Obama lá
7–11–2008 --- Envie para um amigo --- Tuitar
por João Grando * – Na última terça, um Lindemberg filho de um Richthofen poderia atirar uma Isabella Nardoni pela janela que não teria vez nos telejornais: só deu Obama. A Ivete poderia assumir um namoro com a Luana Piovani e o Dado Dolabella com o Júnior da Sandy & Júnior que também não teria vez: Obama para o povo também.
Na noite da vitória, assisti ao Jornal Nacional, com o casal-âncora fisicamente separado, mas com seus “boas-noites” unidos na tela: Fátima estava no Brasil, o maridão, nos EUA, porque toda imprensa evidentemente enviou alguém aos EUA a fim de cobrir a eleição. E eu envio meu pensamento como meu correspondente. Afinal, trata-se do presidente do mundo, como muitos se referem ao cargo (embora eu não concorde), estendendo-o sob uma visão prática. Dentre tantas matérias sobre o assunto no JN (que reflete a imprensa como um todo, e, sim, generalizo a fim de captar a maioria), o Sarney falou sobre a consagração da democracia (não nestas palavras). Muitas pessoas falaram nisso, mas não bastassem falar, ainda brilhavam seus olhos. Ou mais que isso, lubrificaram-nos com lágrimas.
A primeira coisa que penso é neste hábito brasileiro de olhar assim (um “assim” fã) para os EUA.
Há seis anos um torneiro mecânico que se formou no movimento grevista operário tornou-se presidente do Brasil. Subestimaria a todos se dissesse que é de todo brasileiro (até porque há também o lado oposto, muitas vezes tão cego quanto, das camisetas “Brasil, quem te ama não te USA”), mas o alarmante é que isso não é conclusão no âmbito popular: são especialistas em política que destacam isso. E me impressiona que se impressionem tanto com esta questão da consagração da democracia, posto que o nosso Four-Fingers me parece ter conseguido o mesmo. Porém, piadas e piadas (eu mesmo o fiz agora há uma frase atrás) para ele e nada de olhos brilhando.
Se Bob Dylan (mesmo que meio involuntariamente) guiou tantos com suas músicas nos anos 60, como em Washington à época do discurso de Martin Luther King contra a opressão, nós tivemos os nossos festivais da canção; se houve a invasão britânica na música na mesma época, nós tivemos o experimentalismo d’Os Mutantes; se lá havia opressão, se os universitários na França clamavam liberdade (vide que me reporto ao estrangeiro como um todo), aqui pessoas eram torturadas, eram abduzidas pelo Estado que as deveria proteger. Nós não podíamos nem eleger presidente.
Então, em termos de emoção com a democracia, não devemos nada para ninguém. Merecíamos-la como ninguém e pusemos lá alguém da minoria em poder e maioria em número. Mas o choro vem somente agora, com os EUA.
Às vezes me parece que o Brasil é uma harpia que acha que ser águia é muito melhor.
E falando em metáfora, penso no que disse Clinton a Obama: “You campaign in poetry, but you govern in prose”, e aproveito para voltar ao assunto.
Como disse, na terça não teve para ninguém na imprensa. Mas isso terça. Hoje já temos o cruel assassinato da menina Rachel no Brasil. A Rússia instalou mísseis na fronteira com a Polônia. E muitas outras notícias.
A realidade retorna. E a poesia?
Simbolicamente (um artifício poético) é muito válida a eleição de um mestiço – que deveria ter o epíteto de primeiro presidente mulato dos EUA (bem como Hamilton foi o primeiro mulato campeão da fórmula-1), mas isso talvez alimente mais ainda a questão da raça, quando a questão é a das minorias (no sentido de poder, não de quantidade, evidentemente) não se caracterizarem mais assim, especialmente porque tudo cada vez mistura-se mais. É uma tendência. O 4 de novembro foi a cereja na ponta do bolo.
Portanto, Obama já entrou para a história, é isso que se tem dito. E é verdade. O preconceito, no caso da cor, há pouco mais de cem anos, era lei. E outras opções de preconceito (à escolha: orientação sexual, religião, gênero, nacionalidade, situação financeira etc.) ainda o são. E se excetuarmos essa cruel imposição da lei, perdura muita coisa, pois o processo de limpeza (limpeza que aqui significa justamente mistura) é lento. Por exemplo, quando se fala em cotas para negros em universidades como uma afirmação de racismo (subvertendo o seu fim), digo sempre o mesmo: há 140 anos, se você é branco, seu tataravô poderia ter sido muitas coisas, empresário, pintor, agricultor; mas se você é negro, seu tataravô certamente foi escravo, não tinha direitos, era comercializado. O Estado tem sim uma dívida.
