Falta de Deus no coração
por Daniel Lopes – Vi ontem. Foi num programa jornalístico de uma tevê local, mas a cena se repete em rede nacional e em todo veículo de qualquer lugar do país. Indignado, o apresentador lista uma série de tragédias ocorridas recentemente – filhos matando pais, pais matando filhos, esposos matando esposas e vice-versa… – e sentencia: isso só ocorre porque as pessoas não têm Deus no coração.
É possível que alguns dos que dizem isso o façam apenas pela força do hábito, como quando dizem “meu Deus do céu” após saberem que a seleção brasileira fez seis gols em Portugal na noite anterior. Mas o apresentador que vi ontem foi bastante sincero em suas palavras, a exemplo de inúmeras outras pessoas.
Não posso evitar: sempre que alguém diz isso, seja numa rede de tevê ou numa conversa a dois, reservadamente, me sinto insultado. Não apenas por ser alguém que não tem Deus no coração – não que saiba – e não faz nenhum plano para ter, mas como um membro mesmo da espécie humana. Parece que proporcionalmente crescem a violência dentro dos lares e a pobreza dos argumentos moralistas que tentam explicá-la.
Como alguém com fé diferente – se alguma – da do apresentador, eu não apenas nunca seria louco de dizer algo como “é Deus no coração das pessoas que está causando todas essas desgraças”, como admito, por experiências dentro da família e do círculo de amigos, que para muita gente é impossível levar uma vida digna sem seguir alguma religião. Fatos da vida.
O que não se pode é generalizar. E muito menos, sob nenhuma hipótese, ceder à religião o domínio, simbólico que seja, sobre o conceito e a instituição família. A Igreja Católica, em particular, tem uma tara enorme por se considerar guardiã-mor da Sagrada Instituição, mas a família é uma realidade beeem mais antiga que os momoteísmos. Lembremos dos nativos da América, por exemplo. E a propósito de nativos e pretensos monopólios, ainda chegará o dia em que um feliz e destemido estudioso escreverá uma “história parcial da Igreja Católica no Brasil” (esse será o subtítulo), cujo título deverá ser “Contra a Família”. Chega de hipocrisia.
Fiquei com uma vontade imensa de ligar para o programa e perguntar ao âncora se falta Deus nos corações dos proprietários da igreja Renascer. E como disse alguém (Hitchens?), pode-se até duvidar que no 11 de Setembro o terrorista Bin Laden estivesse agindo a mando de Deus (o dele), mas essa não é uma dúvida que ele, Bin Laden, tenha.
O que falta aos parricidas é Responsabilidade, Respeito pelos direitos alheios. Falta-lhes viver num Estado de mão dura que não lhes garanta liberdade um anos após tirarem a vida de alguém. Falta Discussão sobre uma política anti-drogas falida e já abandonada no mundo civilizado. Falta ao apresentador do programa em horário nobre Caráter para questionar a utilidade do programa policial que lhe antecede na grade de programação, mostrando imagens de mulheres estranguladas e crianças espancadas.
Da próxima vez que você ver a imagem chocante de um garoto covardemente jogado pelo terceiro andar junto com a mãe, preste atenção no que vai dizer. O assassino pode ter freqüentado a missa do último domingo.
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Acho que sei de quem você está falando. Ele fala isso sempre e também me deixa indignada! “Não tem Deus no coração…” Me poupe né!!!!!
Não dá pra levar a sério uma coisa como essa!! Engraçado, né? Qiuando acontece uma coisa boa sempre é por causa de deus, as atrocidades, é por falta dele. Hahá, faz-me rir!! Então tá, e as doenças, as pestes, os terremotos, furacões? É coisa de deus ou do diabo? Pô, esse deus é mau demais se for ele responsável por tudo. Bom seu texto.
