Entrevista com João Tordo na Fliporto 2010

por Vanessa Souza – A Fliporto 2010 (VI Festa Literária Internacional de Pernambuco) foi puro deleite. Com Clarice Lispector como escritora homenageada, seria difícil não ser um grande evento. Fui predisposta a adorar, de antemão, a conferência dos biógrafos da Clarice, Benjamin Moser e Nadia Batella Gotlib. Também imaginava que ia gostar muito de ver e ouvir Ricardo Piglia, Teresa Montero, Tatiana Salem Levy, Contardo Calligaris, entre outros favoritos que já havia lido. Assistir o monólogo sobre Lispector, apresentado por Beth Goulart… Não é possível verbalizar as emoções que ele suscita no espectador.

Tive duas gratas surpresas na festa. A primeira foi a mesa literária de Alceu Valença, intitulada “A poesia no coração da música (e vice-versa)”. Valença está em fase final de gravação do filme A luneta do tempo, com roteiro escrito em versos. Quem conhece melhor a obra do poeta-cantor poderia já saber disso, óbvio ululante. No entanto, eu até então não sabia que ele é grande leitor de Pessoa, Quintana, Drummond, Bandeira… E fui fisgada pelos seus poemas, histórias e simpatia. Ainda hei de ler todas as letras no site dele.

A segunda surpresa da Fliporto foi uma mesa chamada “As nossas ficções de cada dia”, que contou com Ronaldo Wrobel, Contardo Calligaris e o português João Tordo. Eu nunca havia lido nada do Tordo, fui mesmo para ver o Calligaris. Contudo, o agitado português tomou muito mais minha atenção do que o psicanalista – de quem possuo as obras completas. Autor de quatro romances, sendo que o último deles, As três vidas, foi ganhador do prêmio literário José Saramago de 2009. Sem ter lido nenhuma linha do que Tordo escreveu, conversei com ele sobre suas declarações, após a mesa.

Amálgama: “Meus amigos ficam prejudicados porque vão virar personagens. Não vão virar personagens… Já viraram. (…) Gosto que meus livros sejam uma confusão entre minha vida pessoal e a ficção”. São suas palavras, fale sobre isso.
João Tordo: Essa é uma onda narrativa que tem origem no pós-moderno. Tanto escritores espanhóis quanto portugueses estão usando isso hoje em dia.Você faz ficções que são mais reais do que a vida real. Então você faz ali um jogo que tem a ver com a pessoa que te lê, mas aquele personagem que te conta a história é o autor. Por exemplo, nos meus romances eu nunca dou nome à pessoa que narra a história. Nunca tem nome. Ao fim de quatro romances, as pessoas começam a pensar que aquele personagem sou eu. Apesar de nunca ser eu…

Porque não nomear o personagem narrador?
Se você não nomeia, quem lê o livro vai assumir que aquelas coisas todas de fato se passaram a um tipo, que pode ser o autor. Esta é uma confusão entre ficção e realidade que eu gosto muito. Javier Cercas, que escreveu vários romances fantásticos, entre eles Soldados de Salaminas, faz a mesma coisa: se põe a si próprio na história. Tem romances que ele põe seu próprio nome no personagem. É uma espécie de meta-ficção em que você faz não como um jogo lúdico, mas como uma maneira de abrir aquilo para você. E constrói-se uma mitologia em volta de si mesmo, mas nunca sou eu. Eu tendo sempre a escrever sobre lugares onde de fato estive. Eu preciso ter uma memória visual dos sítios para escrever acerca deles. Agora, as coisas que se passam nesses lugares são obviamente ficcionadas.

E os amigos que viram personagens?
Você constrói os seus personagens que, ao fim de um certo tempo, são seus amigos, quase. E eu faço uma coisa nos meus livros: os personagens do primeiro romance ainda estão entrando no quarto livro. Elas trocam de livro para livro porque eu penso que os personagens não se esgotam num só livro. Então eles vão reaparecendo, são quase como pessoas reais neste mundo fictício. Esses personagens têm nome, e tenho com eles uma relação forte de amizade. O que parece uma coisa um pouco esquizofrênica. Mas o escritor é um pouco esquizofrênico. Nesse mundo ficcional, penso que o livro vai ficando mais forte, mais sólido, e acho que quando eu escrever meu trigésimo livro, ainda vai ter personagens que moram no meu quarto. Eles não se esgotam e por vezes aparecem nas situações menos esperadas. Eu começo a escrever a obra, e não conto que os personagens X ou Y possam estar nesta obra. E de repente, eu fecho a porta e eles entram pela janela.

Eles invadem.
Dá muito prazer quando se é surpreendido pelos seus próprios personagens e suas próprias motivações.

“O coração é mais objetivo porque ele sabe o que quer, ele é mais honesto”, você disse há uma hora. E o coração lá sabe o que quer?
Não é fácil desenvolver isso, não sei… Eu acho que as pessoas tendem a pensar, pois a questão desta frase é se o coração, ou a razão, tem mais influência nas coisas que você faz. Eu acho que a razão, ela própria, é objeto de fé. Você tem que acreditar a si próprio, ou tem que ter uma crença forte na sua racionalidade para existir todos os dias. E quando a razão se torna objeto de fé, deixa de ser razão. Razão deve ser racional. Acho que esta fé, que nasce de dentro das suas emoções, do seu coração, é muito mais forte. Então o coração é objetivo, porque não te mente. E a sua razão está sempre te tentando enganar. É um pouco aquela coisa de Descartes, você duvida que duvida que duvida. Puramente racional. Seu coração nunca faz isso. Penso que os livros, os romances, têm que partir sobretudo de um ponto de vista emocional, e não racional.

