O caráter humano mudou – II
13–11–2009 --- Envie para um amigo --- Tuitar
por Fernando da Mota Lima * - Diante da recepção em certo grau equivocada que meu artigo suscitou, julguei conveniente acrescentar-lhe algumas considerações que talvez melhor esclareçam o sentido dos argumentos nele expostos. Acrescentei ainda, nos parágrafos finais, minha apreciação de alguns desenvolvimentos do caso Geisy Arruda entre os poucos dias que separam este e o artigo inicial. Por fim, uma previsão do desfecho de toda essa celeuma que prescinde de bola de cristal, presunção profética ou pura e simples clarividência. Basta simplesmente comparar o caso presente com outros episódios momentosos que com freqüência irrompem do bojo de nossa barbárie rotinizada.
Sabia que meu artigo seria lido de muitos modos e provavelmente nenhum corresponderia integralmente às minhas intenções. Visei muitos alvos ao escrevê-lo, mas previa que no geral o leriam como se se referisse exclusivamente ao caso Geisy Arruda. Ora, ela é apenas um sintoma do que entendo ser, e deixo isso claro no artigo, uma mudança radical no caráter humano. Esta ideia central do artigo ocorreu-me recentemente em conversa com amigos cuja percepção da realidade social brasileira muito se aproxima da minha. Há algum tempo convenci-me, de certo modo contra mim próprio, de que houve uma mudança profunda no nosso modo humano de ser. Ele é sensível nas nossas relações íntimas, na forma como passamos a nos relacionar com a idade, a morte, a sexualidade e outras expressões humanas fundamentais. Ele se manifesta ainda no tipo de mentalidade capitalista que desenvolvemos, também nas nossas expressões morais e religiosas. Em suma, ele afeta de modo radical nossas expressões mais substantivas de humanidade.
Quando tomei conhecimento do caso Geisy Arruda através de um artigo de Contardo Calligaris, pois raramente dou atenção ao noticiário corrente, voltei a refletir sobre o assunto pertinente à mudança do caráter humano. Mas o que foi decisivo foi o fato de ver dois vídeos na internet depois de saber da expulsão de Geisy da Uniban. Estava até então apreciando o caso puramente do ângulo dela, chocado diante do comportamento da turba da Uniban, expressão usada por Calligaris no seu artigo. Minha apreciação foi reforçada pela notícia da expulsão de Geisy, fato que interpretei como mais uma evidência de que a vítima é punida enquanto os agressores ficam impunes. Foi nesse momento que me interessei mais vivamente pelo caso e decidi ver os vídeos.
Há a essa altura vários outros, além de considerável volume de artigos e reportagens relativos ao assunto, que ganhou destaque previsível. Foi vendo os vídeos que voltei a ponderar mais detidamente a questão atinente à mudança do caráter humano. Impressionou-me, antes de tudo, a docilidade com que Geisy relatava a experiência brutal a que foi submetida. Nenhum traço aparente de indignação moral, nenhum indício de liberdade ultrajada. Sentada no centro do programa de auditório apresentado por um certo Geraldo Brasil, sobrenome demasiado sugestivo, ela não se dava conta do modo como ele explorava a questão em termos sensacionalistas dissimulados por um tom de aparente protesto contra a violência a que foi exposta. Foi nesse momento que me vi moralmente perplexo diante de tudo e logo me dei conta de que minha consciência já não visava mais o problema nos mesmos termos. Em suma, já não via Geisy como uma simples vítima da barbárie, mas como parte dela, como quem se rende à barbárie com completa inconsciência das implicações morais do jogo que está jogando.
Quando amadureci a idéia de escrever o artigo, em parte animado por conversas livres que tive com amigos igualmente chocados com a manifestação de barbárie ocorrida na Uniban, lembrei-me de que certa vez lera Virginia Woolf aludindo à mudança do caráter humano em 1910. Minha associação era no entanto vaga e não conseguia localizar precisamente onde ela escrevera isso. Foi quando tive a idéia de reler The Modern World, de Malcolm Bradbury. De fato, lá encontrei a referência que foi meu ponto de partida para escrever o artigo. Além dessa idéia relativa à mudança do caráter humano, quis também ressaltar nossa rendição às formas de poder social, notadamente a mídia, que hoje devassam nossa privacidade invertendo um dos sentidos profundos da distopia escrita por George Orwell: 1984. Foi também aí que me ocorreu, seguindo a noção de marco histórico presente nas citações que faço de Virginia Woolf, D.H. Lawrence e Eric Hobsbawm, datar essa mudança com o ano que dá título ao livro de Orwell.
