O mestre de Petersburgo
por Daniel Lopes – O mote desse livro, publicado em 1994, é um fato histórico. Em 1869, o escritor russo Fiódor Dostoiévski perdeu um enteado de forma estranha na Rússia, enquanto morava na cidade alemã de Dresden. Bem, também é fato que Coetzee perdeu um filho em circunstâncias obscuras. Pronto. O resto é estória, a de Coetzee.
Naquele ano, por conta da morte do enteado, Dostoiévski deixa a Alemanha e vai a São Petersburgo. Vai para resolver os procedimentos legais decorrentes da morte daquele que chama de filho, de nome Pavel, e vai, principalmente, para um enfrentamento, uma batalha. Contra Pavel e por Pavel. Quer uma chance de se provar inocente ao filho, de mostrar que não o abandonou de vez ao ir para a Alemanha, que lhe queria muito bem. Mas como provar algo a um morto? Que prove a si mesmo, então, que fique em paz consigo mesmo, ao menos. Mesmo que isso não tire de seus ombros todo o peso do remorso pelo fato de o filho ter morrido sem lhe perdoar a ausência, sem reconhecer o amor que o pai lhe tinha.
Em São Petersburgo, Dostoiévski fica hospedado no quarto onde o filho vivia, numa pensão remediada. Não demora muito tempo para envolver-se afetiva, sexualmente com a ex-senhoria do filho, Anna Sergeyevna, mulher de idade próxima à sua, ao contrário da esposa que deixou em Dresden, e mãe da pequena Matryona, que por sua vez também não escapa do atordoado Dostoiévski – não temos o sexo, mas temos perturbadores toques e aconchegos; a inocência da garota, e sua receptividade; a lascívia de Dostoiévski, e sua contenção, ainda. Lidando com Matryona, ele se vê como alguém que “perdeu a vergonha”, “primeiro em sua obra e agora em sua vida”.
Tanto Anna quanto a filha conheceram Pavel muito bem, talvez mais que o próprio Dostoiévski, que, principalmente agora após a morte do enteado, não se perdoa por não ter se esforçado mais para parecer um pai verdadeiro, mais do que um mero substituto, sempre ausente, pelo menos aos olhos do filho, pelos quais agora se enxerga. Deve haver algum significado no fato de o escritor ter viajado de Dresden a Petersburgo com os documentos do pai biológico de Pavel, além do fato de não querer sua presença na pátria mãe anunciada, visto que possui muitos credores no seu rastro.
É com esses documentos que ele se apresenta à polícia, para tentar resgatar os escritos apreendidos do filho. Na primeira ida à delegacia, além de ter contato com o estranhíssimo Maximov, autoridade policial, e de ter sua verdadeira identidade revelada (o Dostoiévski de 1869 já é o autor bastante conhecido de Gente pobre, Crime e castigo e outros), ainda sai de mãos abanando: a burocracia da Rússia czarista mostra suas garras. E seu temor. Pois não está Maximov analisando os textos de Pavel? O jovem havia se envolvido com o grupo do revolucionário Sergei Nechaev, outra figura histórica, temido pelas autoridades constituídas.
Enquanto espera pela liberação do material do filho, nosso protagonista vê aprofundada sua culpa pela sorte do filho. Suicídio, atestara a polícia. Tem visões de Pavel, sente a presença do filho à sua volta. Dostoiévski, o escritor, nesse livro é um mero personagem. Ou: Dostoiévski, um mero escritor, aqui é enfim personagem. Como não está em um de seus livros, quando acontece de chorar, não há por perto nenhuma, digamos, prostituta dostoiévskiana para lhe consolar e lhe dar o caminho da salvação. Não, não. Aqui, ele chora, chora muito e sozinho. Não há salvação. Aqueles poucos seres à sua volta mais atrapalham que ajudam, essa é a verdade.
Mas, sim!, há algo de dostoiévskiano em The master of Petersburg. Como alguns diálogos, nos quais são discutidos grandes temas da condição humana. Pegue, como exemplo, a longa conversa de Dostoiévski com Maximov, onde é debatido o aliciamento de jovens de boa família por sediciosos como Nechaev e o comportamento que se deve ter ao ler uma obra de ficção (esse, por sinal, é um livro recheado de breves observações sobre o ato da escrita, feitas da melhor maneira, como que despretensiosamente). Você imagina tais páginas como enfadonhas apenas se nunca leu Coetzee. O que posso dizer é que, às vezes, diálogos dostoiévskianos ficam ainda melhores fora de um livro de Dostoiévski, vejam vocês.
Quando não são ao estilo Dostoiévski, os diálogos são, digamos, coetzeeanos: curtos, substantivos, divertidos, desconcertantes. Ao exemplo do que acontece a todo instante naquela que é considerada por muitos como a obra-prima do escritor sul-africano, Disgrace (no Brasil, Desonra), de 1999.
A espera pela liberação dos escritos de Pavel é muito longa. E na Rússia pré-revolucionária, em pouco tempo, tudo pode acontecer. Dostoiévski, por exemplo, acaba por conhecer o temido Nechaev. Pavel, ele lhe diz, não se suicidou, mas sim foi assassinado pela polícia. Até o local do crime ele lhe mostra. Nechaev, o revolucionário. Como não acreditar em suas palavras? Como acreditar? É através dele que Coetzee pretende nos dar um retrato do que era a mentalidade russa do final do século XIX. Nas conversas entre Dostoiévski e Nechaev, este perde a paciência com a contenção daquele a respeito de sua pregação de ação direta e terrorista, aqui e agora, em nome do Povo. “Nós não conversamos, não choramos”, lhe garante o revolucionário, “não pensamos indefinidamente nisso ou naquilo, nós simplesmente agimos!”. Com revolucionários assim, parece nos dizer Coetzee, a Rússia do século XX só poderia ter dado naquilo que deu.
Os papéis de Pavel são liberados. Dostoiévski os lerá à luz da explosão que ocorreu dentro de si ao tratar com gente como Anna e Nechaev. Enquanto lê, São Petersburgo literalmente queima com os confrontos entre estudantes e polícia. Tudo é prenúncio. Mas, ao contrário do fogo nas ruas, a leitura dos escritos do filho bem podem levar a coisa nenhuma. Coetzee adora nos ver saídos de um livro seu com mais dúvidas que respostas.
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)

Conheço pouco desse autor tão admirado por você, mas posso dizer que por sua resenha dá vontade de ler e conhecer mais os seus livros. Como texto, posso dizer que está impecável. Parabéns!
Obrigado, Adriana. Tem esse livro em português, se preferir – http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=736425&sid=982191141101024835369857467&k5=3B56525F&uid=
Abraço e volte sempre.