Fuga dos Andes

-- "Fuga dos Andes", de José Antonio Pedriali --

por Camila PavanelliFuga dos Andes, primeiro romance do jornalista José Antonio Pedriali, é um livro ambicioso: narra uma história de amor entre um jornalista brasileiro e uma misteriosa estudante universitária peruana, ocorrida em meio aos primeiros anos da Guerra Popular travada no Peru entre o Sendero Luminoso e as forças do Estado. Para quem, como eu até poucos meses atrás, associa o Peru apenas e tão-somente a Vargas Llosa, pisco e ceviche, não necessariamente nesta ordem, leia isso. Ou então eu resumo o conflito – mas depois não vá dizer que fui simplista – rapidamente em uma frase: ele foi iniciado pelo Partido Comunista Peruano Sendero Luminoso, que, sob o pretexto de derrotar o Estado, usou sistematicamente de ações de extrema violência contra a população civil (principalmente camponeses andinos pobres); o Estado, chamado a defender-se, usou sistematicamente de ações de extrema violência contra a população civil (principalmente camponeses andinos pobres). Não, leitor, eu não usei o ctril+c/ctrl+v na hora errada. Saldo final: 70 mil mortos.

O romance é ambicioso porque, além de narrar uma história de amor entre personagens envolvidos no conflito – o jornalista que foi ao Peru para cobri-lo e, bem, ganha um ceviche quem adivinhar a qual organização política terrorista pertence a misteriosa peruana por quem ele se apaixona -, apresenta também os pontos de vista de um menino transformado em combatente senderista, um detetive e um camponês andino. Mais do que uma história romântica com pingos de aventura, portanto, há uma clara tentativa de fazer jus à complexidade política do conflito, através dos pontos de vista de seus principais atores.

Pessoalmente, nutro um grande interesse por este conflito, tanto que pensei em iniciar esta resenha por considerações mais detidas a seu respeito. O que me demoveu da ideia foi justamente o primeiro dado que me saltou aos olhos lendo o romance: a quantidade enorme de explicações. Didáticas. Corretas. Nas primeiras quarenta e poucas páginas, abundam definições de coisas e conceitos variados do mundo peruano e andino, tais como: puchero, soroche, chompa, alpaca, lhama, puna, charango, sillar, salteña, ceviche. Mais do que despertar a minha curiosidade para este universo, tantas explicações suscitaram uma pergunta: afinal, em que lugar este livro está me colocando? Ele me trata como aluna ou como leitora de ficção?

Mal sabia eu, naquelas primeiras páginas, que as explicações que me incomodaram estariam entre as melhores coisas que o livro iria me proporcionar. Em outras palavras: o livro é um romance, e deve ser julgado como tal; concluída sua leitura, porém, percebo que seus aspectos não-ficcionais foram o que de melhor nele pude aproveitar.

Fuga dos Andes não é um bom romance, sob nenhuma das duas perspectivas a partir das quais irei analisá-lo: ele fracassa como “alta” e como “baixa” literatura. Como felizmente isto não é um texto acadêmico e posso me dar certas liberdades, vou definir as literaturas “alta” e “baixa” segundo critérios pragmáticos e mesquinhos: alta literatura é aquela que você leva debaixo do braço para o café do Espaço Unibanco, divulga na sua listinha de livros preferidos do Facebook e faz questão de contar que leu para todos os seus amigos; já a baixa literatura está representada por aquele primeiro livro que você começa a ler nas férias de uma sentada só, quando tudo o que você quer é desanuviar do trabalho e da vida com movimentadas histórias de amor e de ação, mas justo esse livro você “esquece” de citar no seu top 10 particular. De um ponto de vista acadêmico, e brincando de formalista russa, poder-se-ia dizer que a baixa literatura é aquela preocupada com a mensagem (que possa, de preferência, ser transformada num blockbuster de Hollywood), e a alta é a que se preocupa com o meio (quando a linguagem é o que importa, isto é, quando se pode – ou mesmo se deve – inverter a relação figura-fundo estabelecida entre conteúdo e forma).

