Saramago e a irrelevância da literatura
9–11–2009 --- Envie para um amigo --- Tuitar
por Fernando da Mota Lima * – Apesar da idade e da doença, José Saramago continua ativo. Quando veio ao Brasil lançar um de seus últimos romances, valeu-se de tal circunstância como um pretexto para se pronunciar sobre questões políticas e inquietações humanas que seus leitores não têm idéia de como enfrentar. As aparições públicas de escritores de prestígio como Saramago e a natureza do discurso que desfiam para a mídia evidenciam a irrelevância da literatura no mundo contemporâneo.
Mesmo escritores que vivem antes de tudo para a literatura e nela efetivamente acreditam, não dão ênfase em suas falas públicas a questões de natureza estética ou literária. Suponho que gostariam de fazê-lo, que prezariam discutir a literatura enquanto tal ou as possibilidades de esta interferir na ordem prática do mundo enquanto discurso irredutível ao da política, da economia ou ainda da pura curiosidade mundana do público e da mídia ávida de mercadoria. O fato, porém, é que se pronunciam sobre tudo, ou quase tudo, e bem pouco, senão nada, sobre literatura.
Saramago reitera o discurso previsível, tudo que acima grosseiramente esbocei. Mais uma vez critica a crueldade do capitalismo e respalda sua crítica em Marx ou numa concepção socialista de sociedade e organização dos grupos humanos. Nada a objetar quanto ao diagnóstico. Também considero o capitalismo um sistema econômico cruel, gerador de atrocidades e misérias cotidianas. O que não consigo é seguir Saramago no terreno de suas convicções terapêuticas, para valer-me aqui de mais um termo da linguagem clínica. Se é verdade que o capitalismo é portador de todos os horrores incansavelmente denunciados por Saramago, e nesse sentido a obra de Marx preserva sua atualidade substancial, não há como fugir à evidência histórica de que comunismo e possíveis variações socialistas não funcionam. Não sei se há alguma tintura de humor ou auto-ironia na justificativa que agora encontra para seu comunismo anacrônico: confessa-se ele um comunista hormonal. Gostei da designação, que leio um tanto na veia irônica ou humorística.
Penso hoje com mais clareza que o comunismo malogrou e sempre malogrará por ser incompatível com as paixões humanas mais poderosas, aquelas que ontologicamente definem nossa condição. Sei bem que a teoria comunista reivindica a natureza histórica do ser humano. Trocando em miúdos, não existe natureza humana, existem formas históricas de ser humano. Num certo sentido, isso é sem dúvida verdadeiro. Valores humanos fundamentais, concebidos por conservadores e reacionários como se fossem investidos de eternidade, são comprovadamente transitórios, ou manifestam-se mediante variações históricas, fruto de modos particulares de ser observáveis em determinadas épocas e lugares.
Entretanto, já não duvido de que ao lado, e sobretudo acima disso, persistem características humanas que autorizam falar-se de uma natureza humana compreendida enquanto entidade constante, modo substancial de ser apreensível no conjunto da história humana. Presumo que Freud tinha isso em mente ao declarar seu ceticismo diante dos experimentos sociais então em processo na União Soviética governada por Stálin quando escreveu O mal-estar na civilização. Atendo-me ainda a Freud, acredito haver no ser humano uma componente de agressividade indomesticável pela civilização. Igualmente acredito na nossa natureza irredutivelmente egoísta. Muito gostaria de acreditar nos ideais generosos teimosamente sustentados por Saramago. A evidência histórica, antes de tudo a evidência de minha experiência direta, provam-me o contrário.
É irrefutável a força condicionadora da sociedade ou do sistema econômico em muitas das ações humanas que traduzem o que em nós existe de bom e de ruim. O que de modo algum endosso é a convicção dos que atribuem nossa natureza a fatores puramente sociais. Querem dizer, mesmo quando assim não se pronunciam, que nossa maldade é socialmente adquirida, tem raízes puramente ambientes. Não penso assim. Seguindo Freud, penso haver um ingrediente biológico na nossa destrutividade. Portanto, um ingrediente irredutível à civilização ou a toda ideologia generosa empenhada em estabelecer neste mundo uma modalidade de organização humana fundada na solidariedade e em valores prevalentemente positivos. É uma utopia generosa, que de resto me seduziu na juventude, mas sei hoje irrealizável.
Igualmente longe de mim endossar o pessimismo daqueles que vêem o ser humano como mau, como investido de qualidades apenas negativas. Penso seguir ainda a lição de Freud quando acredito não numa natureza humana exclusivamente negativa, ou positiva, mas sim ambivalente. Em síntese, é esta a substância de minha convicção relativa à natureza humana: ela é ambivalente e as manifestações dessa ambivalência dependem tanto de fatores inatos quanto adquiridos. Sei que isso é ainda muito vago, mas não sei de nenhum iluminado ou de nenhuma teoria que consistentemente estabeleça a fronteira e a proporção que cabem a um e outro, àquilo que é inato assim como adquirido. Durma-se na companhia dessa gente. Por isso deduzo haver algo de sensato na minha cama, que nunca acolheu companhia permanente – além da minha, claro.
