10–12–2008

A fúria pelo consumismo

por Taís Luso – Consumir é mais próprio das mulheres: estamos deprimidas, chateadas, brigamos com o marido, algo não deu certo, aquela viagem não saiu? O filho tá de chantagem? Vamos comprar! Vamos pro shopping!

Aprendemos, desde criança, a compensar. Comprar alivia, compensa frustrações. Então saímos à procura de qualquer coisa que possa amenizar nossas amarguras; pode ser até uma quinquilharia do 1.99. Uma bandejinha! Duas bandejinhas… Na saída, pegamos um pacote de bolachas, que deverá ser uma gostosura, uns plásticos de fabricação duvidosa, umas tigelinhas horrorosas, enfim, tudo o que não precisamos. E enfrentamos a fila novamente. Pronto! Ficamos felizes e saímos com a conhecida sacolinha branca com a cacarecada misturada. E se formos com uma amiga, melhor ainda: aproveitamos pra descarregar. Pra dizer que a vida tá uma porcaria. E fazemos uma sessão de psicoterapia gratuita. É o “Dia do Descarrego”.

Caso a voltinha no 1.99 não resolva, tem a cabeleireira. Essa é fatal. Cabeleireira é psicoterapeuta de grupo. Mechas ou pintura? Limpeza de pele? Unhas? Massagem? Fofoca da vizinha? Ótimo: uma tarde de Cinderela. E voltamos numa boa, pelo menos para os próximos dias. Tudo é motivo para o consumo – tristezas, alegrias, comemorações, despedidas, saídas e chegadas.

Mas nosso Mundo Encantado são as liquidações! A fúria por consumir sem necessidade. Consumir para aproveitar os preços, mesmo se no final ficarmos com quatro televisores, dois fogões e mais um som – para colocar na área de serviço… Afinal, não estava tudo a preço de banana?

Não faz muito, eu me considerava a rainha dos balaios de liquidações (está bom; eu sempre quis ser rainha de alguma coisa). E os balaios me fascinavam, principalmente o “Porto Alegre Liquida”. Remexia, remexia…Quanta porcaria! Era só refugo. Eu só pegava o que ninguém queria: as calças do tempo das cavernas! Cheguei à conclusão de que não sou “boa” em balaios: sou atraída para o esdrúxulo. Cansei de comprar sapatos um número menor com a esperança de que no inverno meu pé diminuísse – só pra aproveitar o precinho; pra aproveitar a liquidação. Mas o mimoso tá lá guardado; ontem experimentei e por pouco não tive gangrena. Não entendo como ainda está lá, o desgraçado. Deve ser um problema sentimental com o sapato… Freudiano! Devo amar o tal do sapato.

Mas agora penso ser outra mulher, mais amadurecida, com outros valores. Abri meu armário e tirei trocentas coisas inúteis. O armário ficou limpinho.

O teste final foi na Feira do Livro. Ah, meu Deus, tantos balaios, tantos caixotes… Quanta tentação. Contos, crônicas, poesias, romances, ensaios…

Olhava aqueles balaios como quem examinasse a anatomia de um corpo. Havia tanta coisa esquisita, tanta gente indecisa que jurei nunca mais voltar. Mas estava decidida a ir atrás do meu poeta: não por ser liquidação ou por haver balaios em profusão; mas porque poeta é uma flecha que encanta, que vai direto ao coração.

E não pude deixar que isso passasse em branco, afinal, eu passarei e todos passarão; mas Ele… passarinho!

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| 4 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. Adriana (10–12–2008 10:10 am)

    Felizmente, meu lado consumista é seletista. Quando resolvo comprar uma coisa é por que estou a fim mesmo. Odeio comprar, ir a shopping, feiras, lojas, principalmente,nesta época. Só vou, quando não tem jeito de fugir, uma obrigação mesmo. Agora, quando quero um livro, corro ruas e ladeiras com o maior prazer para achá-lo. Bom o seu texto.

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  2. gerusa (10–12–2008 11:06 am)

    Eu odeio bater perna.Cansaço sem necessidade, pra mim, não é bom negocio. Por isso só vou a rua para o estritamente necessário, quando preciso realmente de algo, quando vou pagar contas, ir ao banco, quando uma calça minha rasgou e eu preciso de outra… Também não sou muito fã de Shoppings. Se eu fosse uma fundamentalista cristã diria sem pestanejar que esse local é coisa do demônio, te deixa fora do tempo e da realidade, fica te tentendo toda hora.
    Mas essa hisatória do cabelereiro é bem verdade. Vou na minha acada três meses pra cortar, ou quando minha mãe vai fazer as unhas, entro muda e saio calada, mas adoro observar as mulheres dispejando a vida naquele local – fulano me deu um bolo, ou aquela rapariga me paga – pra mim é muito divertido.
    E também quando se trata de livros eu ando mundos e fundos, sem nenhum problema, pois pra mim é uma grande necessidade.

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  3. Vanessa (10–12–2008 2:59 pm)

    Eu adoro a compraterapia, rss.

    Adorei o texto – como sempre :)

    Beijos e saudades!

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  4. Suelen de Andrade Viana (10–12–2008 7:35 pm)

    Interessante! É verdade isso, pelo menos para a maioria das mulheres. No meu caso EU ODEIO SHOPPING CENTER. Puts! Quer me ver entediada é passar uma tarde no shopping. Mas tem uma coisa que adoro fazer como terapia que é ir ao cinema. Aí sim, me permito ir ao shopping. Oops! lembrei. Este ano eu fui às compras para ‘matar’ uma raiva. Mas não costumo fazer disso uma prática.
    Vc escreve bem Taís. Vai direto ao ponto, não enrola. Eu gosto.

    Abraços
    Sue

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