De Mayara aos Minutemen. São indestrutíveis os nossos muros psicológicos?

-- Muro na Cisjordânia --
por Raphael Douglas – Como a noção de tempo entre os homens contemporâneos está extremamente determinada pela mais efêmera de todas as instâncias de tempo, o instante, ou seja, em tudo o que é instantâneo, vê-se que o caso Mayara Petruso já é um passado quase longínquo e em breve imemorial. Mayara funcionou entre nós como as moças que saem na revista Playboy. Mostram-se em toda sua nudez, expondo sua natureza (ainda que modificada em photoshop), causam uma masturbação generalizada e logo são esquecidas.
Petruso não figurou a Playboy, mas expondo também um pouco de sua natureza, não em forma de seios ou vagina, provocou muita masturbação intelectual em diversos setores da sociedade. Alguns de vocês sabem que fui convidado a participar do MTV Debate logo após o caso “twitter e xenofobia”, devido a um texto escrito aqui no Amálgama. Fui lá e a coisa foi apropriada, ainda que assistemática. Cumpriu-se uma série de objetivos interessantes. Quem acompanhou até o final viu que uma nordestina vociferou me acusando hipoteticamente de não ter orgulho algum de ser nordestino. Operando de tal forma, desempenhou um papel muito importante. Era o personagem que eu precisava para evidenciar algumas diferenças específicas e fazer os não-nordestinos notarem que há uma série de nordestinos extremamente diferentes entre si e não um balaio de gatos indiscernível como costumo dizer.
Como andei afirmando por alguns lugares, realmente não tenho orgulho de ser nordestino, não vejo necessidade desse ufanismo ancião. Eu não tenho orgulho de ser nordestino, eu simplesmente sou nordestino e é nessa região que se desenvolvem minhas potencialidades vitais. Mesmo assim, prefiro me enxergar desde o meu fundamento pátrio: o de ser brasileiro. Quem está a cerca de quarenta anos fora do seu lugar de origem talvez já não tenha mais o mesmo élan desse tal orgulho do qual tanto faz apologia. Quando alguém vai ao ar num programa de televisão e solicita agressivamente a criação de frentes emergenciais de trabalho para nordestinos construírem estradas, eu prontamente me incomodo. Você não? O que é isso? Década de sessenta? Obviamente existem motivações políticas não explicitadas que se encontram dentro de toda essa névoa trabalhista. Interessa a um grupo de cidadãos que a imagem do “severininho cabeçudo”, como foi dito, continue intacta. Enfim, não vejo virtude alguma em ostentar um orgulho que só desemboca em separação.
Orgulho eu deveria ter de tentar não agredir os meus semelhantes e os indivíduos cronicamente diferentes de mim. Acredito que a diferença deva ser uma questão de não-indiferença. Creio ser justamente esse fenômeno do “orgulho der ser…” que nos separa cada vez mais. O mundo inteiro possui longas histórias de depravos contra seres humanos devido ao cultivo malévolo de certos orgulhos que nada mais são do que empáfia coletiva. Árabes são execrados na União Européia e mexicanos caçados nos Estados Unidos.
Como o título sugere, os Minutemen, admiradores miméticos de La Migra, estão agindo diariamente. E as ações de uma Mayara Petruso, perto das ações deles, são contos da Carochinha. Os Minutemen não se resumem a plantar palavras hostis numa rede social repleta de adolescentes. Uma definição rápida para quem não os conhece: os Minutemen, cujo nome é uma menção a uma antiga milícia do Massachusetts que lutou pela independência dos EUA no Séc. XVIII, é hoje um ajuntamento de cidadãos norte-americanos, às vezes armados, que visam conter de qualquer maneira a imigração ilegal de mexicanos para o terreno estadunidense. Agem na fronteira entre a Califórnia e o México. Têm o apoio político de Arnold Schwarzenegger, atual governador do Golden State. Eles não são o exército e nem a Guarda Nacional. São pessoas que estão no supermercado, dando aulas em escolas, ou presos no trânsito das cidades durante a semana.
