O caso Jabuti

por Guilherme Scalzilli - Comentando a polêmica suscitada pela premiação do último Jabuti, o professor Idelber Avelar indicou a leitura de seu ensaio “Cânone literário e valor estético: notas sobre um debate de nosso tempo”. As conclusões do texto parecem-me irrefutáveis, mas talvez não bastem para analisarmos o episódio em questão.
Idelber ensina que a apreciação da literatura (inclusive a distribuição de prêmios) obedece a repertórios de valores determinados histórica e economicamente. Em vez de imanentes e universais, eles são “contingentes”. Contudo, se não interpretei errado, o autor se baseia na premissa de que os valores que produzem cânones e consagrações críticas, mesmo quando artificiais e exteriores, sempre se manifestam através de discursos “competentes”, aceitos no contexto do universo avaliador. Em outras palavras: quando um jurado vota num livro por causa de sua grife editorial, ele imagina partir de uma motivação estética ou, no máximo, biográfica (mas de base artística).
Acontece que o pacto valorativo que rege os círculos legitimadores da literatura brasileira vem sendo cada vez mais dominado por influências alheias à apreciação especificamente “literária” das obras. Não sei se a “contingência valorativa” explicaria sozinha por que os maiores prêmios literários do país consagram, todo ano, as mesmas três ou quatro casas editoriais, e exatamente aquelas com maior visibilidade midiática. Será que os jurados desses concursos milionários guardam qualquer prurido a respeito? Eles de fato ultrapassam as primeiras dez páginas das edições de autor que lhe chegam às mãos, ou dos livros escritos por concorrentes anônimos? E depois se sentem mesmo constrangidos a pinçar argumentos subjetivos para iluminar a qualidade das obras premiadas?
Ninguém precisa conhecer toda a vastíssima literatura brasileira contemporânea para suspeitar que nem Leite derramado (Chico Buarque), nem Se eu fechar os olhos agora (Edney Silvestre) merecem disputar um prêmio referencial e consagrador como o Jabuti. São ótimos livros, mas dificilmente os “melhores” publicados no país em 2009/10. Transpor a análise de Idelber para o caso implicaria em ver nele uma simples questão de criteriologia. Apesar dos esforços contrários do autor, seria mesmo como utilizar certo pendor relativista para absolver qualquer absurdo interpretativo: pobre júri, tão condicionado, não sabe o que faz…
Por fim, cabe apontar um incômodo menor, mas também relevante. A crença na inevitabilidade da “contingência valorativa” ajuda a propagar o mito da posteridade consoladora, abraçado por muitos jovens escritores e por gente que (como este humilde escriba) convive há anos com o silêncio de críticos, editoras e concursos. “Escreva: o reconhecimento vem por acréscimo”, sintetiza Idelber no post referido. Mas será que devemos nos contentar com tal… axioma?
Como escritor que só faz labutar contra a (e apesar da) irrelevância do reconhecimento público, afirmo que também esta ideia é condicionada. Claro, quem já recebeu os devidos prêmios pode facilmente relativizar a importância deles. Já o autor que edita a si mesmo e depende apenas do crivo de algum júri renomado para alavancar sua carreira valoriza bastante uma simples menção honrosa. O mesmo serve para inclusões em coletâneas e antologias, entrevistas e outras aparições midiáticas.
Admitir o caráter contingente da apreciação artística não nos impede de questioná-la e muito menos de lutar por um espaço na festa dos jubileus mundanos.

Scalzilli, eu até já desisti de ter minha carreira alavancada por prêmios literários. A esperança é que alguns bons leitores consigam me descobrir e anunciar a boa nova aos demais. Pena que os leitores estejam em extinção.
Prezado Guilherme,
Só posso aderir à sua indgnação. E acho que a polêmica gerada pela premiação do Jabuti deveria ser mais explorada. Falta-nos, creio, pensamento histórico crítico que permita uma visualização descritiva mais voraz dos mecanismos de legitimação dos escritores no Brasil.
O texto do Idelber explora a perspectiva da legitimação, mas o faz do ponto de vista que cabe a ele refletir. Uma reflexão que radicalize as lógicas sociais ocultadas no e pelo aparato crítico de avaliação do “valor artistico” das obras só pode ser solicitada em momentos como esse, e por pessoas como você, implicadas pelos mecanismos injustos presentes nos jubileus mundanos. É legítimo pedir das instituições consagradoras que se munam sempre dos critérios próprios do universo que elas ajudam a edificar, no caso aqui, o da literatura. Exigir mais clareza nos critérios de julgamento artístico: não vejo nada mais legítimo da parte dos escritores não contemplados. Isso não implica nenhuma exigência de positividade valorativa, creio eu.
Fiz recentemente um trabalho sobre Graciliano Ramos no qual perguntava-me como ele havia conseguido se transformar em um escritor tão legitimado, símbolo histórico de toda uma literatura brasileira. E me impressiona o quanto desconhecemos dos elementos mais elementares do processo de legitimação de uma obra das mais importantes de nossa literatura. Das razões da publicação de seu primeiro romance, a consagração nacional com Angústia (tendo sempre o Rio de Janeiro como o lugar onde o “regional” se torna “nacional”), tudo é ainda explicado de maneira intuitiva, como se a força imanente da obra por ela mesma explicasse todo o resto.
Temos muito pela frente…
é refletir e debater.
Aliás, futuramente haverá muitas pessoas questionando como é que o Chico Buarque não ganhou o Jabuti por Benjamin, ao invés do questionamento atual de como ele ganhou pelos outros três romances.
Muito se falou e ainda se fala das disputas do Prêmio Jabuti, Edney Silvestre, Chico Buarque, outros livros e escritores, etc. Com a autoridade de quem leu Estorvo, Budapeste e Benjamim, livros de Chico Buarque, e também leu Se Eu Fechar os Olhos Agora, do jornalista Edney Silvestre, sinto-me à vontade para defender que este não possui a densidade literária daquele.
Não vou negar que o livro do Edney é muito bom, bem escrito e interessante. O que vejo, porém, talvez até por se tratar da primeira ficção do competente e talentosíssimo jornalista, é que a mesma se perde um pouco em alongamentos, repetições. De qualquer modo, inclusive porque sempre tento observar o lado positivo de tudo, nego-me a apontar defeitos em quem quer que seja.
O que quero ressaltar, embora não tenha lido a obra Leite Derramado, é a excepcionalidade do escritor Chico Buarque. Em termos de densidade literária, observando o parâmetro atual da literatura nacional, Chico acompanha Carlos Heitor Cony nas melhores competências, podendo figurar nas melhores indicações literárias mundiais. Eis aí, sem dúvidas, dois gigantes das letras.
Quem quiser saber um pouco mais o Chico Buarque escritor, pode acessar uma resenha minha, à página 19, no seguinte link:
http://recantodasletras.uol.com.br/e-livros/2598548
Valeu Chico.