Clarice Lispector nos lembra: ninguém nasce pra ser feliz

-- Clarice na sala de seu apartamento no Leme (Rio de Janeiro, 1961). Foto de Claudia Andujar --

por Pedro Gabriel

Se viva, Clarice Lispector teria completado este mês belos 90 anos. Reconhecedor que sou da importância maiúscula de Clarice para a nossa prosa e admirador contumaz de sua personalidade incrivelmente lúcida sou, não obstante, um quase desconhecedor de sua obra. Pretendo ser breve neste artigo a fim de (como manda a prudência) não cutucar minha própria ignorância com vara curta. Não tecerei nenhum comentário sobre algo de específico em sua obra que, como disse, desconheço em profundidade. Meu comentário diz respeito ao sentido geral de sua produção, algo que faz de Clarice uma escritora digna de ser lida e que se refere a uma postura oposta à índole comum da nossa humanidade: a de esconder o rosto sob o travesseiro da ilusão e sob o mesmo dormir o profundo sono da animalidade onde se sonha enganosa e falivelmente com a felicidade.

As pessoas querem ser felizes. O tempo inteiro, a cada instante, interminavelmente. Tal experiência é esperada hoje por todas as pessoas em todos os níveis, individual e social (com o novo laço social que se desenha) e reforçada pela produção das drogas da felicidade e por uma imersão midiática numa atmosfera de euforia onde todos os bens necessários à nossa plena satisfação estão à venda numa série interminável de coisas ofertadas sobr essa égide. Há hoje uma espera constante e permanente por uma vida isenta de perdas, traumas, violência, frustrações, lesões, engano. Enquanto há outro há dor (diria Freud se perguntado hoje sobre o sentido geral de uma de suas obras maiores: O Mal Estar na Civilização). Falando em Freud, aliás, não podemos esquecer do que este disse sobre a literatura que é o reino onde impera soberano o Princípio do Prazer, afirmação que não deve ser confundida com a idéia de fruição (isso seria entender superficialmente a terminologia freudiana, embora não fosse de todo incoerente com a função a-pragmática da arte e do que faz Clarice com sua pena majestosa). Completamente de acordo com a arte-epifania, todas as obras de Clarice que tive contato são tramas tecidas pelo fio do conflito e do trauma, dito em uma única palavra: do Trágico.

Talvez seja esse o critério que mais facilmente nos ajude a distinguir os gigantes intelectuais dos meros vendedores de livros (os celebrados best sellers): na nossa história estética nenhuma obra cunhada sob uma atmosfera edificante com personagens felizes sempre emitindo bons exemplos resistiu à prova do tempo. A vassoura da história felizmente varre de nossa memória obras irrelevantes não condizentes com a dimensão mais elementar da vida, aquelas que não são feitas sob a proposta de um trilhar sobre nossas veredas mais intimas: o ouro verdadeiro só se prova no fogo (já diz um antiquíssimo ditado Hebreu). Mesmo as histórias feitas para as crianças, como analisa Bruno Bettelheim no seu Psicanálise dos Contos de Fadas, são metáforas do que há de mais odioso em nossa condição e que, por meio das narrativas infantis, encontram uma brecha na pesada barreira do recalque para alertar nossas crianças que a vida não é para amadores e que exige que pisemos leve e não confiemos demais. “O mundo não vale o mundo” disse Drummond e poderiam dizer, se perguntados, os contos dos Irmãos Grimm ou as fábulas de Esopo ou de Andersen (o gigante dinamarquês), obra que meu filho (cuja carne hoje ainda é feita de sonho e vento) haverá de um dia ler.

O senso comum (horse sense, como chamam os americanos) insiste em criar histórias, para adultos e crianças, que desprezam o que há de mais inconciliável em nossa condição substituindo os monstros comedores de crianças por histórias sobre pessoas felizes que não conhecem o engano em suas ascéticas trajetórias. Clarice, na contramão dessa índole (como dissemos no início desse escrito) trata de solidão, horror, morte, do eterno problema de nossa incomunicabilidade. Num de seus poucos livros que li (Laços de Família) Clarice levanta a cortina do núcleo familiar demonstrando toda a gama de impossíveis que nos cerca e dos pequenos e grandes crimes cometidos todos os dias. Clarice é uma flor de Lis ardendo em nosso peito lembrando que “nunca fomos felizes” e que, aliás, não somos aparelhados pra isso.

