O exercício da liberdade insustentável
por Renato Medeiros – O homem está condenado a ser livre, já dizia Sartre, mas para o escritor tcheco Milan Kundera essa liberdade se mostra insustentável, pesa mais que o próprio peso. Essa é uma das conclusões que podem ser tiradas de seu clássico A insustentável leveza do ser (Cia. de Bolso, 2008), que mais parece um ensaio filosófico sobre a existência do que um romance. Nele, o autor investiga o que há por dentro dos seres, mergulhando no íntimo de suas personagens.
A jovem Tereza esbarrou na vida de Tomas, um respeitado médico de Praga, por causa de seis acasos. Porém, antes de Tereza, a pintora Sabina já era amante dele há muito tempo e não deixou de ser. A distância acaba separando os amantes e Sabina tenta encontrar em Franz, professor universitário suíço, as mesmas qualidades que via em Tomas. É nessa intrincada história de encontros e desencontros que temas como o amor, a traição, a lealdade e o sexo são abordados, na tentativa de detectar as particularidades da natureza humana.
Mas antes o autor explora o que há de mais singular em cada uma das personagens para só depois encontrar essas particularidades e concluir que a busca comum a todos os seres é a busca pela felicidade, que necessita de liberdade para ser plena. Uma liberdade tão leve que passa a ser inadmissível, imensurável, e que por isso é insustentável.
O romance também parece defender uma faceta política, principalmente na sexta parte, quando passa a ter uma preocupação mais intensa com questões vividas no leste europeu durante o período de Guerra Fria. Fica evidente a insatisfação do autor com o regime comunista instaurado na Checoslováquia na segunda metade do século XX, tanto que algumas vezes o texto assume um caráter de denúncia. Talvez esse tenha sido um dos motivos que fizeram com que o livro causasse tanta polêmica ao ser publicado em 1982, quando a União Soviética ainda controlava o país.
É nessa atmosfera pesada que vive Tomas e Tereza. Entretanto, mesmo sob a repressão de um regime ditatorial, sempre se é livre para pensar e sentir. É uma responsabilidade da qual não se pode escapar, da qual não se pode colocar a culpa no regime. A alma pesa mais que o próprio corpo e aqui ela deixa de lado as possíveis conotações religiosas para assumir o sentido de parte mais íntima de um ser. É sobre esse pedaço tão leve e não-palpável de humanidade que Milan Kundera pousa o seu olhar. É a investigação dessa leveza absurda que se sobrepõe a qualquer limitação carnal, espacial ou temporal.
O livro promove um diálogo constante entre o individual e o coletivo. O escritor considera que a existência em coletividade experimenta uma espetacularização contínua. É a vida de aparências, que ele chamou de Kitsch e que banaliza a individualidade dos seres. A humanidade mantém uma Grande Marcha em direção ao progresso, a uma evolução inesgotável. Entretanto, Tereza se afasta dessa marcha quando percebe que a felicidade, objetivo final daqueles que a percorrem, não anda em linha reta, mas sim em círculos. É na repetição que se encontra a felicidade.
Observa-se aí uma crítica não apenas àquele regime ditatorial, mas ao próprio caminhar da humanidade em direção a um desconhecido e incerto futuro, em busca de uma felicidade que poderia ser encontrada sem precisar ir tão longe ou arriscar tanto. Um caminho que o ser humano percorre desde que fora expulso do Paraíso, como é sugerido no livro.
Quanto à estrutura, a narrativa é dividida em sete partes, cada uma com vários capítulos curtos e que oferecem certa facilidade de leitura. Esse estilo de escrita pode ser considerado uma estratégia para atrair o leitor e prendê-lo até a última página. No caso de A insustentável leveza, esse recurso funciona.
O que não funciona é a insistência com que o autor responde às suas próprias indagações. Milan Kundera escreve para si mesmo, tanto é que são várias as passagens em que ele usurpa o papel de seu narrador e se coloca francamente diante do leitor, admitindo isso. Parece que ele quer utilizar a força da literatura para mascarar suas intenções, para não tornar-se tão explícito. As indagações não são detectadas nas entrelinhas. É como se a trama servisse apenas para exemplificar as idéias de seu autor.
Dessa maneira, nem o romance e nem as personagens sobrevivem sem Milan Kundera. Essas personagens parecem ser meras enunciadoras de conceitos, não conseguem pensar, sentir ou agir sem a presença do escritor. Afinal, ele pensa tanto por elas que, presas como marionetes em suas mãos, não exercem com leveza a liberdade de existir nas mentes dos leitores.


Parabéns, Renato! Sempre quis ler esse livro e agora minha curiosidade aumentou ainda mais depois que li sua resenha, que por sinal está ótima.
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Hoje tirei a sorte grande.
Navegante apaixonada (e, ultimamente, compulsiva) vim numa corrente marinha e te encontrei.
Referência interessante esta. Suposto-saber de um suposto-sabido. Deve ser bom ler, só pra pensar, como não fazer o mesmo.
Abraços,
Voltarei outras vezes.
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Não fiquei surpreendido pelas suas capacidades críticas. Li esse livro há muito tempo atrás e na altura lembro-me de me ter sentido perdido na narrativa porque não é aquilo que se pode chamar de romance. Kundera de facto faz um estudo e apreciação do comportamento, dos sonhos, das necessidades do ser humano. Achei essa apreciaçao nua e crua sem qualquer embelezamento, porque o ser humano é isso mesmo: um ser sem beleza quando visto ao microscópio, como qualquer outro organismo. Acho que é também nessa obra que Kundera diz que o ser humano é regido por vontades e que tudo é prazer: fazer amor/ sexo, comer, beber, defecar. Só para terminar o que me atraiu para a leitura foi sem dúvida o título, o paradoxo de algo leve ser insustentável. Talvez a Verdade do ser seja isso mesmo: leve, porém insustentável. Adoro esses paradoxos…
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É mesmo insustentável a leveza do ser. A sociedade se funda também na insustentabilidade dessa leveza. Éramos livres, daí resolvemos ser sociedade. O amor sucumbe também ao peso dessa liberdade (ciúme, casamento, divórcio…). Lembrei-me da tentativa de amor livre entre Sartre e Simone de Beavouir. Adorei o livro e ao final antecipado eu confesso que ‘emputecida’ da vida eu chorei. Parecia uma daquelas piadas de humor negro: quando encontrei a felicidade eu morri (isso na visão de Tereza, porque Tomas já era feliz, só limitou sua felicidade para caber no pequeno mundo ‘feliz’ de Tereza que era estremamente pessimista com relação aos amores humanos). Eu hein! Lindo, porém.
Abçs.
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Ótima resenha! Eu já tinha lido o resumo deste livro no Wikipedia, mas a sua critica tão subjetiva é perfeita!
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Bem, Sartre disse, realmente, que estamos condenados à liberdade. E disse que essa liberdade engendra, no espírito humano, uma inelutável angústia da qual tentamos, por diversos meios (má-fé), escapá-la.
Não será essa angústia justamente o que torna a liberdade insustentável e nos empurre delicadamente para o auto-engano? Não será a “insustentável leveza do ser” a metáfora mais poética que existe para falar da angústia das escolhas irreversíveis, da vida única que temos, da nossa total responsabilidade pelo que somos?
Bem, de qualquer forma, são meus dois autores preferidos.
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