Obama, o coveiro
por Daniel Lopes – Amigos, com que classe Obama enterrou a Era Reagan! Em verdade, pôs a pá de cal, porque a realidade dos últimos meses e anos já jogara a ideologia de Reagan/Tatcher na vala comum da História chamada “Foi Bom Enquanto Durou a Ilusão”, onde repousava, desde 89, o sovietismo. Estamos falando de economia.
Sim, não temos certeza de como Obama governará, mas podemos imaginar. Certamente será um Obama mais de centro em comparação àquele das primárias democratas e mesmo das eleições gerais. Não nos iludamos – salvo malucos como George W. Bush e Fidel Castro, a maioria dos políticos, quando chega ao poder, tende a baixar o tom da retórica e convergir ligeira ou profundamente para o centro. Faz parte do jogo. Mas em seu discurso da noite da vitória, Obama deu sinais de que sua mudança em 2009 em relação aos dois anos de campanha não será tão radical. Enquanto alguns analistas nas tevês estadunidenses previam um discurso de união nacional já marcadamente de centro, Obama relembrou mais uma vez a via crucis que é a guerra no Iraque e o vergonhoso contraste entre Wall Street e Main Street – aliás, até McCain abordou isso em sua campanha (populista irresponsável, diria a revista Veja, que ainda não saiu da década de 90, coitada).
Portanto, se durante as primárias Obama, em uma frase que Hillary Clinton infantilmente tentou usar contra ele, elogiou Ronald Reagan, foi pensando em sua capacidade de aglutinar tendências diferentes no Congresso e na sociedade civil para levar adiante suas políticas (conservadoras, no caso). É o que Obama quer fazer: usar da habilidade para imprimir uma agenda liberal ao país. Se conseguir, será o Reagan da esquerda.
Assisti atentamente ao desenrolar das eleições americanas, que na verdade começaram mesmo antes das primárias. Nestas, confesso que preferi ver John Edwards saindo vencedor para enfrentar um republicano, mas a mídia começou a espalhar que ele era um irremediável loser (foi vice na perdedora chapa encabeçada por John Kerry em 2004), a coisa pegou, Obama sobrou no páreo com Hillary e acabou levando.
Lamento apenas não ter levado a cabo minha idéia inicial de ver a vitória de Obama ser anunciada na Fox News. Estava na CNN e por lá mesmo fiquei, vidrado cada vez mais à medida que o candidato democrata se aproximava dos 270 delegados necessários para levantar o caneco. A reação da negrada Estados Unidos adentro, gritando e chorando, foi show de bola, melhor ainda que o discuso de Obama. Mesmo aqui de longe a gente conseguia ver a danada da História escrevendo mais uma de suas páginas.
A ver como Barack Obama gastará seu imenso capital político – não só em casa, mas, ainda mais, no exterior – durante o primeiro mandato. Se acomodará à real politik, último refúgio dos cafajestes, ou entrará para a história, por exemplo, como o homem que ajudou efetivamente na criação de um Estado palestino? 2050 está de olho.

