“Tróia”, “O júri” e maniqueísmo

3–11–2008 – Enviar para e-mail

cena de "O júri"por Luiz Biajoni – Tenho um dicionário velho chamado Novo Brasil. É um dicionário bem ruim. Como também vivo confundindo o significado das palavras, ele me ajuda. Às vezes ajuda a me confundir mais. É legal que posso sempre citá-lo como fonte – embora seja uma fonte bastante pouco confiável. De qualquer maneira, e de maneira reduzida, ele assim traduz “maniqueísmo”:

“Doutrina de Mani (215-276 a.C), fundada na Pérsia, se baseia na afirmativa de que o Universo é criação de dois princípios que se combatem: O Bem ou Deus e o Mal ou o Diabo. Por extensão, passou a designar toda doutrina que se funda em dois princípios opostos do bem e do mal.”

Pois bem. Recentemente assisti a esse ótimo filme baseado no best-seller de John Grisham: O júri [cena acima]. Um timaço de atores (Hackman, Hoffman, Cusak e Rachel Weisz) faz a coisa ficar melhor. Mas a história é de um maniqueísmo atroz. Estão ali o Bem e o Mal extremamente bem desenhados. Você torce pro cara certo, sente uma sensação de alívio maravilhosa quando percebe que o bem vai vencer. Tem uma certeza que vai dar tudo certo. E tudo dá mesmo. Epifania!

O júri tem a estrutura da grande maioria de tudo o que se faz em cinema e literatura: protagonista, antagonista, conflito, indecisão e ação, suspense e conclusão a favor do bem. Não deixa de ser bom por causa dessa estrutura cansada e recorrente. Só é levemente previsível e, talvez se algo desse errado pudesse ser mais interessante. Não é interessante: é bom porque é bem feito e nos deixa com uma sensação final de que o bem sempre vence. E nós sabemos que nem sempre. Quase nunca!

Por outro lado, revi o Tróia do W. Petersen, com o Pitt e o Eric Bana (que eu achei um banana no Hulk, mas está sublime no Tróia). Bom, o filme tem Vanessa Redgrave e Peter O’Tolle também. Mas o importante é que nele não existe maniqueísmo. Isso confunde a cabeça dos espectadores: não temos pra quem torcer.

cena de "Tróia"Num resumo apertado, Helena é mulher de Menelau; Príamo a rouba do cara; Menelau é irmão de Agamenon que está conquistando toda a Grécia e tem como principal guerreiro Aquiles; Agamenon compra a briga e vai a Tróia buscar a mulher de volta; Heitor, irmão de Príamo, compra a briga – vai ter início uma batalha de 10 anos por causa de uma mulher. Quem está certo? Quem não está? Tá certa a Helena que fugiu com o Príamo sabendo que ia causar uma guerra? Tá certo o Príamo de levar a vagaba? Tá certo o Heitor de comprar a briga? Tá certo o Aquiles de ir lutar numa guerra que não é sua só para perpetuar seu nome na História?

Os personagens, em Tróia, tem lados bons e maus – parecem ser pessoas bastante normais em suas paixões e decisões. O estranho é comprovar que a história que dá base ao filme, a Ilíada, foi escrita por Homero há mais de 3.000 anos. Parece que antes (bem antes) os escritores tinham melhor noção da complexidade do ser humano. John Grisham acha que o mundo se divide em pessoas boas e más. Ou escreve só por dinheiro.

A verdade não dá dinheiro. Acho que Homero morreu pobre. Tá certo que, na época, ainda não havia Hollywood.

Leia também:

Receba os próximos posts no e-mail

4 comentários:

  1. Ju Dacoregio (3–11–2008 9:50 am)

    O Júri é ótimo! Bem, como você falou: maniqueísta, bem feito e nos faz tomar partido. Também achei o Eric Bana um banana no Hulk. E como Henrique VIII também. Não lembro dele em Tróia. Só revendo para saber.

    [Responder]

  2. JLM (3–11–2008 2:45 pm)

    Quem leu a Ilíada e viu o filme só sentiu a falta dos deuses gregos tomando partido e influenciando as atitudes humanas a cada cena. Esta exclusão funcionou bem na telinha, deixando mais a ação da história, mas retirou grande parte do significado da obra. Na minha modesta opinião, só oq foi cortado já daria um outro filme.

    1 abraço.

    [Responder]

  3. léo (6–11–2008 11:12 pm)

    oi gente!

    Eu posso estar enganado, mas acho que `Príamo é o pai de Heitor e de Páris. Quem rouba Helena é o Páris. Aquele mesmo que decidiu que a mais bela deusa era Afordite, e não Atenas ou Hera. Alíás, a Guerra deTtróia foi um vingança das 2 deusas por terem sido preteridas . Pelo menos é assim no mito. Avho. Pois estou citando tudo de cabeça

    abs e até

    [Responder]

  4. MARIA DA PIEDADE PEIXOTO (27–03–2009 3:01 am)

    QUER MAIOR MANIQUEISMO DO QUE O ” EU TE QUERO QUENTE OU FRIO; SE FORES MORNO EU TE VOMITO”?. O CRISTIANISMO E A BÍBLIA ESTÃO CHEIOS DE EXEMPLOS. MAS OS FILMES CITADOS SÃO REALMENTE ÓTIMOS.

    [Responder]