Solidão a dois
por Daniel Lopes – A nova ficção de Cristovão Tezza coloca frente a frente o famoso escritor paulista Paulo Donetti e sua jovem e bela fã curitibana Beatriz. Na noite seguinte à que se conheceram – em um jantar entre Paulo, um amigo e a companheira deste, exatamente Beatriz –, Paulo aparece no apartamento da admiradora com um vinho, uma pasta de textos e uma declaração fria: “Cometi um erro emocional”.
Paulo, que estava em Curitiba apenas de passagem, resolve se estender mais um pouco na cidade, está apaixonado por Beatriz, quer que ela lhe ajude na revisão de seu novo livro e quer antes de tudo o mais abrir e tomar com ela o vinho que trouxe. Se sua estadia na capital paranaense vai mesmo durar, se vai ser bem sucedida, se o trabalho de revisão vai funcionar, não sabemos, nunca saberemos. Mas sabemos que o vinho foi tomado até o final. E só uma garrafa não bastou. Durante a noite (o romance decorre em uma única noite), outro será aberto, vindo da despensa de Beatriz.
Você pensa, “OK, lá vamos nós acompanhar conversas tenras e conversas (e oxalá atos) sacanas entre esses dois”. Mas não. Eles pouco se falam (e ainda menos se tocam). Testam um ao outro, tocam-se as mãos muito rara, leve e ligeiramente, e têm imensa dificuldade em ir além disso. Ambos são pessoas extremamente inseguras e ansiosas. Aqui está a estranha beleza dessa ficção: os personagens rememoram consigo mesmos seus passados, anseiam em compartilhar as lembranças um com o outro, mas na hora de se abrir… quase nada sai. O encontro não acabará com eles sabendo muito mais da vida um do outro, mas nós leitores sim saberemos de muita coisa, e é inevitável parar a leitura de vez em quando para tentar decidir se aquele relacionamento teria mesmo alguma chance de durar mais que uma noite, ou uma semana.
Paulo e Beatriz já experimentaram o divórcio. Paulo é um autor reconhecido, mas de vida pessoal medíocre, e guarda no histórico uma miserável inveja do amigo a quem ajudou a lançar o primeiro livro e que depois tomou luz própria; no início da adolescência, chegou a fugir de casa, mas acabou “recuperado” pelo pai, personagem que, na memória do filho, tem ares de onipotência. Beatriz perdeu o pai, a mãe e o irmão em um acidente de automóvel, enquanto empreendiam uma viagem da qual ela foi forçada a não participar devido à prova de uma matéria do curso de Letras, ministrada por uma professora amarga e carrasca; graças a essa figura deplorável, Beatriz sobreviveu. A perda da família não é o único trauma do passado de Beatriz. No de Paulo, também há um punhado, se bem que menos dramáticos. O incômodo desses ocorridos se amplifica durante a leitura, exatamente pela ânsia e ausência de comunicação entre os personagens. É de longe o livro mais sufocante de Cristovão Tezza, escritor de resto afeito a estórias desencadeadas por entradas de supetão – em Trapo, o professor aposentado que recebe à noite, em casa, a incumbência da mãe conhecida de um jovem suicida de investigar seus escritos; em O fantasma da infância, o fracassado ex-amigo que irrompe na casa do bem sucedido burocrata, ameaçando revelar para sua família os podres de seu passado comum.
Em Um erro emocional, risos, suspiros e olhares que se desligam das ações do outro são os indícios de que, se palavras não estão saindo, é certo que elas correm de um lado para outro das cabeças, evocando imagens e traçando planos. A maior parte das poucas frases ditas são banais, tolas, erráticas, constrangedoras até. Mesmo os pensamentos são por vezes cortados, atropelados por outros mais prementes. Momentos-chave do passado e momentos estáticos do presente revezam-se na narrativa. O ponto de vista salta o tempo todo de um personagem para outro.
