O caráter humano mudou
11–11–2009 --- Envie para um amigo --- Tuitar
por Fernando da Mota Lima * – Virginia Woolf escreveu que o caráter humano mudou em dezembro de 1910, ou perto disso. Para D. H. Lawrence o fato ocorreu em 1915. Passando dos romancistas para um historiador, já que afinal periodizar é parte substancial do ofício deste, lembraria que para Eric Hobsbawm a data decisiva é 1914, quando a eclosão da Primeira Grande Guerra fechou o longo século XIX para inaugurar o curto século XX. Como periodizar é matéria de permanente controvérsia, fico mais à vontade para enfiar minha colher de pau nessa salada. Afirmo, portanto, que o caráter humano mudou novamente. Querem uma data precisa? Escolho 1984, que com certeza importa enquanto símbolo supremo do pensamento distópico. Além disso, seu símbolo totalitário, o Big Brother, tornou-se paradigma moral do nosso tempo. Veremos abaixo o que isso tem a ver com a mudança do caráter humano.
O intróito acima valerá como moldura para mais um momentoso evento tratado a clarinadas por boa parte da mídia sensacionalista: a turba da Uniban que agrediu com ferocidade inusitada a estudante Geisy Arruda. Não perderei tempo detalhando o episódio, já que se tornou matéria de domínio e controvérsia pública. Sempre mal-informado, tomei conhecimento do caso ao ler artigo de Contardo Calligaris publicado na Folha de S. Paulo de 5 de novembro. O relato do fato chocou-me tanto quanto parece haver chocado o próprio articulista. No primeiro momento endossei na íntegra o ponto de vista de Calligaris, que ressalta, como psicanalista, a ameaça que o desejo feminino representa para nossa tradição machista enganosamente enterrada por algumas décadas de autêntica revolução dos nossos costumes, sobretudo os atinentes à sexualidade. Até aí parecia-me fácil determinar a linha entre o certo e o errado. Variando os termos com a ênfase definidora da linguagem clichê, entre o algoz e a vítima, o bandido e a mocinha.
Sucede que soube na seqüência, novamente chocado, a decisão tomada pela Uniban após apurar o caso: Geisy Arruda teria que ser sumariamente expulsa (decisão depois revogada). Mais uma vez a culpada foi a vítima. Tudo indica que, para as autoridades acadêmicas, a turba da Uniban foi vítima das provocações diabólicas da estudante insultada. Foi aí que decidi informar-me melhor acerca do processo. Depois de ver dois vídeos dentre os muitos agora disponíveis na internet, afundei num estado de perplexidade moral. Mais uma vez, diante da nossa barbárie rotinizada, convenci-me de que o caráter humano mudou.
Vi afinal Geisy Arruda no centro de um programa de auditório da Record. O apresentador, Geraldo Brasil, simulava um tom de denúncia moral típico das coberturas sensacionalistas correntes na mídia brasileira. Já vi esse filme, pensei comigo, mas interessava-me observar o comportamento de Geisy. Vi-a desfilando diante da platéia com o vestido que supostamente provocou o tumulto na Uniban. A câmera voraz devassou-lhe o corpo lambendo-o com closes semelhantes aos olhos da turba que a agrediu. E ela a tudo assistia, de tudo participava com a insanidade dos inocentes, para lembrar a frase indelével de Graham Greene.
Em seguida, entrevistada por Geraldo Brasil, Geisy Arruda relatou com docilidade e pura inconsciência moral os assobios e galanteios, também o assédio moral que correntemente recebia na escola. Relatou ainda sua complacência narcisista diante dos rapazes que a cortejavam. Mais que isso, deixou evidente sua docilidade diante de muitos dos galanteadores. Se não me engano, ela agora se deleita com os quinze minutos de fama, para valer-me da metáfora célebre de Andy Warhol, que a resgatam da miséria suprema imposta pela sociedade do espetáculo: a miséria do anonimato. Noutros termos, a vítima é vítima, mas não inocente.