Você comparou um livro a um filho a nascer…
Para poder escrever um romance ano a ano, eu tenho que fazer outros trabalhos também, sou roteirista e tradutor. Eu guardo cerca de três a quatro meses do ano só para tentar escrever um romance.

Você leva de três a quatro meses para escrever um romance? Perdoe o espanto, mas alguns escritores levam anos.
Não, eu guardo esse tempo para escrever o romance. A massa bruta desse livro fica pronta em três ou quatro meses. E depois, o processo que vem a seguir, demora outros cinco meses. Então é quase como se fosse um parto. Nascem de um desejo interior de falar alguma coisa acerca da sua vida, e dar respostas a uma série de questões pelas quais você só encontra resposta quando escreve. Em três meses é a versão inicial que vai para o editor, ele dá conselhos, sugestões etc., e depois eu vou reescrevendo com calma. Mas a versão inicial eu tenho que fazer toda de uma vez. Por isso me fecho em casa e naqueles meses só escrevo: não atendo telefones, não saio, não faço nada, só escrevo o romance. É um método como outro qualquer.

Você disse que não compreender é mais interessante. Como assim?
Seria muito bom compreender tudo, o problema é que você não compreende. E é um pouco por isso que as pessoas colocam as questões que se colocam, fazem livros, música, pintura… Todas as artes servem um pouco para você tentar compreender esta coisa que você não compreende. E a relação com as outras pessoas é a mais complexa de todas. Você nunca chega realmente a conhecer ninguém. E nos seus livros você tem a vantagem de, sendo você todos os seus personagens, você entende um pouco melhor como elas funcionam, do que as pessoas na vida real. Tem essa vantagem. Mas mesmo assim, eu acho toda a literatura um processo infindável de não compreensão. Que é uma coisa um pouco bruta, mas é verdade.

Quando te perguntaram se não dá para fugir da autobiografia, você respondeu que é possível escrevendo na terceira pessoa.
A terceira pessoa cria um distanciamento. Você pode ter na cabeça todos os seus personagens e jogar o teu teatro: sabe o que cada personagem pensa, para onde ele vai, suas motivações para aquela história… Quando você escreve na primeira pessoa, a única pessoa que conhece é a pessoa que narra a história. Todos os outros personagens são um mistério para quem conta aquela história. Nesse sentido, se você quer se afastar um pouco desse foco de luz, escreve na terceira pessoa e cria essa distância.

E você não quer se afastar?
Não.

Você disse que só começou a escrever romances “quando tinha alguma experiência de vida, quando havia mundo suficiente de histórias para contar”.
Foi um processo simples. Sou de Lisboa, de uma família de classe média alta, tive uma infância protegida e normal. Lisboa é pequena, Portugal não é um país que aconteça muita coisa. Apesar de eu gostar muito do meu país e da minha cidade, mas de fato não se passa muita coisa. E eu senti aquela necessidade das pessoas que são mais protegidas: de partir para o mundo e de tentar enfrentar todos os problemas que você só enfrenta quando se predispõe a ir para a aventura. E aquele anonimato que te trazem estas cidades, como Londres ou New York, onde vivi. É um anonimato bom para quem cresceu de forma segura. E acho que meu gênero de livros parte muito da insegurança, eu coloco os personagens sempre em conflitos que eles não estão esperando. Estes são os conflitos que eu fui aprendendo a combater quando saí de Portugal e me fiz homem, foi um processo de levar porrada.

*

LIVROS DE JOÃO TORDO QUE SAÍRAM NO BRASIL
O livro dos homens sem luz (Rocco, 2006)
As três vidas (Língua Geral, 2010)

6 comentários | Dê sua opinião

  1. Nadine 18/11/2010 em 8:23 am

    Uma delícia ler suas entrevistas e matérias!
    Sempre consegue despertar curiosidades mil ;)

    Grande abraço!

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  2. Dário B. 18/11/2010 em 10:58 am

    Me deu vontade de ler os escritos do João. A recorrencia dos personagens me lembrou Balzac, em sua Comédia Humana. Mas gostei sobremaneira da frase sobre a honestidade do coração em contraposição a razão, muito boa mesmo. Um abraço e obrigado, Vanessa.

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  3. Yanê 18/11/2010 em 3:11 pm

    Vanessa,

    gostaria de lhe presentear com uma coletânea de músicas de Alceu que carregam nitidamente as influências literárias do compositor. Assim, você pode curtir as melodias e se deliciar com as letras.
    Bj,
    Yanê

    Responder
    • Vanessa Souza 19/11/2010 em 5:13 pm

      Obrigada, Yanê.
      Mandei um e-mail para você com meu endereço.
      Beijo,
      Vanessa

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  4. elizabeth guttler 18/11/2010 em 5:35 pm

    ja li as tres vidas e um lindo livro cheiode misterio e que prende a gente ate o final tb conheci joao tordo vendo uma entrevista numa tv portuguesa so tenho pena de nao ter comprado logo o ultimo livro o que lançou agora em setembro em portugal talvez demore para chegar aqui

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  5. Glorinha Leão 16/07/2011 em 10:40 pm

    Oi Vanessa, descobri esse seu outro blog procurando por novos autores portugueses. Adorei! Fiquei louca pra ler os livros do João, abraço,

    Responder

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