20–11–2008

Palavras, esses troços que (com a ajuda de Deus) são coisa do capeta

por Daniel Lopes – Ah!, minha rusga com os tradutores… Ou melhor, com as traduções… (Não é nada pessoal.) Só aumenta quando eu leio manuais sobre o assunto. Eles mostram a beleza que é a arte de traduzir, mas uma beleza que só é refletida no produto final em 1 por cento dos casos. No mais das vezes o pobre do tradutor pensa ter feito um exímio trabalho, mas, coitado, se perdeu e não sabe. Até porque, sejamos francos: que profissão inglória a sua. Pior que vigia de cemitério ou zelador de açougue. Vejam se tem cabimento: traduzir o intraduzível.

Mas quem mandou o homem ousar chegar até as alturas de Deus? Divina maldição: centenas de línguas neles! E, como é improvável que alguém consiga em seu curto tempo de vida aprender mesmo as línguas mais faladas a ponto de ler fluentemente sua literatura, temos o opróbrio final – tradutores: ruim com eles, impossível sem eles.

Não que a importância de se aprender línguas seja com isso diminuída entre o grande público. Não a quem almeje certo nível de conhecimento intelectual. O argentino Cesar Aira escreveu em um artigo que quem quiser começar a aprender filosofia de verdade, tem que cuidar de aprender a fundo russo, alemão e grego (alguém se propõe?). Evidentemente, Aira despreza as traduções de um Platão, um Kant. Mas como ele confessa não saber esses idiomas o suficiente para ler os originais, o pegamos de calças curtas: leu os grandes filósofo traduzidos, e foi nas traduções que percebeu suas grandezas. Alguma qualidade elas tinham.

Mas é uma angústia, claro. Sempre. Para quem gosta de literatura como eu gosto, o ideal seria ler fluente, além do português, espanhol, inglês, francês, italiano, russo e alemão. No mínimo. Patino no italiano, esbarrei no alemão e o russo tá do outro lado da montanha. (A propósito, se permitem a propaganda, é em russo a palavra de significado mais bonito que descobri até agora, e com a qual nomeei meu novo blog.)

E pensar que isso era pra ser sobre o clássico A arte de traduzir (Unesp, 2004), de Brenno Silveira… A minha edição é de Mil Novecêntos e Cincuenta e tantos [acima e ao lado]. Dá câncer de pulmão, mas é mais charmoso.

Soube de sua existência lendo outra pérola, A tradução vivida, do mestre Paulo Rónai. Que aliás está precisando de reedição urgente! Atenção, senhores editores! Enfiem Cabul* na prateleira de baixo e dirijam vistas a esse grande que foi Paulo Rónai (e nem vou falar – porque já falei – da ausência absoluta do crítico Leo Gilson Ribeiro de nossas livrarias).

Com rigor e graça, Brenno analisa as peculiaridades do ofício de tradutor (o profissional ideal-al-al teria que possuir “a paciência de um beneditino e a humildade de um monge trapista”), bem como escorregões típicos de quem envereda pelo árduo ofício, e aí entra não apenas os falsos cognatos mas, fator principal, a ignorância cultural do tradutor médio. Porque é preciso, para se traduzir com qualidade um livro de literatura, não apenas profundo, profundíssimo, inesgotável conhecimento das línguas de saída e chegada, mas também ampla cultura geral em relação à geografia física e humana das regiões abordadas no livro. Como exemplo, o autor cita os livros de faroeste (não esqueçam que Brenno estava na década de 50), que muitos tradutores pensavam ser banalidades para as massas, facilmente traduzíveis. Qual o quê! O linguajar dos caubóis estadunidenses era um cipoal de expressões que vagamente lembravam o inglês urbano.

Não que, por mais perfeita que seja a tradução, o original possa ser dispensável. Mas, como sempre haverá nulidades em russo (não olhem pra mim), melhor traduzirem Tchekhov decentemente.

Há muita tradução comparada no livro. Muitas boas lições. Não apenas para quem já é ou pretende ser tradutor (para os quais as lições são na verdade indispensáveis), mas para os leitores mais empenhados e curiosos, e também os velhacos – aqueles que querem se prevenir contra os embustes que algumas editoras (mesmo grandes) tentam nos empurrar com o rótulo de “tradução”. Por exemplo, em certo livro policial, Brenno se deparou de repente com a frase “O detetive era um homem de reconhecida surdez”. Reconhecida surdez?! Rarará! De cara, ele concluiu que aquilo só devia ser coisa de (mau) tradutor. Ocorre que a frase no original, Brenno foi lá conferir, dizia que o detetive tinha reconhecida “deftness”, que o tradutor confundiu com “deafness” e mandou bala.