Conforme lemos em Benjamin Moser, seu mais recente biógrafo, Clarice fora concebida para curar sua mãe de uma sífilis incurável transmitida pelos sucessivos estupros de soldados Russos durante a ocupação na Ucrânia. Essa foi a trama que decidiu a presença de Haia (nome de batismo de Clarice) nesse mundo infeliz. Conforme uma antiga crença vigente no pequeno vilarejo de Tchetchelnik, engravidar significava curar-se de qualquer doença. Mania não resistiu e morreu pouco depois de chegar ao Brasil (fugindo da guerra). É a esse evendo que Bruno Moser se refere para argumentar que Clarice é uma missionária falhada: falhada porque não nasceu pra curar, restruturar ou edificar ninguém, senão para exprimir o que há de mais próprio (num sentido heideggeriano) de nossa experiência de estar no mundo. É uma obra onde se percebe a aceitação dos limites e do peso impostos pelo mundo e pelo tempo e um estado de conciliação com o que há de falível em nós próprios. Há paz em Clarice, mas (oportunamente) não há felicidade.

Clarice completou efetivamente 90 anos neste mês. Sua obra permanece viva e atual e assim se manterá enquanto houver algum peso que sua escrita ajude a tornar suportável ou alguma ilusão que precise ser tornada desilusão. Morrer é próprio do que é breve e passa sem deixar vestígio, com isso Drummond nos faz pensar que Clarice não morrerá em definitivo. Sua dissipação ocorrerá, fatalmente, mas como uma pluma suave que, com leveza, dissipa-se e vai se perdendo em algum lugar. Como disse a própria Clarice: perder-se é também caminho.

32 comentários | Dê sua opinião

  1. Gilvanedja Mendes 26/12/2010 em 8:23 pm

    “Perde-se é também caminho” e felicidade é utopia, é algo que fica apenas no mundo da idealização, das ´ideias, pois o ser humano não conseguiria viver a plena e eterna felicidade que tanto busca e deseja ter.

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    • Pedro Gabriel 28/12/2010 em 1:49 am

      Cara Gilvanedja, perder-se é o caminho por excelência, a via Régia. Perder-se da retidão previsível, dos sonhos fincados em duro solo, dos ditos paternos, das tramas que (tecidas com rigidez) determinam nosso destino nesse mundo. Perder-se é fazer caminho singular é driblar o Grande Outro e fazer algo de nosso antes que venha a morte, a indesejada das gentes que, pela força da literatura torna-se amiga. Num antiquíssimo ensaio Michel Eyquem (o “Seigneur de Montaigne”) nos lembra que a Filosofia é aquilo que nos ensina a morrer ou, dito em outros termos, o que nos auxilia a nos reconciliar com o que há de incontornável em nosso caminho (sendo a morte o grande Inegociável). O mesmo pode-se dizer da poesia e da lúcida prosa que tão bem soube fazer Clarice. Obrigado por seu pertinente comentário.

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  2. Idalio Bahia 26/12/2010 em 8:26 pm

    Creio que você focaliza um aspecto muito oportuno e essencial da obra de Clarice Lispector, que na verdade também conheço pouco, mas o tema da busca da felicidade perpassa a literatura de modo geral. Me ocorre que, de fato ninguém nasce para ser feliz, bem como ninguém nasce para ser infeliz. Ninguém nasce “para”. Para isto ou para aquilo. Nascemos. Acho interessante as pessoas se sentirem, algumas vezes, até mesmo culpabilizadas por algum acontecimento desfavoravel; desfavoravel a seus anseios: “o que foi que fiz de errado?”
    Enfim, seu texto suscita muitas questões.
    Obrigado,
    Idálio

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    • Pedro Gabriel 28/12/2010 em 1:56 am

      Prezado Idálio, seu comentário me suscita também muitas questões e enodados nesse vazio da verdade (em sua dívida com o Real) nos manteria em saboroso diálogo interminavelmente. Tentando no entanto deixar algo de mais específico em resposta ao seu excelente comentário eu replico que uma das qualidades mais facilmente apreensíveis na escrita de Clarice é justamente o fato de ela tratar da condição humana fora da metafísica (mais um ser-com do que um ser-para) o que dota seus textos de uma propriedade existencial remarcável. Em Clarice (ao menos no pouco que li) não há o peso de uma imposição em termos determinísticos (para ser feliz ou para ser nada) e acredito (e nisso se constituiu o cerne de meu argumento) que é efeito de um trabalho interior de se desvencilhar daquilo que foi pesadamente planejado para ser sua rota nesse mundo. Sua prosa extraordinária é então a elaboração da mais pura sublimação, é testemunho desse trabalho interior de desvencilhar-se e perder-se. Acho que ela com sua escrita conseguiu o que nós conseguimos no divã. Obrigado mais uma vez pela honra de seu comentário.

