O Papai Noel dos miseráveis
por Lelês Teles – Num destes conteineres de lixo de Shopping Center, um mendigo encontrou uma fantasia rota de Papai Noel e prontamente trocou-a pelos andrajos que o mal vestia. E saiu assim, esquálido e fétido o nosso Papai Noel miserável.
A roupa de um vermelho desbotado e sujo. As lãs sintéticas que lhe adornavam o colarinho, a aba do gorro e os punhos da blusa estavam encardidos e esfarrapados. Um enorme rasgo lhe desnudava a bunda. Nas costas, o saco murcho e furado.
Era 24 de dezembro. Em Brasília, uma tarde quente como as manhãs do inferno. E o nosso Santa Clauss do terceiro mundo, imundo, não tinha peru e nem frango, somente a fantasia em frangalhos e um estômago doendo pra caralho.
De um lado para outro na avenida, entre vendedores de bugigangas, cuspidores de fogo e limpadores de pára-brisas perambulava o nosso famélico personagem saxão.
Balbuciava alguma coisa em sua voz emudecida pela fome, como um dublador de si mesmo, como um ventríloquo esfomeado; ele era a voz-guia e o boneco. Dentro dos carros de luxo, vidros hermeticamente fechados, os insípidos e insensíveis funcionários públicos respiravam o frescor e a frescura do ar-condicionado.
Esse foi o primeiro Papai Noel negro que vi em minha vida (ainda não vi um palhaço negro e isso não tem graça!). Descalço, no encalço do que comer, sofejava para os vidros escurecidos e cerrados dos automóveis:
- Dá uma moedinha de presente, filho de deus! Dá uma moedinha de presente, filho de Deus!
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Achei oportunas e sensibilizantes as palavras de L Teles, só tenho um reparo: quando se trata de certos assuntos, deve-se deixar de lado os palavrôes porque achei interesante mostrar ao meu neto (4 anos) omitindo, naturalmente, a palavra. Aproveitei para falar sobre o espírito natalino (eu amo o papai Noel por fazer meu neto e milhôes de crianças felizes), dizendo-lhe que vem lá do Polo Norte (eu sei vovô onde ele mora!) só para dar presentes para as crianças.
L. Teles, deixemos de reparar na cor da pele das pessoas, mas no tipo do caráter. A propósito, você deu uma moedinha de presente, seu filho de Deus, ao desditoso Papai Noel?
Se nós desejarmos, todos os dias tem tanta oportunidade de fazermos o bem ao próximo.
Um abraço
Joaquim Azevedo.
escritor_jazevedo@hotmail.com
Nobilíssimo Joaquim,
eu tenho uma filha de quatro anos e ela lê literatura infantil, isso a priva de ler palavrões em sites de adultos.
Não sou cristão e não tomo coca-cola, não tenho o menor pudor com papai noéis!
Joaquim, como deixar de reparar na cor da pele das pessoas, eu sou negro, não deixam de reparar na cor da minha pele. Nunca vi um papai noel negro em um shopping e nem um palhaço negro, será que sou eu realmente que estou reparando na cor da pele das pessoas?
E o senhor, seu Joaquim, um escritor pedindo a outro escritor que tenha pudor com as palavras!?!?