No que o transporte público do DF está se tornando?
por Anna Raíssa * – Há muitas vantagens em optar por usar o sistema de transporte público da sua cidade ao invés de usar carro. Para quem reclama da falta de tempo para ler ou para ouvir música, então, o tempo dentro do ônibus ou metrô pode ser a solução – eu, quando estudante, que o diga. Sempre dá tempo de ler aquele capítulo que falta para apresentar o seminário, a edição dessa semana da sua revista e as atualizações do Twitter e do Facebook. E a distância entre a minha casa e o meu trabalho é de, em média, 10 músicas. Comprovação empírica.
Eu, com o perdão da falta de modéstia, que sou ideológica e terminantemente contra encarar engarrafamentos, uso a melhor das técnicas: happy hour. Todos têm de concordar que é melhor passar 2 horas na companhia de amigos e álcool, ou no cinema, ou programa que o valha, que parado no trânsito. Uma amiga me contou que quando morava em São Paulo fazia maquiagem, cabelo e tomava café da manhã no carro. Quanto tempo (parada!) no trânsito, meu deus.
Isso tudo é muito útil se supormos que o ônibus vá passar à hora que você precisar dele, não vá quebrar no meio do caminho ou que você vá encontrar lugar para ir sentado lendo seu Paulo Coelho. Eu não sei como é para vocês, mas para quem mora em Brasília não é bem assim.
Que o transporte público do DF é caro, caótico, precário e detestável não precisa dizer, é sabido nacionalmente. Ah, não é? Pois deveria. Ter empresa de ônibus em Brasília deve ser o negócio mais lucrativo da capital, já que nem o governador – qualquer que seja ele – tem coragem de entrar no mérito, e muito menos de terminar as obras do metrô. O que é óbvio em outras cidades, em Brasília é sonho: metrô que atenda boa parte da cidade e das cidades satélites, integração entre o mesmo e os ônibus, um mínimo aceitável de qualidade. Ou pelo menos que não chova dentro do ônibus quando chove lá fora. Ou que ele passe no horário. Ou, minha nossa senhora, o que é que custa?, que se tenha mais de uma empresa prestadora do serviço por cidade. Sem falar no Wagner Canhedo, homenzinho indigesto, dono da pior frota de ônibus por aqui, sucateada – diz-se por aí que os ônibus são comprados nos ferro velhos de Goiânia e São Paulo, pintados e trazidos para cá –, cara e apadrinhada pelo GDF.
A saída? Milhares de carros nas ruas todos os dias. Cidade planejada para abrigar menos de 600 mil habitantes, já passa dos 2 milhões, mais os tantos que moram no entorno – região mais ou menos do tamanho da Croácia, que compreende municípios de Goiás e Minas Gerais e uma média de um milhão de pessoas -, o que resulta numa região metropolitana considerável obrigada a contar com um sistema de transporte sofrível.
Brasília tem uma arquitetura peculiar, onde nada é tão perto quanto parece. Assim sendo, ir para o trabalho de bicicleta ou a pé é um hábito desconhecido pelos brasilienses. Aliás, você sequer consegue imaginar alguém indo ao cinema ou ao bar a pé, após o expediente. E o transporte público – ou o arremedo dele – não cumpre esse função. Você consegue, com muita sorte, tomar um ônibus próximo de casa e que te deixe na porta do trabalho e vice-versa. Daí em diante, o problema é seu.
Ir ao cinema? Ok. Com exceção do Cine Brasília, um resquício de civilização que estrutural e culturalmente mal se aguenta em pé, todos os outros cinemas da cidade – péssimos, por sinal – estão locados em shoppings centers geralmente situados em locais de difícil acesso para quem não usa ou não quer usar o transporte particular. O Centro Cultural Banco do Brasil então, nem se fala. Emburacado de frente à chamada Terceira Ponte, conta com um acesso praticamente impossível – embora conte com linha própria e gratuita de microônibus, quase nunca dá conta do contingente de passageiros, e a linha que faz o transporte regular tem horários completamente inadequados e frota reduzidíssima. A situação se repete em outros centros culturais, museus e similares.