O que quero questionar aqui é algo simples, apenas para começarmos uma discussão fundamental. A que se deve a onda de movimentos supremacistas ao redor do mundo? No Brasil, acabamos de nos deparar com a Juventude Paulistana que nos aponta o sintoma universal dentro do nosso singular país. Ainda que sejam civilizados e justifiquem logicamente suas ações sem agredir ninguém fisicamente, denotam certa patologia social a ser analisada. Os Minutemen têm a mesma preocupação, só que estão munidos de menos civilidade, já que costumam se vestir algumas vezes de caubóis e caçar pessoas montados em cavalos visando entregar ilegais à polícia. Vamos à tese simples. Acredito que movimentos como os citados se concentram sempre em áreas de alto movimento migratório. Onde os cidadãos pré-estabelecidos “desde sempre” enxergam como ameaça o fluxo de estrangeiros que podem alhear os bens, obstar as possibilidades de emprego, estorvar a livre circulação e impor culturas estranhas. Em São Paulo, conhecemos bem o antigo fluxo de nordestinos que lá se instalaram há décadas. Na Califórnia, a situação é ainda mais complicada. Lá, segundo artigo da Wikipédia, “se prevê que os hispânicos irão tornar-se o grupo majoritário da população do estado por volta de 2040. Os cinco maiores grupos étnicos do estado são mexicanos (que compõem cerca de 25% da população do estado), alemães (9%), irlandeses (7,7%), britânicos (7,4%) e filipinos (6%).” Acredito que esses dados denotam as motivações psicológicas de defender a supremacia de um povo que já esteve lá “desde sempre.”
Não seria o humano, por excelência, um defensor de territórios? Ou a propriedade despertou o proprietário que desde sempre existiu em nós? Existe alguma população no mundo que não tenha demonstrado alguma espécie de comportamento xenofóbico além dos cidadãos da Utopia de Thomas Moore? O Muro de Berlim caiu há um bom tempo, mas por que será que entre a Espanha e o Marrocos existem muros de separação? Por que há uma faixa de arame farpado de 200 km dividindo as Coréias? O que justifica a existência de uma Linha de Controle entre Índia e Paquistão? E o que dizer do Muro da Cisjordânia, ainda em construção por parte de Israel? Perdão, Fukuyama, mas a história não acabou. Quantos “Muros de Berlim” ainda existem? Ponto para o senhor Nietzsche, nossa história não passa de um “eterno retorno do semelhante.”
Não me digam que tudo é motivação política, sejamos honestos e formulemos o problema de forma adequada. Estes muros materiais e estas fronteiras imaginárias não seriam propriamente o reflexo das nossas barreiras psicológicas? Parece óbvio? Nada mais honesto na filosofia do que o óbvio. A filosofia nasce do banal assim como o cogumelo nasce a partir do estrume. De fato, a história da Razão nos mostra que a alteridade sempre foi indigesta para as identidades individuais e coletivas. Afinal, “o inferno são os outros”. Sendo assim, “conhece-te a ti mesmo”.

Por mais óbvioque pareça não deixo de concordar com você. Em nós parece mesmo existir a possibilidade todo o tempo da discriminação. Seja lá quem for. Mesmo os líderes de grupos de minorias não são enquadrados como santos. Mandela já foi terrorista. Será que agente consegue controlar? ou somos controlados por esse ímpeto de não aceitar a diferença?
Por isso peço tanto que a discussão esteja num nível de honestidade. Sem essencialismos baratos, aceitar a evidência decisiva do fenômeno da indisgestão às diferenças. Tenho receio dos discursos edificantes que pregam amor incondicional. Por isso digo que no dia em que entendermos honestamente nossas diferenças é que poderemos perceber nossas semelhanças.
Nos esquecemos que para além da informação, característica do nosso tempo em sua disponibilidade quase que ilimitada, etá a vontade.
As raízes do preconceito crescem nas terras fecundas da ignorância e deve ser adubada constantemente com o medo.
Thomas Morus + Fukuyama + Nietzsche + Sartre + Sócrates + Raphael Douglas = Texto muito bom.
Mateus. De que ignorância falas? Os gregos concebiam o mal como ignorância, como desconhecimento do que é o bem. Alguém que faz o mal, então, é aquele que pode ser perdoado já que o bem poderá ser ensinado. Essa crença durou muito tempo na história. Até que um tal de Kant, postulando uma tal de Razão Prática, diz que podemos arquitetar o mal usando a reta razão. Alguém extremamente não-ignorante pode planejar racionalmente durante semanas um estupro.
Continuo me interessando pelo tema, mas sob um ponto de vista diferente.
1. De que forma raciocina uma pessoa para achar que é melhor que outra?
2. O que diferencia Hitler dessas pessoas?
3. Seria a discriminação (racial, sexual, ideológica, etc…) uma psicopatia ou apenas uma questão ideológica?
Minhas respostas a estes questionamentos são: 1. Nao sei. Tenho muita curiosidade.
2. Fundamentalmente, nada a nao ser o fato de Hitler ser mais ambicioso, ele extrapolou as fronteiras que dominava. Enquanto os exemplos mais atuais atuam “dentro” da sua fronteira “protegendo o que é seu”.
