Pilatos decepcionante
por Luiz Biajoni – Uma série de fatores me levou a escolher Pilatos (Cia. das Letras, 2001) para me “introduzir” na vasta obra de Carlos Heitor Cony – na qual era virgem. O primeiro fator foi uma entrevista que li do autor na Playboy (nós, homens, compramos a Playboy pelas entrevistas, certo?). O motivo da entrevista era Quase memória, um best-seller. Ele praticamente desprezou Quase memória – e disse que, de todos os seus livros, o de que mais gostava era Pilatos. Coincidentemente era seu livro menos vendido. Vou começar por aí, pensei.
Outro fator foi meu encontro com Cony, em Americana. Levei o livro pra ele autografar e ele perguntou se eu estava lendo e eu disse que sim e ele olhou profunda e compassivamente para a capa do livro e quase suspirou e disse que era o que mais gostava.
Esse é também um dos livros preferidos do amigo Rodrigo Francischangêlis – e o Rodrigo é um dos leitores mais exigentes e refinados que conheço.
Mas devo dizer que eu não gostei.
Não gostei do livro.
Não estou falando isso para ser do contra. O livro parece ter sido escrito descuidadamente, sem que o autor se desse conta do que estava fazendo. A história (um fiapo) não se sustenta, é cheia de pseudo-simbolismos.
Temos ali o personagem principal, que é um pobre diabo que é atropelado por um ônibus e, de repente, está no hospital sem o pau. Exato, cortam o pau do cara e colocam dentro de um vidro de compota. Uma boa idéia, pois não? Mas o fato de ter ele o pau cortado não pressupõe nenhuma indagação filosófica ou prática sobre a necessidade ou a finalidade do pênis – dele e de todos nós. Não. O pau cortado dentro do vidro é só uma das aberrações do livro; aberrações sem finalidade. Aberrações que, quando muito, nos surpreende e nos provoca um risinho. E só.
O amigo do protagonista chama-se Dos Passos, numa alusão provável ao escritor americano John Dos Passos – mas a alusão se mostra sem finalidade. O nome do pau cortado é Herodes. O tal Pilatos, no final das contas, parece ser mesmo o narrador que, lá pelo final, toma uma mania de lavar as mãos. Nesse meio tem alguma repressão policial e outro tanto de anarquistas e fascistas – alguns viciados em maconha. O ano é 1974. Cony decerto estava precisando de uns trocos.
Otto Maria Carpeaux, um dos maiores críticos literários que o Brasil já teve, assina a contracapa – um pedaço pinçado de uma crítica provavelmente maior que não se encontra dentro do livro. Num trecho desse trecho, diz Carpeaux: “A leitura provoca gargalhadas. São inúmeras as situações e trechos de humor abundante e irresistível (só preciso lembrar a cena em que o sujeito, sendo obrigado a masturbar-se, encontra apenas, para sua animação, uma revista de turfe)”. O Carpeaux, todo francês e em 1974, podia gargalhar com algo assim. Nessa parte, eu nem sorri.
É triste dizer que não sei se vou encarar outro Cony.
Pelo menos não tão brevemente.
Ficou um gosto ruim, de enganação.
Se Pilatos é o melhor livro, na concepção do próprio autor… melhor nem conhecer o seu pior!


Também tentei gostar da literatura do Cony, e igualmente não tive sucesso. No meu caso, comecei e parei no “Pessach”.
E eu compro a Playboy por causa do “nu artístico” :-p
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Já li alguns livros do Cony, inclusive “Pilatos” – que também achei decepcionante- e “Pessach”, que foi falado no comentário do Daniel aí acima. O primeiro livro dele que eu li foi “Quase memória”, que é um belíssimo livro. Por causa dele me aventurei a ler outros do autor, porém não encontrei outro tão bom quanto o primeiro. Uma dica: se for mudar de idéia e ler outra obra do Cony, leia “Quase memória”.
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A obra de Cony é bem irregular. Li um livro mais ou menos (“A tarde de sua ausência”), um horrível (“Matéria de memória”) e um outro eu nem li, de tão ruim que começa (“O adiantado da hora”). Mas ele tem livros memoráveis, como “Pessach” (fantástico), “O piano e a orquestra” (belíssimo), “Antes, o verão” (excelente) e “Tijolo de segurança” (uma maravilha). Fica aqui a vontade de que o Cony possa conquistá-los ainda, mesmo que demore algum tempo para uma nova tentativa.
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Não sei se sabem daquela frase: ao vencedor tudo! O escritor acredita que pode tudo, até escrever o que lhe vem à cabeça sem ter a preocupação de que na maioria dos casos volta a ler aquilo que escreveu. Escreve, joga no prelo e diz: dêm meu dinheiro. Como leio tudo, faço a análise da obra que acabei de ler e não o conjunto da obra. Creiam que não estou legislando em causa própria, mas façam como eu que até bula leio. Nelas entramos em contato com intestinos, próstata, flatulência e por aí. Quando termino de ler um mau livro (mau para mim) acho que passei o meu tempo lendo. É isso aí: lendo.
Gosto do autor em referência. Ele tem uma maniera toda particular de escrever, é, em suma, um arquiteto de palavras. Podemos pedir fundamento a um arquiteto, não coerência.
Gosto de debates, são muito saudáveis.
Joaquim Azevedo
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lêem meu comentário na postagem DESTRUINDO MITOS…já pensaram o quanto de bonito na gramática se perderia caso caras como Marcos Bagno fossem levados a sério…falariamos como orcs e escreveriamos como tal.
Um mundo sem a beleza da compreesão lusófona.Viva a lingua portuguesa
São Paulo
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