Entrevista com Luisa Geisler

Luisa Geisler tem apenas 20 anos, mas é autora de um livro consistente, maduro. Contos de mentira (Record, 2011) faturou o prêmio SESC de literatura de 2010. Luisa é de Canoas (RS) e, além de escritora, cursa faculdade de Relações Internacionais. Seus contos encampam diferentes línguas; são continentes para embates entre diferentes gerações; falam da “verdade” pela “mentira”. A seguir, leia a entrevista que a autora nos concedeu por e-mail, e que começou a responder “no voo de volta a Porto Alegre, vindo da FLIPIPA, no Rio Grande do Norte (com um argentino do lado). Ironia…” e terminou “em casa, bonitinha, canoense, sentadinha, no ar condicionado”.

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Amálgama: Luisa, o que primeiro me chama a atenção no seu livro é a maturidade da ambiência ficcional, sobretudo tendo você apenas 20 anos. O que você pensa a esse respeito?
Luisa Geisler: Tem muito a ver com a Oficina de Criação Literária que fiz com Luiz Antonio de Assis Brasil. A Oficina ajudou muito a amadurecer meus textos e a pensar a escrita como um processo, algo a ser trabalhado mesmo, não apenas um exu que baixou no escritor, e daí ele escreveu e foi literatura espírita. Trabalho, mesmo. Dedicação. O Assis sempre comentava do escritor que escrevia “pra desopilar”, e ele respondia: “e o que o leitor tem a ver com isso?”. Não digo que Oficinas formam ótimos escritores sempre, nem que todos os escritores precisam de oficinas. Mas elas ajudam a perceber que há um leitor. Ensinam a, sobretudo, ouvir o outro, analisando os textos de uma forma madura. Antes da Oficina, eu tinha boas ideias, mas usava clichês demais, não sabia exatamente qual meu objetivo, nem notava quando superestimava ou subestimava o leitor. Da mesma forma, são fatores que nunca se mostram completos; não é como aprender a andar de bicicleta, mas sim um processo contínuo.

A questão da idade pra mim é irrelevante. Nelson Rodrigues, Rimbaud já escreviam — e maravilhosamente — com menos de 20 anos. Todo mundo tem sentimentos pra expressar, e se julgar maduro já é um sinal de imaturidade. Hoje, posso dizer algo que considero muito maduro e muito esperto. Um ano depois, quando souber de outras informações sobre o mesmo momento, vou pensar que era uma idiota por pensar da forma que pensava.

Você faz faculdade de Relações Internacionais. Como e quando a literatura surgiu enquanto uma atividade em sua vida? Ainda nessa direção, como nasceu o projeto de Contos de mentira?
Tem aquela velha história de escrever desde sempre. Escrevia na escola, tinha incentivos dos professores e tal, “a boa redação”. Eu me lembro de meu pai e eu na Feira do Livro de Porto Alegre, eu babava pelos livros. Depois, eu fazia livros eu mesma, grampeava, fazia as ilustrações e vendia pro meu pai, fazia o meu próprio estande em casa. Vendia por um real, sei lá. Eu queria saber como se faziam aquelas coisas de que eu gostava tanto, da onde vinham, queria fazer igual. Do gosto de ler, vem o escritor, da vontade de contribuir com isso. Daí veio a Oficina do Assis, daí uma colega minha comentou do prêmio e pronto.

O conceito do CDM [o livro Contos de mentira] surgiu de uma reportagem que li a respeito da quantidade de mentiras que as pessoas contam. A reportagem afirmava que as pessoas contavam em torno de oito vezes ao dia, e a mentira mais falada era “está tudo bem”. Pensei comigo, “poxa, eu não minto tanto assim! Eu não minto o tempo inteiro!”, e comecei a prestar mais atenção. Disso, surgiu a possibilidade de um livro que traz a mentira como um todo. Há também personagens que não sabem lidar com a verdade, como um personagem que escreve pequenas verdades dentro de origamis ou personagens que não aceitam as mentiras que eles mesmos contam. Essa ideia de livro de contos estava pronta, mas eu escrevi pensando no concurso. Já havia alguns textos prontos e que cabiam nesse conceito, contudo, a maioria deles foi escrita e pensada para o livro.