É fácil ou pelo menos previsível tomar posição contra ou a favor de Geisy Arruda. Isso é o que quase todos estão fazendo nos artigos e comentários circulantes na mídia. O humanismo simplista de pessoas como Contardo Calligaris, Eduardo e Marta Suplicy e muitas outras que se têm manifestado, além da inteligência bem pensante da academia e da mídia, fere essa tecla previsível. Endosso esse discurso enquanto expressa repúdio à intolerância e aos insultos morais que Geisy sofreu, mas procurei antes de tudo ir além disso, pelo menos sugerir num breve artigo polêmico as raízes profundas dessa celeuma. É curioso, não fosse previsível, o fato de alguns leitores identificarem os termos da minha intervenção como justificativa implícita da barbárie que ostensivamente repudio no meu artigo.
A essa altura é mais que evidente o modo como Geisy frui deslumbrada seus 15 minutos de fama. Isso já estava registrado no meu artigo e qualquer crítico isento de reduções maniqueístas poderia facilmente enxergar os refletores no palco. O desfecho é também previsível. Geisy aproveitará avidamente a celebridade fugaz assegurada pela máquina impiedosa do espetáculo, cujo alvo fundamental é faturar audiência. A Uniban, evidência ululante da degradação do nosso sistema educacional, maquiará sem danos maiores sua imagem de instituição universitária que somente num país do tipo do Brasil pode funcionar do modo como funciona. Seria exemplar descrever, com base numa investigação isenta, o processo que a transformou na quarta maior universidade e décima sexta pior do Brasil. A inércia política e institucional dominantes, para não dizer cinismo moral puro e simples, garantem a manutenção desse estado de coisas. O circo da barbárie continuará faturando sem alterações significativas enquanto nós, professores, intelectuais e formadores de opinião, continuarmos deseducando a turba da Uniban e mulheres dóceis à opressão como Geisy Arruda. Daqui a alguns dias ninguém mais lembrará quem é Geisy Arruda, mas as causas determinantes da nossa barbárie prosseguirão seu curso produzindo novos algozes e novas vítimas, nenhuma delas inocente.
* Fernando da Mota Lima é professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco.
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11 comentários:



Então tudo o tempo se incumbe de fazer cair no esquecimento, e os outros 70.000 alunos tambem serão esquecidos?
O professor esta analizando Geisy, e as Priscilas, os Vitor,as Marias, os Josés e o Manés, como ficam?
Entendí que a imprensa girou seu olofote para a Geisa e a turba que a agrediu, ambos produtos de um reles sistema de educação, deixando escondido as causas da agressão que é a ordinária UNIBAN, universidade que de tão vil, só funciona num país como o Brasil.
“Daqui a alguns dias ninguém mais lembrará quem é Geisy Arruda, mas as causas determinantes da nossa barbárie prosseguirão seu curso produzindo novos algozes e novas vítimas, nenhuma delas inocente”.
Parabéns pelo artigo.
Li o seu primeiro artigo e achava ate descenessario este outro. De toda forma, ambos lucidos e serenos. Infelizmente a leitura em geral tendem a um jornalismo tacanho, a um simplismo cultivado pelos “modo jornalistico” de pensar e escrever. Fico feliz que intelectuais como voce venham a publico participar de debates sobre os mais variados assuntos e possam ampliar o que se tornou o teatro de horrores onde todos lutam sedentos e muitas vezes, contra o inevitavel esquecimento.
Os teus artigos estão ótimos.
