A esgrima tucana 2011-2014

-- Beto Richa, Aécio e Serra em Curitiba (2008) --

por João Villaverde – A eleição de 2010 enterrou o projeto de endireitização do PSDB.

Quando se viu na oposição, a partir de 2003, o PSDB ainda manteve um posicionamento coeso como partido político — entenda-se: um agrupamento de pessoas que compartilha ideias muito próximas e ambiciona tomar o poder do Estado para implementá-las. Com a crise do mensalão, em 2005, e as pesquisas ainda favoráveis à Lula, no início de 2006, o PSDB colocou aquelas ideias num saco, e partiu para o abraço conservador.

Geraldo Alckmin, candidato tucano em 2006, apostou todas as fichas no discurso moralista. “Eu não compactuo com corrupção”, dizia sempre, em meio a outros tantos “vou implementar o choque de gestão”.

Quatro anos depois, continuamos todos esperando uma explicação razoável do que seja o tal “choque de gestão” de Alckmin — algo que nunca ocorreu em São Paulo, onde ele governou entre 2001 e 2006, mas em Minas Gerais, com a equipe de Anastasia, que tocava os programas de Vicente Falconi, contratado por Aécio Neves para reformular a gestão do governo mineiro.

O PSDB perdeu as eleições presidenciais de 2006, como já havia perdido em 2002, mas com um diferencial: a apelação ao moralismo, em 2006.

Quando perdeu em 2002, quando havia, de fato, um choque entre projetos distintos, o PSDB fez uma coisa sensata, mas virou para o lado errado. Mudou o discurso, o que era sensato, uma vez que aquele se saiu derrotado, mas ao invés de olhar para suas ideias de origem – o embasamento social-democrata europeu, muito abraçado pelo PT de Lula, quando no poder – o PSDB resolveu olhar à direita. Mas, diferente do que poderia imaginar o incauto, não se tratou de olhar e pender à uma direita inteligente, mas a uma direita tacanha, que apela aos “bons costumes” da família e a clichês de “o exemplo que vem de cima”.

Quando perdeu em 2006, deveria ter estacionado o barco e refletido sobre o rumo, já que as águas estavam aceleradas em outro sentido. “Fazia sentido continuar adiante daquele jeito?”, deveriam ter se perguntado. Afinal, se o projeto vencedor em 2002 se renovou em 2006 é porque, e não é muito difícil perceber, “alguma coisa tinha”. Se soubesse responder o quê, saberia como derrotá-lo. É assim que funciona em política e é assim que funciona em qualquer relação humana.

Se assim tivesse feito, o PSDB perceberia que a despolitização do debate, promovida por Geraldo Alckmin, não chegaria a lugar algum quatro anos depois. A própria Marina Silva (PV), candidata sensação de 2010, não bateu nesta velha tecla porque sabe que em seu partido também há uma série de buracos e imbróglios. Todos os partidos têm. Vale lembrar que o único governador preso pela Polícia Federal em toda a história nacional foi José Roberto Arruda, que era filiado ao DEM, partido satélite do PSDB.

Além disso, o caso do mensalão, que explodiu em 2005, foi primeiro colocado em prática em Minas Gerais, nos anos 1990, durante o governo de Eduardo Azeredo… filiado ao PSDB. Lá estava o modelo de financiamento de parlamentares para que votassem a favor do governo, com dinheiro sendo bombeado das agências de publicidade de Marcos Valério, que tomava empréstimos em bancos públicos regionais. Tudo, literalmente, que pegou o governo federal do PT em 2005.

Por que, então, alguém, em sã consciência, bateria na tecla da ética e bons costumes em 2006, um ano depois de toda a exposição do lamaçal, que atingia igualmente todos os partidos?

Eu não sei.

Não contente com a derrota em 2006, o PSDB entrou de cabeça e alma no moralismo em 2010. Foi uma aposta errada, e essa bola já tinha sido cantada muito antes da campanha eleitoral esquentar, quando escrevi “Sobre o futuro do PSDB“. O candidato tucano de 2010, o mesmo de 2002, José Serra, trouxe a família, o aborto e beijou imagens de santas em missas ao longo da campanha. Tudo isso carregando uma figura da pior estirpe – seu vice, Índio da Costa (DEM).

No dia seguinte às eleições, na segunda-feira, fiz uma breve análise, afirmando que o jogo, para o PSDB, está em revigorar seu passado – que começou com as articulações de FHC no apagar de luzes do governo Collor, em 1992, e acabou em 2005 — e apontar para o futuro, que está em figuras como Aécio Neves, ex-governador de Minas (2003-2010) e senador da República, e em Beto Richa, bem-avaliado prefeito de Curitiba que se elegeu governador do Paraná no primeiro turno.

