11–12–2009

Caminho às cegas

por Vanessa Souza – Começo com um ato falho. Comentei com o editor do Amálgama que ia assistir “Amores Partidos”, e perguntei se ele queria um escrito sobre o filme. O último filme do Almodóvar chama-se Abraços Partidos, e não “Amores”. Enfim, é tudo com A mesmo. Pequeno A. Objeto causa de desejo para Lacan. A de Almodóvar.

Em Los Abrazos Rotos, o cineasta Harry Caine (Lluís Homar) é o protagonista do filme, uma invenção de si mesmo, já que na verdade – e quem detém a verdade? – ele se chama Mateo Blanco. Ou se chamava. Harry Caine também é o nome que Almodóvar escolheu, certa vez, em um momento que desejava desistir de ser Almodóvar. Ideia que não se realizou, já que, segundo o que o diretor espanhol disse em Cannes este ano: “Ninguém escapa de si mesmo”. Hilda Hilst poderia ter dito o mesmo para Almodóvar, em palavras similares: “Tu não te moves de ti”. Sim, Almodóvar, nem nós…

Antes de chegar ao cinema, não li uma linha sobre o filme. Como de costume. Tento não me influenciar com as críticas antes de assistir a um filme. Só o nome do diretor, os atores, a sinopse. Contudo, sendo Almodóvar um dos meus diretores favoritos – assisti tudo dele! –, já chego contaminada até não poder mais.

A paixão entre Mateo Blanco e a atriz Lena (Penélope Cruz), que surge no set de filmagens de “Chicas y Maletas”, é o ponto de partida do filme. Partida, princípio e fim. Catorze anos depois do fim do romance, Mateo, após um acidente de carro e cego, ainda morre de amores pela bela atriz. Só deixa a história em um canto obscuro, tapete empoeirado, guardado em alguma gaveta que ele possui as chaves. Conversando com Diego, filho de sua produtora, a gaveta é aberta. E a história do cineasta e de Lena acerta em cheio, nocauteia o espectador. Entre taquicardia, suspiros longos e uma inquietação que é um abismo, quem, voyeur, assiste do outro lado da tela, fica de-li-ci-o-sa-men-te incomodado com as imagens – e com os diálogos. A urgência dos amantes é dolorosa.

“O primeiro encontro só serviu para descobrir que a presença dela me incomodava”, conta Mateo, para Diego, com nostalgia absurda.

Uma das cenas mais belas do filme, em minha opinião, é quando um vídeo com o último momento do casal junto é projetado em uma tela. O cinema dentro do cinema. Mateo, já cego, se aproxima e tateia com as mãos – e que belas mãos! – o rosto de Lena, rememorando aquele momento, congelando-o, guardando-o para os dias cinzas e chuvosos.

Sim, a película ainda tem atuações brilhantes, grande enredo, suspense, takes incríveis, diálogos inteligentes, emoção… De tudo isso, fico com Lena e Mateo. Uma história breve e impactante. Tirada de uma gaveta, chaveada. Um romance abruptamente interrompido. Concluo com palavras do protagonista. “Os filmes têm que ser terminados, ainda que sejam às cegas”. E existe outra forma de atravessar o caminho do desejo, que não seja de olhos bem fechados?

[ veja o trailer ]

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| 16 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. Fabio Roesler (11–12–2009 5:52 pm)

    Amores Partidos? Humm…pq será, heim? rss

    Adorei o texto, querida!

    Bjs

    -Responder

    Vanessa Souza:

    Vou perguntar para a minha analista, rs.

    Lembre-se que o tio Freud disse que um charuto pode ser apenas um charuto.

    Beijo, Fabinho.

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  2. Maísa (12–12–2009 1:25 pm)

    Lendo teu texto, recebei uma carga forte de motivação para assistir o filme! Talvez me influencie, talvez não. risos

    :)

    Beijo,
    Maísa

    -Responder

    Vanessa Souza:

    Almodóvar é sempre uma ÓTIMA influência…
    Beijos, Mah.