Os teatros e bares que são mais ou menos acessíveis por esses meios conta com outro fator desagradável: o horário dos ônibus. Como foi dito, a frota do Distrito Federal, mesmo a de trens de metrô, é vergonhosamente reduzida e os horários quase sempre – quando cumpridos – inadequados. A impressão que se tem, se é que é só mesmo impressão, é que todo o sistema foi planejado de forma que o trabalhador saia de manhã para o trabalho e volte no fim do dia para casa, sem direito a música, a happy hour, a um passeio no shopping que seja.
O que não se percebe é que esse sistema de exclusão das maiorias minorizadas (estudantes, trabalhadores, moradores das cidades-satélites e das cidades do entorno) atinge também, de forma colateral, os moradores do Plano Piloto, dos lagos Sul e Norte e das cidades mais próximas (Sudoeste, Cruzeiro, Candangolândia etc.), o núcleo privilegiado da capital. Aumenta-se de forma absurda a quantidade de carros nas ruas, à medida que se diminui as vagas nos estacionamentos – o que desanima qualquer um a sair. Da mesma forma, o cidadão não pode se dar a oportunidade de sair de casa sem carro, mesmo que seja para um chope ou uma ida rápida à livraria.
Com um transporte público minimamente eficiente, vários aspectos poderiam ser evitados: até 10 anos atrás, acreditem, pouco se falava em engarrafamento por aqui. A Lei Seca não seria tão penosa aos motoristas apreciadores da cervejinha do final de semana (tomar um táxi, além de caro, não é hábito entre candangos). As poucas vagas de estacionamento não seriam disputadas a ferro e fogo inclusive por flanelinhas, que esquadrinham os espaços e o dividem entre si. E aquela sinistra mancha negra que anda se formando nos céus tão famosos de Brasília, pouco acima dos prédios, não estaria nos preocupando tanto.

Realmente a dependência de transporte público complica a vida de inúmeros trabalhadores do DF. É lamentavel a existência desse quadro caótico! Em função disso, a frota de carros aumenta assustadoramente, atualmente ela é composta por 1, 176 milhões de carros. Fazer o quê, se o transporte individual é a melhor solução para a correria diária…
Além dos intragáveis engarrafamentos, a consequência disso contribui para o aumento das emissões de CO2 em doses cavalares. Pesquisadores da UCB contabilizaram que 1/3 da frota de carros despeja anualmente mais de mil toneladas de CO2 na atmosfera. Nesse ritmo, há aumento de estacionamentos, alargamentos das vias, ou seja, infelizmente as áreas verdes que restam estão com os dias contados. Assim, Brasília caminha para se igualar a São Paulo. Socorro!!!
eu tenho carro. aliás dor de cabeça.
como trabalho no SHLS (vá caçar a sigla no google, que eu to com preguiça de explicar), passo TODOS os dias pelo menos quarenta minutos procurando vaga duas vezes por dia (quando chego e quando retorno do almoço). Fora quando preciso me locomover para a outra asa (SHLN).
guardo com carinho a epoca em que andava de onibus. Fui tentar isso outro dia e desisti.
Aqui em São Paulo a situação também é muito complicada, como todos sabem, porém ainda temos opções louváveis como o metrô e a bicicleta. Espero que nos próximos anos algo seja feito para se mudar a cara dos transportes em Brasília, pois essa forma de viver não me parece nem um pouco saudável (ou mesmo agradável) para os milhões de pessoas que a praticam.
O transporte público de brasília realmente é uma porcaria. Contudo, bons exemplos, como o caso de Londrina, em que governo e empresários se uniram e estão conseguindo construir um transporte melhor para a população.
O GDF precisa é investir pesado nesse setor e, também, saber que as empresas operadoras são parceiras fundamentais para a construção de um transporte público de qualidade.
É cruel saber que Brasília está perdendo a chance de ser um modelo, no que tange ao transporte público.
Precisamos de mais investimentos nas empresas e na construção de faixas exclusivas para ônibus.
Reforma já.
Algo que demanda muita preocupação, o apoio para as empresas de ônibus, se faz necessário.