A precariedade do romance

5–11–2009 --- Envie para um amigo --- Tuitar

por Alfredo Cesar * – Não há nada mais cansativo do que a defesa da literatura por parte de seus tantos amantes. Considerada desde os tempos medievais como inútil e combatida como supérflua, a literatura necessita se justificar constantemente. Talvez por vivermos acuados nesse mundo que nos demanda tanta praticidade, nós, os estudiosos da literatura, acabamos nos ressentindo e começamos a exagerar a respeito das excelsas funções da literatura. Não raro, resvalamos numa espécie de nefelibata idealismo, e esquecemos que, ao fazer isso, tornamos a literatura ainda mais enleada de mistificações.

Eis o caso do recente artigo do escritor peruano Mário Vargas-Llosa, “Em defesa do romance”, publicado na revista piauí. Vargas-Llosa faz mais uma de tantas defesas “humanistas” do gênero. Sem o romance, segundo o escritor, não nos diferenciaríamos tanto assim dos animais. Através da leitura de obras de ficção, aprenderíamos a viver uma vida melhor. Mas já no começo do artigo percebemos que por trás do “humanismo” do autor, esconde-se – de forma nada discreta – um profundo elitismo. Vargas-Llosa afirma:

Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão.

A defesa do romance começa a se transformar na defesa do estilo de vida de uma casta social – os que lêem Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire –, e menosprezo a todos os “semi-idiotizados” que não conhecem tais autores. Aliás, esse desdém em relação à cultura de massa vindo de um “defensor” do romance não deixa de ser irônico, pois as acusações sofridas pelo romance no início no século XVII eram muito semelhantes àquelas hoje desferidas por Vargas-Llosa contra a cultura de massa. Perto dos gêneros tradicionais como a épica, a tragédia, a comédia, o novo gênero parecia não ter foco, misturando o sublime com o grotesco, e ao narrar eventos corriqueiros de pessoas banais do tempo presente, o romance mostrava-se despojado de qualquer nobreza. “Defensores” de poemas épicos e tragédias poderiam dizer que os leitores dos clássicos amariam melhor que os arrivistas amantes do romance. Como comparar Beatriz de Dante, excelsa e angelical, com a Dulcinéia de Quixote?

Os tempos passaram, as dinâmicas culturais mudaram e hoje vemos Vargas-Llosa defendendo o romance como farol das grandes questões da humanidade e desprezando a banalidade da cultura de massas, estabelecendo assim uma falsa polaridade, pois bem sabemos o quanto o romance contemporâneo dialoga com a cultura de massas, que está longe de ser um ente homogêneo. No mais, convivo com acadêmicos há bons anos, leitores de romances e poemas, e não vejo em suas paixões, amores e obsessões nenhuma diferença qualitativa em relação a qualquer outra pessoa que não tem a felicidade de ler frequentemente obras de literatura. Aliás, o romance não nasce e se desenvolve exatamente para mapear o amor e a vida de pessoas ordinárias, como Emma Bovary de Flaubert e Miss Dalloway, personagem de Virgina Woolf?

Depois de separar um tanto arrogantemente a humanidade entre aqueles que, como ele, amam mais solidamente – porque são leitores de Baudelaire e Garcilaso – dos que não amam com tanta qualidade, como os consumidores da cultura de massa, Vargas-Llosa enxerga o romance como gênero capaz de nos ensinar sobre a tolerância diante das diferenças étnicas e culturais! O romance faz dos leitores pessoas tolerantes com aqueles diferentes deles mesmos, certamente tanto quanto como o próprio Vargas-Llosa! Diz o escritor peruano:

Nada, mais que bons romances, ensina a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do patrimônio humano, e a valorizá-las como uma manifestação de sua múltipla criatividade.

Eis uma tese bonita, mas absolutamente carente de fundamentação. As elites coloniais britânicas e francesas certamente liam Shakespeare e Montaigne, o que não as impedia de tratar os colonizados como seres essencialmente desiguais a elas próprias. Isso para nem sequer mencionar o caso nazista, já que a elite do III Reich, a começar pelo próprio Hitler, tinha uma certa educação estética. Como esses leitores cultivados não perceberam a grande lição humanista do romance?

Creio que aqui chegamos ao nó de minha discordância com o a visão do romance exposta por Vargas-Llosa em seu artigo. A meu ver, Vargas-Llosa fetichiza a literatura. Fetichismo é atribuir poderes e qualidades a um objeto que de fato não os possui. O grande problema na argumentação de Vargas-Llosa é que o escritor peruano parece querer derivar uma ética a partir da forma romanesca. Como se da leitura de romances nós passássemos a amar com mais qualidade, a tolerar as pessoas diferentes de nós e assim por diante. Vargas-Llosa está preocupado o tempo todo com o que a literatura pode fazer de nós, quando o crítico materialista sabe que esse é apenas um dado do movimento dialético. Tão importante quanto saber o que a literatura pode fazer de seus leitores, é entender o que nós fazemos da literatura. É preciso colocar o modelo de Vargas-Llosa de cabeça pra baixo: Não é a literatura que cria um modo de agir no mundo. São os nossos posicionamentos éticos que potencializam a literatura, e a impedem de tornar-se letra morta, fixa em seus valores originários, sejam eles quais forem, para continuar dialogando com nossas angústias e problemas.