Esse seu texto é maravilhoso. Essa história de “Deus no coração” não passa de coisa de hipócritas, de cretinos, ou, no mínimo, de grandes idiotas. O que falta, na verdade é educação. É muito mais importante uma pedagogia voltada para o ser humano desde o nascimento, do que uma oração repetitiva e cansativa durante uma vida inteira. Essas pessoas que falam em “Deus no coração” tem a doença conservadora disseminada pelas religiões, que nada, mas nada mesmo acrescentaram à humanidade, pois, se analisarmos a História veremos que quanto mais religioso é um povo, mas bárbaro ele se torna. Recente pesquisa mostra que os países menos violentos do munto tem dois terços da população em ateísmo absoluto. O que vale para o bom comportamento social, onde o amor prevalesça sobre todas as emoções são os ensinamentos de sociólogos e antropólogos voltados para a Natureza, já que os amantes da Natureza, aprendem a amar, também, aos seres humanos.
Também me sinto insultado quando escuto/vejo/leio esse tipo de afirmação.
Não tenho mais a dizer, você disse tudo.
Seu texto está ótimo, inclusive. Só pra constar.
e olha que a seleção fez seis gols em portugal lá do lado de casa
Obrigado a todos pelas palavras, é bom saber que não sou o único indignado.
Pingback: Juliana Dacoregio
Isso realmente é irritante. E outras coisas mais que você falou, como ser cobrada por não ter religião. Eu era catolica a minha vida toda, mas tinha muitos conflitos com a doutrina da Igreja, até decidir há quatro anos atrás não seguir religião alguma, e só por causa disso uma parte da minha familia insiste em dizer que eu não me preocupo mais com Deus, que Ele não está mais no meu coração, blá,blá,blá…Acho mesmo uma hipocrisia toda essa historia, e declarações desse tipo não ajudam a refletir em nada sobre toda a violência que está acontecendo em nossa sociedade.
Muito bom texto. Compartilho das mesmas idéias.
Ótimo texto! Acho que esse conformismo diante das tragédias é muito simplista, virou doença. E o pior é que vemos pessoas esclarecidas dizendo esta bobagem. Tudo bem, acho até louvável que tenham a sua fé. Mas como não tenho fé é lógico que fica difícil entender tal postura. E tem mais uma: o tal do ‘…é a vontade Dele (Deus), temos de aceitar’. O que resolveria nossos problemas seria uma política eficaz por parte do Estado, uma vontade política de fazer.
Gostei muito do comentário de Garcia Rodrigues, um pouco acima. Acho que quando não se tem nada a dizer o melhor é ficar quieto.
Só sei que não agüento mais esta falta de Deus no coração… O que está faltando no coração, é educação e trabalho. Muito trabalho…
Tais
Ops, vi que não fui ‘clara’ ao dizer a frase ‘quando não se tem nada a dizer é melhor ficar quieto’: me referi aos meios de comunicação, aos que largam as notícias!
Tais
Perfeito este texto… se assim fosse, as pessoas que não creem em deus seriam monstros e no entanto sou e conheço muitos ateus que tem como regra uma vida de respeito a tudo, não só ao próximo…claro que existem crentes dignos, mas exatamente isto, não é a crença em deus que faz do indíviduo bom ou mau caráter…
Nada que me faça discordar do que já foi dito até aqui.
Apenas uma observação:
O fato da pessoa frequentar a missa/culto de domingo não significa que tenha “Deus no coração”. Há muitos hipócritas que se valem desse artifício para enganar outrem.
Acho que respeitar leis, ter limites desde crianças e, principalmente, acreditar que somos seres sociais, criados para conviver harmoniozamente com os demais, ajudando no que for possível, mas procurando, também, realizarem-se como pessoa completa é VERDADEIRAMENTE, a grande saída. Talvez, na explicação pobre e simplista de quem não tenha nada para dizer, isso seja “ter Deus no coração”. Eu fui criada e educada em colégio de freiras. Muitas coisas boas e muitas coisas negativas e que impunham um medo terrivel, foram repassadas. Não posso negar que luto contra muitas delas até hoje(estão no subconsciente e vêm à tona), mas, racionalmente, já superei e tento não me deixar levar por isso. Um Deus que castiga, que faz por nós, que nos transforma em marionetes, não existe. Acredito em algo superior que nos impulsione, desde que busquemos por isso , de todas as formas.
