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Eu vi

5–11–2008 --- Envie para um amigo

[imagem: Chicago Tribune]por Alfredo Cesar – Estar em Grant Park, na cidade de Chicago, no dia da vitória de Barack Obama é uma daquelas experiências para contar para os filhos e netos.

Cheguei ao centro da cidade por volta das 5 horas da tarde. É difícil descrever a energia da cidade naquele momento. A campanha recebeu apoio de todo mundo, inclusive dos homens lá de cima, pois, ontem, São Pedro deu um presente magnífico: a sempre fria Chicago estava irreconhecível numa noite que parecia de verão. A brisa do lago estava perfeita. A natureza havia feito o seu papel numa noite que já era extraordinária, independente do resultado da eleição: as pessoas andavam sorrindo, cumprimentavam-se efusivamente. Havia muitos policiais, é verdade, mas talvez não fosse necessário tantos, já que a multidão era pacífica e amigável.

Subi para um quarto de hotel com vista para o Parque, para acompanhar a votação, e depois desci novamente, para curtir um pouco dessa atmosfera. Enquanto andava meio sem rumo no meio da multidão, a CNN deu a sua projeção: com os votos de Ohio assegurados, Obama estava eleito presidente dos EUA. O povo explodiu como se tivéssemos ganho uma Copa do Mundo. A sensação foi de estar num estádio de futebol, com desconhecidos se abraçando, muita gente chorando, gritos que há muito estavam guardados no peito de muita gente. O mais comovente era ver os negros mais velhos. Gente que parecia não acreditar no que estava acontecendo. Quando a CNN mostrou no telão Jesse Jackson chorando, aí que mais gente no gramado foi às lágrimas.

Por um momento, pensei na famosa “inveja” que a minha geração tem daquela dos anos 60. Naquela época, havia a sensação que a história estava “em aberto”, que mudar o mundo não só era possível, como desejável. Minha geração cresceu numa época de rotinização da democracia, esmagada pelo conformismo da lógica de mercado e indiferente às velhas fórmulas retóricas dos políticos. Lembro que em 2000, na eleição entre Gore e Bush, havia uma certa melancolia em torno à “morte da política”. Já não se podia mais distinguir entre um democrata e republicano. A política não passava de uma técnica de gerir o status quo, e nessa técnica, tanto os republicanos quanto os democratas eram muito semelhantes.

Foi por isso que em 2000 tantos votaram em Ralph Nader, do Partido Verde, e o resultado a gente sabe qual foi. Foram necessários 8 anos de um dos piores presidentes dos EUA para reavivar a política. Há uma sensação de que mudanças virão e que a história também está em aberto. A lógica de mercado mostrou-se não ser tão infalível e a sabedoria convencional da política não se revelou assim tão sábia. Obama chega ao poder numa época em que antigas certezas foram abaladas e novos paradigmas estão à espera de ser construído. Talvez não haja timing mais preciso, pois a grande característica de Obama é ser um político imaginativo, talhado para o papel de construir novas alternativas.

[imagem: Chicago Tribune]Inspirado na narrativa fundacional do “American Dream”, Obama mostrou que vislumbrar uma outra nação era possível. Não apenas isso: Obama conseguiu convencer os americanos de Indiana, Ohio, Iowa, Virginia – que são conservadores e bastante céticos em relação a qualquer guinada política nos EUA – que a outra nação que ele imaginava era mais próxima dos verdadeiros ideais americanos do que a nação atual. Em outras palavras, Obama conseguiu a um só tempo revitalizar a narrativa do sonho americano e transformar tal narrativa num motor de mudança. Como nos ensina Octavio Paz, “revolução” também significa revolver a um passado considerado justo ou ideal. Não há dúvida que ontem ocorreu uma revolução, baseada numa apropriação mais democrática e inclusiva do Sonho americano.

As eleições para presidente nos EUA têm um papel importantíssimo no imaginário do sonho americano. Há essa crença que qualquer americano pode um dia chegar à presidência do país. O pai de Richard Nixon era um açougueiro que havia estudado até a quarta série; Eisenhower havia nascido nos rincões do Texas, numa família bastante humilde; Clinton nasceu numa pequena cidade do Arkansas, filho de uma jovem enfermeira viúva. Todos eles, graças a seus talentos e esforços, triunfaram, mostrando o tipo de sociedade que os EUA são. Ontem, um novo capítulo desse mito foi escrito: um negro americano, filho de um africano, com sobrenome que rima com Osama, e com nome de meio Hussein foi eleito presidente dos EUA. Para um país que, sob administração Bush, mostrou-se tão xenófobo, a eleição de ontem lavou a alma de muita gente que ainda acreditava nas tradições dos Estados Unidos.

Quando a multidão começou a se dispersar, eu fui para a estação do trem. No caminho, vi um taxista africano (a grande maioria dos taxistas aqui em Chicago são africanos). Ele estava em prantos. Chorava copiosamente abraçado à bandeira de Gana. A comoção de um migrante africano, no fim daquela noite, me deixou com um nó na garganta. Mas aquela imagem dá uma idéia do efeito dessa eleição nos corações e mentes de americanos e não-americanos. Foi uma vitória de muitos.

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3 comentários:

  1. tais luso (6–11–2008 12:18 pm)

    Maravilhoso!! É bom demais ver um país que há séculos está dividido por ódio racial e inúmeras discriminações, conseguir eleger um homem cujo pai é negro e a mãe é branca: é o perfeito símbolo que mostra ser possível uma união que supere tantos conflitos religiosos, sociais, ideológicos… Foi Comovente ver as lágrimas daquele povo – mulheres e homens brancos e negros – rolarem silenciosas, e mostrarem ao mundo uma barbárie de sofrimentos e humilhações inexplicáveis.

    Finalmente Barack Obama conseguiu mostrar, ao mundo, que a raça negra pode! Está mais do que na hora, a espera foi longa demais. Estou feliz, estou vendo um momento histórico dentro dos Estados Unidos da América.

    Que surjam muitos ‘Barack Obama’ por este mundo afora!
    Tais

    [Responder]

  2. Suelen de Andrade Viana (6–11–2008 7:12 pm)

    Arrepiei! A vitória de Obama é mesmo um marco na História política mundial. Não gosto muito de discursos como o da Taís alí em cima, dos que dizem “a raça negra pode”. Não gosto nem desse lance de raça pra falar a verdade. Mas já que é humano partir desse ponto, é verdade que a COR negra na pele dos homens (por toda história sangrenta e humilhante que se construiu em cima dela) há tempos merecia status de poder legitimado pela escolha maciça do povo e pelas tentativas incessantes daqueles que são ainda atualmente tratados como inferiores em direitos e capacidades. Se Obama vai corresponder às expectativas ou não… o tempo dirá. Só sei que o povo americano e todo o resto da comunidade global tem boas razões para comemorar agora que a história começa a ganhar novo fôlego.

    Sue

    [Responder]

  3. tais luso (6–11–2008 8:44 pm)

    rsrsrs, ô, Suelennnn… fiz apenas um comentário, mulher! “…a raça negra, pode!” foram palavras que o próprio Obama disse num de seus discursos, e que foi muito comentada nos jornais. O povo vibrou ao ouvir! Por sinal, linda e forte.
    Sou contra e abomino o preconceito racial, por isso achei legal postar aqui palavras do próprio Obama. Fiz apenas um comentário: não tenho problemas em falar nas ‘raças negra’, ‘amarela’, ‘branca’…porque não tenho preconceito. Somos todos, farinha do mesmo saco.

    Parabéns, eu gostei do teu comentário.
    Tais

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