3. Eu considero psicopatia.
Victor,
legal seu comentário pq me permite expor uma reflexões q fiz após escrever meu comentário. seria em relação ao papel da cultura e da sociedade nessa questão. Eu explico, eu pensei: mas não estou tratandocomo inerente à condição humana comportamentos que podem ser explicados à luz das condições sociais e históricas? Mas eu mesma não mencionei eventos de intolerância com razões e origens, aparentemente, diversas? Pode ser…
Mas seu comentário me ajuda a jogar luz justamente no q concerne à cultura e ao social, veja sua questao 1, penso q cada pessoa vai raciocinar a partir dos seus condicionantes sócio/culturais/históricos e por isso as manifestações de intolerância serão diversas. Hitler como pessoa histórica, cultural e socialmente localizada pessa pela mesma lógica, q pode ser acrescida de certa irracionalidade/loucura como pregam alguns (no sentido individual), ou pelo extremo da racionalizaçao na qual a razão instrumental culminou como colocam os críticos do projeto iluminista. E a 3ª questão, não seriam as psicopatias tb relacionadas ao mundo social, afinal matar crianças deficientes já foi prática social, né? Hj se alguem agisse assim poderia ser considerada psicopata, não? (claro q peguei apenas um exemplo, um aspecto do q caracterizam como típico de um comportamento identificado como psicopatia, mas tb n conheci nem convivi com Hitler e td q vemos ou sabemos dele hj em dia é tendencioso, afinal sabemos td pela ótica dos vencedores – ele perdeu e se matou – óbvio q não estou defendendo hitler nem suas ações). Enfim estou só pensando…
O que diferencia um ditador de um civil comum? Um abismo Victor. Com o detalhe, óbvio, do proselitismo político.
O muro na China é hoje atracao turista; O govêrno de Israel construiu outro muro com a desculpa para
protecao contra o terrorismo, nos Estados Unidos foi construido um muro nas fronteira do Mexico,para impedir que os mexicanos pobres entrar sem documentos .Assim fala-se em liberdade e civilizacao.
É comprovado que a história se repete.Que a história de Roma nao veio de fora nao.
Olá Luisa. Mesmo a Muralha da China foi essencialmente construida para ser defensiva. Será mais um dos resquícios da historialidade separatista do homem?
As relacoes entre os homens nao podem ser resolvidos em construitr muros. Isso foi constatado muitas vezês atráves da história.Apesar disso o homen nao tem aprendido,e continua a usar os mesmo métodos arcaícos.Meu espôso tem visto o muro de Berlin,êle tem comentado que foi uma das coisas mais deprimente e humilhante que a pessoa podia ver e sentir!
Ah, q droga Rapha eu ia começar com “o inferno são os outros”! Pq acho essa uma frase q contém a ideia síntese da nossa dificuldade com o outro q culmina nessas questões que vivenciamos hj em dia e tb como reedição de conflitos já ocorridos. Pode ser por questões econômicas/territoriais como o caso dos latinos nos EUA e nordestinos no sudeste e sul do país; ou pela intolerância pela diferença do outro: os casos recentes de agressão a gays e também o de agressão às moças gordas ( algo q ficou conhecido como rodeio das gordinhas num evento da Unifesp, salvo engano).
Fico pensando q é sempre isso, nossa dificuldade em aceitar e conviver com o outro… Pensem nas religiões (eu sei, é um campo minado esse terreno) cada uma q tenha o melhor passaporte pro céu, cada uma com as prescrições mais corretas para se viver, cada uma que queira ser “a certa” e única possível… Humano, demasiado humano…
Ester, em seu lugar não ficaria tão preocupado em purgar pecados de outrem. Lógico, estou usando uma analogia com o termo “purgar pecados”. A cobrança tem de ser sobre quem cometeu o ato injusto, indecente, violento, ilegal. Ou seja, as autoridades devem ser instadas a socorrer os ofendidos. Afinal, existe todo um procedimento que protege os ofendidos, como preserva, também, os direitos de quem cometeu atos impróprios. Assim, se sentir chateado deve ser prerrogativa de quem errou. E também de quem aproveita-se do erro ou crime, de forma oportunística. O problema é que se criou no País uma ideia errada. A Constituição, as Instituições e as Leis pouco são analisadas e avaliadas para casos como esse. Tudo parece esperar-se partir de alguém pairando acima de tudo a ditar regras de perdão e condenação a seu bel prazer. Não é assim.
Essencial ou acidental? É o questionamento principal da discussão. Nada que Hobbes e Rousseau já não tenham discursado. O problema é o mesmo. Diferentes são os tempos.
