3–12–2009

A musa e o muro

por João Peçanha * – O romancista João Silvério Trevisan afirma que a “musa” (apelido que dá à inspiração na criação literária) morreu de fome por falta de pagamento de direitos autorais. Que toda peça poética (entenda-se a palavra “poética” como algo abarcando tudo que contenha poesia, desde um poema a um texto em prosa) demanda, antes de seu início, um projeto literário onde se afirme o que é necessário que a futura obra traga, qual é sua proposta, seja ou não inovadora. A partir de algumas premissas anteriores ao processo criativo propriamente dito, portanto, teríamos uma fase de preparação do que será gerado. Algo como uma gravidez.

Do outro lado do campo, temos o escritor Autran Dourado, que prima pela inspiração e crê que é a ela que devemos boa parte das obras primas hoje disponíveis. Que o projeto limita muito a ousadia e a liberdade criadora, transformando a obra em algo mais parecido com um memorando, por exemplo. Que uma obra de arte nasce dentro do artista quase inconscientemente. Algo como um espirro ou soluço poético.

A nós resta a arquibancada.

A questão da inspiração X transpiração (foi Einstein que começou a percentualizar esta relação, afirmando que na manufatura de obras de arte temos 90% de transpiração para apenas 10% de inspiração, se não me engano) não é nova e certamente demorará muito até que dirimamos as polêmicas em torno dela. Vemos excelentes escritores afirmando maravilhas de uma e de outra escolha.

Que a musa (inspiração, repito) existe, existe. Só que, assim como a uma mulher é imprescindível algo mais que um corpo ou rosto bonito, a musa não basta a si mesma.

Não me lembro de um texto sequer escrito por mim que tenha saído pronto e absolutamente desprovido de suor. Muitas vezes cheguei a escrever um texto inteiro de uma paulada só. Às vezes em menos de uma hora eu tinha pronto o primeiro tratamento do texto. No entanto, as semanas seguintes eu sem dúvida passaria refazendo frases, rearrumando vírgulas e alterando o destino de personagens.

A regra, portanto, é não ter regras, pois não? Mais ou menos isso. A arte que os nossos netos consumirão dependerá em grande medida de que a criação (literária, poética, artística) seja mantida tanto distante de normas quanto abrigada das necessidades ordinárias do artista. Portanto, pelo amor de deus, não encilhemos potros como o da criação, não congelemos momentos sublimes como o da produção de boa literatura.

Pedindo a conta: os textos nascem como nascem nossos filhos; alguns são planejados e outros nascem no susto. Os textos ditos “com projeto”, assim como podem se transformar em estado da arte, podem não dar certo de tão esquisitos e formais demais ou pouco ousados; os outros, erráticos e caóticos, filhos legítimos da musa de Autran Dourado, podem ser verdadeiras obras de arte ou, imperfeitos, nascer faltando um nariz ou com a boca torta. Não creio que haja uma estatística a esse respeito. Se houver, e se eu a encontrar, prometo jogá-la no lixo.

* João Peçanha é professor, contista e dramaturgo nascido em Niterói. Mestre em Estudos Comparados de Literaturas em Língua Portuguesa pela USP.

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| 1 comentário | Dê sua opinião ↓ |

  1. eromar bomfim (5–12–2009 7:45 pm)

    João,
    Taí um debate – inspiração/transpiração – cujo resultado, para qualquer lado que penda, por si só não fará ninguém fazer obra poética. Cada um se acomoda do seu jeito, ou melhor, combina as coisas conforme sua disposição. Antes quero crer que a atividade poética é como um rio que não corta nunca, aqui subterrâneo, acolá de superfície, e é quando vem à superfície que se torna obra visível. Abrir um buraco no leito seco pra ele jorrar é o trabalho penoso da pena. A água que jorra é que nem sempre é potável, mas quase sempre dá.

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