Falácias que ocuparam o debate

É fácil demonizar o protesto na USP, inclusive porque seus próprios artífices optaram pelo confronto generalizado e ignoraram os exemplos organizacionais deixados por atos similares bem-sucedidos. Mas o movimento precisa de críticas sensatas, não das abordagens simplificadoras, preconceituosas e estreitas que vemos dominar a polêmica. A fragilidade dos principais argumentos usados contra a ocupação revela-se quando os invertemos para atingir seus adversários.

– Burgueses mimados –
Seria divertido brincar com o significado psicológico desse ataque (inveja, rancor de classe, identificação negativa), mas de fato ele serviria para uma enorme parcela dos alunos de qualquer universidade do país. Entre as justificativas do policiamento ostensivo existe a de salvaguardar os bens que o papai e a mamãe compraram, certo? E o que dizer da passividade apolítica da maioria bem nutrida, tão pequeno-burguesa em seu conformismo?

– Representatividade –
Geraldo Alckmin é quem precisa tomar lições de democracia. Pois setenta malucos organizados possuem muito mais legitimidade que um reitor biônico e seus asseclas de gabinete, impostos à revelia de milhares de pessoas. Ótimo que as pesquisas de opinião no campus abordem um tema sensível como o da segurança. Mas que tal averiguar quantos alunos gostariam de eleger os administradores da universidade ou de escolher onde aplicar as fortunas em dinheiro público? E as lideranças do movimento estudantil podiam abandonar o cômodo silêncio diante da adversidade alheia para expor seus próprios critérios de participação e respaldo popular.

– O império da lei –
A maconha é proibida, azar dos marofeiros vagabundos. Desobediência civil os cambau. Mas então sejamos legalistas de verdade: aproveitemos a presença dos bravos soldados e encarceremos todos os que violarem direitos autorais, copiando livros e apostilas, traficando músicas e filmes pela internet, comercializando cedês piratas e obras usadas. Cana para quem vender alimentos sem aval das autoridades competentes. Aliás, como demonstrou ao criminalizar a Marcha da Maconha, o Judiciário está sempre certo. Ninguém deve contrariar os sábios juízes. Se impuserem uniformes para os estudantes, revistas periódicas nos corredores e toques de recolher, acatemos em silêncio.

– A polícia democrática –
O espetáculo dantesco dos quatrocentos cossacos brandindo escudos e bombas de gás, apoiados por helicópteros, cavalaria, ônibus e camburões, foi um primor do espírito republicano paulista. Ordens judiciais e forças de segurança, como se sabe, existem para garantir os fundamentos do Estado de Direito. Mesmo quando se trata do espaço público: resistiu, merece apanhar. É com esse raciocínio que todos aplaudiremos as violências, digo, as operações táticas das tropas que varrerem os baderneiros que ocupam as praças ao redor do planeta. Ou eles pensam que estão acima da lei?

6 comentários | Dê sua opinião

  1. Pablo Vilarnovo 10/11/2011 em 6:22 pm

    Guilherme: seus argumentos são tão ou mais falaciosos que imputas a outros.

    Burgueses mimados – O fato de algumas pessoas os chamarem assim é a simples constatação de que seus atos e modos de vida não compartilham com o mesmo entusiasmo as palavras proferidas por essas pessoas. Não é novidade para ninguém que o movimento é comandado por comunistas de diversas vertentes e alguns anarquistas. Só que no Brasil, país onde puta goza, traficante é viciado e cafetão sente ciúmes, comunistas se sentem bem a vontade com sua riqueza pessoal. O que eles não gostam é da riqueza alheia, ou melhor querem fazer a “revolução” com o dinheiro alheio. Porque não começam com o próprio?

    Representatividade – Não eles não possuem representatividade. Também é bem infantil referir-se ao Reitor e chama-lo de biônico quando, tenho absoluta certeza, que você SABE que a escolha de um Reitor é atribuição do Governador. Tenho certeza que você SABE que o Governador escolhe em uma lista tríplice. Sim, concordo, de praxe o o Governador (e o Presidente no caso das Federais) acaba escolhendo o mais votado. Mas isso nem de longe é regra. Também tenho certeza que compreende que o Governador, eleito em um processo democrático, tem total autoridade para realizar isso. Deixar que alunos, figuras transitórias no universo de uma universidade (se bem que alguns se tornam estudantes profissionais) tem a mesma capacidade de escolher um Reitor que um paciente de um hospital tem de escolher o Diretor do mesmo.

    Império da Lei – Também tenho certeza que você entende que uma área de livro consumo de drogas é uma área com presença de tráfico, com o tráfico vem a arma, com a arma vem a violência. Violência essa que vitimou muitos alunos da USP. É curioso que vc não tenha comentado a queda nos índices de criminalidade dentro da USP após a chegada da PM. Parece que isso não possui qualquer importância.