A faculdade de R.I. veio depois (estou concluindo meu segundo semestre agora). Sempre fui apaixonada por Geopolítica e Ciências Políticas e Sociais e cogitava R.I., mas fiz um ano de Letras antes. Depois, a Oficina de Criação Literária. Daí, vim pra R.I.. Demorei um pouco pra entender o que eu esperava de uma graduação. No final de março desse ano, quando eu estava concluindo meu primeiro mês de aula, eu soube que tinha ganhado o prêmio SESC de Literatura. Eu já tinha feito a oficina, já tinha feito Letras, já tinha enviado meu livro ao prêmio. Pra mim, a pergunta é: “Como R.I. surgiu nisso tudo?”. Enxergo R.I. como um curso excelente pra quem busca compreender a realidade contemporânea. Ele te dá muita teoria, muitas ferramentas pra enxergar o que acontece, abre a tua cabeça, te mostra as possibilidades. Tu entende que globalização não é “bom dia” e por que ela impacta tanto hoje, sabe? Ao mesmo tempo, ela não é um fenômeno recente. Eu amo o curso e tópicos abordados. Não faço ideia de com o quê vou trabalhar, mas amo.

E quero trazer essa realidade, que é a realidade mundial, pro que eu escrevo. Não de uma forma didática ou pedante, mas de uma maneira contextualizada e conectada ao que está acontecendo de fato. Apesar do livro (o fazer dele, no caso) ter vindo antes da faculdade de R.I., já havia muito dos meus interesses ali, muito da minha intenção como autora (na qual o curso de R.I. se encaixa, dessa sociedade homogeneizada e globalizada).

Quais eram suas expectativas ao inscrever o livro no prêmio Sesc de Literatura? Você havia mostrado os originais a outros escritores? Que ideia você tinha a respeito da obra?
O livro inteiro, a outros escritores, não. Havia mostrado alguns contos isolados a alguns amigos escritores, mas a maioria dos textos foi inédita pra eles. Contudo, tenho um grupo seleto de amigos (mais amigas que amigos, na verdade), que sempre me leu, sempre teve opiniões pertinentes, que esteve junto do processo do início ao fim. A Carol, em especial (foi a terceira pessoa pra quem eu liguei quando soube do resultado; em ordem: minha mãe, meu pai e a Carol), às vésperas do envio do livro ao prêmio, só fazia ler e reler os contos e analisar mudancinhas de nada. É importante ter pessoas com quem contar quando se quer uma carreira tão volátil como a literária. Um dia tu é ótimo, no outro, o texto é triste demais.

Eu esperava uma menção honrosa. Achava que tinha coisas muito boas no livro. Contudo, há contos que hoje, ao analisar bem, não sairiam da gaveta. Eu achava que esses contos que eu considerava ruins iriam desequilibrar o livro, desagradariam aos jurados, mas os bons garantiriam uma menção honrosa. Tinha expectativa de que se destacasse um tanto, mas não a ponto de ganhar. Poxa, eu era só uma guria de 19 anos sem nem graduação direito… Lembro que quando dei a obra por encerrada, concluí: “É um bom livro.” Ponto. Era um bom livro. Ainda o considero assim, por mais que fosse mudar vários aspectos dele.

Já no conto que abre a coletânea, “Apenas este réquiem para tantas memórias”, a temática do estrangeiro se faz presente; a própria linguagem encarna diferentes idiomas. As personagens do livro, de modo geral, encampam um lugar de desconcerto – mas não se resignam. Passagens como “A gente só gosta daquilo que compreende” (do conto “Casaco de lã, raio de sol, cheiro a jasmim e porre de vodca”) parecem apontar para uma tensão que jamais se resolve, uma vez que, no limite, a insuficiência da linguagem é emblema de que não podemos esgotar os sentidos das coisas. Você diria que, nesse aspecto, existem analogias entre o que você busca em Relações Internacionais e a sua busca na literatura?
Pois então, tudo tem limitações. A linguagem tem, a cultura tem, as legislações têm. Se for pra ir por esse lado, somos todos estrangeiros, não? Gosto da imagem do estrangeiro, do imigrante, porque ela é tão constante, presente e atemporal, por mais que se diga que é algo do século XXI. A busca de encontrar o seu lugar, a busca da ordem num sistema onde há tantas hierarquias diferentes o tempo todo, acho que se pode fazer muitas analogias, sem dúvida. Aliás, as R.I. estudam muito bem a questão do sistema internacional ser anárquico.

