Escrita da ordem do Real
a Vanessa Souza
Adriana Lisboa foi minha maior descoberta literária de 2010. Uma amiga indicou-me o romance Sinfonia em Branco (2001), da autora carioca, e fiquei irremediavelmente tomada de paixão por sua prosa poética. Compulsiva por bons livros, comprei a obra completa de Adriana – cinco romances, um livro de contos e uma novela infanto-juvenil. Só faltam os três livros para crianças, com os quais devo presentear minha sobrinha – só pela curiosidade de lê-los.
Vencedora do prêmio José Saramago pelo Sinfonia em Branco, Adriana tem seus livros publicados em oito países. Recentemente lançou seu último romance, Azul-corvo (Rocco, 2010). A escrita da Adriana é da ordem do Real, conceito lacaniano que abordei numa das últimas resenhas aqui. Definí-la escapa da ordem da linguagem. É arrebatadora. Pelo não-saber colocar em palavras, entrevistei Adriana por e-mail – ela mora nos Estados Unidos.

-- Adriana Lisboa em foto de Daniel Hirsch --
Amálgama: Adriana, você disse no lançamento de Azul-corvo, no Rio de Janeiro, que o romance trata da questão do pertencimento. Quando o José Castello escreveu sobre seu livro, referenciou Estranhos Estrangeiros, do Caio Fernando Abreu. Fale-me um pouco sobre Azul-corvo. Como foi a criação de Vanja, Fernando e Carlos?
Adriana Lisboa: Pensei nesse livro originalmente para falar da amizade. Num primeiro momento, queria tratar da amizade entre uma adolescente e um homem mais velho, empedernido, frio, fechado. Um amigo me perguntou, “algo ao estilo Lolita?” Não, de jeito nenhum! Então surgiram Vanja e Fernando, e só num segundo momento pensei nele como um ex-guerrilheiro – situação que justifica seu exílio, sua amargura e sua desistência do mundo, por assim dizer. Carlos apareceu depois, e dos três acho que é o meu preferido. Ele é uma espécie de contraponto ao contraponto, alguém que não tem nada a ver com Vanja nem com Fernando mas que completa essa trinca improvável de amigos.
Li em uma entrevista sua que os personagens de Azul-corvo eram os seus favoritos. Alguns escritores afirmam ser impossível gostar mais de um personagem do que de outro, por serem todos seus “filhos”.
Não concordo, não. Os personagens não são nossos filhos, são nossos personagens. Tanto que às vezes os maltratamos muito. Criei personagens com os quais antipatizo um pouco, e acho que isso é normal. O que não quer dizer que eu não esteja presente em todos eles. A verdade é que antipatizo com várias faces da pessoa que eu sou, também.
O que acredita/desconfia que mudou na sua escrita desde Os fios da memória (1999) até Azul-corvo?
Penso que venho buscando simplificar o meu texto, e ao mesmo tempo me aproximar da velha e boa contação de histórias. Hoje tenho quarenta anos e observo a vida de um modo mais direto, num certo sentido com menos expectativas do que observava aos 29, noutro sentido com expectativas mais sérias. Outra coisa que aprendemos com o passar do tempo é que a opinião dos outros sobre aquilo que somos ou fazemos não é tão importante. Acho que sou mais sincera naquilo que escrevo, mais honesta.
Manuel Bandeira em Um beijo de colombina (2003), o poeta Matsuo Bashō em Rakushisha (2007), Marianne Moore em Azul-corvo… Conte-me como funciona esse processo da escolha de um artista para cada romance. O artista se encaixa na trama ou o enredo é criado em torno dele? Ou nenhuma das opções?
Todas essas escolhas se deram quase que por acaso. Escolhi Bandeira para Um beijo de colombina e Bandeira traduziu Bashô (não do original, mas do francês, acho), então acabei me aproximando do poeta japonês, trazendo-o para as minhas leituras. Veio então Rakushisha. Azul-corvo deveria fechar uma trilogia de poetas, e dessa vez queria trabalhar com uma mulher e com uma americana, mas isso não aconteceu e Marianne Moore ficou só na epígrafe e como personagem coadjuvante do livro.
Sei que muitas vezes o leitor apreende de uma forma muito peculiar um livro, diferente da ideia que o autor teve ao escrever um capítulo, um trecho, a obra. A minha leitura – e eu li todos os seus livros – foi de que seus romances tratam, entre outros temas, de amores perdidos. Tomás e Maria Inês, Teresa e um moço (ele tem nome? Procurei e não encontrei), Haruki e Yukiko, Fernando e Suzana. O quanto você pensou nas impossibilidades do amor, ao criar estes “casais”?
O amor é sempre impossível, não? A conjunção completa, o casamento absoluto, o companheirismo sem mágoas e máculas, o um-mais-um. Toda relação acaba, nem que seja com a morte de um dos amantes. O amor é feito de idealizações, de projeções, de expectativas, e ele é sempre, sempre incompleto e imperfeito. Mas também aí está seu maior atrativo. O que seria de nós diante de situações perfeitas e acabadas? A Suécia, que é um modelo de sociedade, tem os maiores índices de suicídio no mundo. Precisamos pensar que há algo a realizar para caminhar, para seguir em frente, para ter um propósito nas nossas vidas que são tão curtas e tão frágeis. Também acho, agora falando mais diretamente da ficção, que as situações de “céu de brigadeiro” não oferecem grande coisa como trama. É preciso haver um problema para se criar um livro, para se contar uma história.