Como alta literatura, teríamos que comparar Fuga dos Andes aos grandes romances do boom latino-americano no qual se espelha, através de técnicas como fragmentação narrativa, quebra da linearidade temporal e multiplicidade de perspectivas e vozes narrativas. O romance tem um bom ritmo, alternando entre os pontos de vista de todos os personagens; estes, porém, são desprovidos de profundidade psicológica, o que torna tudo bem menos interessante. À parte um certo tom monótono e repetitivo na voz do narrador camponês (único relato mais extenso em primeira pessoa), permeado de longas frases recheadas de orações coordenadas e subordinadas, o narrador em terceira pessoa não consegue delimitar e transmitir a especificidade da experiência dos personagens, tornando-os todos igualmente rasos e caricaturais. Assim, temos o menino que passa de criança pobre a terrorista do Sendero, seduzido pelo poder que a organização lhe confere; temos a bela mocinha cuja infância destruída pelo governo peruano determinou sua adesão à organização; temos o jornalista bom-moço pronto para virar heroi a qualquer instante – e não é dada a nenhum desses personagens a possibilidade de se deslocar um milímetro que seja dos estereótipos onde estão aprisionados.

Pior: há momentos de uma pieguice que seria profundamente constrangedora se não fosse involuntariamente cômica:

- Outros partirão, não tenha pressa – consolou-o Beatriz, que, como Humberto, se sentia inebriada pela luminosidade da lua que perpassava seus corpos e os elevava a uma dimensão imaterial. (p. 72)

Baixou a cabeça, fechou os olhos e protegeu com as mãos sua virilidade. (p. 224)

Cavou com a ponta do bastão ao lado da sepultura, depositando a semente de cedro no sulco que abrira. Suas lágrimas caíram sobre a pequena cova (…) (p. 374)

Dentre estereótipos e pieguices, salva-se uma boa imagem: a do camponês assassinado que era enterrado por sua família e desenterrado pelo Sendero dia após dia, numa bela e concreta metáfora da impossibilidade de se levar a termo o processo de luto em condições de violência extrema.

Mas Fuga nos Andes poderia ser um excelente roteiro de filme de ação – estamos adentrando aqui o terreno da baixa literatura -, pois tem um bom ritmo e, do meio para o fim, narra basicamente, como indica o título, uma grande perseguição policial. O problema é que toda esta ação é involuntariamente brechtiana, isto é, o leitor tem acesso aos bastidores da construção da narrativa quando deveria apenas ser conduzido por ela. Segue apenas um exemplo sem grandes spoilers para os futuros leitores do livro: há uma perseguição dos grupos A e B, cada qual com seus objetivos, ao grupo C. O grupo B está um passo à frente, pois tem um agente infiltrado no grupo A e sabe, portanto, quando seu oponente agirá. Cabe ao grupo B, portanto, agir antes do grupo A. Mas o que faz o grupo B? Deixa para depois, arriscando deliberadamente ser superado pelo grupo A. O objetivo do grupo B, ao deixar para depois, não é surpreender o grupo A. O objetivo do grupo B é nenhum, ou melhor: é deixar a história mais emocionante, porque assim os dois grupos agirão bem na mesma hora. E quando o leitor pensa “olha aqui o autor tentando deixar a história mais emocionante” em vez de “olha aqui a história ficando mais emocionante”, é porque o microfone aéreo apareceu na edição final do filme.

Isto posto, passemos ao que mais me agradou no livro: sua dimensão didática e explicativa. Não digo as explicações sobre charangos e salteñas, mas sua árdua tentativa de representar cuidadosamente os grupos envolvidos na Guerra Popular, expondo suas motivações, contradições e, sobretudo, a violência desmedida de todos os lados. O autor acerta especialmente ao não incorrer na tentação fácil de apresentar os camponeses como (apenas) indefesos e inocentes, registrando tanto a violência a que foram submetidos como também a que inflingiram a seus próprios irmãos. Por outro lado, a violência disseminada pelo Sendero Luminoso é privilegiada no livro àquela perpetrada pelas forças do Estado: é apenas no último capítulo, que menciona o relatório da Comissão de Verdade e Reconciliação, que ficamos sabendo que os policiais e militares foram responsáveis por aproximadamente 50% das mortes ocorridas ao longo da Guerra. Em Fuga dos Andes, mais de um personagem menciona a violência policial ou militar em pé de igualdade com a violência senderista (“fomos mortos pelos guerrilheiros terrucos de merda, pelos militares assassinos ou por nossos vizinhos rondeiros”, p. 388); no entanto, todas as cenas de violência descritas em riqueza de detalhes são obra do Sendero. A grande cena de violência protagonizada pelos policiais se dá quando esmurram e humilham o personagem principal, deixando-o ir embora logo depois; trata-se de uma cena forte, sem dúvida, mas que vira uma inocente brincadeirinha se comparada com os cérebros explodidos e tripas reviradas pelo Sendero capítulo após capítulo. Ao fim e ao cabo, o leitor estaria justificado em sair do livro com a impressão de que os policiais e militares peruanos são de fato escrotos, corruptos e violentos, mas que tudo isso foi pouco – e talvez até necessário – no combate de um mal muito maior.

