Caminho às cegas
por Vanessa Souza – Começo com um ato falho. Comentei com o editor do Amálgama que ia assistir “Amores Partidos”, e perguntei se ele queria um escrito sobre o filme. O último filme do Almodóvar chama-se Abraços Partidos, e não “Amores”. Enfim, é tudo com A mesmo. Pequeno A. Objeto causa de desejo para Lacan. A de Almodóvar.
Em Los Abrazos Rotos, o cineasta Harry Caine (Lluís Homar) é o protagonista do filme, uma invenção de si mesmo, já que na verdade – e quem detém a verdade? – ele se chama Mateo Blanco. Ou se chamava. Harry Caine também é o nome que Almodóvar escolheu, certa vez, em um momento que desejava desistir de ser Almodóvar. Ideia que não se realizou, já que, segundo o que o diretor espanhol disse em Cannes este ano: “Ninguém escapa de si mesmo”. Hilda Hilst poderia ter dito o mesmo para Almodóvar, em palavras similares: “Tu não te moves de ti”. Sim, Almodóvar, nem nós…
Antes de chegar ao cinema, não li uma linha sobre o filme. Como de costume. Tento não me influenciar com as críticas antes de assistir a um filme. Só o nome do diretor, os atores, a sinopse. Contudo, sendo Almodóvar um dos meus diretores favoritos – assisti tudo dele! –, já chego contaminada até não poder mais.
A paixão entre Mateo Blanco e a atriz Lena (Penélope Cruz), que surge no set de filmagens de “Chicas y Maletas”, é o ponto de partida do filme. Partida, princípio e fim. Catorze anos depois do fim do romance, Mateo, após um acidente de carro e cego, ainda morre de amores pela bela atriz. Só deixa a história em um canto obscuro, tapete empoeirado, guardado em alguma gaveta que ele possui as chaves. Conversando com Diego, filho de sua produtora, a gaveta é aberta. E a história do cineasta e de Lena acerta em cheio, nocauteia o espectador. Entre taquicardia, suspiros longos e uma inquietação que é um abismo, quem, voyeur, assiste do outro lado da tela, fica de-li-ci-o-sa-men-te incomodado com as imagens – e com os diálogos. A urgência dos amantes é dolorosa.
“O primeiro encontro só serviu para descobrir que a presença dela me incomodava”, conta Mateo, para Diego, com nostalgia absurda.
Uma das cenas mais belas do filme, em minha opinião, é quando um vídeo com o último momento do casal junto é projetado em uma tela. O cinema dentro do cinema. Mateo, já cego, se aproxima e tateia com as mãos – e que belas mãos! – o rosto de Lena, rememorando aquele momento, congelando-o, guardando-o para os dias cinzas e chuvosos.
Sim, a película ainda tem atuações brilhantes, grande enredo, suspense, takes incríveis, diálogos inteligentes, emoção… De tudo isso, fico com Lena e Mateo. Uma história breve e impactante. Tirada de uma gaveta, chaveada. Um romance abruptamente interrompido. Concluo com palavras do protagonista. “Os filmes têm que ser terminados, ainda que sejam às cegas”. E existe outra forma de atravessar o caminho do desejo, que não seja de olhos bem fechados?
[ veja o trailer ]
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)








Amores Partidos? Humm…pq será, heim? rss
Adorei o texto, querida!
Bjs
Vou perguntar para a minha analista, rs.
Lembre-se que o tio Freud disse que um charuto pode ser apenas um charuto.
Beijo, Fabinho.
Pingback: Andira Medeiros
Lendo teu texto, recebei uma carga forte de motivação para assistir o filme! Talvez me influencie, talvez não. risos
Beijo,
Maísa
Almodóvar é sempre uma ÓTIMA influência…
Beijos, Mah.
Loirinha, teus textos estão cada vez mais profesionalmente belos… Parabens!
Eutimio, meu psicanalista mexicano favorito – também o único mexicano que eu conheço, eu confesso, rs.
És um de meus leitores mais fiéis. Obrigada!
Vanessa,
Eu também adoro o Almodóvar e já assisti a todos os filmes dele. E também adorei o “Abraços Partidos”. Minha cena favorita é a que Mateo reedita o filme, usando os melhores takes. Achei isso uma metáfora fantástica. Para um monte de coisas…
Parabéns pelo post,
Bruno
Bruno,
Bom seria se pudêssemos editar apenas os melhores momentos…
“A memória da gente é safada: elimina o amargo, a peneira só deixa passar o doce”. (Caio Fernando Abreu)
Obrigada
Parabéns Vanessa, pelo excelente texto. Você, além de inegável talento para a sintese jornalística, é dona de grande capacidade crítica, avaliando a obra, não apenas do ponto de vista formal, mas também, psicanalítico. Denota, outrossim, profundo conhecimento sobre o autor e sua obra, fator de grande importancia para este tipo de avaliação. Gostei muito. Também me motivou a assistir o filme.
Caso não saiba ainda quem sou, sou a nova aluna do curso da Psychesul, que esteve presente, juntamente com o Dr. Altayr Venzon da Rádio Pampa (AM 970 kh Porto Alegre) à sua formatura. Estou no programa Tribuna Popular, apresentado pelo Dr. Venzon, todas as 5ªs feiras, a partir da meia noite, até às 04 horas, falando sobre psicanálise e criminologia. Investigamos sobre as origens do crime. O programa é interativo e, quem estiver interessado, pode ligar para 3233-8855 ou 3233-8899 que terá suas perguntas e respostas colocadas no ar.
Desejando a você, mais uma vez, muito sucesso em sua carreira, deixo aqui meu fraternal
abraço.
Helena Bruzani
Maria Helena,
Muito obrigada!
Eu me recordo de você
Dá para ouvir o programa pela internet, ao vivo?
Como moro no RJ, não devo conseguir ouvir pelo rádio…
Outro abraço!
Sempre fuji de Almodóvar por conta do jogo intertextual e suas palavras aqui deixam bem claro a intensidade do envolvimento espectador X personagem.
Parabéns pelo texto!
Beijos, Fabi
Não fuja, entregue-se
Beijo.
Oi Vanessa,
Sou seguidora fiel do ‘Amalgama’, mas essa é a primeira vez q comento um post seu, apesar de já ter lido alguns.
Assim como vc, tbm sou apaixonada por Almodovar e acho Penelope Cruz como atriz, sempre uma ótima escolha.
Depois de ler teu texto, fiquei super tentada a correr p o cinema, mas infelizmente, por conta do horário, só poderei fazer isso amanhã!
Parabéns pelo texto! Beijos,
Juliana
Juliana,
Fico feliz em saber.
Leia-me mais e corra!
Beijão,
Vanessa
O filme não traz grandes novidades. É Almodóvar, pra quem gosta de Almodóvar. E Almodóvar é sempre o mesmo: inova em relação aos outros, pero não em relação a si mesmo. Elementar, minha cara…
Amanda,
Esta é a sua interpretação.
Abraço,
Vanessa