Catando os grãos de milho da literatura nesse terreiro onde de tudo se fala, menos dela, qual é mesmo o título do romance que Saramago veio lançar no Brasil? Não me lembro. Salvo engano, não foi mencionado na reportagem que à época li na Folha de S. Paulo. Sei que o título tinha algo a ver com elefantes. Serão acaso companhias desejáveis? Evocando Cioran, prefiro ainda a dos misantropos. Não são lá flor que se cheire, mas têm a virtude de não gostar de seres humanos. Piores, bem piores, são os humanos que amam apenas seres de outras espécies, notadamente a dos gatos e cachorros. Tenho poucas razões para louvar a espécie humana e os estragos que ela impõe a essa terra devastada que habitamos. Mas falo afinal dos meus semelhantes. Querendo ou não, e bem pouco quero, é neles que me reconheço, neles vibram os triunfos e misérias de minha condição. Apesar do ruído pavoroso que entre nós produzimos, tudo isso faz mais sentido do que o miado dos gatos e o latido dos cachorros. Fico portanto com meus humanos.
* Fernando da Mota Lima é professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco.
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10 comentários:



Fernando,
Espero sinceramente que não se chateie, mas devo dizer que, apesar de seu texto corajosamente escrito (e publicado!), as inúmeras ressalvas que faz, ou explicações para o que pretende que seja melhor entendido, ofendem minha pobre natureza humana, pois você parece nem querer mover essa natureza do leitor, que inclui, entre outras coisas, a inteligência e a sensibilidade estética, predicados que sinto estarem ausentes de seu texto.
Ao contrário dessa recusa pela beleza que seu texto impõe, a tentativa de Saramago ao vir discutir outras coisinhas, em vez de Literatura, não poderia ter sido a de não redundar sobre o seu próprio texto? Ou ainda, não ficar alimentando o pessoal mais interessado em discutir Literatura, em vez de lê-la? Se o nome do livro que ele veio, entre outras coisas, divulgar não ficou claro, pode ter sido uma falha da imprensa e não do autor que, afinal, não tem obrigação de ficar falando sobre o seu próprio livro. Ou talvez tenha sido uma falha sua mesmo, por não ter se interessado em procurar saber o nome da obra. Há tempos, se autopromover poderia ser até deselegante, e os leitores é que se encarregavam de divulgar a obra do escritor. Talvez o velho Saramago seja de outros tempos, não é mesmo? Para você, pode ser que ele já seja irrelevante por estar falando em comunismo, ou por estar meio gagá, mas a verdade é que a obra dele está aí, não precisa endeusá-la, nem discuti-la, mas apenas lê-la. E não confundir tanto o homem com sua obra, primeira lição importante que deixaram de fora do ensino de Literatura.
Se a Literatura (que talvez possa começar a ser grafada em minúscula) está irrelevante, talvez não seja culpa de discursos como o de Saramago, ou talvez seja culpa do leitor, que espera que essa literatura preencha todos os seus vazios, todas as suas expectativas. Mas a Literatura realmente nunca foi sinônimo de completude, aliás, ela sempre pareceu aumentar a angústia do ser humano, à medida que amplia sua visão de mundo e a percepção de si próprio.
Gostaria sinceramente de ver um texto seu mais saboroso para os leitores e menos preocupado em nomear conceitos.
Abraço,
Se a literatura fosse irrelevante seria Saramago escutado?
Será que um corpo marcado pelo tempo não gerará sustento para manter um espírito acutilante?
Confundimos a forma com a essência?
Se a utopia fosse irelevante teria escrito o poeta: “…o sonho comanda a vida”!
Por ter desistido da esperança, teremos nós que desistir.
Que ensina o Professor?
As categorias da vida que lhe anda a passar ao lado ou a reflexão de como entender o futuro que nos irá supreender, para o bem e para o mal?
Ensine antes a olhar a esperança, a utopia, “os amanhãs que cantam” no mal-de-cada-dia.
Isso é que é para mim a característica dominante no ser humano. A esperança.
Alba:
Muito grato pela atenção que você concedeu a meu artigo sobre Saramago. Lamento, no entanto, que você o tenha lido num registro que me parece inadequado e de resto deforma a linha central do meu argumento. É por acreditar na relevância da literatura, sobretudo naquilo que ela representa como expressão singular de beleza, que aludo ironicamente à irrelevância da literatura e critico as aparições públicas de Saramago, assim como de outros escritores que admiro. Não disse nem penso que Saramago seja irrelevante. O que afirmo é que ele se vale da literatura, do prestígio que através dela conquistou, para se pronunciar publicamente sobre tudo, menos sobre literatura. Portanto, a crítica que você faz a mim é a que faço contra ele. Logo, seria coerente que você concordasse comigo, não que usasse meus argumentos contra ele para discordar de mim. Com um abraço de
Fernando.