Sabem Esperando Godot? Pois é. No texto de Tezza é como se Paulo estivesse esperando Beatriz, e vice-versa, e como se nenhum jamais aparecerá. Pensamos, “Que comportamento esdrúxulo, o desses dois!” Mas talvez não. É como se primeiro eventos fundamentais do passado precisassem ser recordados, elaborados e remoídos em solidão antes que as vidas presentes pudessem ser retomadas e talvez entrelaçadas naquela noite, naquele apartamento. Ora, será que não é isso o que todos nós fazemos quando imaginamos estar prestes a se engajar com alguém especial em uma relação com chances de durar por muito tempo? Apenas, nunca sentimos a pressão de ter que passar por todo o processo em uma noite só, e ainda por cima na presença desse alguém. Então, apesar de tudo, pode ser que Beatriz e Paulo estejam menos perdidos do que imaginam.
::: Um erro emocional ::: Cristovão Tezza ::: Record, 2010, 192 páginas :::
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Estava pensando em comprar esse livro. Sua resenha foi o empurrãozinho
Bravo, Daniel! Estou na metade do livro e foi ótimo ler a sua análise, perfeita. É tudo o que eu vinha sentindo, mas incapaz de traduzir em palavras, além de chamar a minha atenção para pontos que me eram obscuros. Abraços
Li na revista CULT algo sobre o livro. Vc já deu uma olhada?
Fiquei curiosa. Acho que vou ter que ler esse livro. Beijo
Oi, Adriana. Li agora. Discordo da avaliação do Alcir. Mas fica aqui o link pra quem quiser ler um contraponto à minha resenha: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/11/jantar-de-frases-feitas/
Abs!
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Ainda não prossegui a leitura de Um Erro Emocional, cujo autor conheci no lançamento do livro em Curitiba-PR, em 21-10-10. Quando li seu O Filho Eterno, fiz um breve comentário sobre o livro: Fazer novas referências sobre um texto já sobejamente festejado talvez seja redundância. De qualquer modo, todo leitor tem seu próprio olhar sobre uma peça escrita, o que justificaria uma nova apreciação do texto.
Surpreendi-me com a qualidade literária dessa obra de Cristóvão Tezza. Tem-se aqui um escritor que não se socorre de artifícios baratos. Embora escrevendo sobre uma história pessoal até pungente, ele passa ao largo da pieguice e dos apelos emocionais. A conquista do leitor vem do bom uso da linguagem, da riqueza do vocabulário, da propriedade de suas palavras, como também de sua capacidade de olhar, identificar, sentir e descrever um drama humano e pessoal, mas sem choro e com precisão, sensibilidade e clareza.
O enriquecimento que faz ao texto com inserções discretas e muito apropriadas de obras e autores muito caros ao patrimônio cultural é mais um atributo de sua escrita. Sua concisão, sutileza e a precisão do pensamento impressionam o leitor. De tal forma que os longos períodos utilizados, que pareceriam incômodos ao leitor pouco atento, nem chegam a perturbar a leitura, graças à compensação da qualidade do conteúdo. Semelhantemente, o grande número de expressões entre parênteses, que poderiam integrar-se ao próprio texto, não ocasionam também qualquer transtorno ao leitor. Ademais, cada escritor tem seu estilo.
Diferente de seu livro Aventuras Provisórias, que foi retirado de uma escola em Santa Catarina sob a alegação de que o texto conteria expressões chulas, palavreado impróprio e que banalizaria o sexo, nesse, O Filho Eterno, a linguagem é sóbria. Quem leu o livro logo reconhece que os muitos prêmios outorgados ao autor, como também os elogios na capa, são legítimos.
Assis Utsch (autor de O Garoto Que Queria Ser Deus)
Querido, em “Trapo” não é a mãe dele que leva os escritos para o professor Manuel…é Izolda, a dona da pensão onde Trapo vivia depois de ter deixado a casa dos pais.
Verdade, Giovana. Já corrigi no texto. Obrigado.