21–11–2008

Filmes de horror asiáticos

por Ana Al Izdihar – Tenho assistido a muitos filmes de horror asiáticos e tenho gostado imensamente. Eles estão resgatando o gênero, inventado pelo cinema ocidental, como o alemão e o americano, um estilo autenticamente cinematográfico. Contudo, principalmente Hollywood – mas também algumas outras produções ocidentais – diversificaram tanto o gênero do horror que ele já não tem mais aquelas características originais que o firmaram como tal.

O cinema de horror ocidental tinha monstros, fantasmas, suspense, susto, medo, lendas, estórias que mexiam com a nossa imaginação, como quando crianças ouvíamos as estórias de fantasmas do bairro. Hoje em dia – digamos de Jason, Krugger e Hannibal Lecter para cá – eles vêm recheados de sangueira, uma retalhação de gente sem fim, tortura, perseguição por “mérito” entre outros. As matanças de Sexta Feira 13 ou Hora do Pesadelo chegaram a tal absurdo que com o tempo quem assistia achava mais engraçado do que medonho, além de serem altamente previsíveis. Mas a partir de, talvez, O Silêncio dos Inocentes o horror carnificina recobrou sua sede de sangue e quis ficar mais sério… Seguiram-se filmes como Seven, os sete pecados capitais e Bruxa de Blair com seus psicopatas e feiticeiros fantásticos nos assustando, sim, mas com muito sangue. E esses citados têm roteiros excelentes, diga-se de passagem. Porém, outros descambaram para somente o sangue. Tanto é que o termo thriller tem sido mais usado para esse gênero do que o antigo horror.

Mesmo na década de 80 tivemos, é claro, sempre um filme aqui e ali que tentava manter o horror num nível mais clássico, como a releitura de Drácula por Coppola, o Drácula de Bram Stoker ou Frankenstein de Mary Shelley por Kenneth Branaugh, mais tarde A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça de Tim Burton (aliás, um artista que ainda faz horror, além de reinventar o gótico!), e Uma Entrevista com o Vampiro dos irmãos Cohen. Todos apostaram na beleza plástica do horror, com mais suspense do que carnificina, com sangue , mas com um tom mais literário na narrativa. Porém, o engraçado é que críticos e uma parte do público acostumados já à carnificina foram duros com esses filmes, dizendo até que foram bregas ou coisa assim.

Com o açougue instalado, o cinema ocidental (mais o americano, de modo geral) entrou numa violência desenfreada em todos os gêneros, inclusive no horror. Algumas produções ditas de horror se concentram somente na emoção que a imagem causa, deixando de lado a estória que deveria ser narrada. Quando muito, se concentram em explicar tudo pela luz da sociopatia.

Não estou querendo me mostrar purista, até porque como gosto muito da teoria pós-jungiana de crítica cinematográfica, sei que essas mudanças nos filmes refletem as mesmas que acontecem no seio da sociedade que os produz. O professor James F. Iaccino, em seu livro Psychological Reflections on Cinematic Terror – Jungian Archetypes in Horror Films, faz uma análise maravilhosa desses fenômenos sob a perspectiva da teoria dos arquétipos desenvolvida por Carl Gustav Jung. Ele demonstra como a nossa sociedade ocidental – no caso representada pela superpotência dos EUA – aparece representada nos monstros do cinema e todas suas mazelas nos comportamentos dos mesmos. Ele analisa os personagens desde o tempo do cinema mudo, dos filmes de horror alemães e americanos, a partir dos clássicos dráculas, médicos-monstros e criaturas fabricadas (“frankensteins”), até os psicopatas e monstros tecnológicos.

Personagens como o Jason de Sexta Feira 13 seriam na verdade resquício de um arauto da moral protestante americana. Os jovens que primeiramente eram mortos eram justamente aqueles que queriam somente fazer sexo no acampamento (ou casa de campo) e fumar maconha. Os jovens que sobravam para combater o capeta de máscara eram nada mais nada menos do que os certinhos, os bonzinhos que se mantinham puros, não fumavam e nem bebiam e iam cedo dormir em suas caminhas. A teoria é muito longa para se aprofundar aqui, mas dá para perceber que essas estórias são o reflexo de uma cultura arraigada nesses valores e que aparece refletido nos filmes.

