Obama, Osama, Hosana!
7–11–2008 – – Enviar para e-mail
por Lelê Teles – Ah, se tudo hoje não depende viciosamente da imagem, se na sociedade midiática – sociedade do espetáculo – não estamos todos em busca de uma boa imagem, do ângulo certo, de não ser pego com um feijão entre os dentes. Hoje as pessoas não têm mais coragem de escarrar e passar os dedos sujos em uma parede vazia, todos sabem que pode ter uma câmera em qualquer lugar.
Não temos mais mitos e as imagens dos santos foram carcomidas pela história. O nosso Bezerro de Ouro, o nosso cicerone transcendente, é um ser de carne e osso, como nós, mas é melhor que nós, embora nem nós mesmos saibamos em quê. Acreditamos nisso por uma questão de fé, da fé que temos em nosso Deus Media.
Cremos agora que Osama é o grande satã. E Obama, o Deus de ébano. Duas são as imagens que representam um novo tempo para o povo estadunidense, e elas têm dois nomes e dois homens por trás: Osama e Obama.
O primeiro (um ludista), foi arquiteto de magnÃfica sabotagem com forte representação simbólica – o mergulho escatológico de duas águias prateadas no coração mecânico do império do falcão. Isso fez o povo da Nova Canaã olhar para o céu e pedir perdão pelos seus pecados. Ao ver os seus mortos, passaram a ver os mortos alheios em si mesmos. Ao verem no mundo inteiro as pessoas chorando pela morte dos estadunidenses, eles passaram a perceber como nunca haviam chorado pela morte dos outros. Assustaram-se com as manifestações de piedade, de um lado, e com o forte e crescente antiamericanismo do outro.
Bin Laden, com a imagem mais espetacular do século XXI, fez os estadunidenses olharem para fora e verem como o mundo os via. Ao ver-se não mais infalÃvel, não mais intocável, o estadunidense passou a perceber que existia o outro igual a ele. Que existia uma alteridade. E passou a relativizar para se recolocar no mundo.
Oh, Glória. Osama nas alturas!
O segundo, Obama, chegou no momento em que existia uma abertura epistemológica para impor o seu discurso conciliador. O nosso bom Obama é um pacote completo, um combo, uma tÃpica figura midiática, cheia de adornos cognitivos. Tem essa coisa sinestésica de misturar uma enorme quantidade de informações em um mesmo produto. Tem a força de reificar tudo, de coisificar os fatos sociais sem tipificá-los. Venceu porque representava a mudança, e o povo queria mudança, mesmo sem saber para que direção, só não queria mais continuar para onde estava indo. No século XXI o estadunidense viu a China crescer fortemente e ameaçar tomar-lhe o protagonismo. O multiculturalismo se impôs à uniformização.
O mundo se dividiu em blocos e todos perceberam que no novo século não haverá uma nação dominante, mas um grupo de paÃses. E os Estados Unidos se vêem cada vez mais isolados, sozinhos. Promoveram um desastre polÃtico na América Latina que incorreu em um desastre social e econômico. Os paÃses que se livraram da influência ideológica dos Esteites hoje fazem relação com um número cada vez maior de paÃses no mundo e saÃram da condição de paÃses miseráveis para nações emergentes. E os estadunidenses se vêem agora no furacão de uma crise financeira que se tornou uma crise econômica. Estão fazendo um check up. Estão vendo a si mesmos.
Se Osama os fez se enxergarem nos outros, Obama os faz ver os outros em si mesmos. Ele representa as minorias, ele representa os negros e os estrangeiros, ele é filho de imigrante. Ele simboliza a minha piedade com os explorados do mundo. Veja que belÃssima imagem. Hillary é mulher, a imagem é bonita, mas não tem tanta força, já tivemos mulheres presidentes na finlânida, no Chile, na Alemanha, na Argentina e em dezenas de outros paÃses.
Mas você sabe, meu caro. Esse mesmo povo que hoje votou no negro Obama, não votaria em Jesse Jackson, em Malcom X e tampouco no pastor Jeremy Wright. Obama não milita entre os negros, Obama não era um dos negros pobres e abandonados pelo estado que tiveram suas casas inundadas após o furacão Katrina. Obama pertence à elite, estudou em Harvard, é filho de negro, mas foi criado e educado por uma famÃlia branca. Não se esqueçam de que o seu adversário, um branco conservador, o chamava de elitista! Obama não é nenhum revolucionário. É apenas um lenitivo virtual; uma imagem. Uma bela imagem.
Alguém disse uma frase muito feliz: Gabeira não é um candidato é uma instalação. Gabeira era isso, o candidato da Globo, uma imagem; lembram?
Mas isso me faz crer ainda mais que será bom um governo Obama. Porque ele foi eleito como uma imagem nova. E guerras é coisa do passado. Ele terá que sustentar sua imagem produzindo novas imagens que lhe dê sustentação o tempo inteiro. Com Bush foi assim, por isso Bush tinha obsessão pela guerra. No entanto, Obama terá que escolher em que imagem se apoiar, e as únicas alternativas que ele tem são: derrubar o muro do bloqueio econômico à Cuba, derrubar o muro de Israel e permitir a fundação do estado autônomo palestino, tirar as tropas do Iraque e do Afeganistão, abortar o Plan Colômbia, sair de Guantánamo, abandonar os subsÃdios agrÃcolas, assinar o Protocolo de Kyoto, proibir o uso do xarope de açúcar de milho…
Veja que temos imagens para mais de dois mandatos. Seguindo essa receita, Obama tem como manter a cabeça sobre o pescoço. Porque embora seja somente uma imagem, ele é de carne e osso!
Oh, Glória. Obama nas alturas!