Vale notar, também, uma ausência muito marcante no livro: o ano é 1983 e o personagem principal da história, o jornalista Humberto Morabito, é brasileiro. Seria de se esperar que, vivendo numa ditadura com um amplo histórico de extermínio e tortura de grupos guerrilheiros de esquerda, o jornalista estabelecesse alguma comparação, alguma relação – tivesse uma lembrancinha só que fosse – entre as realidades peruana e brasileira. O Brasil, no entanto, passa longe da experiência deste brasileiro, fazendo-se presente no romance apenas via O Estado de S. Paulo, para o qual Humberto envia suas reportagens.

De todos as formas, trata-se de uma obra claramente comprometida em dar uma visão detalhada e rica do conflito, que me parece, nesse sentido, uma boa introdução a quem deseja se aproximar do tema em lingua portuguesa.

Saldo final da leitura: se algum dia Pedriali escrever uma detalhada obra jornalística sobre a Guerra Popular Peruana, tema que conhece profundamente, eu a lerei com prazer.

Até lá, no entanto, pretendo manter distância de eventuais incursões suas pela literatura.

::: Fuga dos Andes ::: José Antonio Pedriali ::: Record, 2009, 400 páginas :::
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7 comentários | Dê sua opinião

  1. caio paoliello 08/11/2010 em 2:30 pm

    Discordo da análise da senhora Camila, pois Fuga dos Andes é um dos livros melhor construídos, curiosos e emocionantes que li nos últimos anos. É de fato uma aula sobre o Peru e o conturbado período de atuação do Sendero Luminos, mas é também uma obra literária de porte. Emotivo, carregado de suspense desde o início, Fuga dos Andes, uma mescla primorosa de realidade e ficção, é surpreendente – e mais emotivo ainda – no final. Ao contrário do que diz a senhora Camila (para ficar apenas nesse caso entre tantas falhas que ela comete), o mais sangrento caso de violência contido na na obra é praticado por soldados, que arrancam com baioneta o bebê da gestante recém-enforcada. A violência de ambos os lados, do Sendero e do Estado, foi apresentada com equilíbrio. As quatro narrativas, neste ponto a senhora Camila acertou, mostram a realidade peruana sob perspectivas diferentes e, ao se fundirem na segunda metade do livro, proporcionam os momentos de maior suspenseo. A meu ver, e nisso também contrario a articulista, o monólogo do indígena é o melhor momento do livro, pois retrata a essência da alma andina. E discordo também da articulista quando ela critica o autor por não ter feito paralelos entre a realidade peruana e brasileira: o livro, em primeiro lugar, é ambientado no Peru e, em segundo – e talvez mais importante – não há como fazer essa comparação com dois países tão diferentes, cultural, geografia e politicamente.
    Obrigado pela oportunidade de me manifestar.
    Caio Paoliello

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  2. otavio pfau 08/11/2010 em 10:39 pm

    “Para quem, como eu até poucos meses atrás, associa o Peru apenas e tão-somente a Vargas Llosa, pisco e ceviche…”

    Como alguém que se apresenta assim pode comentar um livro tão profundo e complexo como Fuga dos Andes?
    Por favor, Amálgama, que pretende ser um site sério, não teria alguém mais capacitado para expressar sua opinião?

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  3. regina franco 09/11/2010 em 7:46 pm

    Fuga dos Andes, de José Pedriali: não é possível que a Camila esteja se referindo ao mesmo livro que li e do mesmo autor. São duas visões completamente opostas. Amei o livro! Chorei com o livro! Odiei (a violência) com o livro! Torci com o livro! Aprendi com o livro! Não, sinceramente não: ela não leu o mesmo livro que eu. Não e não.

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  4. daniel balboa 10/11/2010 em 8:59 pm

    recomendo a camila pavanelli que releia o livro, sem estereótipos que orientem sua interpretação. quando li sua análise levei um susto, e concordo com regina franco: será que ela está falando do mesmo fuga dos andes do mesmo josé pedrialli? meu deus, acho que ela é senderista… só pode ser.

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  5. peter pegoraro 12/11/2010 em 10:08 pm

    genial
    fuga dos andes é uma síntese de estilos, autores e narrativas da literatura latinoamericana.