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  3. cecilia zanon 26/12/2010 em 9:54 pm

    Pedro Gabriel,
    Venho lendo Clarice desde A mulher que matou os peixes quando minha filha ainda ouvia histórias, sentada em chão de livrarias.Com Clarice,sempre encontro solene, dado a gravidade com que ela faz as marcações de estar no mundo mas também, encontro despojado, boa maneira que encontro para ler essa escrita.Lida no chão..Com Clarice, percebemos que só podemos mentir o necessário estrito á sobrevivência.Se ela, determinada a capturar incessantemente via linguagem o objeto que nos causa e fez disso sua causa, prestigiando o desamparo como a ” fonte primordial de todos os motivos morais”, (Freud, Projeto para uma Psicologia Científica),certamente ela nos enleva e obtemos alguma fruição com isso que escapa, mas também ela, perturba nosso sono, pretendentes inocentes.Mais recentemente, descobri o Minhas Queridas, escrito em forma de cartas, correspondências trocadas entre irmãs,de quando vivia no exterior.Vê-se logo um cotidiano escrito em tintas de ouro e saliva, Aquí o tempo é outro, conservando a temática do inesperado.Me faz pensar no Tao e o aprendizado da paciência e o exercício da delicadeza. É como vê-la lavar a caneca de seu mingaú.Recomendadíssimo. Mas, são observações de simples leitora.Eu diria que em Clarice não há paz, mas, felicidade clandestina.

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    • Pedro Gabriel 28/12/2010 em 2:20 am

      Cecília. Agradeço seu comentário oportunamente tecido do lugar de leitora (correlato ao lugar de analisante em Psicanálise, que é o “de onde fala” todo analista que se pretende analista). Mesmo com minha leitura pouca de Clarice identifiquei várias referências a textos seus. Felicidade Clandestina em minha opinião também de leitor-anaisante estaria ao lado de “A Igreja do Diabo” (de Machado de Assis) e “Negrinha” (de Monteiro Lobato) no podium dos melhores contos escritos em nosso precioso idioma. Teria ainda três ou quatro coisas para comentar em tom de concordância, mas prefiro temperar o ambiente com a diferença, com a outra visão (alho=alius=outro). Tenho uma dívida com Clarice (a dívida de lê-la mais e de conhecê-la melhor) e talvez isso se dê porque Clarice me pega de calças curtas, me flagra no mais horrendo de minha condição (como nossos analistas). Clarice me faz perceber que minto mais que o necessário, que vivo uma mentira diária assegurada por outras mentiras alhosas. Não me refiro evidentemente às inverdades que as pessoas vulgarmente se valem para obturar determinadas coisas, mas daquilo que há de inobturável em nosso estar-aqui-sozinhos-desamparados. Me refiro às verdades que costuramos ao corpo e que apoiamos cegamente nossas vidas, nossos S1. Clarice os desmonta e me mostra que sobretudo as minhas verdades são mentiras carentes de uma reformulação. Obrigado pelo comentário.

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  4. Gláucia 26/12/2010 em 11:33 pm