Sei que, sob esse prisma, também filmes como Albergue e Jogos Mortais, por exemplo, refletem a mais nova paranóia americana: ser torturado, mutilado e totalmente aniquilado por alguém de outro país ou totalmente estranho (algo como pessoas do Oriente Médio?). Em Albergue as vítimas eram escolhidas para serem mutiladas num clube fechadíssimo de sádicos. A vítima mais cara e cobiçada eram os americanos! Jogos Mortais mostra o comandante da carnificina num lugar aparentemente sem recursos, mas capaz de destruir suas vítimas escondido e ainda fazer troça delas. Lembram de alguém parecido na vida real? Parecido com a antiga paranóia dos americanos contra os russos…

Mas voltando ao assunto do cinema asiático, esse horror mais clássico que vem resgatando o horror-susto, em que as imagens mostram mais fantasmas, espíritos, lodo, sujeira, vento, chuva, Lua e menos sangue. Mesmo quando mostram sangue só o fazem depois de muito susto, muito personagem aparecendo do nada, assustando a gente na cadeira. Na narrativa esses filmes têm se concentrado mais nas lendas antigas de uma região – alguns filmes coreanos e tailandeses, como a lenda de Mak e Nak, linda, triste e assustadora – ou em alterações visivelmente mentais dos personagens principais – como alguns japoneses – ou ainda em medos da infância ou perturbações mediúnicas.

Estão, sim, aproveitando uma parte do mercado voltada aos fenômenos mediúnicos tão em voga, inclusive em novelas e seriados americanos, mas também resgatam aquele medinho gostoso dos antigos filmes ocidentais de horror. Filmes como Almas desencarnadas e O espírito são verdadeiras teses sobre a mediunidade e nos fazem lembrar aquelas estórias que a gente contava uns para os outros quando éramos crianças. Visões e Água Negra são assustadores mesmo, mas também têm uma estória inteligente, intrigante e comovente com o apoio das imagens; unem mediunidade, abalos psicológicos e vida urbana.

Além de fazerem o mundo rodar, os filmes de horror asiáticos nos mostram em quê somos todos iguais, não somente no acesso aos recursos cinematográficos, ou vida urbanamente globalizada, mas também que o medo nos aflige é parecido em qualquer canto do mundo. Mostram também, através desses recursos, que podemos nos reconhecer e identificar numa cultura diferente, traços de rostos, corpos e vozes diferentes que nos levam a experimentar sensações familiares.

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| 19 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. JLM (21–11–2008 12:54 pm)

    Legal teu artigo.

    Sou viciado em terror asiático. Não há melhor, em todo o resto do mundo. O último q vi foi o Body 19, q agora pretendo traduzir a legenda pra outros terem acesso à essa obra-prima. Vc já viu este? Se sim, oq achou?

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  2. Ana (22–11–2008 12:07 pm)

    Não ainda não vi Body 19, infelizmente.. Mas pretendo ver! Mais um pra minha lista. Ainda quero, inclusive, fazer coleção desses filmes! Obrigada por participar.

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  3. André Peniche (22–11–2008 3:58 pm)

    Só achie equivocado dizer que o cinema asiático está “começando” a se mostrar um bom provocador de sustos.
    Inúmeros filmes americanos de horror, há muito derivam do asiático.
    Mangás de horror e filmes asiáticos do mesmo gênero são, há muito tempo, referência no assunto. Só aqui que o povo demora pra conhecer.

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  4. Ana (23–11–2008 10:59 am)

    André,
    concordo contigo plenamente. Talvez eu não tenha me expressado corretamente. O que eu quis dizer com “começar” a mostrar é justamente usando os recursos mais ocidentalizados, principalmente no que diz respeito à narrativa híbrida (ocidental-oriental). Filmes ocidentais com influência de características orientais também já existem há tempos: vide (assumidamente) Tarantino.
    Obrigada por participar!

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  5. Guii (24–11–2008 8:33 am)

    Realmente o cinema asiático tem cada vez mais espaço por essas bandas… adoro! Os melhores sustos q já tive com horror (e olha q sou difícil de assustar) foi com eles!

    Mas ainda assim, falta espaço e divulgação, o que os torna muito inacessíveis!¬¬

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  6. JLM (24–11–2008 4:08 pm)

    De vez em qdo aparecem alguns fortes concorrentes europeus.

    As recentes obras-primas francesa Ils (2006) e espanhola Eskalofrio (2008) empatam em sustos e roeção de unhas, mesmo sem apelarem para o sobrenatural.

    1 abraço.