Sua escrita é muito plástica, alarga a imaginação do leitor. Sinto quase como se as palavras ou frases pudessem ser tomadas como coisas com cores, odores, texturas… Explique-me como funciona essa parte – ou o todo – do seu processo criativo.
Bem, o meu processo criativo não é inteiramente consciente, acho que o de nenhum escritor é. Não temos todo esse controle sobre aquilo que fazemos. A minha escrita é como é porque é, porque eu sou quem eu sou, com a minha história, as minhas experiências, os meus interesses. Eu corro atrás dela aparando as arestas. Mas não defendo que se escreva assim ou assado. Pessoalmente, admiro autores com estilos tão completamente diferentes quanto Adriana Lunardi e André de Leones, Luiz Ruffato e Rodrigo Lacerda. Penso que cada um deles é um mestre da sua própria voz, e faz excelente literatura com essa voz. Individual, idiossincrática e única. No meu caso, sempre escolhi as palavras ciente de que cada uma tem um peso e uma cor específicos. Dizer “alegria”, dizer “satisfação” e dizer “felicidade,” por exemplo. Não é a mesma coisa. Essa é uma atenção que também existe no trabalho do tradutor. É necessária uma leitura minimalista daquilo que se traduz.
Qual dos seus romances foi mais difícil de escrever? E o que melhor fluiu?
O primeiro foi o mais difícil, eu acho, justamente por ser o primeiro. Era o grande desafio. Era saber se eu conseguiria chegar do outro lado do rio sem me afogar no trajeto. Talvez o que melhor tenha fluído tenha sido Rakushisha, que planejei durante três anos mas que escrevi em seis meses, depois que cheguei do Japão.
Quando você decidiu que escreveria livros? Houve um momento específico?
Não exatamente. Escrevo prosa e poesia desde muito cedo, praticamente desde que aprendi a escrever. Achei que quando crescesse ia trabalhar com isso de algum modo, porque era algo que fazia parte da minha vida. Mas acabei indo estudar música na universidade (meu primeiro trabalho foi com música, aos dezoito anos de idade). Quando vi que a música não estava mais deixando espaço para a minha escrita, algo completamente informal no meu dia-a-dia, mas necessário, resolvi escrever um livro e tentar publicá-lo – porque assim, pensei, sendo uma escritora “profissional”, poderia voltar a ter aquele espaço importante da escrita de volta.
Como é sua rotina para escrever um livro?
Não tenho. Escrevo quando dá e como dá, interrompo às vezes a escrita de um livro durante semanas ou mesmo durante meses. A única rotina que tenho é escrever de dia. Preciso estar com todos os meus neurônios funcionando para escrever. Nada poderia ser mais distante da minha realidade do que o escritor notívago e boêmio, sentando-se para escrever munido de uma bebida e um maço de cigarros.
Você modifica muito e reelabora o que escreve?
Muito. Acho que escrever é, fundamentalmente, reescrever. É preciso inclusive jogar fora – parágrafos inteiros, páginas inteiras se for o caso.
Que escritores te influenciaram, ontem e hoje?
No momento ando apaixonada por um contista americano que estou traduzindo, o Wells Tower. Tanto que eu, que não costumo escrever contos, ando cogitando fazer isso. Mas a lista é imensa. Os poetas brasileiros contemporâneos, Carlito Azevedo, Claudia Roquette-Pinto, Eucanaã Ferraz e outros. Mais lá para trás, Bandeira, e também a Clarice contista, Marguerite Duras, Margerite Yourcenar, o Saramago dos anos oitenta, Yasunari Kawabata e tantos outros.
Quais livros têm ocupado a sua cabeceira nos últimos tempos?
Estou terminando o “romanção” da americana Julie Orringer, The Invisible Bridge – acho que ainda não saiu no Brasil. Coetzee e Ian McEwan frequentam bastante a minha mesa de cabeceira. E acabei de ler Um erro emocional do Tezza.
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::: Azul-corvo ::: Adriana Lisboa ::: Rocco, 2010, 224 páginas :::
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Não conhecia a autora e despertou-me curiosidade e vontade de ler seus livros. Gostei de voce ter perguntado sobre o processo criativo, e a defesa que ela fez das “imperfeições” do amor. Um abraço e obrigado.
Eu já adquiri o “Azul-corvo”, mas ainda não o li. Excelente a entrevista, principalmente no que se refere à posição da autora face ao amor. É difícil abrir mão das muletas, do “céu de brigadeiro”, das utopias. As maiores produções literárias, ao meu ver, giram em torno de conflitos…
Referências dadas pela autora já anotadas! E a leitura de “Azul” começa hoje. Água na boca. rs
Bjs, Vanessa!
O livro é realmente muito bom, melhor ainda porque está sendo lido e apreciado pela minha filha adolescente! Ela até deixou de lado os outros livros que ela e as amigas costumam devorar, aqueles da Meg Cabot…