De repente, senti que já não podia encarar e medir Geisy Arruda como uma simples vítima da barbárie, mas sim como uma evidência unitária e empírica dessa massa anônima escolada pelo Big Brother e outros termômetros da mudança radical que se processou no nosso caráter. Na distopia de George Orwell, o Big Brother encarna o poder totalitário ao qual se opõe nossa última reserva de liberdade individual: a defesa da nossa privacidade, antes de tudo do amor, da intimidade erótica antagônica à devassa imposta pelo poder. Hoje a mídia e todos os poderes que anulam nossa privacidade já não precisam de teletelas, já não precisam arrombar portas, pois a privacidade nos oprime como um castigo, não como expressão última da nossa liberdade. Negociamos tudo, contanto que nos reconheçam. Em suma, tornamo-nos não apenas mercadorias livre e consentidamente cambiáveis, mas sobretudo mercadorias baratas.
A docilidade inconsciente de Geisy Arruda parece-me tão chocante quanto o espetáculo da barbárie manifesto na turba da Uniban. Ela simboliza um gesto de rendição da vítima à barbárie. O que resta em nós de civilizado quando renunciamos à civilização? O Big Brother já não precisa policiar nossa consciência, pois esta se tornou o espelho da barbárie que sempre nos ameaçou. Big Brother c´est moi.
* Fernando da Mota Lima é professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco.
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12 comentários:



Brilhante, o seu texto. Não entrevejo a possibilidade de culpar a moça, apenas de inseri-la na sandice geral. Quem não quer ser Marilyn um dia na vida, afinal?
Agora cabe aos autoridades apurarem os crimes que aparecem nos videos. É de se esperar que a Uniban, numa tentativa de reabilitar sua marca -que foi terrivelmente maculada no caso – expulserá os alunos envolvidos logo logo. As faculdades do País, é notório, estão cheias de mulheres lindas, de roupas mais ou menos provocantes, muitas vezes vestidas da mesma maneira que Geisy, no entanto este tipo de acontecimento é raro. Culpar a moça equivale a culpar as vítimas de estupros para a “provocação” que causaram. Se fosse ela, eu processaria a faculdade, já que a instituição é responsável para a boa ordem e segurança nas suas dependências. Agora, os responsáveis sa instituição para sua expulsão devem ser mandados embora por justa causa. Chamo a poulação de não fazer nenhum tipo de negócios com a Uniban daqui em diante.
Caro Professor Fernando, parabéns pela sensibilidade humana expressa em seu artigo. Lamento não poder ser sua aluna. Alunos seus, acredito, não se comportariam como a turba da mencionada universidade. Aliás, paulistana que sou, vivendo no cerrado, pergunto-me se tal fato aconteceria em outro contexto cultural como, por exemplo, numa universidade do Norte ou do Nordeste. Seres humanos que respondem ao sofrimento alheio com a expressão “Dane-se!” como mostrou a mídia entendem de cidadania, amor ao próximo e respeito? Desejo de coração que a pobre Geisy, desconhecedora dos danos que essa mega-exposição poderá lhe trazer, seja encaminhada para algum tipo de tratamento terapêutico. E, quanto aos universitários paulistas, confesso que tenho vergonha das manifestações que refletem bastante dos valores questionáveis dos quais São Paulo muitas vezes é representante como o narcisismo, o poder, o individualismo, a falta de respeito humano, o descaso para com o outro. Assim é nosso trânsito lá, nosso ambiente de trabalho, competitivo, nosso ambiente escolar (máquina de fazer dinheiro?), nossa vida encarcerados nos edifícios superlotados, olhando para o nosso próprio umbico… Que pena. Parabéns, também, ao Sr. Simon Evans por sua empatia para com as mulheres.
Cara Stella:
Muito grato pela leitura compreensiva do meu artigo. Infelizmente, algumas pessoas, incluídas algumas amigas, leram meu artigo como se fosse contra Geisy. Compartilho dos seus sentimentos por ela. O que tentei foi ir além das opiniões correntes que tenho lido, pois me parecem maniqueístas, isto é, tratam a questão como se o modo adequado de tratá-la fosse ser contra ou a favor de Geisy, como se tudo se resumisse a uma disputa entre o algoz e a vítima, o errado e o certo. Infelizmente, a realidade não é assim tão simples. Se assim fosse, seria bem fácil a gente tomar posição moral diante dos problemas que todos nós em graus variáveis vivemos. Espero haver deixado claro que me oponho chocado a todos os insultos de que Geisy foi e está sendo vítima. Mas procurei ir além disso demonstrando, como escrevi, que a vítima é vítima, mas não é inocente. Entendo que somente encarando a questão desse ângulo poderemos compreender melhor o que está por trás de tudo isso.