    Pedro,

    Leio bastante Clarice Lispector e acho o conceito de epifania, tão bem trabalhado nas obras dela e tão similar ao insight da clínica psicológica, essencial para a vida. Acho que assim que você tiver mais contato com a obra dela vai até escrever sobre isso.
    Mas, sobre o sentido do trágico, ou “histórico” (como alguns gostam de chamar, inclusive eu), concordo contigo. Tolstoy, Dostoiévski,Shakespeare, Hugo e Lispector lidam com ele.
    E, é por isso, que eu prefiro o termo histórico a trágico, porque este último dá uma idéia de infelicidade constante, enquanto o primeiro nos remete à vida, à um momento sócio-histórico-cultural, que tem sim tragédia mais também felicidade. Talvez aí resida o grande link com Bettelheim e a análise que ele fez dos contos de fadas (que tive a oportunidade de ler em francês para um dos trabalhos do meu curso), o de que precisamos ter cuidado, que a vida não é para amadores mas que há sim, felicidade. Não aquela promovida por comprimidos de fluoxetina certamente. Mas felicidade.
    E é essa felicidade, ou o desejo dela, de mudar o que não está bom e até perceber o que não é bom em suas vidas, que as personagens de Clarice parecem captar nos momentos de epifania.
    É isso. Eu sou vygotskiana, como você sabe. E acho, esse é um comentário de uma seguidora do grande Lev Semyonovich.
    Bjs e parabéns pelo texto

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    • Pedro Gabriel 28/12/2010 em 2:45 am

      Oi Gláucia, que privilégio o seu comentário. Eu não esperava ser melhor lido. Sobre o Trágico ou Tragédia eu me recordo das antigas aulas de grego que tive no seminário. Tragédia (se os padres não me enganaram também nisso) é uma junção de Tragos (bode) + ode (canto), fazendo referência ao som emitido pelo bode quando ia ser expiado. Como bem sabes expiava-se o bode para que a pólis fosse redimida (antes o bode que os cidadãos a pagar pelos pecados) e de modo correlato faz-se letra trágica (mitos, contos de fada, prosa expiatória) para que o turvo da escrita responda por uma vida límpida. Ou seja a palavra “Trágico” para além dos sentidos medonhos que nosso narcisismo lhe atribuiu (fazendo com que o comum das pessoas demonstre uma reação alérgica ao seu som) é um símbolo antigo e sagrado. Fazer uma aliança com o trágico não significa viver infeliz, estagnado no desconforto ou de mal com a vida, ao contrário, significa uma reconciliação profunda com nossa condição e o que ela comporta de inegociável. É isso o que nos mostra os autores que você bem citou e que apoiados em uma visão clara de nosso funcionamento evitaram ao máximo uma crítica indevida ao pessimismo lembrando-nos, a cada linha que escreviam, uma verdade simples: somos inconstantes em nossos desejos e falíveis em nossas realizações. Sendo assim: Shakespeare, Freud, Hugo, Lacan, Clarice, Drummond e tantos outros nos lembram que se há “felicidade” (outra palavra tão mal significada pelos tempos) ela só é possível de ser pensada a partir do que é possível em nossa condição. Sei bem que concordas com essa postura e que, mais do que isso, a vives elegantemente em seu cotidiano. Obrigado mais uma vez pelo comentário.

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  5. Felipe 27/12/2010 em 9:38 am

    Vou continuar lendo tudo isso, mas só da foto concluo: não nasceu pra ser feliz mas… Pelo menos ela morava no Leme. kkkkk

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  6. Felipe 27/12/2010 em 10:14 am

    Isso que vc escreveu é tudo[cito abaixo]:

    “Talvez seja esse o critério que mais facilmente nos ajude a distinguir os gigantes intelectuais dos meros vendedores de livros (os celebrados best sellers): na nossa história estética nenhuma obra cunhada sob uma atmosfera edificante com personagens felizes sempre emitindo bons exemplos resistiu à prova do tempo.”

    Responder
    • Pedro Gabriel 28/12/2010 em 2:55 am

      Caro Felipe, a função das belas artes (todas elas, Cinema, Literatura, Pintura, etc) tem sido lamentavelmente subestimada. Em nome de uma produção que seja abertura e encontro com o deserto do Real só o que encontramos é o vulgar entretenimento. Um falatório descompromissado com as questões fundamentais sobre nossa existência e que como tais só acrescentam mais “nada” ao alarido vazio já existente. Obrigado por seus dois comentários. É extraordinário e muito honroso quando alguém que lê algum texto nosso deixa registrada uma apreciação. Muito grato.

      Responder
  7. Ju Dacoregio 27/12/2010 em 3:05 pm

    Clarice nos lembra que é preciso viver, “apesar de tudo”, é preciso viver. E ela, em sua máquina de escrever, com os filhos ao redor (uma vida aparentemente simples e desprovida de complexidade) teceu contos e romances memoráveis, mostrando que, mesmo em meio ao mais simples dos mundos, reside uma força que age independente de nossa suposta vida pacata. Clarice é exemplo de que é preciso gritar. “Porque há o direito ao grito. Então eu grito.”