    A Polícia Democrática – O aparato empregado serviu justamente para que não houvesse violência. Todos nos pudemos ver o que aconteceu quando os policiais estavam em menor número no dia da apreensão dos três rapazes. Viaturas depredadas, policiais feridos, destruição de todo o tipo. Será que isso também lhe passou batido? Será que é tão difícil entender que os estudantes procuraram o conflito violento o tempo todo? A violência nasceu com a invasão, nasceu com o ataque dos militantes aos policiais. O Batalhão de Choque realizou seu trabalho com perfeição em vistas do que poderia acontecer. Ou será que vc acha que os coquetéis molotovs na reitoria eram de brincadeira? Isso sem contar as agressões a membros da imprensa. Que uma hora os militantes chamam de “burguesa”, “vendida”, mas na outra posam alegremente para as câmeras com punhos em riste.

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    • Georgenor 10/11/2011 em 8:20 pm

      Olá, Guilherme!
      Gostaria de acrescentar mais uma imprecisão: ao falar da marcha da maconha, você indica um link com informações anteriores ao julgado do STF. O Supremo (STF) decidiu, de forma definitiva, pela autorização da marcha da maconha, e de forma implícita, de qualquer outra manifestação pacífica, sem armas e sem violação da lei.
      Abs.

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  2. Guilherme Scalzilli 11/11/2011 em 4:23 pm

    Pablo,
    pela ordem dos parágrafos:
    O que a eventual opção dos estudantes pelo comunismo tem a ver com o debate? De quem é a “riqueza” que a PM vai proteger?
    Representatividade só existe com eleição direta para reitores e diretorias departamentais. O resto é herança ditatorial. Transitórios são os governantes e seus apaniguados, cuja eleição não lhes confere poderes absolutos sobre todo e qualquer assunto administrativo (senão bastaria acabar com os Legislativos, certo?). Um estudante que vai do bachalerado ao doutorado passa quatro vezes mais tempo no campus do que os políticos em um mandato eletivo. Seu exemplo com os hospitais é infeliz demais para ser comentado.
    De onde você tirou essa ligação causal entre o consumo de maconha e a criminalidade? Do noticiário da rede Globo? E se os usuários cultivarem a própria maconha ou a comprarem diretamente de quem o faz? O comércio de mato fedido rende mais dinheiro (e armas) que a pirataria, o sequestro, o roubo de cargas, a prostituição infantil, os assaltos a bancos, etc?
    A desproporção de forças é que foi violenta. E houve, sim, agressões desnecessárias a estudantes e familiares (estude um pouco sobre abuso de autoridade e assédio moral). Você pode julgar a ocupação um ato de violência, mas isso é tão arbitrário quanto chamá-lo de “gesto desesperado pelo diálogo”.

    Georgenor,
    o Judiciário paulista proibiu a Marcha durante anos, até que o STF tomasse a decisão óbvia (que, aliás, já era prevista pela Constituição Federal de 1988). Ou seja: a mesma instituição que agora mandou desocupar a reitoria já demonstrou sua mentalidade autoritária e inconstitucional em outros episódios. Temos todo direito de questionar as canetadas judiciais que lesam o interesse público, assim como fizemos na época da Marcha, quando também havia muita gente que defendia a prisão dos manifestantes com base na soberana determinação judicial.

    Abraços doi
    Guilherme

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    • Pablo Vilarnovo 11/11/2011 em 11:27 pm

      “O que a eventual opção dos estudantes pelo comunismo tem a ver com o debate? ”

      Pelo simples fato que o comunismo não permite divergência de ideias. Nem mesmo as vertentes comunistas conseguem conviver pacificamente. Trotsky que o diga. O fato da invasão à reitoria ter sido votada, e os próprios alunos terem dado um “golpe” em seus próprios companheiros diz alguma coisa não?

      “Representatividade só existe com eleição direta para reitores e diretorias departamentais.”
      Isso só vale para as universidades ou para tudo? Estudantes não possuem capacidade de votar em reitores. Como falei, seria a mesma coisa que pacientes votando em diretores de hospitais.

      “De onde você tirou essa ligação causal entre o consumo de maconha e a criminalidade?”

      De onde? Bom, vivo no Rio de Janeiro. Assisto isso da janela da minha casa.
      Sou TOTALMENTE favorável que pessoas possam plantar maconha em suas casas. Veja bem, sou liberal e tenho por mim que o Estado não deva se meter na vida de alguém que queira se drogar. Certa vez um rapaz foi preso aqui no Rio porque plantava maconha em casa para consumo. Ele falou exatamente isso, que não queria dar dinheiro para traficantes. E ele está certíssimo. Acho a melhor solução.