    é uma obra de arte, um thriller, uma incrível aventura no peru conturbado pelo sendero luminoso.

    humberto, o protagonista, se envolve com beatriz – e a história de amor de ambos é de uma dramaticidade pungente. e as peripécias de humberto para investigar o procedimento dos guerrilheiros do sendero é uma lição de jornalismo investigativo.

    e o mais incrível: o autor é brasileiro!

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  6. antonio soares lobo 15/11/2010 em 10:22 am

    Sou solidário aos leitores que se manifestaram em defesa de Fuga dos Andes, que consegue sensibilizar, empolgar e enternecer apesar de o fundo de pano ser a extrema violência desencadeada pelo Sendero Luminoso. O livro é muito bem construído, apresentando quatro tramas paralelas, das quais, para mim, a mais expressiva do universo andino é justamente o monólogo do camponês de Uchuraccay, povoado em torno do qual as demais tramas se desenvolvem. As frases empregadas pelo camponês são longas, há repetições – e estas tem, a meu ver, a clara finalidade de não permitir que o leitor se perca em meio a tantos acontecimentos e situações – e o vocabulário é diferenciado, justamente porque o autor reproduz o universo cultural desses homens e mulheres abandonados pela história. Numa coisa estou de acordo com Camila: Fuga dos Andes é um livro didático.

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  7. gumercindo saraiva bispo 20/11/2010 em 4:22 pm

    Fui apresentado a Fuga dos Andes pelo premiado Domingos Pellegrini na Gazeta do Povo, de Curitiba. E endosso, de cabo a rabo, a visão dele sobre o livro. Ei-lo:

    Romance latino-americano e redentor

    Domingos Pellegrini, especial para a Gazeta do Povo

    Londrina – Não é novidade o surgimento de um novo romancista, mas certamente é se ele tem 53 anos e o romance, além de maduro, mostra mão de mestre. O londrinense José Antonio Pedriali publicou em 1985 seu primeiro e até há pouco único livro, o memorialista Guerreiros da Virgem, sobre sua passagem pela organização Tradição, Família e Propriedade, a TFP. Agora, como para se vingar do atraso, o romance Fuga dos Andes é tocado com fineza narrativa e madureza política, a indicar uma evolução não só do escritor como do próprio romance latino-mericano, que se tornou gênero distinto com Mario Vargas Llosa, Gabriel Garcia Márquez e Manuel Scorza, entre outros.

    Como esses mestres, Pedriali arrisca-se na política, enfiando-se nas entranhas da organização peruana guerrilheira Sendero Luminoso e, ao mesmo tempo, na rede de informantes policiais montada para desarticular a organização. O conhecimento do au­­tor, num e noutro mundo desses mundos paralelos, é muito convincente e envolvente, evidenciando a expertise de quem foi repórter do jornal O Estado de S. Paulo, no Peru, no auge do senderismo.

    Permeando o confronto entre o delírio ideológico dos senderistas e a esperteza fria dos policiais, vai também sendo traçado, com lirismo delicado e envolvente, o caso de amor entre o repórter protagonista e uma líder guerrilheira arrependida dos desmandos senderistas.

    É uma receita propícia para deslises narrativos, que Pedriali supera com admirável competência, manejando a linguagem com criatividade, sempre roçando na poesia sem perder o fôlego narrativo. Essa receita é enriquecida pela in­­serção de notícias, corroborando fa­­tos verídicos (o romance parte, por exemplo, do assassinato equivocado de oito jornalistas por camponeses, que julgavam estar ma­­tando senderistas que infernizavam as aldeias em nome da utopia comunista).

    O painel de focos e visões divergentes se acentua e ganha pungente humanidade com o depoimento de um camponês ao repórter, inserido ao longo da narrativa, evidenciando a ingenuidade e o sofrimento daqueles que, conforme Camus, “sofrem a História”. Essa terralidade crua ganha, entretanto, magia, por meio de pitadas de realismo fantástico bem dosadas e inseridas de modo a elevar todo o romance a uma redentora espiritualidade.

    Também pungente se torna o ro­­mance entre o repórter e a ex-guerrilheira, com momentos de aguda e trágica poesia. Ao final, a sensação é de remissão, diante da evidência de que a arte redime até a má política, justiçando-a com humanidade e beleza. E o chamado romance latino-mericano, que parecia esgotado, renova-se vigorosamente, com uma fineza e uma maturidade também redentoras.

    Ressalvado o pecadilho do autor, em algumas passagens, intrometer-se na narrativa com informações que podiam ser fornecidas ao leitor pelo protagonista repórter, a convicção que fica é que nossa literatura ganhou uma obra-prima.

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