O silêncio ensurdecedor após a morte de um homem bom

-- Rafiq Tagi (1950-2011) --
A “comunidade internacional” não mostrou qualquer pesar após o assassinato de Rafiq Tagi. Um covarde desconhecido esfaqueou-lhe pelas costas e fugiu; ele “estava bastante nervoso e não disse nenhuma palavra”, disse Tagi antes que seus ferimentos lhe vencessem. Index on Censorship tentou soar um alarme. Mas, como o assassino de Tagi com toda a probabilidade foi um apoiador da tirania religiosa, e não da política, a morte do jornalista e crítico literário azerbaijano de 61 anos passou quase sem comentário.
À medida que a Primavera Árabe se transforma num inverno, mais pessoas deveriam tomar conhecimento. Homens e mulheres como Tagi estão sob ataque por toda parte. Na Tunísia, a direita religiosa sob a forma do partido Ennahda ganha a maioria dos votos nas primeiras eleições após a queda da ditadura. A BBC e o Guardian festejam seus líderes como “islamistas moderados”. Os islamistas então demonstram sua moderação atacando um canal de TV que levou ao ar Persépolis, versão animada da estória de Marjane Satrapi sobre a subjugação das mulheres no Irã, e levando-o à justiça para encarar a acusação de corroer “valores e morais sagrados”. No Egito, os manifestantes na praça Tahrir começam a descobrir que a Irmandade Muçulmana não é sua aliada, e mesmo ocidentais otimistas começam a ver os olhares de lobo nos rostos islamistas que observam cristãos egípcios com o pensamento em um pogrom. Enquanto isso, no Azerbaijão, um homem nervoso esfaqueia Rafiq Tagi nas costas e o deixa morrendo sem dizer uma palavra.
Como ninguém mais na Grã-Bretanha escreverá seu obituário, eu vou ver o que posso fazer. Tagi era um inimigo da opressão em todas as formas. Ele se opôs à ditadura secular do Azerbaijão, cujas reservas de petróleo e gás a tornam popular com governos de todo o mundo. A família Aliyev transformou o país em sua propriedade. Ilham Aliyev, filho do ex-oficial da KGB que tomou o poder após a queda do comunismo, agora comanda o país. Ocidentais se inteiram do que ocorre nessa terra distante, quando se inteiram, através da revista em língua ingesa Baku, uma porcaria luxuosa que a editora Condé Nast devia ter vergonha de publicar. Baku é uma mostra da velha conexão entre cultura de lixo e política de lixo, ao dar destaque a moda, arte moderna, estrelas de cinema e os belos cenários do Azerbaijão. Ela falha em dar a devida proeminência aos tormentos que o regime impõe à oposição. Também não menciona uma queda por dinheiro de tal magnitude que levou a Transparência Internacional a colocar o Azerbaijão na 134ª posição (de 178 países) em seu índex mundial de corrupção, e diplomatas estadunidenses a compararem seus líderes à família Corleone. Os pecados de omissão da revista Baku se tornam menos surpreendentes quando você fica sabendo que a editora é Leyla Aliyeva, filha de Ilham.
Tagi também quis – teve que – se opor à opressão religiosa, e se tornou um voluntário na guerra de duas frentes que muitos liberais têm que lutar em países de maioria muçulmana. Seus inimigos religiosos sabiam disso, e o marcaram para execução. Tagi comparou Maomé desfavoravelmente a Jesus, argumentando que o cristianismo levou a Europa aos direitos humanos e à democracia, enquanto o islã levou ao “despotismo oriental”. Os azerbaijanos, ele disse, devem abraçar o secularismo se quiserem ser livres.
Eu teria argumentado que as religiões ocidentais apoiaram monarquias e impérios opressores pela maior parte de sua história, e que Tagi estava sendo gentil demais. Mas argumentar não é o que seus oponentes queriam. O estado azerbaijano o aprisionou e o grande aiatolá do Irã, Fazel Lankarani, ordenou seus seguidores a matá-lo. Tagi saiu da prisão e continuou escrevendo. Um de seus últimos artigos foi um ataque à teocracia iraniana.
Os iranianos ou islamistas locais arrumaram seu assassinato. Como, entretanto, Tagi escrevia e falava como se fosse um homem livre com nada a temer da autoridade ditatorial, não se pode excluir a possibilidade de envolvimento de agentes do estado. Emin Milli, um escritor liberal azerbaijano, me disse que Tagi parecia estar se recuperando de seus ferimentos em um hospital do estado, e de repente teve uma piora no quadro. Ele se perguntou como isso poderia ter ocorrido. Ele estava igualmente desconfiado do não interesse de ocidentais pela morte de um escritor cujo “crime” fora o de falar o que tinha em mente. Milli tentou a BBC, vários jornais… todo mundo em que conseguiu pensar, e ninguém, exceto o Index on Censorship, demonstrou interesse. “Por que eles não se importam?”
Milli tem uma crença simples e comovente no poder da livre expressão, mas sua dúvida não era tão ingênua quanto poderia parecer. Ele sabia por experiência própria o quão efetiva pode ser a opinião democrática quando mobilizada. Ele foi um dos “bogueiros do jumento” cuja perseguição se tornou célebre em 2009.
Milli e seu amigo Adnan Hajizade descobriram que o regime havia pago 42 mil euros por um jumento alemão. Suspeitando que o fato escondia mais uma transação corrupta em algum lugar das letras miúdas das negociações, eles dramatizaram o absurdo da vida em uma ditadura ao vestir um ator em uma fantasia de jumento. O jumento mostrava por que valia tanto do dinheiro dos contribuintes respondendo perguntas de repórteres e então dando um pulo para tocar um solo de violino. O vídeo da acrobacia se tornou viral. Bandidos da polícia surraram Milli e Hajizade. As cortes julgaram os dois como responsáveis por iniciar o tumulto e os enviaram para dois anos na prisão. O mundo não ficou indiferente ou disse que o Azerbaijão não era de sua conta. Barack Obama, União Europeia, a mídia e grupos de direitos humanos encamparam a luta dos blogueiros do jumento e persuadiram o regime a liberá-los.
Milli está agora estudando em Londres e não consegue entender por que aqueles que gritaram com tanta paixão quando de seu veredito ignoraram agora o assassinato de Tagi. Tentei lhe explicar que a Europa não era o bravo continente que Tagi imaginava. Ela defenderia as vítimas de opressão política, mas não de opressão religiosa. Desde a perseguição a Salman Rushdie, muitos se mostraram com medo de denunciar o islamismo, temerosos de retaliações. Outros ficaram com medo de ser acusados de orientalismo, neoconservadorismo ou alguma outra pecaminosa fobia religiosa ou racial. A maioria, eu lhe disse, estava com medo simplesmente de quebrar o consenso e defender uma posição minoritária. Na guerra de duas frentes, portanto, liberais ocidentais seriam aliados confiáveis na batalha contra o autoritarismo político, mas não contra o autoritarismo religioso.
Ele não entendeu, e eu fiquei envergonhado. Comparado ao que os liberais devem enfrentar no Oriente Médio e além, que direito têm os ocidentais de colocar em primeiro lugar seus medos insignificantes?
* original no Observer.
tradução: Daniel Lopes
