Juliet, Nua e Crua
A prosa de Hornby é fluída, simples, os personagens são bastante normais e cativantes, a história é interessante, vai se revelando por camadas, com referências contemporâneas simples, fáceis, mas nem todos entenderão com profundidade o leitmotiv, a base inicial que desenvolve a trama, em Juliet, nua e crua.
Aqui vai um teste para saber se você é um daqueles que podem entender: imagine que você encomende um CD do seu artista ou banda preferida e a encomenda chegue justamente num momento em que você não esteja em casa e a sua parceira abra o CD e o escute antes de você. Isso é motivo para uma briga? Você ficará enciumado? Bravo? Desapontado com a atitude desrespeitosa da sua namorada/mulher? Se sim, você irá entender o que dispara a trama de Juliet, nua e crua.
Há um conselho corrente para quem está se iniciando no mundo das artes: se você gostar de um livro que acabou de ler, procure tudo daquele autor – e depois procure autores que esse autor admira e, assim, você irá ter um quadro abrangente das intenções e da filosofia do autor. O mesmo valeria para a música – ou quaisquer outras artes. Já acreditei nisso, hoje acho que o melhor é você não entrar nessa ou poderá desenvolver uma obsessão. Hoje acho que se você leu um livro de um cara deve, na seqüência, procurar algo bem diferente para, digamos, “arejar”.
Eu já fui obcecado – e isso acontece e a gente nem se dá conta. De repente, viramos completistas: queremos ter tudo do ídolo. É um comportamento infantil, para fãs de Justin Bieber, mas acontece com quarentões, como bem mostra o livro de Hornby.
No livro temos Duncan, obcecado por um cantor chamado Tucker Crowe e capaz de viajar da Inglaterra para os EUA só para ver a casa de uma das musas do artista. Eu já fui a Buenos Aires por causa de Borges, sei como é isso. Na hora a gente acha o máximo, mas um dia cai a ficha. Podemos dizer que Juliet é um livro sobre “cair a ficha”.
Hornby conhece bem esse universo de aficcionados por música, lembre-se de Rob Gordon, o personagem de Alta Fidelidade, cuja paixão maior é sua coleção de discos. A impressão que dá é que Hornby é um otimista, já que há redenção para seus personagens obcecados e, neste sentido, Juliet, nua e crua pode até ajudar gente assim. Gente como eu e você que não pode ouvir falar de um novo disco/novo livro/novo filme daquele determinado ídolo para ficar roendo as unhas.
Gente normal vai achar o livro bom. Eu e você vamos achá-lo ótimo!
::: Juliet, nua e crua ::: Nick Hornby (trad. Paulo Reis) :::
::: Rocco, 2010, 272 páginas :::
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Luiz,
Terminei de ler Juliet ontem e vim dar uma lida sobre ele na internet. Assim como vc, eu o achei ótimo!
Adorei o que vc escreveu sobre o livro, e me sinto meio adolescente, já que pretendo ler todos os livros do Hornby (Já li 5 com esse e tenho mais 3 p ler em casa…), mas vou seguir os seus conselhos e mudar um pouco os ares… Pulo de Hornby para Marian Keyes, que é outra autora que adoro e já estou lendo o terceiro livro!
+ vc descreveu bem o Hornby como um otimista e no final as coisas meio que se ajeitam, mesmo não sendo com borboletas pousando na janela. Caiu a ficha!
Grande abraço!