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    • Pedro Gabriel 28/12/2010 em 3:00 am

      Ju Dacoregio, perfeito. Viver apesar de tudo. Viver até que a chama extinga-se por si própria e bruxeleie o quanto puder (enquanto houver dignidade no seu crepitar). Clarice, como seu comentário oportunamente faz pensar, sugere que há um trabalho a ser feito por todos nós em termos de uma resposta dada à vida e suas constantes. No silêncio pacato de nossas vidas pardas há beleza possível, há arte a ser feita e atualizada independentemente de reconhecimento ou público. Obrigado por seu comentário. Espero poder ter o privilégio de ter outros comentários seus nos próximos textos que escreverei para esse espaço e em meu blog pessoal. Obrigado mais uma vez.

      Responder
  8. Ana Oliveira 27/12/2010 em 7:07 pm

    Uma origem assim, tão carregada, deixa uma marca indelével que se manifestará peremptoriamente ao longo da vida do indivíduo. Se afortunado, como foi Clarice, saberá transformar o peso da existência em linguagem universal, em consolo fundamentado, em lenitivo… Talvez venha daí, em parte, a profundidade, a verdade e a empatia que Clarice desperta em quem tem contato com sua obra. Como não reconhecer-se em Clarice, em algum momento, nalguma passagem, em algum dos livros? Clarice ressoa no lá e então de todos nós – em especial os tantos quantos de nós, neste sentido afortunadíssimos, para perceber a preciosidade da autora. Viva está Clarice, e ouso dizer que enquanto houver o resto existencial a inquietar, ela permanecerá.

    Responder
    • Pedro Gabriel 28/12/2010 em 3:03 am

      Ana Oliveira, obrigado por seu comentário. Clarice escapou ao devoramento e nos deixa pistas de como se desvencilhou. Lendo seu valioso comentário me recordei das últimas palavras de “A Menor Mulher do Mundo” (texto de “Laços de Família”).

      “E então ela estava rindo. Era um riso como somente quem não fala, ri.
      Esse riso, o explorador constrangido não conseguiu classificar.
      E ela continuou fruindo o próprio riso macio, ela que não estava sendo devorada.
      Não ser devorado é o sentimento mais perfeito.
      Não ser devorado é o objetivo secreto de toda uma vida”

      Obrigado pelo seu comentário.

      Responder
  9. Mirela 27/12/2010 em 8:08 pm

    Excelente texto; resgata a profundidade e beleza de Clarice, perdida nos “Wikiquotes” da vida…

    Responder
    • Pedro Gabriel 28/12/2010 em 3:07 am

      É realmente lastimável o uso imprudente que se faz dos grandes autores por essas curvas impalpáveis da Internet. Os crimes são muitos e vão desde autorias indevidas (ou deliberadamente omitidas) até um determinado trecho recordado de um contexto e que daria direcionamento diverso ao entendimento sugerido. Obrigado pelo rastro da leitura deixado. Você é bem vinda nos próximos textos que escreverei ou nos textos do meu blog pessoal. Obrigado.

      Responder
  10. Gláucia 28/12/2010 em 2:03 pm

    Pedro,
    Era exatamente isso. Acho que, agora, você vai ter que escrever sobre o trágico!
    Parabéns!!!

    Bjs.

    Responder
    • Pedro Gabriel 28/12/2010 em 2:31 pm

      Glaucia, relendo o que escrevi em resposta aos comentários notei que há vários posts em estado embrionário aí em cima. É o bom efeito da interlocução.

      Responder
  11. Pingback: Paidos Agogé | lituraterre

    • Pedro Gabriel 31/12/2010 em 3:58 pm

      Bom, não sei como esse link veio parar aqui, mas fica o vínculo.