Agora, acho que a mídia está ultrapassando seus limites, pois explora, explora, até não ter mais o que tirar(sangue, tortura, pranto, mágoa) de um caso, com fundo musical e apresentadores que demonstram estar interessadíssimos em chegar antes da própria polícia à conclusão dos fatos. Além do mais, criam pavor na população, pois batem na mesma tecla dia e noite, noite e dia, sem parar. É a imprensa falada, a escrita e a televisionada. Não há como escapar.
Já vi o Bruno entrar mais de 20 vezes, algemado, naquele camburão gradeado, já exploraram ao máximo este caso, gerando pavor em todo mundo.
As conversas giram em torno do assunto, onde quer que se vá.
Não estou dizendo que tenhamos de ficar alienados e não saber de nada, mas, atualmente, o fato está acontecendo e está sendo despejado, no mesmo instante dentro de nossos lares, visto, indistintamente, por adultos, adolescentes e crianças. E não é apenas uma vez. E não é apenas uma notícia. Tiram conclusões, colocam fundo musical, aproximam a câmara da cena mais terível. Não adianta mudar de canal.
Quem não lembra do caso Nardoni? Foi explorado à exaustão e gerou seguidores malucos por este mundo afora.
Há que se ter cuidado com o que se transmite para dentro dos lares, locais públicos, etc. E há que se ter pessoas muito bem preparadas, também nos lares,, nas escolas e nas comunidades em geral, para rebaterem e mostrarem o que de absurdo foi dito ou mostrado.
Trabalho numa comunidade, como voluntária, tentando passar a eles o prejuízo da utilização de drogas, mais especificamente do crack, ultimamente, oferecer-lhes carinho e opções de um outro tipo de “buscar a realização e a felicidade”, mas fica sempre a pergunta no ar: Onde buscar argumentos, com os parcos recursos que temos, contra os apresentados na mídia, onde um jovem de 25 anos vivia como um rei, acima de tudo, ganhando um salário de milhares de reais, com carrões, sítios, etc, sendo idolatrado por milhares de pessoas? É preciso muita luta e tentar mostrar a eles que, SEM EQUILÍBRIO, SEM ETRUTURA, ISSO PODE CONDUZIR PARA O LADO ERRADO.
Talvez seja isto que, de uma forma muito simplista, sem ter argumentos, falem que FALTA DEUS NO CORAÇÃO,
Necessitamos de mais e mais debates neste sentido, dioturnamente, nas escolas, nos cinemas, na tv, nas rádios, nos jornais e, porque não, uma maior proximidade das pessoas esclarecidas daqueles mais necessitados?
ESTÁ LANÇADO O DESAFIO. VAMOS À LUTA?
A questão não é se há ou falta Deus ao coração: é o entendimento de uma questão humana buscada desde os primórdios: a espiritualidade. Somos ou não somos seres espirituais? E, se somos, o que estamos fazendo aqui? Com esses tópicos, sugerimos uma leitura simples, descompromissada e sem preconceito a O Livro dos Espíritos, da Allan Kardec. Repetimos: sem preconceito.
discordo totalmnete de todos inclusive do autor do texto,acho que o mesmo está sendo tão hipócrita quanto a todos e fazedo apologia contra a religião que é um direito de manifestação da fé.O problema não está na frase mal dita está na forma que foi julgada,e para que fazer uma tempestade nun copo nágua,porque não vão discutir o que é dito lá no senado e as nossas leis que só da brecha para malandragem,gente me poupe vamos procurar o que realmente o que fazer! E discorde quem quiser,estámos em pais democráticos!