Com Darwin, sempre
por Daniel Lopes – Neste ano em que comemora-se duas efemérides em relação a Darwin – 200 anos de seu nascimento e 150 anos da publicação da Origem das espécies –, mais do que nunca ficou evidente a evolução e seus descontentes (aqui mesmo no Amálgama, confira). No Brasil não saíram muitos livros de autores nacionais, mas aqui está um: Além de Darwin, de Reinaldo Lopes. Aproveito inclusive para dizer que é um presente ideal para o fim de ano – ainda mais (se liguem, papais e mamães noel) se for para aquela criança ou adolescente que não costuma largar o livro de ciências e tem curiosidade acima da média; ela poderá lhe ser grata pelo resto da vida.
Embora traga toneladas de informações, o livro de Reinaldo é extremamente inteligível para leitores de qualquer idade. Repórter de ciência da Folha e com material publicado em veículos como Scientific American Brasil, Galileu e Nature, o autor é formado em jornalismo, mas na pós-graduação optou pelos campos da linguística e da literatura.
Aqui está Reinaldo na abertura do livro: “Nenhum aspecto da vida na Terra, das hélices moleculares das bactérias às emoções humanas, tem sentido sem a força iluminadora da teoria da evolução.” Há nessas palavras ecos de Daniel C. Dennett, o filósofo da ciência que sabe muito de ciência (isso é mais raro do que você possa imaginar) e que tem estudos abordando isoladamente a evolução da consciência, da liberdade e da religião, nada menos. Mas enquanto Dennett é um ateu que não contemporiza, Reinaldo é um católico orgulhoso. Que os dois tenham a mesma grandiosa opinião sobre as riquezas advindas da compreensão da teoria de Darwin, é uma mostra do poder de explicação desta – há um capítulo em Além de Darwin chamado “Desinteligências: Por que a hipótese do design inteligente é má ciência e péssima teologia”.
E, bem, aqui está Reinaldo fechando sua introdução: “Vamos ao que interessa: sexo”.
É um livro para o grande público, de divulgação mesmo, algo de que ainda estamos, nós brasileiros, muito carentes. Reinaldo passeia com autoridade, bom humor e boa escrita por temas diversos como a complexa visão das abelhas e dos camarões, e os indícios de que os homossexuais seriam na verdade um co-produto (do ponto de vista evolutivo) de mães e tias maternas com fertilidade acima da média, o que deixaria ainda mais sem sentido a oposição à homossexualidade por parte daqueles que temem que sua prática (e a conveniência com ela) acarretará o fim da humanidade. Na verdade, qualquer lembrança de um “gene gay” ou, menos especificamente, “traço gay” é sempre algo bastante controverso entre os cientistas, e eu indicaria a todos os interessados a leitura do artigo “Genes aren’t us”, de Richard Dawkins, contido no volume A devil’s chaplain (O capelão do diabo) – encontrei em inglês, aqui.
Seja como for, o fim da humanidade que fatalmente adviria de uma sociedade liberal e tolerante com os homossexuais, trombeteado pelos homens do bem, é buraco n’água. Vale citar um pouco a boa lábia de Reinaldo Lopes:
(…) se o fato de homens fazerem sexo com homens rotineiramente impedisse a produção de posteridade, as duas linhagens reais de Esparta, mais famoso núcleo de pederastas da Grécia Antiga, teriam durado cinquenta anos, e não 800 anos.
Em outro artigo, o autor trata do “feedback positivo” que no decorrer da evolução deixou seres adultos com fisionomias semelhadas a infantis, como no caso dos ursos e cachorros – e que, pelo menos neste último caso, teve influência decisiva do homem:
(…) Um grande volume de pesquisas mostra que os bichos domesticados tendem a ser uma versão pedomórfica (…) de seus ancestrais selvagens. Inconscientemente, nossos ancestrais tendiam a selecionar para reprodução suas mascotes com aparência mais infantil, em parte porque ela tende a estar correlacionada com outras características desejáveis, como a docilidade.
O caso dos cachorros (…) é emblemático. Traços como orelhas caídas, rabinhos que abanam, pelo com manchas e propensão a latir em vez de uivar são encontrados não nos lobos adultos (a espécie ancestral do cão doméstico), mas entre os filhotes de lobo. (…)
Destaco ainda a série de artigos, dentro da seção “Mentes – Da inteligência humana e de outras inteligências”, que nos dão pistas para o estudo da evolução da inteligência (e da consciência, lembraria o velho Dennett), proporcionadas pelas emocionantes pesquisas que revelam cada vez com mais profundidade fatos como o complexo sistema nervoso e os comportamentos curiosos de cefalópodes (lulas, polvos…), odonctetos odontocetos (golfinhos, orcas) e… corvos. Observe-se que Reinaldo aborda isso tudo sem cair no falso idílio de alguns ambientalistas: “(…) golfinhos praticam estupro grupal e infanticídio; as orcas matam e comem outras baleias (o que talvez possa ser comparado ao hábito humano de comer carne de chimpanzé e gorila, comum em algumas regiões africanas)”.
