O homem que viu o capeta
por Vanessa Souza – Luciano Salvatierra é um anti-herói. À primeira vista, ácido e bêbado, lembra um pouco os personagens de Pedro Juan Gutierrez – autor de “Trilogia suja de Havana”. Apenas nas primeiras páginas. Sua sordidez é de outra categoria. Sem muito encanto. Salvatierra é o protagonista de São Diabo (Objetiva, 2008), obra do boliviano Manfredo Kempff.
O cenário é Santa Cruz, cidade boliviana, em uma época indeterminada. Os personagens são seres miseráveis, infelizes, obcecados e famintos – por amor, sexo, atenção, compreensão. Luciano é casado com Juana Castro há mais de duas décadas. Só contraiu matrimônio porque a engravidou, e foi ameaçado de morte pelos três irmãos e pelo pai da moça. Só foram razoavelmente felizes no tempo em que a possibilidade de estarem juntos era uma impossibilidade.
Osvaldo Bazán, melhor amigo de Salvatierra, tem orelhas de tamanho descomunal, o que lhe rendeu muitos apelidos depreciativos, o mais conhecido deles, Orelhão. “Tinha fama de inteligente e culto, embora não fosse nem uma coisa nem outra, mas apenas uma pessoa educada e comedida”, define o autor. Por conta das orelhas de morcego, Bazán não tinha sorte com as mulheres. Além disso, Zoraida, sua mãe, tem um baú guardado, embaixo da cama, com um segredo insólito: os restos mortais de suas três filhas – virgens que faleceram de morte súbita na adolescência – e de seu marido, que perdeu o gosto pela vida depois de tamanha desgraça.
Anita perdeu a mãe quando criança – que morreu de tristeza, quando o marido a colocou para dormir na cozinha, dando seu lugar na cama para a amante – por isso foi adotada, informalmente, pelos Salvatierra. Ou, apadrinhada. Quando a garota tinha 12 anos, o ‘dindo’ Luciano começou a vê-la com olhos gulosos. “Anita se deu conta de que havia algo estranho, muito feio, no seu olhar”. Alertada pelas empregadas da casa, Anita tenta manter uma distância segura do pedófilo.
Salvatierra esforça-se para não botar as mãos na menina, mas não consegue deixar de olhar. Pelas frestas do quarto de Anita, o homem a espia trocar de roupa todas as noites e torna-se um voyeur incorrigível. Nesse exercício lascivo e torturante, de um desejo não saciado, Luciano recebe uma visita perturbadora: o diabo, que rouba sua aliança na primeira de muitas aparições. As visitas do ‘coisa ruim’ começam a perturbar a mente do homem, já tão fatigada pelas bebedeiras e noitadas. E depois disso? Só lendo o livro, não serei a estraga-prazeres que conta o final.
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)

Oi, Vane… Saudades, guria!
Também li ‘ Trilogia suja de Havana’, do Gutierrez..
Gostei desta história do ‘São Diabo’. E gostei muito da maneira que contaste. Fizeste bem em não revelar o final, pois vou ler.
Falamos, amiga! Porto Alegre está vazia sem a tua presença, rsrsrsrs…
Um grande beijo
Tais