Liga Árabe se prepara para suspender a participação da Síria

No último sábado, a Liga Árabe iniciou o processo de suspensão da filiação síria, dando três dias para que Damasco deixe de atirar em manifestantes sírios ou então o país será isolado, com membros da LA retirando seus embaixadores e a Síria perdendo direito de voto na organização.

Al Jazeera English tem um vídeo:

Essa medida é a segunda tomada este ano pela Liga Árabe contra um estado membro. Em março, eles convocaram o Conselho de Segurança das Nações Unidas a impor uma zona de exclusão aérea na Líbia após o regime de Muammar Kadafi empregar jatos para atacar a população civil de cidades que o haviam desafiado, conforme reportaram a agência France Press e a Al Jazeera, entre outras. Alguns pilotos líbios preferiram desertar para Malta do que seguir as ordens de Kadafi para bombardear Bengazi, mas inúmeros relatos de testemunhas oculares mostram que outros pilotos seguiram essas ordens ilegais, que constituíam crime de guerra.

O governo do presidente sírio Bashar al-Assad havia concordado em 2 de novembro a retirar suas tropas de cidades onde estavam ocorrendo os maiores protestos. Desde então, de acordo com o Human Rights Watch [pdf], a Síria já matou uma centena de manifestantes.

Na sexta, o regime matou cerca de 30 manifestantes, no processo perdendo 26 soldados para militantes.

18 dos 22 membros da Liga Árabe votaram a favor da medida. Líbano e Iêmen votaram contra, e o Iraque se absteve.

Provavelmente, essa decisão de suspender a filiação da Síria foi motivada por duas considerações maiores.

Egito, Tunísia e Líbia agora lideram um bloco pró-democracia e pró-direitos humanos dentro da Liga Árabe. Os novos governos e seus povos veem Bashar al-Assad como um clone de ditadores derrubados, como o egípcio Hosni Mubarak, e querem que ele saia de cena.

Um segundo bloco tem duas motivações:

1) países árabes majoritariamente sunitas estão sofrendo enorme pressão para fazer algo acerca do fato do regime da minoria alauíta estar atirando em manifestantes sunitas. (Essa descrição do cenário é uma grande simplificação, mas muitos jordanianos, sauditas e marroquinos lhe dão crédito.)

2) a Síria é o maior aliado do Irã no mundo árabe, embora o Iraque esteja cada vez mais próximo em uma segunda colocação. Os estados do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Omã) estão alarmados com o crescimento da influência iraniana no mundo árabe, e portanto teriam votado pela exclusão da Síria como uma forma de enfraquecer o Irã.

O reverso da moeda é que os outros aliados do Irã na Liga Árabe votaram contra a medida ou se abstiveram.

Quando a decisão foi anunciada, turbas pró-regime atacaram as embaixadas saudita e qatarense em Damasco.

Esse passo da Liga não tem muito efeito prático imediato, mas é uma importante ação simbólica, e isolará ainda mais a Síria na comunidade internacional.

Bashar al-Assad deveria aprender uma lição com o caso da Líbia.

* original no Informed Comment.
tradução: Daniel Lopes

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