O escritor Cristóvão Tezza afirmou em entrevista recente que não considera relevante o trabalho gráfico com a palavra. Em Contos de mentira, você lança mão desse recurso algumas vezes: há títulos que se iniciam com letra minúscula; em alguns contos o recuo dos parágrafos é convencional, em outros não há recuo; também há frases introduzidas por minúscula; alguns contos possuem a estrutura de um roteiro… Qual a importância que você atribui ao trabalho gráfico em literatura?
No caso dos meus textos, usarei de exemplo o “Coríntios I”. Quis usar sem recuo de parágrafo porque, na minha ideia, a personagem tinha um desespero ao falar. As frases corriam longas, sem parar, sem saber direito onde acabava uma. Mas acho que foi um trabalho mais de linguagem que gráfico, visto que ninguém pontua igual a ninguém, e a forma que um personagem pontua obviamente revela algo. Ao mesmo tempo, enxergo que o trabalho gráfico pode criar um efeito de surpresa no leitor, mesmo que inconsciente. Contudo, a importância é mínima. No fim, o que basta mesmo é a história em si, não? Claro que o trabalho gráfico torna-se parte da arte em si. Poxa, frases que visualizam algo, algo meio poesia concreta, geram um efeito muito interessante no leitor. Mas os textos (e a reflexão causada) têm que se sustentar sem isso. O trabalho gráfico tem que ser como a capa. É importante? Ajuda? Sem dúvida. Mas não é essencial.

Os títulos são bem trabalhados – desde os mais longos, até os minimalistas. Você segue uma regra ao eleger um título às histórias?
Nossa, obrigada! Eu particularmente acho meus títulos meio fracos. Nunca acho que combinam com o conteúdo, ou que carregam consigo a ideia total. Ou seja, eu me esforço pra caramba e sou muito exigente. O próprio título do livro, hoje, já não me agrada. Considero o “fazer títulos” uma fraqueza minha, então, de novo, obrigada. Como eu me esforço muito com os títulos, não sigo regra, mas tento pensar em algo inusitado, sempre. Gosto de títulos bastante longos, que contenham uma história em si mesmos. Muitas vezes, a história do título pode ter a ver com a minha interpretação do conto ou alguma coisa significativa. Ou justo o contrário, títulos com uma palavra aleatória ou chave do conto, ou para o seu entendimento. Muitas vezes, algo faz o leitor se perguntar “oi?” pro título, e daí ele mesmo acha seu próprio significado em relação ao Conto x Título.

A metalinguagem é utilizada em algumas histórias. Em “white lies”, por exemplo, a função da literatura é o pano de fundo da discussão entre Emma e Juliano. “ESPM” também é metalinguístico; aliás, a passagem “Odeio pessoas cheias de certezas”, bem como o título do primeiro conto mencionado nesta pergunta, remetem ao título do livro. A literatura é o campo da incerteza? Por que os contos são de mentira?
Hum. A metalinguagem é usada, mas não é algo bom ou ruim ou que eu enfatize. Ela só acontece. Não é nem de propósito, eu só acho que há circunstâncias dos contos nas quais ela acaba se encaixando. Sou uma pessoa muito incerta. Tudo é muito relativo, muito “não é bem assim”, “veja bem”, “mas por esse ângulo”… Tenho poucas coisas como definidas e certas na minha vida (mentira, até tenho algumas coisas mais ou menos definidas e pensadas e objetivadas). Talvez seja questão de idade, não sei dizer. Aliás, de uns tempos pra cá, parei de me importar. Ou não, não sei também. Às vezes eu penso nisso. Mas, mas, mas, mas o que é a incerteza? Enfim, não vem ao caso.

Não sei se a literatura é o campo da incerteza. Contudo, sei que ela não é o campo da certeza. Até por ser muito interpretativa. Dúvidas fazem bem. Elas não trazem respostas, mas atiçam a procura. Gosto de dúvidas. Quanto mais, melhor. Os contos são de mentira porque… o que é um conto? Ao mesmo tempo em que, a meu ver, a temática da mentira aparece ao longo de todo o livro, seja ela mais subjetiva ou concreta. A ideia de vida de mentira, as mentiras que nós mesmos contamos pra poder dormir à noite. Acho que essas mentirinhas refletem a vida e, por refletirem-na, chegam à literatura.

