Bordando contos
por Juliana Dacoregio – Ao contrário do que possa parecer, escrever um bom nanoconto ou microconto pode ser mais difícil do que escrever um conto com a liberdade de usar o número de palavras que for necessário. É preciso passar uma ideia ou contar uma história de forma muito sucinta, mas compreensível para o leitor.
O escritor, roteirista de quadrinhos e editor, Edson Rossatto atingiu esse objetivo em Cem Toques Cravados, sua terceira publicação.
Rossatto já havia se aventurado pelo mundo da literatura de poucas palavras no seu livro Curta-Metragem: Antologia de microcontos. O diferencial de Cem Toques Cravados é a meticulosidade do autor: são cem nanocontos, cada um com exatos 100 caracteres, incluindo pontuação e espaçamento.
Os nanocontos do autor têm ares de crônica e alguns deles exigem uma pequena parada após a leitura para serem compreendidos. O que não é demérito algum, muito pelo contrário, isso mostra que são contos pequenos, porém, nada óbvios.
Alguns dos meus favoritos:
Quando ela o viu, seu coração encheu-se de esperança. Porém, não lhe trouxe carta alguma. De novo…
CLASSIFICADO:
Aceito palavra amiga. Procure-me às onze no parapeito do sexto andar do edifício Az.
Bip vagaroso e compassado. Fios o ligam a máquinas. Ontem, rachas na avenida; hoje, racha na cabeça.
EPITÁFIO:
Aqui jaz Ricardo, que viveu por sua amada Camila, mas morreu pelas balas do marido dela.
Te amo, meu filho, não importa que sua opção sexual seja diferente da minha. Seja um hetero feliz.
“Só acredito vendo”, disse Tomé. Então Jesus se deitou no chão e fez trezentas flexões em um minuto.
::: Cem toques cravados ::: Edson Rossatto ::: Andross Editora, 2010, 128 páginas :::
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Não é o primeiro livro que a Ju Dacoregio me faz ter vontade de ler