Música mundana, de John Neschling

por Milton Ribeiro* – As pessoas que não gostam de futebol costumam criticar os altos salários dos técnicos e jogadores. É curioso, pois a maioria destas pessoas costumam dobrar-se às regras do mercado em outras áreas e talvez, se a situação fosse outra, achassem absurdo e injusto que aqueles que movimentam tanto dinheiro, com tamanha visibilidade, vendas de ingressos, artigos esportivos, TV a cabo, etc. ganhassem pouco. Começo assim a resenha porque me parece que o grande problema enfrentado por John Neschling, durante sua gestão na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), era o salário de R$ 100.000,00.

Pesquisando as críticas que são feitas a John Neschling, noto que há uma fixação em seus ganhos mensais e nos concursos para músicos que eram promovidos pela Osesp. Há fóruns remanescentes que documentam a indignação sobre os concursos. Num deles, mães de candidatos discutem, defendendo seus filhos e atacando os vencedores. Patético. Não o desqualificam por suas interpretações, não o criticam por ter exigido a construção da Sala São Paulo dentro das mais rígidas normas, não falam na profissionalíssima formação da melhor orquestra da América Latina, falam apenas de aspectos periféricos.

Este talvez seja o maior elogio que lhe é feito. Ninguém consegue chamá-lo de incompetente e as dissonâncias que cercam seu nome são uma algaravia menor. Tudo torna-se mais estranho ainda quando pensamos que, se o desejo do Estado de São Paulo era o de ter uma orquestra de primeira linha em âmbito mundial, teria de pagar valores compatíveis com os… das melhores orquestras. Não me parece muito complicado de entender que, para se ter um time de primeira linha, há que pagá-lo.

Música mundana passa ao largo destes aspectos conhecidos dos jornais. Neschling não cita seu salário, nem o justifica ou reclama de quem gostava de divulgá-lo. Também fala pouco sobre a súbita e surpreendente demissão. O cerne do livro é a luta para a formação da orquestra e a construção da Sala São Paulo. É uma bela, gloriosa história, contada com detalhes, precisão e tranquilidade. Os capítulos do livro não obedecem à ordem cronológica; Neschling, inteligentemente, alternou os fatos recentes com outros do passado, que servem de apoio e justificativa para aqueles. Talvez nem precisasse, pois seu amor pela música e pela orquestra que criou está claro em cada palavra e entrelinha. São muito bonitas as narrativas do Rio de Janeiro do final dos anos 50 até a metade dos 60, dos primeiros anos de Europa, dos amigos e do carinho com que são referidos seus professores e o Maestro Eleazar de Carvalho. Além disto, o livro é um pequeno manual de como se fazer uma orquestra. E estas informações são preciosas pelo fato de mostrar como é complicado contar com o arredio serviço público quando o projeto envolve as palavras “inovação”, “primeira vez” e “comprometimento” acrescido de outra: “seriedade”.

John Neschling, apesar de emocionado, culto e elegante, não é um escritor. Há pecados literários em Música mundana. Há repetições e a utilização de lugares comuns aqui e ali. Mas penso que tais falhas fiquem submersas dentro da exemplar e coerente história contada por ele. E a história é a uma variação muito particular de nosso contumaz viralatismo, incapaz de lidar com o sucesso de alguém que, mesmo com o nome de John Neschling, é brasileiro. A reação ao êxito do maestro em primeiro conseguir aval para a construção da melhor sala de concertos da América Latina, depois na criação de uma grande orquestra nacional, e para completar, no imenso sucesso artístico da empreitada, com gravações para a Bis sueca e excursões internacionais, além dos – insuportáveis, insuportáveis – bons resultados iniciais em fazer a orquestra autogerir-se (a Osesp já pagava 20% de suas caras contas através de vendas de ingressos, assinaturas e CDs), veio primeiramente de um grupo de músicos que preferia uma sinecura ao trabalho, mas principalmente do governador José Serra e do presidente do Conselho da Osesp, Fernando Henrique Cardoso.

E tudo por uma entrevista do autor, na qual ele dizia que, não obstante seu amor pela orquestra, admitia ser substituído, apenas discordando dos métodos de escolha. Acabo de reler a entrevista. Nada demais.
As orquestras sinfônicas são um organismo complexo. São mais de cem músicos de diferentes nacionalidades e opiniões, há os instrumentos, uma estrutura cara, divulgação, um conservatório – pois muitos destes são professores e autoridades em seus instrumentos – , ou seja, são egos e mais egos para administrar. E há o mais importante: a qualidade artística. Não é possível administrar tudo isso sem conflitos e não é por acaso que existe farta bibliografia relatando atitudes autoritárias, histéricas, loucas e fascistas por parte de regentes. É que, obviamente, existe uma ligação entre o controle e o desempenho de toda essa gente. John Neschling, é claro, contribuía para aquela bibliografia. Era uma estrela. Para alguns, estrela demais.