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  7. MaryMeg (28–11–2008 4:03 pm)

    Ana, quais asiáticos vc sugere para eu me iniciar nessa arte..
    Ótimo texto, me seduziu.. :)

    []‘s

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  8. Biajoni (3–12–2008 10:28 am)

    uma vez conversávamos no carro, eu, minha filha de 15 que adora filmes de terror e meu garoto de 10 anos que chora de medo. o assunto era “filmes asiáticos”. minha filha defendia a tese que O ILUMINADO era um filme de terror asiático. e defendia bem: a fantasia exacerbada e sem explicação aproximava o clássico de Kubrick dos filmes asiáticos. meu filho foi mais assertivo: “filmes asiáticos são aqueles que dão asia”. para mim os dois argumentos fizeram sentido.
    :>)

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  9. Claudia Krizizanowski (15–12–2008 11:08 am)

    Oi, Ana

    adorei seu artigo!
    o mais legal eh a analise Junguiana, profundamente enriquecedora e inquietante!
    muito bom mesmo!
    desculpe a falta de acentos, to teclando de um notebook desconfigurado

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  10. Ana (15–12–2008 12:31 pm)

    Obrigada Claudia!
    Q bom q vc apareceu aqui!
    Então, vc sabe q eu avancei muito com estudos jungianos.
    Participe mais!

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  11. camila (19–05–2009 9:53 am)

    sou fã do cinema asiatico de terror queria opinião de alguns sites de filmes de terror . não tenho blog .

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  12. Ana Al Izdihar (19–05–2009 1:07 pm)

    Camila,

    Obrigada por participar. Eu não sei de sites de horror asiático especificamente, mas no Orkut (se vc participa) há duas comunidades muito boas e de lá você pode ter sugestões de links para outras viagens virtuais. São elas: “Horror Oriental” e “Filmes de Horror Asiáticos”

    Se eu souber de outra coisa eu posto aqui no Amálgama, ok?

    Não suma!

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  13. Daniel (12–06–2009 4:46 pm)

    Concordo com o que vc falou sobre o Cinema de Horror no japão, mas só não concordo com a história de só os bonzinhos que se salva nos filmes do jason e tal e que ele só mata os que usam droga muitos dos bonzinhos lá também já morrem e os que sobrevive ele volta pra matar depois o mesmo acontecendo com Fredd Kruger e só pra constar eles tem história boa sim e a violência também e tem muito sangue também e ainda chega ser medonho não agora porque não tá saindo mais por isso que todo mundo já sabe o que vai acontecer por que é repetido e não esqueça que quem mais gosta de ver filmes de terror e sangue sempre cresce assistindo os 2 e mais muitos filmes deles ainda são melhores que muitos filmes de horrores de hoje

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  14. murilo andrade (12–06–2009 7:07 pm)

    O Stephen King também escreveu um livro onde destrincha a histórias dos filmes de terror, dando explicações plausíveis para eles, só não me lembro o nome da publicação.

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  15. Ana Al Izdihar (12–06–2009 11:57 pm)

    Daniel,
    eu tive a impressão que você disse a mesma coisa do que eu no começo. Mas acho que entendi o que quis dizer… A análise feita sobre Jason e Krugger, se voltar ao texto verá, na verdade é do Dr. Iaccino, mas tudo bem, eu assino em baixo. Só que não é uma leitura radical, é uma visão geral. E concordo que até mesmo esses filmes seguem uma evolução no roteiro.
    Só não concordo que eles sejam “melhores”. E isso esbarra na minha opinião pessoal. Mas acho que eles hoje são clássicos, fizeram escola e respeito isso!

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  16. Ana Al Izdihar (13–06–2009 12:02 am)

    Murilo! Você tem razão!
    Eu estive com esse livro nas mãos e não consegui lê-lo todo, pois era emprestado. E oarecia ser muito bom…
    Mas sabe de uma coisa? Eu amo o King, leio muitos livros e contos dele (estou lendo pela 3a vez “Insomnia”), porém acho que ele às vezes é muito controlador com suas obras. Parece (veja bem, eu disse “parece”) que ele quer impor como as pessoas devem ler o que ele escreve.

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  17. paulo césar (26–05–2010 12:34 am)

    ADORO FILMES DE TERROR ASIATICOS… MAIS AQUI NO BRASIL NÃO TEM MUITAS OPÇÕES DESSES FILMES. GOSTARIA DE SABER ONDE ENCONTRAR?? OBRIGADO!!

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  18. Ana Al Izdihar (26–05–2010 12:37 pm)

    Puxa, Paulo,

    eu também não tenho tanto acesso quanto eu gostaria. Sei que há uma comunidade no orkut onde os fãs de horror asiáticos trocam informações sobre isso. Muitos baixam da internete. Eu não gosto de baixar, prefiro ver no cinema ou dvd.

    Mas depende onde você mora. Se mora em São Paulo capital é mais fácil de achar, inclusive dvds originais. Dê uma olhada na web em lojas especializadas (até sebos) se você precisar pedir sob encomenda.

    Obrigada por participar.

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  19. Elvis (22–07–2010 9:43 am)

    Na comunidade do Orkut “Japanese Horror Films” você encontra todos eles…
    ou no blog http://www.japanesehorrorfilms.blogspot.com
    lá o terror asiático tem sua morada…rsrsrs
    d-.-b

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