Fernando.
Caro João Luiz:
Concordo com o que você escreve acerca do desejo feminino de ser Marilyn, ainda que por um dia – ou por 15 minutos, como disse no meu artigo lembrando uma frase célebre de Andy Warhol. O que discuto no artigo são as condições morais em que a mulher, no caso, realiza esse desejo. Sendo mais claro: será moralmente aprovável realizá-lo expondo-se num programa sensacionalista do tipo desse da Record que cito no meu artigo, sobretudo depois de sofrer a violência e todas as formas de insulto que Geisy sofreu? É isso que procuro sugerir na minha intepretação do caso quando escrevo que ela é vítima, mas não inocente.
Fernando.
Caro Simon Evans:
Concordo com tudo o que você escreve no seu comentário. No entanto, considerando o desdobramento de casos eticamente semelhantes ocorridos no Brasil, receio que tudo se acomode nas trilhas rotineiras. Quero dizer: Geisy, apesar de vítima insultada, procurará usufruir da oportunidade de se sentir célebre como Marilyn Monroe, para lembrar a observação de João Luiz, a Uniban maquiará os estragos na imagem da instituição e a mídia sensacionalista mais uma vez lucrará, com a cumplicidade do público eticamente insensível, explorando mais um dos muitos e repetitivos casos de barbárie à moda brasileira.
Fernando.
Caro Fernando, parabéns pelo texto. Você não sabe como eu estava ansiosa por um texto que abordasse esse evento exatamente a partir da perspectiva da imagem. Pensei que só iria me deparar com um texto assim se fosse escrito pelo Emiliano Aquino, ainda bem que me enganei.
Acredito que seja bem por aí. As perguntas são: O que acontece quando determinado número de sujeitos que compõem a sociedade da qual fazemos parte resolve acolher um pensamento reacionário e passa a agir com base em pressupostos obsoletos? O que pensar de um evento que denuncia a ascensão dessa postura esquizóide na medida em que ganha espaço e apoio em massa? E, mais importante, como agir quando o que se tem em mãos é apenas uma discussão estéril em torno da questão e não de suas verdadeiras causas?
As pessoas estão partindo para o âmbito da moral, ou para o domínio da educação (criticando o ensino superior), mas a miséria a que você faz referência parece fazer bem mais sentido. Um evento assim só denúncia o nosso “caráter”, que nasce de um desvio resultante da “igualdade aparente” a qual Guy Debord tanto aludia. O machismo abordado por Calligaris é apenas um dos aspectos dessa imagem que se constrói com base em inúmeras propagandas, propagandas essas que nós compramos de forma absurda, inexplicável. O consumo incessante que fazemos ao compactuar com as “verdades” midiáticas, as verdades veiculadas pela propaganda necessariamente implica consequências, que, mais cedo ou mais tarde, se apresentam a nós. É pura ilusão pensar que elas sejam veladas para sempre. Nesse caso, o problema não é o vestido. É quem veste o vestido. Os alunos reagiram ao “sujeito” que se vestia daquela forma (concordo com o André Kenji neste ponto: “as únicas Geisies que estes moleques conhecem são empregadas domésticas. Uma moça de classe média alta com um microvestido de shopping não teria sido alvo deste papelão.”)
A experiência desse evento sugere que esses jovens não se vêem como iguais, não se comportam como iguais e não se relacionam como iguais. O que eles fizeram, independente da justificativa dada, tem como plano de fundo aquilo que nós insistimos em não enxergar, aquilo que a falsa comunicação tenta mascarar, um problema que só seria ultrapassado se assumíssemos o que constitui a nossa barbárie: o preconceito, a falta de diálogo, a intolerância com o que é diferente, etc.
Mas parece que isso não vai acontecer, pois o passado não nos ensina nada (como você apontou logo no início do texto) e o futuro, bem, o futuro é algo distante, é mais cômodo não pensar nele…
Estou assistindo agora na TV o POVO de Fortaleza http://www3.opovo.com.br/transmissao-TV/index.html um programa com varias mulheres “intelectuais” ligadas a moda, cinema, jornalismo, elas estão culpando a vítima. Supõem elas, que certamente existam precedentes de provocação da vítima se insinuando e enlouquecendo a turba.