Ora, por que a literatura tão humanista e liberal não ensinou os valores de tolerância para as elites coloniais britânicas e francesas? Porque estas não eram as perguntas que tais leitores estavam fazendo aos romances que liam. Porque esses não eram os problemas que consideravam os mais importantes. Esses valores fazem sentido num mundo calejado pelas guerras mundiais, pelos fundamentalismos religiosos e pelos regimes totalitários e autoritários que assolaram nosso planeta numa escala inédita no século 20. E apoiados nessa visão de mundo, esculpida pelo processo histórico, revisitamos nossos clássicos, fazendo-lhes novas perguntas. Mas não são perguntas a um oráculo, que nos ensinará um modo de agir no mundo.

Obras literárias podem nos dar novo vocabulário para nomear experiências que antes intuíamos mas não conseguíamos definir; podem nos oferecer insights sobre determinados processos sociais ou psíquicos; mas dificilmente – apenas por elas mesmas – nos ensinarão a tratar o nosso próximo de forma melhor e com mais dignidade. Pois como todo conhecimento, a literatura também pode ser instrumentalizada para os mais diversos fins, e defesa dos mais estranhos valores. Sempre lembro de amigos espanhóis e italianos que detestavam Don Quijote e A Divina Comédia, pois esses livros eram ensinados obrigatoriamente na escola, em seus respectivos países, de uma maneira oficial, laudatória, repleta de decorebas, auto-referente, guiada pelas perguntas mais tediosas e aborrecidas. Como se vê, os seres humanos são capazes de transformar um livro como Don Quijote num romance “chapa-branca”, ao mesmo tempo que transformá-lo numa ficção representativa de muitos de nossos dilemas, anos após anos, pelas mais diversas razões.

A literatura pode ajudar a justificar uma série de ideologias e visões de mundo. As lacunas dos textos literários são constantemente preenchidas por nós, pelos nossos anseios, preconceitos e utopias, para o bem e para o mal. Sua fragilidade e sua força parecem residir nessa indeterminação. Criação de seres humanos precários, pelejando contra a contingência da vida, como exigir algo diferente da literatura?

* Alfredo Cesar é professor de literatura luso-brasileira na Universidade de Chicago.

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10 comentários:

  1. Daniel (5–11–2009 1:14 pm)

    Quando o assunto é literatura, eu só deixo de ler Carl Sagan por meia dúzia de outros autores, se tanto.

    Excelente artigo, Cesar.

  2. fred.k (5–11–2009 1:50 pm)

    Excelente artigo mesmo.

    Li o texto do Vargas Llosa, e esse trecho sobre os amantes leitores me incomodou sobremaneira.

    Por outro lado, será que quando ele fala sobre a capacidade de o romance gerar um mundo mais tolerante, não teria ele em mente justamente a produção literária mais variada que surgiu no decorrer do século XX. Certamente os colonizadores ingleses liam Shakespeare, assim como os nazistas liam Goethe -ainda que fugissem dos “degenerados” como o diabo da cruz-, mas não poderíamos considerar que obras de Gabriel Garcia Marques, Graciliano Ramos, Octavio Paz, Borges e do próprio Vargas Llosa talvez tenham aberto mais janelas para observação e, portanto, maiores possibilidades para a tolerância e entendimento do outro? É só uma provocação, sem nenhuma base de apoio…hehehehe

    Por fim, se Feltrinelli -famoso editor italiano, comunista de carteirinha, que criou sua casa editorial para publicar obras da esquerda e que morreu na ilegalidade em um ataque terrorista fracassado- dizia que a função de um editor não é mudar o mundo, mas sim editar livros, parece-me que qualquer discussão sobre a função dos livros fica meio prejudicada.

  3. Guga Schultze (5–11–2009 3:22 pm)

    Somando mais uma discordância, por motivos outros:

    http://www.verbeat.org/blogs/sic/

    Ótimo texto, abraço

  4. uberVU - social comments (5–11–2009 6:08 pm)

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  5. Rafael (5–11–2009 9:42 pm)

    ahn… quem disse que as elites liam? ao que me consta, é justamente o contrário. as elites não liam e continuam, a rigor, não lendo. os acadêmicos leem, mas ficam malucos de tanto ler, de tanta teoria. portanto, não se enquadram no que diz o Llosa. acho que ele se refere aos poucos e raros que leem e se sensibilizam com a literatura. e me parece que ele adoraria que esse número de pessoas aumentasse.

  6. Luiz (6–11–2009 11:03 am)

    Excelentes artigos, tanto o seu quanto o de Llosa.

