Vozinha

A senhora no consultório disse que esperava alguém mais velho e mais sério, devido aos elogios que havia escutado a meu respeito. Era uma típica personagem machadiana.

Eu vinha pela rua como um pau em enchente e cheguei bastante atrasado ao consultório. Já entrei me desculpando com a senhora que esperava e ela foi gentil e compreensiva. Não lembro das minhas avós, mas hoje, se me dessem opção de escolher em um catálogo, eu escolheria um modelo como essa paciente. Mignon, rosto redondo, o cabelo branco acomodado em um lindo coque, gestos medidos, voz serena e um sorriso permanente. Vestido de lã, manta sobre os ombros, perfume doce bem fraco. Elogiou o consultório; perguntou como eu e a família estávamos; disse que esperava alguém mais velho e mais sério, devido aos elogios que havia escutado a meu respeito. Era uma típica personagem machadiana.

O golpe de misericórdia foi ela sacar da bolsa o meu livro, declarar-se leitora fiel das minha crônicas no jornal e pedir um autógrafo no livro que acabara de adquirir. Pronto! Tivesse ela um pouco menos que os seus oitenta e três anos e eu estaria em apuros éticos.

- Pois então, doutor. Faz alguns meses que eu comecei a apresentar uns movimentos involuntários nas mãos e na boca. Falei com o meu clínico geral e ele me encaminhou para um neurologista, que, por sua vez, disse que não era nada grave. Que eram “coisas da idade”. Eu não me ofendi, e bem que poderia! Fiquei até aliviada. Afinal, eu não sou mais uma mocinha, não é mesmo?

Desde que a mãe havia morrido, há dez anos, ela vivia só, com dois gatos, um cachorro e seus livros. Era professora aposentada de literatura. Solteira, recusava convites de duas parentas para ir viver com elas.

Mas o motivo da consulta era que o neurologista havia lhe receitado um remédio. Os movimentos desapareceram, mas surgiu um efeito desagradável. Que efeito colateral?, quis saber eu, pronto para exterminar com ele.

- Sabe o que é, doutor, desde jovem eu escuto uma vozinha. Não é dentro da minha cabeça; é alguém falando atrás de mim, quase no meu ouvido. No início, fiquei com medo, achando que estava enlouquecendo, mas depois me acostumei. E desde então não parou mais. Quer dizer, parou agora com este remédio. O senhor pode achar estranho, ou não, mas eu queria que ela voltasse. Eu até já parei com o remédio, por conta própria, há uma semana, mas ela não voltou.

Perguntei como era a voz e o que ela dizia. E, mantendo a classe, a vozinha respondeu:

- É linda, igualzinha à do Cid Moreira – disse, num suspiro -. E ele me diz: “Isso, gostosa! Boazuda! Você caminha rebolando assim só para me provocar não é, sua potranca? Eu vou rasgar a sua roupa e lhe morder todinha! Vou fazer misérias com você!” O resto, eu tenho pudores de lhe contar, mas acho que o senhor imagina. E é o tempo todo, doutor; ele quase não me dá descanso.

Então suspirei eu e expliquei que o remédio ainda teria efeito por alguns dias e depois a voz provavelmente voltaria. É como eu disse antes, era uma típica personagem rodrigueana…

  • Maria Odete Pellicel

    Essa vozinha, com certeza dá um up na nossa auto-estima!! Abraços.

  • http://mariaa_luizaa@hotmail.com Maria Luiza Monteiro

    Olá amigo, esta é que é uma avozinha feliz!

  • http://portofacil.net/ Janio Sarmento

    Isso é que é otimismo! Eu nunca tinha pensado que a esquizofrenia pudesse ser assim tão positiva na vida de uma pessoa! :D

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