Uma pena que a mídia propositadamente leve pessoas tão despreparadas para analisar fatos como esse.
Quem quiser mandar algum comentário para lá é só seguir o endereço.
Dinha:
Muito grato pela leitura tão compreensiva e penetrante do meu artigo. Várias pessoas, inclusive colegas meus da pós-graduação em sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, leram meu artigo como se fosse contra Geisy Arruda, ou implicitamente justificasse a barbárie de que ela foi vítima. Essa leitura não me surpreendeu, pois infelizmente previ com acerto o maniqueísmo dentro do qual se desdobram debates dessa natureza. Em suma, você é a favor ou contra, está com a vítima ou o algoz, está com o lado certo ou o errado. A vida seria bem mais simples se fosse assim, também nossas escolhas éticas. O que tentei esquematicamente propor, num artigo de 800 palavras, foi chamar a atenção para as questões substantivas invisíveis na superfície de toda essa celeuma. Geisy Arruda é apenas um sintoma disso que insisto em designar como nossa barbárie corrente na mídia, no nosso capitalismo consumista e predatório, no narcisismo infrene ao qual delirantemente nos entregamos. Sem justificar em uma vírgula sequer a violência e a intolerância de que essa moça, inocente útil, foi vítima, procurei ressaltar o fato de que ela é vítima, mas não inocente. O vestido dela, como você e André Kenji certeiramente ressaltam, é também sintoma. Bastou-me vê-la alguns minutos no programa desse tal Geraldo Brasil, um sobrenome aliás muito significativo, para logo me dar conta de que ela não estava ali por força das belas razões morais que o humanismo simplista de pessoas como Contargo Calligaris, Eduardo Suplicy e meus colegas bem-pensantes da pós-graduação expõem na sua crítica à intolerância. Endosso, deixo claro, a crítica à intolerância. Mas tentei ir além disso. As pessoas têm infelizmente muita dificuldade, senão incapacidade, de ler meu artigo acima ou à margem do maniqueísmo corrente. Você está entre as exceções. É confortador ler um comentário como o seu, que enfim evidencia a existência de leitores capazes de compreender o que de fato escrevi e sobretudo procurei sugerir, pois num artigo de jornal não há como detalhar e desenvolver adequadamente argumentos complexos.
Fernando.
[...] — Tuitar por Fernando da Mota Lima * - Diante da recepção em certo grau equivocada que meu artigo suscitou, julguei conveniente acrescentar-lhe algumas considerações que talvez melhor esclareçam [...]
Achei os artigos do Fernando (sobre a questão Geisy Arruda) muito bons e abordaram um problema sério neste Brasil que é a transformação da vida das pessoas em verdadeiros espetáculos por mero preconceito e a consequente entrada dessas mesmas pessoas no mundo que aplaude os quinze minutos de fama que a mídia devoradora alimenta para auferir lucros.Acho até que uma moça pobre que conseguiu entrar na Faculdade sabe Deus com que sacrifício e que agora foi levada pelo preconceito e obscurantismo das pessoas e pasmem ,estudantes universitários, a este festival midiático ,não tem como resistir aos apelos financeiros da mídia impressa e pode recebendo pelas fotos melhorar sua condição até mesmo para estudar.Porque não ela se nossas atrizes globais todas passam pela Revista Playboy ? Chega de preconceitos minha gente.
Heloísa:
Acho discutível seu argumento em defesa de Geisy, do modo como ela está aproveitando a celebridade produzido pelo caso do microvestido. Você tem inteira razão ao observar que a maioria procede da mesma maneira, isto é, agarra-se a a qualquer oportunidade para aparecer, ser celebridade durante 15 minutos. Gostaria de deixar claro que nada oponho ao desejo de fama das pessoas, ao desejo de ser Marilyn Monroe por um dia, como bem observou o leitor João Luiz. O que ressalto é esta questão: que condições morais você escolhe para alcançar essa celebridade fugaz garantida pela mídia? O mundo, diz você de outro modo, está cheio de famosos que negociam qualquer coisa para aparecer? Será isso eticamente defensável? Será eticamente defensável o deslumbramento com que Geisy está usufruindo sua fama de 15 minutos? Se não nos propomos questões éticas desta natureza, acabamos justificando qualquer meio como condição deste fim supremo dos nossos desejos narcisistas: o da celebridade vazia.
Fernando.