Outro tema recorrente é o embate entre gerações. Você acha que esse embate, na sua ficção, é análogo ao embate entre as diferentes línguas? “Parque de diversões”, último conto do livro, aborda o crescer. Curiosamente, as personagens nesse conto carregam certa ambiguidade, uma vez que são crianças vivendo situações de gente grande. O caminho para o crescimento implica enfrentar as confusões de línguas/gerações?
Não vejo as diferentes línguas como “em embate”. Acho mais que elas tentam, num desespero, se entender, feito as pessoas. Se fosse pra fazer alguma analogia entre a minha ficção e os idiomas, seria algo assim. Há milhares de maneiras, sons, de se dizer ideias tão semelhantes (nunca iguais). As pessoas querem se encontrar, entender, mas os sinais pessoais de cada uma são trocados. Contudo, acho que o embate de gerações é constante, e aí sim vejo um pouco de conflito (mais pela insegurança, o medo de que não haverá espaço pra todos, a incompreensão da mudança).

Mas sobre o caminho do crescimento, acho que sim. Há o conflito de fazer o que sua mãe acha o certo e de descobrir o que você acha certo, o que muitas vezes pode ser uma novidade. No fundo, são gaps de comunicação, de modos de pensar. Ambos os lados compartilham o desespero da busca pela compreensão. Nunca pensei nisso de uma maneira consciente, mas é uma analogia boa, a dos Idiomas x Gerações. Novamente, ideias tão semelhantes, com dificuldades de serem entendidas por soarem tão diferentes.

Muitas são as personagens identificadas por apelidos. Você trabalha isso muito bem no excelente “Ovelha branca”: “‘Gui’ fora a primeira palavra que Caio falou. Depois do desastre de ‘Guilherme’, os pais optaram por um nome menor. ‘Um nome que jamais vai ter apelidos’, diziam”. Você considera essa questão dos apelidos relevante para o livro, ou diria que é apenas coincidência ela se repetir em vários contos? Qual o efeito que, do seu ponto de vista, esse tipo de nomenclatura provoca?
Acho que é uma coincidência relevante, hehe. Novamente, um tema que eu uso bastante (inclusive fora do livro, em outros contos) e que ninguém nunca tinha me apontado. Ninguém pensa em nomes completos, né? “Vou telefonar para o meu irmão, Victor, hoje às 21h43.” Um apelido flui melhor, deixa mais natural. Se é uma primeira pessoa, prefiro que sejam apelidos. A forma como você é chamado indica muita coisa: humor, intimidade, por exemplo. Aquela velha história, de que se minha mãe me chama de “Luisa”, é porque eu fiz alguma coisa de errado.

Por exemplo, na AIESEC, onde trabalho, há uma imensidade de Luizas, Luisas, Luanas, Lúcias, Lucianas etc. E eu sempre fui Lu. Tive que arrumar um novo apelido. Ou seja, na AIESEC, conhecem a Louie. E eu comecei a gostar do som de Louie e, às vezes, assino e-mails com o apelido. Agora, alguns amigos novos me conheceram como Louie. Nesse caso, o apelido indica tempo, um momento diferente da vida. Quem conheceu a Lu me conheceu no Ensino Médio, sabe histórias que hoje não têm nada a ver comigo. Quem conheceu a Louie me conheceu na faculdade, já escritora… É a mesma pessoa? Então acho que um apelido carrega consigo uma história, mesmo que o mais banal dos apelidos. Contudo, nunca tinha de fato notado como isso se repete com freqüência nos textos. Ato inconsciente, acho que faz bastante sentido.

Você já está trabalhando em um novo livro? Em caso afirmativo, poderia falar do que se trata? O que você almeja enquanto escritora?
Estou trabalhando num novo livro, sim. É um romance, traz a ideia de um estranho no ninho e de sobreviver ao suicídio. Eu falaria mais, mas os livros sempre tomam rumos estranhos, né?

E como escritora, de boa, não faço ideia do que almejo. Sei lá, criar, contribuir, encontrar pessoas que pensem parecido, me agradar, trazer ideias novas. Não decidi ser escritora por almejar alguma coisa, muito menos por saber o que almejava, hehe.

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::: Record, 2011, 128 páginas :::
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