      Ainda não consido entender esse negócio de “desproporção de força”. O que vc queria? Um embate entre a polícia e os invasores? Um conflito? Uma briga? Pessoas feridas? Mortos? Mártires? Não dá para entender… A polícia tinha uma missão que era liberar o local dos invasores, e fez isso sem que houvesse feridos. Então qual é o problema te terem ido a quantidade de policiais suficientes?
      Qual abuso de autoridade houve? Quando aconteceu? Alguém foi preso de forma errada? Pelo que sei todos os que foram presos estavam na invasão. Qual abuso foi cometido fora a invasão do prédio?

      Abraços (doi não ;) )

      Pablo

      Responder
  3. Isaac Costa Novais 11/11/2011 em 9:50 pm

    Quando os alunos agrediram jornalistas é manifestação, protesto pacifico. Não vi nenhum estudante da ocupação da reitoria ou pessoas a favor falar algo contrário. Quando são expulsos pela PM com uma ordem judicial é truculência.

    Depende o interesse de cada. Satanizar a policia e santificar os estudantes já foi além da conta.

    Engraçado nos videos uma estudante com roupa de burguesa (nada contra os burgueses, cada tem aquilo que conquistou) falando que a policia é o braço da burguesia. Dá para entender?

    È ficou mais difícil comprar maconha mesmo pelo movimento que está sendo feito.
    Agora com a PM tem que sair fora do campus para comprar uma erva. Dá mais trabalho. è menos rentável para os traficantes Os guardas não tem poder de policia já a PM a Policia Civil e a Federal pode parar o cidadão, seu veículo, exigir documentos. è chato né??? rs.rs.rs.rs.

    Os estudantes da USP tem que se sentir honrado que tudo isso aconteça pois podem ser reconhecidos agora como qualquer cidadão, como de fato o são.

    A situação financeira tá piorando e a “empresa” tá falindo.

    Na boa. eu já fui metalúrgico e já lutei por questões muito maiores e melhores que estas e nunca precisamos de usar violência e conseguimos conquistar se ás vezes no todo e por outras parte de nossos objetivos.

    Essa parcela de alunos, professores e funcionários que tem interesses pessoais tem muito que aprender. Coisas que que a Universidade parece que não está conseguindo (pelo menos para essa parcela)

    É MUITO CHORO PARA POUCA BORRACHADA. VÃO CHORAR NA CAMA QUE É LUGAR QUENTE.

    Eu diria que alisaram os estudantes demais. Alias a operação policial de madrugada impediu a artimanha dos grupos e partidos políticos. Ah que peninha, deixa pra próxima.

    Assim como no Brasil pensão alimentícia e depositário infiel dá prisão, só tem duas coisas, tinha uma, agora tem duas, em que a sociedade fica na sua maioria a favor da policia:

    1) ESTUPRO;

    2) UMA PEQUENA PARCELA DE ESTUDANTES ENCAPUZADOS E MASCARADOS, QUERENDO MACONHA, APARECER E FAZER DESSE APREGOADO PENSAMENTO LIVRE E MANIFESTAÇÃO A PRISÃO DOS DEMAIS MEMBROS DA SOCIEDADE Á SUA VONTADE BURGUESA EGOÍSTA, ATRAVÉS DO COMETIMENTO DE CRIMES COMUNS.

    Responder
  4. Isaac Costa Novais 11/11/2011 em 10:55 pm

    FRASES HILÁRIAS

    “Com a maconha e sem a PM, a USP vai à frente”.
    “Mascarados, sem rosto e sem autoria, nós destituiremos a reitoria”
    ” Agredir jornalistas é livre manifestação, borrachada da PM cumprindo ordem judicial é repressão”
    “Não basta fumar maconha tem que manter a “empresa” no superavit”.
    “Ocupação da reitoria é lutar, fiquei o dia inteiro lá, não é porque sou burgues ou vagabundo, é porque tenho tempo livre para pensar.”
    ” Contra os intolerantes, fique com os traficantes”
    “A universidade é um lugar de análise critica, sempre dos outros, da livre expressão, da manifestação, e quem não gostar eu vou te meter mão, se duvidar, pergunte aos jornalistas”.
    “Nós estudantes temos o apoio da sociedade para essa manifestação pacifica, ordeira, democrática, com o apoio da maioria dos estudante”.
    “Vivemos um período de grandes lideres estudantis na USP que aceita manifestações contrárias e a decisão da maioria. Em toda história desta Universidade eu nunca vi tanta competência para administrar questões politicas e sociais”.
    “Se os governantes e os reitores tivessem nossa capacidade de lidar com as adversidades, como nós lideres estudantis da USP, o Brasil seria melhor e menos violento”.

    Não sei se dou risada ou choro

    Responder

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