Embora a questão da raça seja quase uma bobagem se pensarmos nas misturas que o ser humano teve muito antes das civilizações – não há ninguém puro, não raro numa mesma família há irmãos que parecem de raça diferente –, na prática isso não ocorre (ainda, pois o mundo, através de suas gerações, dá passos largos (ou ao menos passos) para este futuro decente, pois não há palavra que caiba melhor para adjetivar um mundo sem diferenças: decente.
Então Martin Luther King, Rosa Parks, Ann Nixon Cooper (a centenária senhora negra citada pelo novo presidente que de certa forma acabou vencendo o encanador Joe) estão todos, como pixels, colorindo a pele do Obama vitorioso. E além deles, peles vermelhas, amarelas e todas estas cores que são nomes (porque ninguém é mesmo destas cores) compõem a colcha de retalhos, misturam-se numa paleta que dá na cor de Obama. Porque ainda é necessária esta simbologia, a de um mestiço com Hussein no nome, que rima com Osama, muçulmano e todas essas coisas que todos observam desde que ele aspirou ao cargo que definitivamente ocupará. Conquistar, vindo da minoria, a função que de brinde lhe dá a posição de homem mais poderoso do planeta.
E talvez este (aliado, porque não, mas logicamente em menor escala, ao Hamilton campeão da Fórmula 1) indique que o último capítulo destas comemorações dos primeiros, das primeiras vezes, esteja chegando, enfim, ao fim.
Mas há ainda algo muito além disso, ou, menos que além, dentro, íntimo, fundo: a esperança não poupa ninguém. E é este o pigmento que une todos em ingenuidade, romantismo, que deixa a todos solidários e encantados com o fato: um pigmento imaterial, porque não é de material (força, prédios, armas) que falamos e ouvimos nesta vitória.
E não é da cor da pele que Obama vem falando: “esta nação é feita de liberdade” e outras afirmações desprendem-se de um possível e implícito caráter populista e óbvio e se tornam realidade: sim, nós podemos; sim, eles podem, sim, qualquer um pode.
Obama já entrou para a história. Mas mais como uma estatística, como um nome. Tem agora uma missão mais importante e nobre: a chance de entrar para história, mas desta vez como um rosto. Para isso tem de executar um trabalho de coragem e que siga o que, mais que prometer a todos, inspirou em todos.
Assim, espero que ele mantenha sua poesia na sua prosa, para que se erija uma prosa poética – que é o ritmo que precisamos: um ritmo de convergência.
Ou, pensando de outro modo a metáfora, espero que ele trate bem a garota que conquistou com versos, que continue com o romantismo dos primeiro encontros.
(Ia até dizer que ele conquistou uma garota com suas palavras e que agora, casando-se com ela, terá de sustentá-la, mas, para evitar visões ortodoxas/ retrógradas num tempo em que (há tempos) as mulheres se cuidam sozinhas, já aproveito para reciclar esta metáfora, já que um homem não manda sozinho, mas pode ajudar muito: não comanda, relaciona-se. E que assim se ajudem sua poderosa – porque pode muito – posição e sua nação que assim lhe faz.)
Eis o que já temos (tivemos): o reaparecimento de certo dualismo democrata/ republicano, (como bem apontou Alfredo César aqui no Amálgama mesmo), com o que cada partido tem de mais extremo, configurando duas opções distintas e contrastantes: neste contexto uma opção simbolizou (simbolizar, deixo bem claro) tudo o que há de ruim na tradição dos EUA e a outra tudo que há de bom nas suas inovações. E a escolha firme (”[...] they have spoken clearly”, disse o vencido McCain) foi por aquela querida pelo mundo. Não, eles não podem. De novo não.
Isso é o que já temos. E tudo isso, a capacidade de mudar, a emoção com a vitória, liga-se (e nos liga) a uma palavra: esperança.
Na prática, onde tudo é mais relativo, onde todos se aproximam mais, onde bons e maus não são tão claros, onde é difícil saber o que é negro e o que não é, veremos no que vai dar.
Mas, na dúvida, brilho meus olhos, pois tudo se liga àquela palavra e a tenho comigo também. Um a mais para ajudar certamente será bom.
* João Grando é funcionário público (filósofo, portanto), escritor não reconhecido, estudante de artes, técnico em administração não praticante, meia-armador amador e amador também para com o resto das coisas da vida. Blog: http://joaogrando.wordpress.com/.
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