Compartilho tua opinião. A mocinha está deslumbrada com a fama, e isto será ruím para ela. Nasa se justifica o que fizeram a ela, e é lamentável q´pim
Caro Jorge Santos:
Em certo grau, concordo com você: este segundo artigo é desnecessário. Se no entanto o escrevi, foi porque ouvi muita incompreensão, muita leitura parcial do meu texto. Declaro que isso pouco ocorreu neste blog. A leitura equivocada manifestou-se bem mais em sala de aula e livre discussão com amigos que leram o artigo. No mais, concordando com você, acho que o essencial do que quis dizer está no primeiro artigo. O problema é que, como diz Machado de Assis, a gente precisa explicar tudo, ainda mais quando escrevo no contexto polêmico que baliza questões dessa natureza.
Fernando
Geisy Arruda compareceu ao programa de Serginho Groisman – Altas Horas – no último sábado, 14 de novembro. Antes de prosseguir no comentário, esclareço, com absoluta convicção que não tenho e abomino preconceitos, mas, por tudo que vi, li e ouvi não concordo, absolutamente, em colocá-la na posição de vítima. A capa da revista “ISTO É”, as inúmeras fotos da moça veiculadas na internet, a sua disposição em conceder entrevistas e declarações e, finalmente sua participação no programa acima mencionado, reforçam minha interpretação dos fatos: não houve vítima nesse caso (tristemente tão polêmico). Acredito que ela vem alcançando seu objetivo: vender sua imagem, estar em evidência.
Não há justificativa para a turba de alunos agressivos, mas uma reação assim não ocorre simplesmente em função de um vestido inadequado e provocante. Se assim fosse o que aconteceria nas ruas, praias, baladas? Concordo com a afirmação da moça de que “cada um se veste como quer e como gosta” (Programa Altas Horas), mas adequação e bom senso devem prevalecer.
Reafirmo, entretanto, que nada disso exime a responsabilidade da Uniban que tem por obrigação estar preparada para evitar situações desse tipo, controlondo-as ao primeiro sinal de tumulto.
Insisto, enfim, que nesse triste e patético episódio não houve vítimas, mas sim responsáveis. A cada um a parte que lhe cabe.
Caro Antonio Carlos;
Muito grato pela recepção animadora com que você acolheu meus artigos. Gosto de lembrar sempre uma frase de Machado de Assis: tudo, menos ser empulhado, isto, enganado ou ludibriado. Para que isso não ocorra, além de pensar com espírito livre, devemos considerar as questões debatidas em toda a sua riqueza de ângulos. O narcisismo deslumbrado de Geisy Arruda é um deles. Ressaltar isso não é necessariamente justificar a intolerância e a violência e que foi vítima.
Bosco:
Muito grato pela leitura generosa do meu segundo artigo. Infelizmente, acredito nas palavras com que o concluí. A julgar por todos precedentes de natureza semelhante, acrescidos da inércia das nossas institutuições e da volatilidade da nossa opinião pública, essa questão logo será abafada por uma outra que atraia a atenção da mídia e do público sem que de todo o processo se extraiam lições de mais consistente proveito.
Fernando
Lívia Where:
Acho que seu comentário converge inteiramente com tudo o que no meu artigo frisei acerca deste aspecto preciso: o modo como Geisy se comporta diante da celebridade que o episódio da Uniban está lhe rendendo. Portanto, não há nada que acrescentar nesse sentido. O risco que você corre, isso ocorreu comigo, é deduzirem que você está implcitamente justificando a intolerância e a violência de que ela foi vítima simplesmente por ousar afirmar que ela não é inocente. Sempre me pergunto por que as pessoas entendem que inocentamos o culpado quando ousamos afirmar que a vítima não é inocente. Em suma, afirmar que G. Arruda está deslumbrada com seus 15 minutos de fama valendo-se de critérios éticos que desaprovo completamente não significa dizer que estou inocentando a turba que a agrediu e insultou moralmente.
Fernando.
Tenho um grande respeito e admiração por você e por seus artigos. Ralmente, ousar é um grande risco. Obrigada pela atenção.
para univercitarios uma vergonha deixarao de ser humano para ser animais estou muito triste com o que fizerao com esta jovem ninguen gostaria de passar por isto pura covardia inveja ciume centimentos pobre de pessoas fraca infelismente sao os nossos futuros doutores imagina o que vai ser