As listas e suas injustiças
25–11–2009 --- Envie para um amigo
por Marlon Marques * – Na edição do mês de outubro de 2009, a revista Rolling Stone Brasil trouxe em sua capa uma matéria intitulada “As 100 maiores músicas brasileiras”. No final da matéria, lê-se os nomes dos críticos e jurados que escolheram as canções, um time de peso. Sempre haverá injustiças e lamentos do público por achar que faltaram itens. Listar é de fato uma tarefa árdua, ainda mais em um país como o Brasil, tão rico musicalmente. Entretanto, temos que concordar que há omissões e omissões. O júri de Rolling Stone acertou muitíssimas vezes, mas também cometeu erros impressionantes, não sei se por política ou qualquer outra razão.
Muita coisa boa e importante ficou de fora. E não só ausências de canções foram sentidas, mas também ausências de certos nomes que jamais deveriam ficar de fora de qualquer lista. Por exemplo, Lamartine Babo. Toda lista é pautada por critérios, a revista não expôs em um prefácio quais os critérios adotados para a sua, mas é nítido que muito do que ali está não seguiu nem critérios estéticos e nem de importância histórica, mas apenas porque foram hits em suas épocas.
“Ana Júlia”, dos Los Hernamos, marca presença. Será que os cariocas não compuseram muitas canções superiores a “Ana Júlia”? Embora “Alagados”, dos Paralamas, seja uma canção seminal, “Lanterna dos Afogados” não ter entrado foi uma injustiça. É claro que, depois da sentença de Nelson Rodrigues, toda unanimidade tornou-se duvidosa. Não farei uma lista elencando as injustiças cometidas pela revista. Não adotarei critérios críticos ou métodos científicos para justificar os nomes que citarei, apenas usarei a traiçoeira memória para trazer a tona músicas que poderiam estar naquela lista e que os nobres jurados ou esqueceram ou negligenciaram.
“Vai Passar”, de Chico Buarque, entraria na minha lista, assim como a linda “Atrás da Porta”, com piano de Francis Hime e interpretação magistral de Elis Regina – se alguém for falar de entrega e emoção, lembre-se desta música. De tudo que Caetano Veloso fez em toda sua longa carreira, de todos os hits emplacados, de todas as polêmicas, todas as novelas, é impossível não se lembrar de “Trem das Cores” e “Podres Poderes”, esta última coincidentemente feita num momento crucial do país, o ano de 1984.
Em termos de grandiosidade, poucas canções se comparam a “No Rancho Fundo”. Composta por dois gênios – música de Ary Barroso e letra de Lamartine Babo –, ganhou vida na voz de grandes intérpretes, tais como Silvio Caldas, Nelson Gonçalves e Chitãozinho & Xororó. E por falar em Lamartine, onde ficou “O Teu Cabelo Não Nega”? Considerada a maior marchinha de carnaval de todos os tempos, Lamartine a compôs sem nenhum conhecimento musical, assim como, em apenas um mês, os hinos (maravilhosos) dos quatro grandes times do Rio de Janeiro. Emplacou anedotas musicais, música romântica, marchas…
Muitos desses nomes estão na seleção da Rolling Stone, a questão são canções suas de maior relevância que não foram ali citadas. O Rappa recentemente gravou uma música chamada “Súplica Cearense”. Muita gente gostou, ela foi bastante comentada, mas o que poucos sabem é que quem a compôs foi Gordurinha. Desconhecido do grande público, o compositor baiano tem uma obra obscura e pequena, porém em seu meio há uma pérola chamada “Baiano Burro Nasce Morto”. Dia desses, ouvindo certa canção, reparei bem em seus primeiros versos e percebi o quanto era bela.
Dois ícones do rock nacional, principalmente das décadas de oitenta e noventa, tiveram sua obra minimizada pela revista. Cazuza criou “Brasil”, a linda “Poema” (ouça com Ney Matogrosso) e “Faz Parte do Meu Show”. Renato Russo e sua Legião Urbana emocionaram gerações, fizeram crítica social, falaram de amor, da vida, com uma maestria sem igual, e ter apenas “Que País É Esse” na lista é praticamente esquecer seu legado.