A maior parte das traduções analisadas partiram da língua inglesa, mas há também algumas do espanhol, italiano, francês e alemão. No delicioso trecho a seguir, os tradutores (de notícia!) escorregam feio no espanhol e no alemão. Leiam, leiam:

Há poucos anos, li, em matutino de São Paulo, a seguinte notícia, apresentada a seus leitores, pela estranheza do fenômeno, em grandes títulos: “VIOLENTA TEMPESTADE DE AZOTO SOBRE A ARGENTINA”. Claro que uma tempestade de “azoto” mereceria título tão sensacionalmente vistoso, se tal fenômeno houvesse, inexplicavelmente, ocorrido. Na realidade, porém, o que ocorrera na Argentina fora apenas uma tempestade violenta, sem nada de extraordinário. Extraordinária fora a ignorância de quem traduzira a comunicação transmitida em castelhano, e que com toda a certeza tinha este título: “VIOLENTA TEMPESTAD AZOTÓ LA ARGENTINA”. Nos títulos em letras maiúsculas, quando datilografados – ou em “caixa alta”, quando tipograficamente – as palavras castelhanas não trazem acentos. E todos os comunicados telegráficos vêm em maiúsculas. O tradutor lera, então, o seguinte: “VIOLENTA TEMPESTAD AZOTO LA ARGENTINA”. Como se tratava se telegrama, talvez pensasse, por ignorância do idioma, que o título da notícia não estivesse completo, dando apenas uma idéia do “estranho fenômeno”. E não teve dúvida: traduziu o verbo “azotar” (açoitar) como se fosse o substantivo “azoto”.

Outro importante jornal de São Paulo, quase na mesma ocasião, publicou, com destaque, a notícia de que sensacionais experiências estariam sendo feitas, na Alemanha, com hidrogênio. Tais trabalhos, porém, “não estavam sendo feitos apenas com hidrogênio, mas também, com nova substância contida na água, denominada Wasserstoff. Os leitores que conheciam alemão naturalmente se divertiram muito com a ignorância do tradutor. A “nova substância”, a que o mesmo se referia, não era outra senão o próprio hidrogênio, que, em alemão, é Wasserstoff.

* Como adentro, digo, adendo: ouvi de fonte segura que Luiz Biajoni chegou a cogitar novo título para sua novela Sexo anal, quando esta migrou do mundo virtual para o do papel. Seria algo como “A menina que fazia algo que rima com Cabul”, o que seria de forte apelo comercial, sem dúvida.

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| 3 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. Suelen de Andrade Viana (20–11–2008 12:58 am)

    Todas as vezes que trabalho com traduções eu acabo vislumbrando muita novidade sobre a dinâmica das línguas. À parte todas as teorias de tradução, uma coisa certamente não pode ser questionada: traduzir é interpretar e ir além do simplesmente descodificar uma língua para codificá-la em outra. Traduzir é estar ciente de que língua e texto são explicitamente o que se prendem às tramas do contexto e se expandem para além do que foi dito. Escrever é uma arte e traduzir é a arte de recriar palavras ditas de forma que elas sejam fiéis à arte mãe, mesmo que não sejam aparentemente a mesma coisa. Um desafio, é claro! Intrigante. No mínimo.

    Traduzir nos dias de hoje é ter que se render às tecnologias da informação e a tudo que está disposto no ciberespaço. Com a universalidade dos dizeres já não se pode mais traduzir de mãos livres algo que já fora traduzido e publicado. Há de se realizar uma avaliação do que já existe de publicação sobre o assunto. Nos dias de hoje, traduzir é pesquisar contexto muito mais do que pesquisar palavras e expressões desconhecidas em dicionários guardados nas estantes e gvetas. A pragmática da língua impera na arte da tradução.

    Ontem eu acabei de traduzir uma monografia sobre biologia e vida aquática. Imagina o tanto que tive que ler sobre o assunto?

    Enfim, se escrever é parir, e se o escritor é a mãe, o tradutor é mesmo a madrasta, o autordrasto – e as madrastas nunca tiveram boa fama. Mas as crias crescem e muitas vezes aparecem.

    Isso foi o que postei no blog (o outro) outro dia. Gostei do texto. É bem isso mesmo. Pode ser que role o título que vc sugeriu ao Biajoni..rsrs

    bjs

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  2. Daniel (20–11–2008 12:01 pm)

    Obrigado pelo comentário, Suelen. E a propósito de traduções, gostaria de te convidar a conhecer (se é que já não conhece) a coluna Translato, que o Eduardo Ferreira faz no jornal Rascunho – http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=2&lista=1&subsecao=5&ordem=0

    Abraço e volte sempre.

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  3. gerusa (20–11–2008 11:03 pm)

    Por conta de traduções deturpadas, o carater transformador de um dos maiores teoricos educacionais ficou oculto durante muito tempo. Vigotsky (russo pra variar) começou a ser traduzido do francês para o inglês na década de 50, e só chegou aqui no Brasil em meados da decada de 70, traduzido do inglês para o português, e no auge da ditadura, onde tudo o que fissese alguma alusão a União Sovietica passava por um crivo criterioso, tanto que nem o balé russo escapava.
    Isso contribuiu para pequenas adaptações que tiraram todo o carater da proposta educacional de Vigotsky, fortemente baseada no materialismo histórico de Marx, com grande apelo para que o homem tomasse as redeas da propia historia e reconstruisse as relações através da educação.
    Quem, naquela época (principalmente os Estados Unidos) , iria querer alguem com principios educacionais baseados nas teorias de Marx?
    Hoje, os Vigotskianos recomendam (caso você não leia russo) as traduções do frânces para o português. Hoje no Brasil há um grupo de estudiosos empenhados em traduzir Vigotsky diretamente do russo, afim de obter o maximo de fidelidade.

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