante do livro “Labirintos do fascismo”. Ambos de autoria de João Bernardo. Há uma resenha em inglês na internet do referido livro.
Artigo do Bloomberg News :Hiring probably failed to cut joblessness. Bem lembrado pelo autor do texto, os capitalistas jamais devem deixar de aproveitar uma crise grave.
Reforçando a frase “os capitalistas jamais devem deixar de aproveitar uma crise grave”. Artigo de Steve Matthews também do Bloomberg News de junho de 2010. “Jobless produce U.S profit on productvity with less inflation”.
Engraçado que os marxistas pararam no tempo, mas a direita, liberais ou resignados com o capital sempre vem ressuscitar a URSS e plantar falsas dicotomias com o nazismo, o socialismo ditatorial do stalinismo etc. A único coisa que salvou foram os comentários de Diego e Pablo. Excelentes! Valeu a leitura.