Autoconhecimento é fundamental para aceitar as diferenças nossas, dos outros e aprender com elas.
Os caras (esses minutemen que você citou) tem um site oficial. Organizados demais eles.
http://www.minutemancorpsca.com/
Viu o que há escrito na placa branca?
“Atenção imigrantes ilegais: o Arizona não vos recebe bem, mas Los Angeles ama vocês. Moradia de graça, escola de graça, comida de graça, médico de graça, hospitais de graça…” Termina com algo do tipo: “dê meia volta e siga seu caminho para o paraíso.” Pesado.
Isso tudo pode estar sendo potencializado pela ascenção de “categorias” no vocabulário político, tais como: “pobre”, “rico”, “branco”, negro”, “mulher”, “homem”, “nordestino”, “carioca”, “paulista” etc. Não são pessoas. São categorias levadas por um discurso que se pretende redentorista. O “bem”, contra o “mal”, por exemplo. Onde ao lado do “bem” são colocadas as categorias, em tese, contrapostas ao “mal”. Assim, não basta ser cidadão. Tem de, praticamente, se não pertencer, receber o carimbo de uma categoria. Isso dá margem a qualquer tipo de mito e mística. Colocada no discurso político, essa máquina de categorizações, torna-se uma arma efetiva de neutralização de oposições e de disseminação de culpas coletivas. A moça que postou as mensagens foi punida. Não poderia ser de outra forma, creio. Afinal, existem leis. Porém, ela ficou categorizada como “paulista”, “branca”, “classe média”, mais do que uma, digamos, pessoa. A Lei visa a punição do ato cometido por uma pessoa, caso seja este comprovado e corretamente tipificado nos códigos. Mas, não visa a punição por questões de gênero, raça, naturalidade, escolaridade ou situação social. No caso em questão, prevaleceu muito mais o discurso da categorização de seu autor, do que a qualificação do ato propriamente dito, como danoso e incongruente com a harmonia entre os cidadãos. Ou seja, a empulhação ganhou ares de ideologia. Isso é um retroalimentador de discursos políticos atrasados.
Resposta objetiva: sim, sem dúvida barreiras construídas desde os primeiros anos com a utilização de diversas ferramentas e em diversoso locais. Muros, rótulos, bandeiras. Tudo muito igual pra quem quer ser diferente.
Sabe, você não deixa de ter razão, no caso de Mayara no entanto, creio que trata-se de uma garota com sérios problemas e tristemente idiota. Mas quanto ao orgulho de ser nordestino, bem, eu o tenho, e creio que foi crescendo em mim justamente por ver que o povo do nordeste sempre foi tipificado (nossa quase parece uma conduta ilicita), ou, como você mesmo disse, criou-se e perpetua-se a imagem do “severininho cabeçudo”, ou, no mínimo, de um pobrezinho que merece pena, abaixo tudo isso, eu tenho orgulho da beleza do meu estado simplesmente amo a culinária e admiro a grandiosidade das festas juninas e do carnaval entre outras milhares de coisas. O que eu realmente quero dizer é que esse medo de que sejam atravessados “os muros” é muito menor no povo nordestino, então quem é que tem a cabeça retrograda? Esse medo de perder seu espaço, de perder o controle de seu estado, de fazer um intercâmbio cultural ou seja lá o que for é um comportamento infantil e que nada acrescenta ao crescimento do nosso país ou a melhoria da qualidade de vida mundial (soou exagerada, mas é o que eu acho). Meu orgulho de ser nordestina aparece quando eu quero que os outros que não são daqui vejam minha região e não quando eu fecho as portas na cara de paulistas. Para a garota do comentário, bem, ela devia saber que no pacto social, o direito dela acaba quando o do outro começa.
Os muros citados servem em pratica para os céticos. Na verdade como se entende em determinado momento as barreiras se encontram nas “cabeças das pessoas” ( ter cabeça não significa usa-la humana-mente). Evidentemente que é incentivo político, apenas não admiti quem é político demais, o preconceito se forma justamente com essas barreiras geográficas que ao passar do tempo se tornam mais densas ainda. O repudio ao anarquismo de Ghandi e Tolstoi que pregavam a não violência fica evidente quando Judeus e Palestinos são divididos geograficamento por interesses políticos, ou seja, se cada ser humano aceitar o outro da forma que aceita a se mesmo nada disso seria discutido por aqui, a não violência tão bem ensinada na teoria e na pratica por os dois aqui ja citados e por tantos outros parece ser sim uma herança a qual as funções cognitivas contemporâneas não conseguem entender muito menos por em pratica.