18–11–2009

Caim, de José Saramago


por Anna Raíssa * – Quando o assunto é diálogo malandro e bem estruturado e personagens sagazes, Quentin Tarantino é com certeza o autor mais lembrado na cultura pop. Depois de Caim, José Saramago pode ser citado ao lado dele como mestre na criação de diálogos irônicos, mordazes e inteligentes – não resisti à comparação. Numa tentativa bem sucedida de recontar mitos retirados do Velho Testamento (ou “livro dos disparates”, como colocado pelo autor na página de rosto), do Jardim do Éden à Arca de Noé, e de retratar o embate entre criador e criatura, Saramago nos apresenta dois personagens conhecidos sob novas luzes: Caim, de caráter sedicioso e ácido, sempre questionando as atitudes de Deus, um criador supremo – mas não único – orgulhoso, rancoroso e que inveja os homens.

A raça humana é representada como mais sensata e misericordiosa que seu deus, de personalidade insuportável e que por vezes castiga os homens por simples crueldade, em apostas com o demônio ou por orgulho. Apesar do exposto, Saramago foge ao ataque gratuito à religião, e nos dá uma visão humana e mais racional e coerente dos acontecimentos bíblicos. Mesmo assim, suas declarações a diversos jornais portugueses causaram alvoroço e acabaram funcionando como uma operação de publicidade do livro.

Partindo do princípio que, nas palavras do autor, “a história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus”, Caim representa essa humanidade questionadora e crítica, características não compatíveis com os princípios deístas que pressupõem obediência e submissão. Saramago aproveita pra mostrar o horror feito em nome de um deus que nunca existiu, mas que sempre, através de seus representantes na terra, manipulou os homens uns contra os outros e motivou guerras sangrentas e históricas.

Caim é o filho rebelde, sem sentimentos de culpa ou gratidão, que na impossibilidade de matar deus – um pai que pretere alguns e prefere outros – mata seu próprio irmão. Deus é o criador petulante e egoísta, que não se orgulha de suas criações – que mais são experimentos do que sua imagem e semelhança – e comporta-se mais como um pai ciumento de seus próprios filhos, que se divide entre castigos e demonstrações do próprio poder para causar temor. Caim lembra as palavras de Dean Moriarty, personagem de Jack Kerouac: “Deus existe e não tem remorso”.

::: Caim ::: José Saramago ::: Cia. das Letras, 2009, 176 páginas :::
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* Anna Raíssa é formada em Letras pela Universidade de Brasília.

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  1. Blog Arlesophia (18–11–2009 9:19 am)

    #ultimas Amálgama: Caim, de José Saramago http://bit.ly/3F6sVI #blogosfera

  2. alexandre (18–11–2009 2:56 pm)

    Quais metaforas domindoras forjam a fé do pobre Caim? sua destreza

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  3. carlos anselmo-fort-ce (23–11–2009 12:41 pm)

    salve, professora,

    como já tinha lido outros livros do saramago, dentre eles, jangada de pedra, o cerco de lisboa e todos os nomes, não tive dúvidas em devorar caim logo após sua resenha, por sinal, deliciosa.

    pense numa linguagem irônica, bem humorada e crítica sobre o irrascível inominável! parei ontem na intervenção de caim no pretenso sacrifício de isaac por abraão. me lasquei de rir com os diálogos, inclusive com o do desastrado anjo do senhor que chega ao monte moriá com problemas mecânicos em uma de suas asas. impagável, pode crer. outra riqueza que sempre me emociona no saramago é o seu respeito, sei lá se o termo é esse, à última flor do lácio. é uma aula constante de português.

    pelo jeito, o livro promete mais.
    abçs

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  4. Anna Raíssa (23–11–2009 1:02 pm)

    olá, anselmo!
    sim, o livro promete muito mais! tenho que confessar que ele é surpreendente. eu também me rachei de rir em vários trechos do livro. sem contar que os diálogos entre caim e deus merecem ser emoldurados!

    abraços

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  5. carlos anselmo-eng°-fort-ce (25–11–2009 4:50 pm)

    salve, professora,

    ao lado do prazer de ter chegado ao final do livro, me sinto com depressão “pós-parto”. pode?
    pois sim, vou ler de novo aleatoriamente, pois quero me esbaldar de rir com a promiscuidade sexual da arca de noé. eheheheheeheh!!!!!!!!!!!!!!

    abçs

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  6. Decio (5–12–2009 10:15 pm)

    Simplesmente BRILHANTE !!!
    pág 79

    …o senhor ordenou a avrão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo dágua quando se tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arragado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim….
    …Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com sua língua bífida, segundo o dicionário privado do narrador desta história, signifia traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes.

    Ainda vou escrever mais um Livro (se deus assim o quiser) sobre as coisas mais engraçadas e cômicas das religiões em especial sobre os ditos ” livros sagrados”!!!
    Já sou Agnóstico (começei por Gênesis)…se continuar lendo a Bíblia, logo me tornarei um Ateu.!!!!

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  7. leo (11–02–2010 8:44 pm)

    Caim é sem dúvida uma obra prima da, digamos, sáitra de bom gosto, refinada, irresistível. E eu que achei que o Evangelho Segundo Jesus Cristo seria imbatível…
    Sugiro a quem começar a ler que inicie pela pg 79 até 81 – a descrição da história de Abraão e Isaac é digna de “Oscar”.

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  8. Victor Bruno (6–05–2010 9:14 pm)

    Disparate foi ter comparado Quentin Tarantino com o fabuloso José Saramago.

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