Música mundana narra em detalhes toda a experiência daquele que criou uma orquestra de primeira linha no terceiro mundo. Há algo de Fitzcarraldo na grandeza do sonho. Às vezes, parece que o sonhador é perfeitamente razoável, outras vezes parece alucinado. Mas o que podemos fazer se por fim ele conseguiu que o barco singrasse por morros e matas, só morrendo com uma assinatura idiota, tão idiota que não quis nem reconhecer o claríssimo vínculo empregatício de Neschling, fato já reconhecido pela Justiça?

::: Música mundana ::: John Neschling ::: Rocco, 2009, 192 páginas :::
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* Miton Ribeiro, Porto Alegre-RS, escreve no miltonribeiro.opsblog.org.

6 comentários | Dê sua opinião

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  2. André Egg 15/12/2009 em 8:25 am

    Norman Lebrecht, em “O mito do maestro”, comenta que os regentes suscitam admiração mais por seus atributos de liderança do que por qualquer motivo musical.

    O homem que com a batuta comanda esse organismo que é a orquestra (por mais que isso seja pura ilusão – o maestro não produz nenhum som), é idolatrado por chefes de Estado e capitães da indústria.

    Talvez isso explique a atitude de Serra e FHC – os sucessos do maestro seriam diatribes contra nossos incompetentes estadistas.

    Uma observação – a OSESP não é a melhor orquestra da América Latina, na Venezuela tem muitas do mesmo nível ou melhores: http://paginadecultura.blogspot.com/2009/04/gustavo-dudamel-e-orquestra-sinfonica.html

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    • Milton Ribeiro 15/12/2009 em 12:03 pm

      Pois é, André. As orquestras venezuelanas, fruto daquele programa do qual esqueci o nome e que foi encampado pelo Chávez, são boníssimas e seu destaque é justamente Gustavo Dudamel, mostrado por ti no post. Dudamel já está trabalhando em Los Angeles — surpresa nenhuma.

      Mas, sabe, se for comparar a Osesp com as venezuelanas, ainda fico com a primeira. Acho que é mais madura do que as sensacionais orquestras jovens da Venezuela, seria moldável a qualquer tipo de música.

      Apenas uma opinião, enfim.

      Abraço.

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  3. André Egg 15/12/2009 em 1:05 pm

    Pois é, falei isso mas não tenho subsídios para dizer ao certo.

    Só conheço a OSESP de gravações. E de comentários, sempre muito bons. Também não conheço as da Venezuela, mas sei que a vida musical de Caracas é comentada favoravelmente há décadas, enquanto a brasileira sempre foi sofrível.

    Imagino que, se as orquestras jovens de lá são assim, as profissionais são ainda melhores (ou então toda aquela molecada vai fazer carreira no estrangeiro, também não sei disso).

    A questão do Serra e do FHC me faz lembrar que eles, como “estadistas” tem um lema muito claro – “governar é cortar gastos”.

    E realmente, pode-se contratar hoje um regente excelente por menos da metade do salário do Neschling. Mas agora que a orquestra já está funcionando, já fez tudo o que fez. Para tirar o negócio do zero em que estava, os 100 paus que o Neschling recebia de salário é até pouco.

    O problema é se você comparar com salários de governadores, deputados, juízes, professores, etc.

    E há que se lembrar que jogadores de futebol não são remunerados pelo poder público…

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  4. Blog de Um Brasileiro 19/03/2010 em 10:17 pm

    Concordo que as pessoas gostam de uma picuínha, ainda mais quando o assunto é sucesso ou dinheiro dos outros. Contudo não concordo em dar fortuna a jogadores, músicos, escritores, etc. Se o comprar do disco ou livro faz de um artista milionário, ótimo! mérito dele. Contudo não concordo que o Estado pague um salário de 100.000 reais a um profissional. A exceção seria se a estrutura se auto gerisse e o salário justificasse o lucro. Diante do sucesso do maestro vejo que parcialmente isso se justifica, porém ainda sai dinheiro do Estado. Desculpe-me pela discordância

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  5. Amilcar 29/01/2011 em 1:36 am

    Dizer que na Venezuela há muitas orquestras do mesmo nível da OSESP é provocante exagero. A Simón Bolivar é muito boa, tem habilidade, mas não tem a mesma competência da OSESP. É notória a superioridade da nossa orquestra, como podemos observar nas gravações mais recentes, que ombreiam as maiores orquestras européias. Pelo menos para nós, músicos.

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