    Encontrei tambem em ambos inconsistencias em algumas das argumentações, mas no geral, a leitura dos dois artigos fornece grande ferramenta de síntese. e a síntese é o que importa.

    Obrigado!

  7. Angela (7–11–2009 4:18 pm)

    Ler ou não ler, eis a questão.
    Não sou expert em literatura. Sou apenas leitora. Gosto de ler, tenho prazer em ler bons livros, sejam eles romances ou não. Se eles mudam nossas vidas não cabe a mim dizê-lo, mas penso que todo escritor, para criar seus personagens perscrutou obrigatoriamente a alma humana. Desse modo, histórias de amor ou de ódio ou histórias de guerra ou de paz onde os sentimentos são o ponto alto, sempre serão considerados contemporâneos, Não importa o ano em que foram escritos, pois tais sentimentos são inatos e não muda no ser humano, quer tenha vivido na idade média ou no século XXI.
    Ao que me consta os romances começaram a fazer sucesso porque quem os liam eram as mulheres. Mulheres que eram obrigadas a se casar por interesses de família e não encontravam no parceiro o homem ideal para concretizar seus sonhos de amor , buscavam nos romances a compensação para o tédio de suas vidas.
    Sempre encontro aqui excelentes posts. Aprendo muito e fico agradecida.
    Abraço
    angel

  8. Bosco (9–11–2009 11:37 am)

    Depois de alguns refrescos da fruta “caras” de gosto duvidoso, o amálgama volta com um belo texto.
    É aqui o lugar que tenho aprendido coisas.
    Obg.

  9. Fernando da Mota Lima (13–11–2009 1:28 am)

    César:
    Comento seu artigo sem todavia o reler, como me prometi. Confesso que no momento o que determina este comentário são duas coisas: lamento que meu artigo sobre a mudança do caráter humano, simplesmente por repercutir o affair Geisy Arruda, tenha repercussão maior que o seu. Somos amigos acima de conveniência sociais (noutras palavras, desfrutamos daquilo que chamo de privílégio da intimidade). Portanto, não precisamos acenar para nenhum gesto de hipocrisia. Lamento que meu artigo aparente ter maior repercussão porque o seu e o tema de que você trata importam muito mais. Dentro de dois dias ninguém mais falará de Geisy Arruda, mas continuaremos discutindo Vargas Llosa e a literatura canônica do mundo ocidente, talvez isso não passe de truísmo. Discordo de muito do que você escreve no seu artigo, mas isso não importa no momento. O único argumento que contraponho à crítica que você desfecha contra Vargas Llosa, por ele argumentar que a literatura nos torna seres humanos melhores, é um argumento de natureza puramente biográfica: tenho absoluta convicção de que a literatura fez de mim um ser humano melhor. Quero dizer: eu seria bem menor, bem menos capaz de compreender a mim próprio, à realidade e a meu semelhante se não houvesse lido Shakespeare, Auden, Thomas Hardy, Machado de Assis, Drummond, Mário de Andrade… Você nota que isso é antes um fato de indicação subjetiva do que um argumento. O que assinalo não anula o fato objetivamente aferível que você utiliza para desqualificar a função humanista da literatura e o elitismo (eis outro termo que mereceria consideração crítica mais rigorosa) de Vargas Llosa. Infelizmente, concordo com você, muitos nazistas foram leitores de alguns desses escritores que acabo de citar como expressões do mais alto humanismo literário imaginável. Bem, espero que essa discussão tenha desdobramentos entre nós à margem do blog.
    Fernando da Mota Lima.

  10. jorge santos (16–11–2009 3:48 pm)

    Cesar,

    Esse numero da Piaui tem uma serie de artigos e textos interessantes. Bem, tambem li o artigo do Vargas-Llosa de quem sou fa desde “A Historia de Mayta” (nao lembro agora se eh com y ou i), todavia concordo com voce nessa leitura “fora de lugar” da funcao do romance no mundo contemporaneo. Acho mais do que “fetichizar” , Vargas-Llosa mantem uma visao diria, pelo menos, novecentistas da funcao do romance. Acho que no fundo embora seja ele um tecnico no sentido artistico da palavra, ele nao parece acreditar a “habilidade artistica” , a beleza, antes de tudo, seja suficiente para justificar o romance. Acho que eh uma leitura enviesada porque ve na literatura de um lado uma funcao que ela ja nao tem mais em essencia, do outro por acreditar que uma civilizacao iletrada esta certamente fadada uma limitacao emocial e cognitiva (ela faltou as aulas de antropologia, rs).
    Acho curioso a tentativa que todos tem em colocar sua atividade no trilho das indispensaveis para vida humana, nao entendendo que cada atividade, em especial as artisticas, tem funcoes que variam no tempo e no espaco.
    A relevancia da literatura esta no seu fazer, naquilo que a torna ela mesma, ou seja, no seu fazer artistico, na letra, no seu espaco auto-suficiente, antes dos temas, dilemas e questoes que ela possa envolver, sua funcao atual eh ser obra de arte, mais do nunca.





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