      Responder
  12. Luciana Maluf Vilela 30/12/2010 em 1:12 pm

    Ao ler seus escritos, pensar em comentá-los me deixou insegura.
    Afinal, vc domina a arte das palavras, é um intelectual, um pensador.
    Depois pensei: dane-se!
    Obrigada,
    Ler seus textos é prazeroso e enriquecedor.
    ——————————————————————————–

    A mensagem que seu texto deixa para mim é sobre as máscaras que cada um veste para conseguir sobreviver da forma que lhe convêm. E eu, mesmo não conhecendo a fundo a obra de Clarisse, e leiga diante do mundo literário, vejo na fala de Clarisse a coragem de expor seu olhar sobre o mundo, e ainda, seu interior, de forma plena e transparente.
    Você deixa isto claro quando se refere a “esconder o rosto sob o travesseiro da ilusão”. Essa postura é cômoda, enfrentar a realidade dói muito. Quando se vislumbra, mesmo por pequenas frestas, o “real” (mas o que é real? Bom isto já é outro assunto), este pode assustar, é melhor empurra-lo para algum lugar onde fique bem oculto, camuflado.
    Voce diz, “as pessoas querem ser felizes” e Freud diz “Enquanto há outro há dor”. Penso que a maioria das pessoas espelha no outro sua infelicidade. Admitir que não somos capazes de ser felizes por nós mesmos é sentir fracasso. O outro está ali, bem ao alcance, para podermos lançar nossas limitações.
    E como fica claro em seu texto, Clarisse enfrenta seus fantasmas de frente. Porém, soube fazer da trama de sua vida, originada pelo “fio do conflito”, uma linda obra de arte. Você Pedro, com uma frase, concluiu muito bem uma das funções mais admiráveis da escrita de Clarisse: “… assim se manterá enquanto houver algum peso que sua escrita ajude a tornar suportável ou alguma ilusão que precise ser tornada desilusão …”.

    Luciana Maluf

    Responder
    • Pedro Gabriel 31/12/2010 em 4:00 pm

      Prezada Luciana, obrigado pelo seu comentário excelentíssimo. Ele acrescenta à discussão. O que posso dizer senão que não esperava ser melhor lido.

      Responder
  13. romério rômulo 31/12/2010 em 3:09 am

    pedro:
    muito bom. um abraço.
    romério

    Responder
    • Pedro Gabriel 31/12/2010 em 4:02 pm

      Prezado Romério, no calor da luta por questões tão secundárias e irrelevantes como a sobrevivência do corpo é fundamental discutirmos um pouco as coisas sérias, as que verdadeiramente importam: poesia, am(d)or e morte. Visite-me aqui e em meu blog. Sempre serás bem vindo.

      Responder
  14. diego tófoli 04/01/2011 em 3:38 pm

    olá Pedro. Tenho a dizer menos sobre Clarisse do que de você. 1º) Você tem um blog chamado “lituraterre” que está agora nos meus favoritos, junto com este site “amálgama”, na seção “cultura”. É difícil, hoje em dia, encontrar sites que mereçam ingressar na guia de favoritos deste meu google chrome – isto em qualquer área. É que o ser humano não produz na internet, de regra, algo de produtivo. Quando o faz, ninguém lê. Quando é lido não existem comentários. Quando se comenta, ninguém responde. Daí se dizer que a web é um imenso deserto, sendo que garimpei seu site para junto de mim! obrigado; 2º) a melhor parte do texto seu acima é a seguinte: “enquanto houver algum peso que sua escrita ajude a tornar suportável”, pois assim conseguiu o autor resumir a única função da escrita, ou pelo menos a função nobre; e 3º) sou advogado iniciante e comparo a busca da felicidade com a “indústria do cargo público”, como costumo chamar. Em dias atuais, qualquer cidadão brasileiro é praticamente obrigado pela sociedade a prestar concurso público, em busca da estabilidade financeira e da felicidade. Ah se fossem tão fáceis assim as coisas não é?

    obs.: o senador Cristovam buarque propõe que se emende a Constituição Brasileira para inclusão do chamado “direito à busca da felicidade”. Gostaria de ver um texto seu, com a habilidade que lhe é peculiar, caro Pedro, comentando a iniciativa do “ilustre” parlamentar ou o significado da estabilidade financeira do funcionário público. São apenas idéias.

    muito obrigado pelo texto!
    *propositadamente informal.