Na longa entrevista de Maria Cristina Frias e Vinícius Mota, da Folha, com Fernando Henrique, publicada na edição de terça-feira do jornal, a primeira bola foi levantada. Ao dizer que não endossa um PSDB que o renega, FHC lança as bases para os futuros cardeais do partido. Nas entrelinhas, diz o seguinte: “O negócio não está em uma luta fraticida interna, como a que ocorreu entre Alckmin e Serra, em 2006, nem na individualização total da campanha, como vimos em 2010. É preciso olhar para o passado se você quiser perseverar”.

Uma das respostas de FHC é uma bela sacada, que serve não só ao PSDB, mas também ao PT e qualquer outro partido que já foi ou quer ser hegemônico, como o PSB. Cá está:

A dose dos chamados marqueteiros nas campanhas tucanas está exagerada?

Sim, em todas as campanhas. Nós entramos num marquetismo perigoso, que despolitiza. Hoje a campanha faz pesquisas e vê o que a população quer naquele momento. A população sempre quer educação, saúde e segurança, e então você organiza tudo em termos de educação, saúde e segurança. Sem perceber que a verdadeira questão é como você transforma em problema uma coisa que a população não percebeu ainda como problema. Liderar é isso. Aí você abre um caminho. A pesquisa é útil não para você repetir o que ela disse, mas para você tentar influenciar no comportamento, a partir de seus valores. Suponha uma pesquisa sobre privatização em que a maioria é contra. A posição do líder político é tentar convencer a população [do contrário]. O que nós temos na campanha é a reafirmação dos clichês colhidos nas pesquisas. Onde é que está a liderança política, que é justamente você propor valor novo? O líder muda, não segue.

*

A endireitização do PSDB acabou em 2010. Resta agora saber se o consenso entre os diferentes grupos e correntes, como desenhei em agosto, ocorrerá de maneira suave ou na marra.

Mas podem apostar que esses movimentos já começaram.

5 comentários | Dê sua opinião

  1. carlos, fort-ce 05/11/2010 em 2:04 pm

    que eles se virem, villaverde.
    ou a coligação dirigida pelo pt vai ter que ensiná-los? … tinha graça, mesmo!

    Responder
  2. Guilherme Freitas 06/11/2010 em 10:06 pm

    Engraçado, eu acho exatamente o contrário: a endireitização do PSDB começou pra valer mesmo em 2010! A briga para ver quem será o Tea Party brasileiro será entre o PSDB e a Marina Silva.

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  3. Fabricio C Zuardi 08/11/2010 em 12:44 pm

    O texto IMHO parte de uma premissa errada, a de que a endireitizacao teria sido prejudicial ao partido, e portanto deveria ser revertida.

    Porém não é isso que os números mostram, aquilo que vc chama de endireitizacão foi não só o que contribuiu para levar a disputa para o segundo turno mas o que garantiu ao PSDB desempenho melhor do que as eleicoes presidenciais anteriores, contrariando todas as expectativas de vitória folgada da candidata que contou com campanha milhonària e uso vergonhosamente descarado da máquina.

    Nao só isso, a politização da disputa de certa forma impôs limites ao projeto da candidata, que teve que voltar atrás na questao da descriminalizacao do aborto e que em seu primeiro discurso teve que defender, ainda que para a midia ver, liberdade de imprensa, livre concorencia e meritocracia.

    Veja bem, vc pode nao gostar das idéias conservadoras e pode preferir concorrer com um adversário de idéias parecidas as suas, mas usar esta vontade para afirmar que o distanciamento da esquerda foi prejudicial, quando os fatos mostram o contrário é wishful thinking.

    Goste ou não dos valores conservadores, a maioria da população brasileira é sim conservadora (vide aborto e plebiscito do desarmamento) e esta maioria é uma maioria não representada por partido algum (talvez um pouco o DEM se forçar a barra) pois como afirmou nosso presidente, a disputa se da entre esquerda e esquerda.

    O PSDB e DEM, como oposicao tem a oportunidade de começarem a representar esta maioria sem voz e sair mais forte para 2014, nao menos.

    Meus 2 centavos…

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  4. Fabricio C Zuardi 08/11/2010 em 12:52 pm

    argh, queria um botao de edit, escrevi na pressa e agora relendo sinto vergonha dos meus erros de Português, tentem relevar por favor :)

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  5. Hugo Albuquerque 08/11/2010 em 8:16 pm

    João,

    Eu creio que a afirmação de FHC é tão interessante quanto falsa, de certa maneira, ele se pretendeu o patriarca de um modo peculiar de democracia com uma proeminência técnico-burocrático de vias únicas – e, por conseguinte, de becos sem saída. O esgarçamento da politicidade do debate público brasileiro é um dos frutos do anos 90 – e se opera na esfera macro e micro. A guinada à direita do PSDB sempre foi um esperteza válida, dentro do maquiavelismo barato de FHC e de Serra e uma convicção pessoal de gente como Alckmin, mas o útil só pode ser unido ao agradável com a morte de Covas. Agora, suponho, a coisa saiu um pouco do controle de todo mundo e não me parece que o partido tem chegado nem perto de recuperar a sanidade deixado em alguma parte dessa campanha eleitoral.

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