A fronteira da loucura

por Adriana Ferreira * – A alvorada, espaço e tempo que não é nem escuro nem claro, nem noite nem dia, é também o tênue limite entre o real e o fantástico, a razão e a loucura.

É sobre isso e sobre muitas outras coisas que fala A Fronteira da Alvorada (estréia em São Paulo hoje), o mais recente filme do diretor francês Phillipe Garrel, de Amantes Constantes (2005). Também fala de loucuras que apaixonam e amores que aprisionam, nem sempre nessa ordem.

N’A Fronteira, o fotógrafo François (vivido pelo ator-sensação-sensacional Louis Garrel) envolve-se com a estonteante, porém casada, atriz Carole (Laura Smet). Esta relação, marcada pelo extremismo de paixão e dor, e fadada ao fracasso, leva François a decidir se afastar de Carole. É quando o rapaz se depara com o absoluto oposto da amante, a plácida Eve (Clementine Poidatz) e inicia com esta uma nova página em sua vida amorosa.

No entanto, os fantasmas do passado, o amor não-resolvido e a tragédia que se abate sobre Carole o perseguem, ao passo que sua relação com Eve toma as formas da “felicidade burguesa” que ele sempre evitou: casamento, filhos, etc.

Na sua mais nova obra-prima (e podem me condenar por isso, já que a recepção do filme nos festivais mundiais foi a mais morna possível se comparada à de Amantes Constantes), Garrel – o pai – revisita o cinema francês sessentista, trabalhando elementos daquela época: a presença do “fantástico”, os enquadramentos, a fotografia em branco-e-preto (assinada pelo genial William Lubitchanksky), entre outros. E, embora seja uma bela evocação da Nouvelle Vague, o filme é atemporal, porque Garrel não copia fórmulas antigas, mas as recria dentro do cinema contemporâneo.

Já o outro Garrel – o filho – faz aquilo que demonstra fazer com maestria: confere carisma ao personagem que é, ao mesmo tempo, sedutor e frágil, seguro e atormentado.

A Fronteira da Alvorada, ao contrário de Amantes, não é um filme politizado, embora haja muito de político tanto nas palavras desesperadas de Carole, embriagada e vencida, quanto no discurso
filosófico do amigo de François acerca do amor. E é justamente isso que faz dele um filme especial.

Afinal, se já é poético idealizar o amor em meio às barricadas de 1968, imagine mostrá-lo como campo de batalha onde os seres lutam até o fim para manter-se racionais. Somente com muita sensibilidade isso é possível.

 
* Adriana Ferreira é historiadora, pesquisadora do Proin – Laboratório de Estudos da Memória Política Brasileira. Escreve no blog Le Champo (http://lechampo.wordpress.com/).

 
[veja o trailer de A fronteira da alvorada]


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1 comentário | Dê sua opinião

  1. Sue 11/12/2008 em 3:02 pm

    Amei!

    Responder

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