E há, claro, sexo. Bastante sexo. A seção, “Parceiros – Dos deleites e das agruras de se reproduzir fazendo sexo”, é logo a primeira, caso você esteja interessado. É o prato de entrada.
::: Além de Darwin ::: Reinaldo José Lopes ::: Globo, 2009, 248 páginas :::
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)



O correto é “odontocetos”, não “odonctetos”.
Obrigado, Eli. Já risquei no texto.
Ah!, legal o teu site. Vou lincar em um futuro blog que estou preparando.
Muito obrigado, Daniel.
Parabéns pelo blog.
salve, daniel,
se prepare, camarada, pra enxurrada de e-mails raivosos daqueles que se queixam que são religiosos ou criacionistas, argh!
parabéns pela dica de natal. com certeza, o bom velhinho vai me presentear com o livro.
abçs
Criacionismo é coisa de fundamentalista religioso que baseia-se unicamente na bíblia, e a tem como verdade incontestavel.
Um livro que fala sobre perversão, crueldade, que insinua pedofilia e usa o tema evolução para chamar a atenção? Com certeza deve ser um ótimo livro para dar a uma criança e adolescente, como presente de Natal. Parabéns! Se é isso que chamam de evolução … não, muito obrigada! Mas não mesmo!
Daniel
Tem O Capelão do Diabo em português pela Companhia das Letras. Assim como outros livros do Dawkins.
Lili
“Um livro que fala sobre perversão, crueldade, que insinua pedofilia”…
Pois é. A Bíblia é realmente uma coisa horrível né não?
Gato, é verdade, eu devia ter lincado no post a edição brasileira. Mas o link que eu passei, para o Google Books, traz todo o livro original. Vale a pena conferir.
Abs.
O aspecto infantil dos animais domésticos que, segundo o autor, desperta simpatia ( e sentimentos pedófilos) nos adultos prende-se ao fato de os filhotes necessitarem proteção, alimentação e segurança. São indefesos e os pais e adultos em geral cuidam de sua sobrevivência. Isto é genético e evolucionista; daí, levar ao conceito de pedofilia é forçar, melhor, torcer os fatos.
Todos os animais protegem os filhotes , alguns, como os elefantes protegem todos os filhotes de modo geral – isto seria sentimento pedófilo?
O ilustre autor deveria fazer um análise com um bom psicanalista.
Pedro
Pedro, no meu post (e no livro do Reinaldo) não se afirma isso. Dando um CTRL+F nesta página, só encontrei “pedofilia” no seu comentário, no da Lili e na resposta do Gato a ela. O que passa mais perto no post é “pedomórfica”.
Abs.
Gente,
Fala sério!!!!!!!!!!!!!!!! Misturar pedofilia com pedomorfia é de acabar com a esperança na humanidade. Nem com fé em Deus essa tamanha ignorância tem jeito. Em vez de falar do livro, que tal ler o dito cujo primeiro?? Ele é espetacular. E deveria, sim, ser dado a adolescentes no natal, sobretudo aos filhos de quem confunde as palavras mencionadas no início do meu post. Quem sabe as boas influências do meio, a despeito da genética que carregam, possam torná-los seres humanos melhores!
Que tal vc ler os comentários antes de retrucá-los, Flávia? Eu escrevi INSINUA pedofilia. Não escrevi que o livro fala disso. Tome cuidado ao chamar os outros de ignorante, pois vc pode estar passando por uma …
” … confunde as palavras mencionadas no início do meu post.” Seu post???? Tem algo errado aí … Em lugar algum o post é atribuído a vc! Até este exato momento, ele é do Daniel … Ou será q ele realmente é seu, mas foi alterado e publicado como se fosse do Daniel … hummm, algo estranho!
Cara Lili, se o livro menciona pedomorfia e vc. acha que ele, por isso, INSINUA pedofilia é porque vc. obviamente confunde as palavras, embora, salvo pelo prefixo, elas não tenham relação qualquer de significado. Vc. deveria, sim, ler o livro. Ajudaria vc. a aumentar seu vocabulário. Post, para ajudar nessa sua nítida carência de palavras, é o nome que se dá a cada um desses recadinhos que “postamos” aqui. A mensagem que vc. escreveu para mim é um post. Esta que eu escrevo agora é um post. Logo, este post é meu. Como aquele que vc. enviou dias atrás é seu. O blog, sim, é do Daniel. Rsrsrsrsrsrsr. Ah, alhos não são bugalhos….
Concordo com a Flavia.