    Responder
    • Pedro Gabriel 05/01/2011 em 3:35 pm

      Diego, agradeço a gentileza e a delicadeza de seu comentário. Você muito apropriadamente demonstra o grande problema da Internet onde muito se fala e pouco se diz: há uma superposição de monólogos. Não receber comentários é o que há de mais desestimulante em se escrever, por isso faço questão de responder a todos (uma forma de respeito aos leitores e de fomentar a sagrada discussão). A honra é minha de tê-lo como leitor. Além dos favoritos você pode acrescentar o Amalgama e o Lituraterre na sua lista de Feeds ou assinar (para receber no seu email atualizações e saber quando foi postado algo novo). Sobre a escrita ela tem esse efeito no leitor e tem também um efeito em quem escreve. A boa escrita é sobretudo um ato de ousadia, a coragem de trilhar as veredas dos monstros que nos habitam. Nesse sentido a escrita promove uma reconciliação com nossa dimensão falível e se isso (como no caso de Clarice) ajuda a reconciliação também do leitor é então o mais nobre como você diz (o oposto disso é o moralismo narcisista que cega nossos olhos para o que há de Real em nós). Você traz outras questões importantes cujo comentário adiarei para não me estender demais nesse comentário. Nos manteremos em interlocução aqui ou em meu blog pessoal. Sua sugestão está anotada e será atendida talvez de uma vez, talvez uma linha em cada futuro texto. Mais uma vez obrigado.

      Responder
  15. Ignez 12/01/2011 em 11:53 am

    Tudo que diz respeito à Clarice eu leio. Li o livro de Benjamim Moser. Adoro o título por causa da “virgula” . Parece que ele quer dirigir-se a álguém, desenvolver um papo… Como se eu dissesse: “Pedro, você viu…”. Confesso que quando estou meio triste recuso-me a ler Clarice, Dostoievski…Ele tomam o cotidiano da gente, o modo de ser mais “natural” da gente, os nossos comportamentos corriqueiros e…lapidam em seus personagens… Vejo esses autores como “usurpadores” (no bom sentido) de nossos cotidianos, de nossas almas… Nem sempre me “apavoro” com Clarice. Muitas vezes eu rio muito das coisas que ela revela neles. A gente ri de si mesmo, algumas vêzes, não? Eles me fascinam, me arrebatam, me possuem e… me consomem. Adorei encontrar o “Amálgama”. Adorei os comentários. A inteligência me arrebata. Sou só uma mera leitora. Só quis dizer que sinto felicidade em partilhar a leitura do texto e dos comentários. Essa fleicidade é real.

    Responder
    • Pedro Gabriel 24/01/2011 em 4:41 pm

      Olá Ignez, você não é mera leitora. Se você reconhece que na leitura das grandes obras, aquelas que possuem valor de desestabilização interior, há um momento em que os autores nos usurpam algo então você compreendeu o valor de reconstrução das narrativas e é uma excelente leitora. Um abraço e obrigado pelo comentário. Se se interessar assine também meu blog. Pedro.

      Responder
  16. Marcia Costa 12/01/2011 em 7:00 pm

    Na minha opinião apaixonada, há uma frase de Clarice que nuca saiu de minha memória: transceder é transgredir. Clarice faz parte de minhas lembranças de pré-adolescente quando na Escola Municipal Guimarães Rosa (RJ), minha professora de português falou para um dia lermos a Paixão Segundo GH. Era o ano de 1976 e devia ser extremamente libertário indicar esse livro ainda nos estertores da ditadura. Mas, a Prof. Laura teve a coragem de nos deixar essa mensagem de pé de ouvido. Os anos passaram e certa feita numa livraria no Centro do RJ, encontrei esse livro na prateleira. Comprei na hora e devorei cada palavra no mesmo dia. Daí em diante, foi só encantamento por essa mulher que fala tão forte com uma sutileza de rendas ao vento. Parabéns pelo texto e por gostar de Clarisse. Aliás, o meu preferido é “Uma aprendizageem ou O livro dos Prazeres”.

    Responder
    • Pedro Gabriel 24/01/2011 em 5:08 pm

      Esse é um belo testemunho sobre a descoberta de Clarice Marcia. Mesmo os maiores poetas a descobriram por acaso, distribuída no meio de coisas de aparente menor valor. Lembro de Manuel Bandeira contando que a descobriu nos versos quebrados de um mendigo que recitou um par de quadras em troca de dinheiro (pra surpresa do seu pai que fez a proposta jamais imaginando que seria atendido). Assim é a poesia em nossa vida que aparece de modo mais ou menos evidente. Nosso quinhão nisso tudo é não deixa-la ir embora. Um abraço e nos vemos por aqui e por ali.

      Responder

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