27–11–2008

Cadelas de aluguel

por Luiz Biajoni – O que dizer de Kill Bill que ainda não tenha sido dito? Para quê outra crítica do filme? Revi-o de espírito desarmado, para curtir – que é o que se deve fazer com filmes de Tarantino. Mas acabei “pescando” algumas coisas ali que não tinha visto antes, nas chamadas “críticas especializadas”. Como não sou um ignorante em cinema, decidi compartilhar algumas impressões com os parcos leitores que podem se interessar pelo assunto.

Vou começar pelo constatado logo no início e óbvio: a “matéria” do cinema tarantinesco é o próprio cinema – e a TV e o vídeo por extensão. A todo momento, o diretor parece querer dizer que cinema não é realidade. Mas quando se filma o irreal ele passa a ter vida, tornando-se verdade. Uma hiper-fantasia, nesse sentido, ou é pura diversão (real) ou serve de argumento para reais digressões sobre o próprio cinema (ou a fantasia inerente a ele).

Quando fez seu primeiro filme, Cães de Aluguel, Tarantino foi acusado de sexista – todos os sangrentos, imorais e amorais, clichês e originais personagens, eram homens. O cinema de ação valorizava sempre o homem, o herói era do sexo masculino – esse era o repertório que tinha o ex-balconista de videolocadora que se tornava diretor. Os personagens masculinos ainda povoaram seu filme posterior, Pulp Fiction, onde a grande estrela, na verdade, era a linguagem cinematográfica, o jeito de contar a história. Colocar uma mulher no papel central e reverter (ou subverter) seu próprio cinema foi tentado com Jackie Brown. O filme é perfeito, mas o feito não foi alcançado, pois Jackie é mais um filme sobre a meia-idade do que sobre a força da mulher.

Kill Bill tem, no seu título, a informação de que o antagonista é homem (o tal Bill). A protagonista é uma mulher (a Noiva – quer coisa mais expressiva da feminilidade?) e sua “Lista de Vingança” tem predominância de mulheres. As mulheres dominam o filme e os homens são tão despersonificados ao ponto de usarem máscaras ou não revelarem o próprio rosto. Bill não aparece no Volume Um – é apenas alguém que vai morrer no final, a gente já sabe, embora isso não aconteça no primeiro filme. Poderia bem chamar “Cadelas de Aluguel”, o Kill Bill do Tarantino.

Mulheres no poder, como protagonistas. Devemos ter algo que possa realmente interessar a elas. O que uma mulher ama acima de qualquer coisa? Seus filhos. O que é roubado da Noiva é sua filha. Mas nem ela sabe. Vai saber só no Volume Dois.

E como essas mulheres vão lutar, matar-se umas às outras? Usando armas brancas, facas e – mais importante – espadas de samurai. Esse tipo de arma, já comentou Lutz Miller em seu O Herói, representam a “extensão do falo”. São símbolos fálicos. Resgate aí a “inveja feminina do pênis” do Freud, e teremos novamente um Tarantino chauvinista. As espadas são empunhadas à altura dos quadris e é impossível não ver ali um pênis enorme, mortal, se erguendo das roupas coladas de Uma Thurmam.

O que temos, no final, no subtexto do que interessa, são mulheres defendendo seus próprios territórios, geralmente utilizadas anteriormente como objetos sexuais. A Noiva, em coma, é alugada para trepadas ocasionais de pervertidos. Outra, com 11 anos, se entrega a um pedófilo para concluir uma vingança – na sensacional sequência de ação anime. A personagem de Daryl Hannah vai matar a Noiva e recebe uma ordem para voltar atrás. Na cena ela fica sempre de costas para a câmera, já que não quer cumprir a ordem – mas se rende à supremacia do homem, do Bill. Mulheres são manipuláveis, parece querer dizer Tarantino. Mas podem conquistar suas autonomias ou se prepararem para uma vingança sanguenta – inclusive contra elas mesmas – sempre que quiserem. Mulheres desvinculam-se de sistemas corporativos (como a Yakuza) sempre que querem. Mas não usam, para isso, suas delicadezas intrínsecas, e sim suas forças masculinas e destruidoras. Mulheres estão se transformando em homens – não só no cinema.

Por falar em cinema, muitas referências estão lá no Kill Bill. Brian DePalma está lá, com o split-screen e a seqüência no hospital, com a Daryl Hannah. A loira, em si, é uma referência a todo DePalma – só pelo fato de ser loira. Quando falam em Sergio Leone na guandiloquência e no contraponto sonoro de algumas sequências, vou discordar. Ennio Morricone pode ser referência até mesmo para DePalma – mas em Kill Bill é mesmo o estilo DePalma que fica mais evidente; seja na fusão de imagens, seja na (maravilhosa) sequência sem cortes na casa de show. O sangue cenográfico também é uma alusão.

Não vi ninguém citar DePalma como maior referência ao filme, mas estou certo que é. Tarantino é fã do cara ao ponto de resgatar a carreira de Travolta em Pulp Fiction, por conta de sua idolatria por Um Tiro na Noite, filme de… DePalma.

Por fim, considero filme bom aquele que dá vontade de assistir por uma segunda vez. Kill Bill – Volume Um dá vontade de assistir de novo, até por causa das referências. O filme de Tarantino pode não incitar grandes questionamentos, mas não se trata de cinema menor, como querem fazer acreditar os detratores do diretor.

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| 6 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. Joao~Grando (27–11–2008 2:47 pm)

    É cinema maior, justamente por tratar da linguagem do cinema como ela é, numa superfície.
    Fiquei com vontade de ver de novo.
    Este é o papel de uma boa crítica positiva.

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  2. Bruno Pinheiro (27–11–2008 9:21 pm)

    Excelente crítica! Ainda não tinha lido nenhuma que abordasse esse ângulo do filme.

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  3. Ju Dacoregio (28–11–2008 12:00 am)

    Quantas observações diferentes sobre Kill Bill. Será que o uso das espadas foi proposital ou foi ditado pelo subconsciente de Tarantino? Não sei, só sei que sou louca por uma Hattori Hanzo!

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  4. Guii (29–11–2008 5:19 pm)

    ¹Vontade de ver de novo!

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  5. Os inglórios bastardos de Tarantino (13–10–2009 1:33 pm)

    [...] tema de Tarantino, neste filme, a exemplo de Kill Bill e de À prova de morte, é a vingança. E o cinema, claro, já que a grande matéria prima do [...]

  6. À Prova de Morte (filme, 2007) (5–07–2010 12:07 am)

    [...] poderosa, a exemplo de Jackie Brown (Pam Grier, no filme homônimo), Beatrix Kiddo (Uma Thurman, em Kill Bill) ou Shosana Dreyfus (Melanie Laurent, em Bastardos Inglórios). Todas elas se vingam de homens [...]