* Marlon Marques é Historiador pela UNG, pós-graduado em Relações Internacionais pela FESP. Cursou História do Cinema (USP), História da Arte (Mube – MASP) e História da Música (Escola São Paulo).
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7 comentários:




Marlon,
Texto interessante. Concordo que as listas são injustas, sim. E essa tá demais. Tb não listarei as injustiças, mas só pra citar uma, não me conformo com Caymmi na posição 94!?
Qto ao Gordurinha, foi um compositor importantíssimo. Fez ” Ciclete com banana” ( só boto bebop no meu samba / qdo o o Tio Sam pegar no tamborim/ qdo ele entender que o samba não é rumba …) , gravação de Jackson do Pandeiro (1959), num momento de resistência, ainda, à entrada de ritmos estrangeiros no Brasil. “Vendedor de Carangueijo” e “Orora analfabeta” são outras canções suas que merecem destaque.
No mais, creio que listas, mesmo assim, são importantes pq nos despertam, de algum modo.
Um abraço,
Cipy
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Marlon, meu nobre, belo post esse seu. Discordo quanto a substituir “Alagados” por “Lanterna dos Afogados”, acho a primeira infinitamente melhor, sem falar na importância da música que representou um momento de ruptura e auto-afirmação dos Paralamas. Você citou “O Teu Cabelo Não Nega” que Lamartine Babo dizia ter composto. Essa marchinha foi composta pelos “Irmãos Valença”, uma lendária dupla de compositores de frevo pernambucana. Ocorre que a música não foi registrada e o Lamartine Babo registrou como sua. Depois de uma disputa judicial, acabaram incluindo na autoria o nome dos compositores pernambucanos. Oswaldo Sargentelli (o das mulatas), que era sobrinho de Lamartine, disse várias vezes que seu tio confessou a ele esse delito. Sobre a marchinha em si, nunca é demais lembrar que ela traz um dos versos mais racistas da emepebê: “mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero seu amor”.
Com relação ao tratamento que a revista deu a Legião Urbana e a Cazuza, considero um erro grosseiro. Mas, como as listas baseiam-se na subjetividade do gosto, há de se entender.
Abraço!
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Caro Ed.
Boas observações essas suas, valeu pelo comentário.
Quanto ao que disse, não me referi a substituir “Alagados” por “Lanterna dos Afogados”, mas que essa última não tivesse ficado de fora.
Quanto ao Lamartine, já ouvi essa história também, mas como sou historiador, gosto de provas – de preferência documentais, e como não conheço nenhum registro dessa história, prefiro deixa-la como hipótese.
A história se faz assim, é só lembrar-mos de Lavoisier, Newton e até Einstein.
O crédito ficou para Lamartine, por isso a citei.
Sobre racismo, e “Aquarela do Brasil”?
Há quem defenda tais compositores enquadrando-os numa fórmula Freyriana de concepção da concepção racial – não que seja o meu caso.
A ideia não foi só mostrar que coisas importantes ficaram de fora, mas também mostrar que muito do que ali foi posto não deveria ali estar.
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Marlon, a música “O Teu Cabelo Não Nega”, há muito, é creditada a Lamartine e os Irmãos Valença. Mas, só lembram do primeiro.
Abraço!
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Legião Urbana só teve como representante Que País É Esse, é uma vergonha.E Faroeste Caboclo fica na onde? uma música que tão cedo não surgirá igual.
Essa lista foi uma merda, dsicordo de um monte de coisa nela.Até o velho Raulzito só teve Ouro de Tolo e Gita fica na onde?
E como o Camisa de Vênus ficou de fora dessa lista, é uma vergonha.
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Fiquei curioso, Max. Que músicas você tiraria pra colocar Faroeste Cabloco e alguma coisa do Camisa de Vênus?
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Até que eu gostei da lista, senti algumas faltas e algumas injustiças, mas fazer o quê né?
Bora fazer a nossa então! ahaha
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