Uma obra-prima

-- "Asterios Polyp", de David Mazzucchelli --

Em época de deslumbramentos indevidos, classificar qualquer coisa de “obra-prima” é perigoso. Uma das definições do Houaiss para a expressão é: “a mais bela obra de um artista, de uma época, de um gênero etc.; obra mestra, obra capital [...]; o que é perfeito em seu gênero”. A aplicação, aqui, cabe totalmente. E talvez vá além como “obra-prima moderna”, já que permite várias camadas de leitura – apesar da aparente simplicidade do enredo e dos traços.

Cheguei a Asterios Polyp sabendo apenas que era obra de David Mazzucchelli, o artista que estilizou e deu ares retrô ao Demolidor e ao Batman de Frank Miller nos anos 90. Adorava o traço dele nesses gibis, mas temos algo completamente diferente em Asterios. Depois fiquei sabendo que trata-se do único trabalho de Mazzucchelli desde sua quadrinização de City of Glass, de Paul Auster, em 1994. Ele ficou um tempão trabalhando em Asterios. Nota-se — a graphic novel tem 344 páginas.

O que temos, então? Um casamento perfeito entre enredo e desenho, onde um se sobrepõe ao outro, em uma dinâmica que tudo tem a ver com a história. Qual é a história? Bem, a do arquiteto e professor Asterios Polyp, arrogante em seu reconhecimento acadêmico, que chega aos 50 anos abandonado pela mulher e vítima de um incêndio que destrói o pouco que lhe resta. Ele vai tentar uma nova vida e nós, leitores, acompanhamos esse “adiante” e o passado, em flashbacks.

Asterios vê um mundo dual, característica relacionada à sua origem grega, à sua formação como arquiteto e ao estranhamento de ter perdido um irmão gêmeo durante o parto. A tensão entre razão e sentimento e o aparecimento, a contragosto, do Destino – personagem bastante grego, aliás -, aponta, para Asterios, uma vida que não se pode planejar. Ele é mestre em planejamentos: nenhum de seus projetos jamais saiu do papel, embora muitos fossem premiados. Asterios é um personagem que planeja e a vida vai ensiná-lo a não planejar.

O desenho de Mazzucchelli amplia esse drama. Assim que apanhei o volume e o folheei (eu, que trabalhei em agência de publicidade antes da era digital), percebi a composição de cores no padrão CMYK (Ciam, Magenta, Amarelo e Preto), que compõem todo o livro. É uma tecnicalidade que vai passar batido para muitos, mas é claro que não foi uma escolha despropositada de Mazzucchelli. A mim, estabelece a não-dualidade das coisas e da vida; a necessidade de um terceiro ângulo, de elementos suplementares para pintar realidades. O CYMK é uma boa metáfora para isso, já que são necessárias três cores para resultar no preto – e nem sempre a fusão funciona.

-- O autor --

Não há o círculo e o quadrado, mas também o triângulo e toda uma infinidade de composições a partir daí; não é possível ver o mundo como se existisse apenas o círculo e o quadrado. Acho, no final, que Mazzucchelli quis contar, em Asterios Polyp, que mesmo as coisas simples podem ser vistas por olhares diversos, de outros matizes, e não apenas por dois pontos de vista.

Teria ainda muito para falar sobre o livro: as excelentes personagens secundárias; as mudanças de fontes e de tipos de balões para os personagens; o narrador invisível, que é o irmão gêmeo morto de Asterios; as referências filosóficas; a sensacional edição da Cia. das Letras, impressa na China, com papel 100% reciclado…

Como obra-prima, Asterios Polyp sucita ainda outras questões para quem deseja se aprofundar na aventura do livro. O que significa, por exemplo, o nome do personagem? Pesquisei brevemente na internet, mas não encontrei a minha explicação: “Asterios” vem de asteróide, “corpo menor do sistema solar, de órbitas excêntricas”; “Polyp”, de pólipo, espécie de coral oceânico. Assim, entre o Universo e o Submarino, entre tudo o que existe e além das leis conhecidas, nada é branco e preto ou quadrado e redondo, assim como, muito provavelmente, nada está ligado a leis inalteráveis.

Também gosto de pensar que a cabeça estilizada de Asterios tenha sido baseada no logotipo da Victorinox, empresa responsável pelo canivete suíço original, que aparece na trama.

Outra característica da obra-prima, para mim, é essa: de permitir que viajemos loucamente pelas suas interpretações.

::: Asterios Polyp ::: David Mazzucchelli (trad. Daniel Pellizzari) :::
::: Companhia das Letras, 2011, 344 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

4 comentários | Dê sua opinião

  1. Gustavo Bonin 17/11/2011 em 12:52 am

    Fiquei muito curioso.
    Muito bom!

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  2. espinafranfo 17/11/2011 em 7:39 am

    CMYK! Óbvio! Estava há tempos tentando classificar o sistema de cores usado no livro e não encontrava a palavra… aqui tens minha opinião sobre Asterios: http://espinafrando.com/2011/11/dica-duca-asterios-polyp/

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  3. Alessandro 10/12/2011 em 6:48 pm

    Olá Luiz. Concordo com você, “Asterios Polyp” é mesmo uma obra-prima e,provavelmente, um dos melhores lançamentos de quadrinhos do ano. Talvez isso se deva porque além da história possibilitar várias níveis de leitura, também existe um diálogo intertextual muito interessante com muitas áreas do conhecimento humano, dentre elas, a filosofia e, os mitos gregos até mesmo como metalinguagem sobre a dificuldade da criação artística dividida sempre entre a razão e a emoção, o lógico e o irracional, a precisão e o acaso. Não sei, talvez seja “viagem” minha. O que também me impressionou bastante foi o modo de narração que pode ser definido como literário, onde se destaca o narrador em primeira pessoa ( o gêmeo, o que reforça o tema do duplo, presente em toda a obra), os personagens bem desenvolvidos que dão um baile naqueles que aparecem nos dramas de hollywood e a alternância entre dois tempos: po passado e o presente. Isso sem falar no final, que para mim é de uma grande ironia e que parece demonstrar que por mais que planejamos a vida nos escapa do controle e sempre toma um rumo imprevisível. Bom essa é a minha leitura, mas com certeza “Asterios Polyp” pode ter outras, afinal é isso que se conhece nas obras-primas não é mesmo? Abraço.

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  4. Biajoni 13/12/2011 em 11:21 am

    opa, obrigado pelos comentários, gentes.

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