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  3. Eutimio (12–12–2009 8:08 pm)

    Loirinha, teus textos estão cada vez mais profesionalmente belos… Parabens!

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    Vanessa Souza:

    Eutimio, meu psicanalista mexicano favorito – também o único mexicano que eu conheço, eu confesso, rs.

    És um de meus leitores mais fiéis. Obrigada!

    -Responder

  4. Bruno Pinheiro (13–12–2009 12:29 am)

    Vanessa,

    Eu também adoro o Almodóvar e já assisti a todos os filmes dele. E também adorei o “Abraços Partidos”. Minha cena favorita é a que Mateo reedita o filme, usando os melhores takes. Achei isso uma metáfora fantástica. Para um monte de coisas…

    Parabéns pelo post,

    Bruno

    -Responder

    Vanessa Souza:

    Bruno,

    Bom seria se pudêssemos editar apenas os melhores momentos…

    “A memória da gente é safada: elimina o amargo, a peneira só deixa passar o doce”. (Caio Fernando Abreu)

    Obrigada ;)

    -Responder

  5. Maria Helena Bruzani dos Santos (13–12–2009 12:51 am)

    Parabéns Vanessa, pelo excelente texto. Você, além de inegável talento para a sintese jornalística, é dona de grande capacidade crítica, avaliando a obra, não apenas do ponto de vista formal, mas também, psicanalítico. Denota, outrossim, profundo conhecimento sobre o autor e sua obra, fator de grande importancia para este tipo de avaliação. Gostei muito. Também me motivou a assistir o filme.
    Caso não saiba ainda quem sou, sou a nova aluna do curso da Psychesul, que esteve presente, juntamente com o Dr. Altayr Venzon da Rádio Pampa (AM 970 kh Porto Alegre) à sua formatura. Estou no programa Tribuna Popular, apresentado pelo Dr. Venzon, todas as 5ªs feiras, a partir da meia noite, até às 04 horas, falando sobre psicanálise e criminologia. Investigamos sobre as origens do crime. O programa é interativo e, quem estiver interessado, pode ligar para 3233-8855 ou 3233-8899 que terá suas perguntas e respostas colocadas no ar.

    Desejando a você, mais uma vez, muito sucesso em sua carreira, deixo aqui meu fraternal

    abraço.

    Helena Bruzani

    -Responder

    Vanessa Souza:

    Maria Helena,
    Muito obrigada!
    Eu me recordo de você ;)
    Dá para ouvir o programa pela internet, ao vivo?
    Como moro no RJ, não devo conseguir ouvir pelo rádio…
    Outro abraço!

    -Responder

  6. fabi (13–12–2009 3:50 pm)

    Sempre fuji de Almodóvar por conta do jogo intertextual e suas palavras aqui deixam bem claro a intensidade do envolvimento espectador X personagem.
    Parabéns pelo texto!
    Beijos, Fabi

    -Responder

    Vanessa Souza:

    Não fuja, entregue-se ;)
    Beijo.

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  7. Juliana Fernandes (14–12–2009 1:34 am)

    Oi Vanessa,

    Sou seguidora fiel do ‘Amalgama’, mas essa é a primeira vez q comento um post seu, apesar de já ter lido alguns.

    Assim como vc, tbm sou apaixonada por Almodovar e acho Penelope Cruz como atriz, sempre uma ótima escolha.

    Depois de ler teu texto, fiquei super tentada a correr p o cinema, mas infelizmente, por conta do horário, só poderei fazer isso amanhã!

    Parabéns pelo texto! Beijos,

    Juliana

    -Responder

    Vanessa Souza:

    Juliana,
    Fico feliz em saber.
    Leia-me mais e corra!
    Beijão,
    Vanessa

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  8. Amanda (18–12–2009 10:39 pm)

    O filme não traz grandes novidades. É Almodóvar, pra quem gosta de Almodóvar. E Almodóvar é sempre o mesmo: inova em relação aos outros, pero não em relação a si mesmo. Elementar, minha cara…

    -Responder

    Vanessa Souza:

    Amanda,
    Esta é a sua interpretação.
    Abraço,
    Vanessa

    -Responder