Parece-me que as recentes polêmicas do Saramango, tem lhe custado algumas antipatias. Um texto bem infeliz. trazendo concietos duvidosos.
Alba:
Queria adicionar mais algumas palavras à mensagem que acabo de lhe enviar. Não fiquei de modo algum chateado com sua crítica. Penso que estamos aqui para discutir idéias e pontos de vista. Queria frisar, visando corrigir um pouco sua impressão de que dou pouca ou nenhuma importância à literatura e à beleza, que minha formação é antes de tudo literária. Embora sociólogo de profissão, minha visão de mundo foi profundamente influenciada por poetas e romancistas, não sociólogos. Além disso, escrevo poesia, contos etc. É uma pena que meu artigo sobre Saramago tenha contribuído para que você tivesse de mim impressão tão diferente do que de fato sou.
Fernando.
Assino embaixo e por todos os lados.
E ainda sugiro um texto muito mais superficial e limitado, mas que dá uma visão do RS:
http://miltonribeiro.opsblog.org/2009/11/05/o-silencio-da-intelectualidade-gaucha/
Abraço.
Caros Pedro, Bosco e Milton:
Desculpem a resposta única, mas é que estou agora sem tempo para escrever mais à vontade. Antes de tudo, grato pela atenção concedida a meu artigo. Lamento, todavia, que vocês me leiam num registro que me parece pouco fiel àquilo que escrevi. Quando aludo à irrelevância da literatura, quero mais claramente dizer, isso está claro no primeiro parágrafo do artigo, que ela deixou de ter importância na mídia, na forma corrente como aparece na mídia. Usei Saramago como exemplo por considerar a importância literária dele e a repercussão que sua opinião alcança. No entanto, notem que ele não fala de literatura, nem lhe perguntam sobre literatura. Foi em cima disso que argumentei. Admiro parte dos romances dele, que li com imensa admiração. Bosco protesta contra meus conceitos, que lhe parecem duvidosos. Ora, os conceitos que discuto, como sociólogo, são conceitos usados por Saramago. Reiterando minha decepção, lamento que nem vocês nem Alba tenham notado essas coisas no meu argumento. Nada tenho contra a idade de Saramago, nem a literatura dele. Essa questão está inteiramente deslocada do debate. Queria adicionar um outro argumento em favor disso que chamo de irrelevância da literatura no presente. Há poucos dias foi realizado em Porto de Galinhas o mais importante evento “literário” do Nordeste: a Fliporto. Tive a curiosidade de conferir a cobertura da Globo, além dos jornais locais. Não aparece nada sobre literatura, embora o evento seja supostamente literário. Toda a atenção se concentra em músicos, bandas ou então num cantor ou cantora que decidiu escrever um livro sem qualquer importância literária. São exemplos desse tipo que atestam a irrelevância atual a literatura.
Atenciosamente,
Fernando.
Neste debate creio que seja importante lembrar que os meios de comunicação de massa tem um público alvo. Este público tem interresse pela literatura, mas não pelo o que há por trás da literatura. Se contentam em ler a obra e nada mais. Se Saramago fosse discutir literatura, ele não seria um “produto” para os meios de comunicação de massa. Falar de comunismo, uma questão que rende, seria uma maneira de discutir um assunto importante que o público entende um pouco. Ao menos mais que a teoria literária, que eu mesmo não conheço. O público quer ouvir algo que ele entenda. Mas acredito que no círculo interno da literatura os debares sobre literatura sejam bem mais profundos.
Abraços.
Leone Rocha
Caro Leone Rocha:
Compreendo seu argumento, mas acho que ele em nada altera o meu. O fato é que a mídia, assim como o público alvo ao qual você se refere, negam relevância pública à literatura. Disse isso tão claramente que tomei como exemplo Saramago, um dos romancistas mais importantes e mais em evidência na mídia. O fato é que pouco ou nada se discute literatura na esfera pública, excluida a universidade. Mesmo nesta, o debate literário se estreita cada vez mais prendendo-se a discussões que têm pouca ou nenhuma relevância propriamente estética. Lembre um exemplo simples, acrescido a tantos dos argumentos que já propus: você encontra ainda na mídia um crítico literário de importante escrevendo regularmente sobre literatura? Aliás, há ainda Wilson Martins, o último dos mohicanos. Durante muito tempo quase todos os grandes críticos literários, dentro e fora do Brasil, escreviam crítica literária nos jornais. Isso acabou, Leone. Meu tom não é de nostalgia, mas de simples constatação de mais essa mudança profunda no horizonte da cultura contemporânea.
Fernando.
Concordo com você plenamente. Só quis dar um outro ponto de vista a respeito da mesma opnião.
Abraços.